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por RAYMUNDO DE LIMA
Psicólogo,
doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), e
professor de Metodologia da Pesquisa do Departamento de
Fundamentos da Educação, da Universidade Estadual de Maringá
(UEM-Pr) |
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Geração
“sem-compromisso”
A
psicóloga norte-americana Hara E. Manara, editora da revista Psychology Today, escreveu um artigo criticando a forma frouxa como
os pais daquele país estão criando os filhos, formando uma geração
de cidadãos apáticos, indiferentes, alienados, e sem compromisso
com nada.
No
Brasil, palestras e artigos acadêmicos também vem alertando para
os efeitos da educação chamada por alguns de “pós-moderna”.
Educadores mais ‘à direita’ criticam os pais por criarem uma
geração sem compromisso com os valores do lar, da família, da
tradição cultural local e do país. Já os educadores mais ‘à
esquerda’ não poupam críticas aos efeitos da educação geradora
de pessoas individualistas, consumistas, sem gosto pela leitura,
sem atitude crítica, desinteressada para transformar o mundo.
Igualmente
preocupante, são os jovens universitários sem compromisso com a
democracia. Como não sofreram os efeitos repressivos da ditadura
militar, no Brasil, há aqueles que não sabem valorizar as
conquistas da democracia “burguesa”. Recentemente, me senti
agredido com a fala de um aluno que parecia elogiar a ditadura
“militar” ou “do proletariado”. Nós que fomos às ruas
pelas ‘diretas já’, clamar por liberdade e pelos direitos de
cidadãos, nos sentimos traídos por essa geração sem memória
histórica.
A
“geração AI-5” (nome dado por Luciano Martins), da época da
ditadura militar, aparece como fruto
alienado e alienante efeito da repressão daquela “cultura autoritária”.
Mas a atual geração ‘sem compromisso’ é mais complexa. Inclui
desde os sem compromisso com a democracia aos que não tem
compromisso com nada. O declínio da lei-do-Pai,
a permissividade da mãe, ou a negligência de ambos, somado ao
contexto sócio-político frustrante, a cultura descartável, o
futuro incerto, faz com que a nova geração se imagina sem rumo,
vivendo apenas o presente e sentindo autorizada a fazer tudo sem dar
satisfação a ninguém. Um garoto ou garota com estilo ‘sem
compromisso’ costuma ter um pai com medo de exercer a autoridade
de ‘pai’ e uma mãe propensa a dizer sempre ‘sim’ para suas
vontades e caprichos. Os professores de hoje também temem essa geração
de alunos
que ignoram toda e qualquer autoridade e estão prontos a passar por
cima das conquistas da civilização.
A
educação nunca é neutra. O educando também. Ela é sempre um
produto resultado das contradições de uma época; reproduz a
ideologia, visa responder aos problemas da sociedade e, sobretudo,
é “um combate contra a ignorância”, diz o Prof. Roberto Jamil
Cury (Entrevista a TV Cultura de Minas Gerais). É fato que as crianças
de hoje não são educadas para as pequenas responsabilidades do
lar, como arrumar seu quarto, ajudar a mãe nas tarefas domésticas,
dar apoio ao pai quando está consertando um objeto da casa. Os
adolescentes vivem no seu mundinho de games, de esportes radicais,
de monólogos articulados, como se não tivessem limites. Caducou a
educação baseada na disciplina,
nos valores eternos, nas teorias únicas, na visão de mundo
racionalista. Sem querer, eles “vivem tentando arrebentar com a
razão dos pais”, observa o psicanalista Jorge Forbes.
Sinais
e sintomas
Muitos
pais hoje se irritam com os gastos excessivos dos filhos com
telefone e luz elétrica, com desperdício de alimentos, com a
veneração dos objetos de marca (tênis, roupa, carro) e das
bugigangas tecnológicas. Por mais que tentem ensiná-los a conter
os gastos, porque o salário continua o mesmo; por mais que insistam
para que abandonem os hábitos supérfluos, eles resistem e até
desafiam com contra-argumentos vazios ou explosões de ira. A geração
‘sem compromisso’ tem o ‘pavio curto’, a emoção a flor da
pele; facilmente explodem em choros e gestos desesperados quando
sofrem uma frustração mínima.
O
celular é um dos vilões da economia doméstica. Criança ou
adolescente de classe média, mal criada, sente-se autorizada a
ligar, a qualquer hora para a rede de amigos. E danem-se os avisos e
a conta no final do mês. O mesmo acontece com o tempo de uso do
computador, ligado na Internet, para apenas jogar. Passam horas
sentados diante de uma tela e se irritam se sinalizamos o excesso de
tempo perdido e a falta de se dedicar a outro tipo de brincadeira ou
mesmo aos estudos. Como diz Nagel (op.cit.) sua “pilha é fraca”
para atividade de leitura ou estudo, ou fazer uma tarefa doméstica,
etc, mas são totalmente energéticos para os esportes radicais,
zoar com os amigos ou ficar horas se estressando num game de
Internet.
O
problema, porém, não é só econômico e de tempo. É também
psicossocial. Irrita-nos nessa geração “o descompromisso para
com o outro”, observa a coordenadora pedagógica de uma instituição
de ensino, Lizia Nagel.
O outro não é visto com respeito e consideração. Pode até ser
tolerado, mas não respeitado. O ‘outro’ podem ser os pais que
fazem um enorme sacrifício, por exemplo, pagar o colégio ou
comprar-lhes um objeto do desejo dos filhos.
“Por mais que a gente dê a eles tudo, eles reclamam e até
xingam a gente porque querem mais”, diz uma mãe. O ‘outro’
pode ser a professora que cada vez mais é ignorada e desrespeitada
na sua função em sala de aula. A professora perdeu a autoridade e
a escola perdeu a aura de instituição sagrada. Além da indiferença
de muitos alunos para com a própria escola, falta-lhes interesse
para ler e estudar os assuntos programados, muitas vezes ministrados
pela professora sem a devida conexão com os acontecimentos do mundo
real.
A
geração sem compromisso, no fundo, é também um reflexo da falta
de compromisso de muitos professores para com o conhecimento
‘conectado’ ou ‘dialetizado’ com o mundo real. O
abstracionismo professoral ainda é predominante nas escolas e
universidades, levando o aluno ao desinteresse, a apatia, a
desconfiança, a fuga do assunto ou alienação. (Um aluno comentava
o que seu professor em vez de verdadeiramente ensinar, doutrinava
uma teoria como se fosse uma fé religiosa; outro, “viajava na
maionese” quando falava na sua tese, que, não se encaixava no
programa do curso).
Suspeito
que parte do descompromisso com o outro do nosso aluno é decorrente
da não-educação dos pais e do não-ensino na escola/universidade.
Exemplo fragrante são os cursos de pedagogia cujos alunos e
professores preferem cumprir um contrato meramente teórico
(abstracionista pedagógico) do que testar as teorias com a
realidade cotidiana das escolas e a comunidade que está inserida.
Também, os cursos de Ciências Sociais que não vão ‘onde o povo
está’, podem estar formando uma geração que goza com abstrações
teóricas e resiste se engajar nas diversas ONGs e movimentos
sociais.
A
geração ‘sem compromisso’ convive com os acontecimentos como
se fossem espetáculo, entretenimento. Como não foram educados
pelos professores para problematizar o noticiário, os alunos
parecem assimilar os acontecimentos como se fossem jogos virtuais.
Para eles é cansativa a aula que faz pensar; em parte eles tem razão
porque a didática dos professores ainda não incluem os meios
tecnológicos (documentários, reportagens, entrevistas, filmes,
etc) para ilustrar os assuntos. No fundo, ainda persiste entre o
professorado um ensino verboso, tão criticado entre os pioneiros da
educação nova, na década de 30, isto é, o ensino de ciências
humanas e sociais insiste no tom panfletário e não sustentado por
pesquisas atualizadas. A objetividade científica é desprezada por
um relativismo irresponsável, que coloca no mesmo saco esse necessário
princípio epistemológico e o uso desta para fins de manipulação
ideológica.
A
falta de incentivo da escola e a alienação dos pais contribuem
para que a nova geração não tenha compromisso algum em assistir,
muito menos em refletir e discutir o noticiário dos jornais, tv, rádio.
Como estão mais interessados no visual – pois eles vivem num
suficiente mundo virtual – resistem ler principalmente livros. A
cultura impressa é substituída pela cultura virtual, supostamente
mais atualizada e moderna. Tal atitude ignorante pode ser ainda mais
reforçada por alguns professores, que parecem viver na Finlândia
(país que aparece em 1º lugar em compreensão de leitura; o Brasil
é 37º.); em vez de incentivar o hábito de os alunos
irem à biblioteca, lerem livros, ou conhecer diretamente a
realidade do povo, os ditos professores orientam os alunos apenas
para fazer “pesquisa” na Internet. Um famoso escritor,
palestrante, ex-professor, freqüentemente escreve artigos contra
“os perigos da leitura”. Se lessem tais artigos os
sem-compromisso fundariam um argumento para o seu estilo de vida.
O
fascínio pelas telas e o descaso pelo ‘próximo’
A
geração ‘sem compromisso’ prefere estabelecer contatos a
sustentar amizades duradouras. Até nas cidades do interior,
supostamente mais conservadoras, os jovens acham muito “massa”
usar o corpo do outro para “ficar” uma noite, começando por
pedir emprestadas várias bocas para beijar e depois um corpo para
gozar. A pressão da época exige que eles
mudem o tempo todo, de aparência, coisas e pessoas. As pessoas são
tomadas como objetos de uso descartável.
Tal
como efeito tóxico de uma droga, eles ficam desnorteados se vão
para um lugar onde não encontram uma tela para se relacionar. Ou
seja, falta comprometimento para com a realidade concreta e com o próximo
‘ao vivo’. Jovens ficaram decepcionados com paisagens ao vivo,
que, se fossem editadas, seriam melhores apreciadas, ainda que por
segundos. A ‘geração net’ tanto pode lidar naturalmente com
essa nova tecnologia como também podem ser tornar
teledependentes da
TV ou do computador. Acham normal viver “Acorrentados” às
imagens, como sugere o livro de Wagner Bezerra (Rio: Ed. Letra
Legal, 2006 – ver resenha disponível em: <www.espacoacademico.com.br/058/58res_lima.htm>,
inspirado na alegoria da caverna, de Platão.
O
mundo real e a cultura impressa deixam de ter valor para a geração
sem-compromisso porque o mundo virtual ou das imagens (dos programas
de tv ou dos games) é visto como total e suficiente. (As crianças
brasileiras são campeãs mundiais em consumo de programas de TV,
com 3,5 horas diárias). Observa Bezerra (op. cit.) que,hoje em dia,
a “doxa” (opinião, ilusão, ideologia) tem mais valor do que a
“episteme” (conhecimento, senso crítico, analítico). Como já
foi fito, o ato de imaginar uma estória escrita, escrever, ou
analisar um texto é visto com um árduo trabalho, daí a recorrência
das imagens prontas nas telas onde é possível acompanhá-las e
manipulá-las sem esforço algum. O controle remoto é amigo do
comodismo e da alienação do sujeito.
Analisar
a geração sem compromisso implica buscarmos as multicausas: a
desorganização da família, a crescente desresponsabilização dos
pais na educação, a instituições ditas de ‘ensino’ pretendem
‘educar’ e terminam não fazendo uma nem outra. Ou seja,
‘doutrinam’ seguindo os velhos paradigmas. Nossos gestores
escolares apostam nas apostilas de marca, levando o professor a
preparar os alunos mais para o vestibular do que levá-los a
problematizar as teorias caducas e os acontecimentos vividos em
nossa época. Não raro, estas instituições usam truques pedagógicos
sustentados por argumentos de autoridade do momento (antes era
Piaget, agora é a vez de Vygotsky. Que gozo esse nome é
pronunciado: vygotsky, vygotsky!!!). No fundo, o interesse maior é
sustentar crenças e mitos em vez de buscar a verdade [parir a
verdade; fazer revelar a verdade que está entre nós, por meio do
diálogo e da conversação] como pretendia o velho Sócrates.
“Saudade de Sócrates!”, escreve Pedro Demo.
Fascinados
pela tecnologia e adestrados pelas apostilas os jovens poderão sem
muito esforço passar no vestibular de engenharia mecatrônica, para
logo desistir e tentar novamente odontologia. Mas, nada garante que,
formado em odonto, ele prefira abrir uma lojinha de tatuagem. “Esses
jovens vivem num mundo mix, eles são semióticos. Eles não estão
unilateralizados, eles são multidimensionais”, diz o
psicanalista Jorge Forbes.
Depois
de formados ou estabelecidos no comércio, provavelmente continuarão
‘sem compromisso’ para fazer uma leitura sobre a complexidade do
mundo, ou buscar o conhecimento genuíno, ou participar de uma ONG,
ou qualquer ‘movimento social’ que demanda esforço político. A
formação superior investe unicamente para transmitir conhecimento especializado e
não forma um compromisso de sabedoria. Eles podem até
“vencer” na profissão, ganhar dinheiro e adquirir prestigio
pelos bons serviços prestados à empresa ao seu grupo político ou
religioso, mas como não foram educados para o compromisso com o
‘próximo’ e com o futuro da humanidade continuarão vivendo nas
suas cavernas eletrônicas e levando a sua “vida vidinha” em
preto e branco,
tal como retratam os seriados dos anos 60.
A
atitude sem-compromisso
diante do mundo representa um sujeito existencialmente apático,
politicamente desengajado e viciado socialmente em “monólogos
articulados”. Também aponta para a displicência dos vínculos
familiares e das relações de amizade verdadeira,
faltas estas que colocam nossa frágil democracia em risco, e a dúvida
quanto à esperança de melhoria da humanidade. Temos que reverter
essa situação, urgentemente.
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