by TERRY CAESAR

Terry Caesar leciona literatura inglesa no San Antonio College, e escritura criativa na Gemini Ink, em San Antonio, Texas. Ele também escreve para a revista eletrônica Inside Higher Education. Ele já publicou livros sobre o sistema educacional da universidade Americana, narrativa de viagens, e literatura.

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VERSÃO EM INGLÊS:

On dissertations, dogs, and happiness

 

Sobre teses, cachorros, e felicidade

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

Eu costumava ter sempre comigo uma frase de Paul Goodman, “A felicidade é o sentimento da necessidade.” Estas palavras não são auto-explanatórias. Mas imediatamente elas pareceram assim para mim: você está feliz se você está fazendo alguma coisa – qualquer coisa – que você sente que é necessária; a necessidade servirá para absorver as incertezas e as ambigüidades.

Será que eu gostei da frase de Goodman porque eu sempre fui levado a incertezas e ambigüidades? Talvez. A necessidade que governava a minha vida naquele tempo (em que recolhi aquela frase) era a de escrever minha tese. Eu não queria escrevê-la, e isto me fazia infeliz.

Então o fato da necessidade, em si mesmo, não dará origem ao sentimento, muito menos à felicidade. O que poderá fazê-lo? Uma tarefa mais simples? Eu ainda não tinha lido Anna Karenina, naquele tempo. Quando eu li o livro, anos mais tarde, fiquei emocionado quando li a cena em que Levin está cortando o capim do campo. Ele fica cheio – ou mesmo chocado – com, simplesmente, a felicidade.

Esta cena ainda me parece, até hoje, uma das melhores representações literárias da felicidade. O corte do capim é, antes de mais nada, um ato coletivo, e, em segundo lugar, físico. Levin perde a sua geralmente exacerbada consciência entre os camponeses, cujas vidas consistem especialmente de exerção física.

Então a felicidade é o – ou um – ato de necessidade? Não tão rápido. A frase de Goodman introduz um momento crucial do sentir consciente dentro do próprio ato. Sem a consciência, virtualmente qualquer ato se constituiria em felicidade. Com ela, somente alguns atos se tornam felizes.

Quanto mais focalizados estes atos, melhor, e quanto mais eles participam em outros atos autorizados por outras pessoas, mais necessários eles são. É difícil induzir felicidade, e provavelmente é impossível induzi-la sozinho. Levin não corta o capim do prado para ser feliz; ao invés disso, ele descobre que o ato de cortar o capim o faz feliz.

Mas o que ele sente realmente merece o nome de “felicidade”? Existe um pequeno livro recentemente publicado, Happiness, escrito pelo cientista inglês David Nettle. Parece que já há algum tempo se faz séria pesquisa sobre a felicidade. O campo é chamado “(estudos) hedônicos.” Existe até uma revista, Journal of Happiness Studies. Nettle aprova estas iniciativas.

No começo do livro (Happiness) lemos que a Psicologia Positiva tem interesse “no estado conhecido como o fluir.” Isto soa um pouco como Goodman: “a absorção total em uma atividade desafiante para a qual o indivíduo tem as habilidades.” Mesmo que estas habilidades sejam testadas até os seus limites? Mas isto é muito cansativo assim como muito excepcional para escrever Levin cortando o capim do campo.

Nettle faz uma distinção útil entre os três “níveis” de felicidade: experiências momentâneas, julgamentos sobre sentimentos, e conclusões sobre a qualidade de vida. Então, o que Levin sente quando está cortando o capim é felicidade de “nível um.” Qualquer coisa pode provocar o nível um. Provavelmente cortar o capim não se elevaria ao nível dois se esta atividade tivesse que ser feita todos os dias.

E se Levin fosse um camponês ele seria, digamos, feliz se pudesse jogar fora a foice e ir procurar uma linha de trabalho que o levasse ao nível três. De fato, de uma maneira muito especial, embora o livro Happiness não diga isto exatamente, a felicidade do nível três pode ocorrer completamente livre de quaisquer manifestações particulares – ou atos.

Veja por exemplo o caso da minha tese. Eu aceitei a necessidade. No entanto, um dia depois do outro eu simplesmente não queria me envolver com o ato de escrever a tese. Levin, por outro lado, está feliz simplesmente em cortar o capim. Talvez ele não estivesse tão feliz se tivesse que considerar a questão de como o cortar do capim contribuiria para a qualidade de toda a sua vida.  Mas esta questão não o faria feliz e, na verdade, o cortar do capim se transforma em uma ocasião para a felicidade porque isto o libera do dever de fazer “perguntas” sobre a vida.

O estudo do hedonismo é naturalmente movido por perguntas – quanto mais suscetíveis ao estudo empírico, melhor. Então o livro Happiness está cheio de todos os tipos de conclusões de acordo com os mais recentes estudos sobre a (boa) relação entre o casamento e a felicidade, ou a (má) relação da neurose e a felicidade. As (consideráveis) contribuições à felicidade feitas pela personalidade ou saúde do indivíduo são levadas em conta. O (importante) papel do serotonim é discutido.

Mas você poderia ler o livro inteiro e a razão de Levin sentir tal felicidade ao cortar o capim ainda permaneceria elusiva e misteriosa. Ou, eu ouso dizer, a razão pela qual eu sentia tal infelicidade enquanto estava na pós graduação tentando escrever minha tese, que eu finalmente abandonei o projeto quando comecei a lecionar em período integral.

Uma década mais tarde, a tese nem precisava ser completada. Eu já tinha estabilidade. Eu tinha sido promovido. Somente uma série de circunstâncias me empurraram a retomar a pesquisa para escrever a tese novamente, agora com um assunto completamente novo. Desta vez eu adorei a pesquisa. Gradualmente, os meses seguintes se transformaram em algo que parecia muito próximo à felicidade.

Agora eu me lembro daqueles meses como os mais felizes da minha vida. Mas este é um julgamento de terceiro nível. Eu agora ignoro, por exemplo, a dor real de escrever, em um quartinho no segundo andar, tentando manter meus pés colocados perto de um aquecedor, enquanto o vento passava livremente pelas venezianas podres da janela.

Ou será que a felicidade que eu sentia naqueles meses tinha algo ainda mais misterioso? Será que eu cheguei a sentir a necessidade mesmo daquela dor, como se ela garantisse que um projeto tão especulativo e cerebral pudesse se transformar em algo palpável? Porque, afinal de contas, nem a necessidade, nem o sentimento que a impulsiona tem que ser agradável para resultar em felicidade.

Uma vez mais, Levin cortando o capim se transforma em um exemplo vívido. Aquele trabalho é difícil. Ele sua. Seus músculos doem. Ele trabalha pela sua felicidade e nós nos damos conta, e talvez ele não se dê, de que a única felicidade que ele seria capaz de sentir – capaz de sentir como tal – seria a felicidade que ele trabalhou para alcançar.

Assim, mesmo as manifestações de felicidade de nível um se tornam repletas de dimensões do nível dois, assim como carregada de idéias do nível três. De qualquer forma, este é o tipo de felicidade que me interessa, e ela pode ser encontrada em qualquer coisa, da escrita ao corte de grama, se a pessoa sente suficiente necessidade em qualquer uma destas atividades.

Agora eu escrevo sobre o começo da minha vida profissional enquanto encaro o seu fim. A minha carreira não foi especialmente feliz. Ou, em outras palavras, o que me deu mais felicidade foi aprender a escrever sobre minha carreira, começando com as políticas institucionais. A escrita acabou parecendo mais necessária que dar aulas.

Talvez o processo começou com uma tese que eu nunca tive que escrever (e originalmente não consegui escrever porque na ocasião eu tinha que escrever). O que eventualmente me fez feliz ao escrever a tese não foi um momento isolado no tempo, desde a descoberta que eu ainda podia conseguir o título, depois de tantos anos longe do curso de doutorado, até o momento em que eu entreguei a cópia final do manuscrito na secretaria da pós graduação.

O que me fez feliz é o que continua a me fazer feliz desde então: o rigor da escrita, em si mesmo – o perceber da faísca de uma nova idéia, ou o assistir (um processo quase passivo) o momento quando a curva de uma discussão parece completamente terminada. O sentimento que as circunstâncias de sua vida diária parecem encaixar-se em um projeto de escrita: isto é felicidade para mim.

No entanto, este último sentimento só pode ser indagado, interrogado, do lado de fora. É correto dizer que você somente escreve sobre a felicidade se você não está feliz? (Se, por outro lado, você está feliz, por que se incomodar em escrever?) O melhor momento no livro de Nettle aparece quando ele cita o “paradoxo hedônico”: “A noção de que, ao perseguir a felicidade, a pessoa a torna mais distante, enquanto que, ao perseguir qualquer outra coisa, a pessoa pode por acaso trazê-la mais perto.”

Não é possível argumentar, portanto, que a melhor discussão sobre a felicidade seria realmente sobre alguma outra coisa? Certamente, quando Levin começou a cortar o capim ele nunca imaginou que tal ato o faria feliz. Por outro lado, quando eu comecei a minha tese talvez eu só pudesse imaginar como ela me faria infeliz.

Felicidade; ou como viver continuamente trazendo alguma coisa para dentro da sua órbita, para descobrir a sua necessidade? Isto me soa mais como uma definição da vida, e não somente de felicidade. Você descobre que vive, como dizemos, para que certas coisas o “façam” feliz, como se a agência desta felicidade estivesse nestas coisas, não em você.

Durante os últimos dois anos, eu tenho me interessado mais e mais por animais. Tal coisa me intriga se eu paro pra pensar nisto (o que eu evito fazer). Os animais em geral sempre foram muito interessantes para mim. Mas eu nunca fiz contribuições de caridade antes, e agora eu tenho dois cachorros. No ano passado, eu apresentei duas comunicações sobre animais em conferências profissionais, e escrevi uma coluna sobre cães na sala de aula para uma revista profissional.

Poderia ser que os animais, particularmente cachorros, simplesmente me fazem feliz? Mas, por quê? Há alguns dias, de repente eu me lembrei da seguinte passagem no poema “Canção a mim mesmo,” de Walt Whitman:

Eu acho que eu poderia viver com os animais,

Eles são tão plácidos

E se contêm em si mesmos, eu me levanto e os olho por muito, muito tempo.

Eles não suam nem reclamam de sua condição,

Eles não ficam acordados no escuro chorando por seus pecados,

Eles não me deixam doente discutindo suas obrigações a Deus,

Nem um está insatisfeito, nem um está obcecado pela mania de possuir coisas,

Nem um se ajoelha diante do outro, nem para seus antepassados que viveram milhares de anos atrás.

Nem um é respeitável ou infeliz na face da terra.

Esta última linha especialmente me parece muito reveladora, embora a primeira linha foi o que inicialmente me fez lembrar desta passagem. Os animais são felizes. Ou pelo menos a necessidade governa a sua vida completamente. Mas a necessidade nunca governou a minha, nem mesmo quando parecia que governava, quando eu deveria ter escrito minha tese.

Especialmente para os que, como eu, não são especialmente pré-dispostos à felicidade, é importante ter exemplos de felicidade à nossa volta. Estes exemplos – incluindo representações literárias – podem não ensinar-nos como ser felizes. Mas eles podem inspirar-nos a crença de que a felicidade pode ser encontrada. Talvez eu tivesse escrito minha tese da primeira vez se eu tivesse um cachorro. Ou simplesmente se eu tivesse saído de casa e cortado a grama do quintal.

 

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