Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

 

Momentos

 

Laguna/SC (Foto: Maria de Fatima Barreto Michels)Cada ano, temos muitas oportunidades de desejar a amigos, conhecidos, colegas, que sejam felizes. “Feliz aniversário”, por exemplo, significa que a gente deseja que a pessoa seja feliz naquele dia, e também no ano todo em que tiver aquela idade. Por associação, se deseja que a pessoa seja feliz sempre. “Feliz Natal”, outra frase comum, se refere a um dia somente, e envolve várias outras atividades e reuniões com amigos e familiares, mesmo aqueles que não têm nada a ver com o cristianismo; logicamente, ao desejarmos “Feliz Natal”, estamos desejando que a felicidade não pare naquele dia. Da mesma forma desejamos “feliz ano novo”, “feliz dia das mães”, “feliz dia dos pais”, “feliz dia dos namorados”, “feliz dia dos professores”, “feliz dia das crianças”, etc. Mas nem sempre temos a ocasião de pensar o que significa esta felicidade que desejamos às pessoas, em ocasiões específicas como as citadas, ou em outras, que podem ocorrer freqüentemente ou não.

E para nós mesmos, como desejamos a felicidade? O que vem a ser felicidade? E o que vem a ser alegria, que parece que é a parente mais próxima da felicidade? Ou será que a alegria é a prima pobre da felicidade, aquela que, não podendo ser, digamos, uma temporada na praia, é o pulo na banheira?

O que parece ser verdade é que cada pessoa tem uma medida e uma receita diferente para a felicidade, baseada nas suas experiências do passado e suas expectativas de realizações para o futuro. Infelizmente, em muito poucas ocasiões da vida somos felizes enquanto estamos sendo felizes, e geralmente precisamos do filtro do passado ou das lentes do futuro para reconhecê-la. Como diz uma canção, “Felicidade foi embora/ e a saudade no meu peito/ ainda mora”. Será que quando a felicidade “estava morando” no peito, podia ser reconhecida como tal? Quantos de nós, quando paramos para pensar, identificamos os momentos felizes quando já não podemos recuperá-los? Talvez todos. À medida que as circunstâncias da vida mudam, as pessoas morrem, as amizades se quebram, os casamentos se desfazem, os filhos crescem, a tendência de muitos de nós é lembrar dos momentos felizes exatamente porque não podem ser reproduzidos.

Outra canção diz que “a felicidade do pobre parece/ a grande ilusão do carnaval/ a gente trabalha o ano inteiro/ por um momento de festa/ pra fazer a fantasia/ de rei ou de pirata ou marinheira/ pra tudo se acabar na sexta feira”. É possível que a medida da felicidade está exatamente na sua transitoriedade? Ou, no caso da canção, estaria ela ligada ao fato que pode ser repetida anualmente, enquanto a pessoa tiver saúde e dinheiro e trabalho para fabricar esta felicidade?

Mas talvez, ao invés de tentar definir, o melhor seria mesmo falar de momentos em que ambas, a felicidade, ou aquela que parece ser a sua manifestação no dia a dia, a alegria, parecem se juntar num instante luminoso, transcendente. São aqueles momentos em que, quando nos lembramos deles, “saltam” aos olhos, e ficam como uma imagem fotográfica. Naturalmente, às vezes a nossa memória nos prega peças, e escolhemos lembrar somente aquilo que nos interessa lembrar, isolando o momento de todas as tribulações do dia a dia, das pequenas irritações, das incertezas. Isso é, no mínimo, humano: todos nós precisamos das nossas pequenas ficções, nossas ilusões, assim como dos nossos sonhos, os quais vivem em momentos, já que não na vida inteira. O domingo é sempre seguido pela segunda feira.

Então, aqui estão alguns destes momentos. Me parecem ser boas ilustrações de como a felicidade pode acontecer. Nem todos são meus. Alguns são de familiares, outros são de amigos, ou mesmo de um grupo de pessoas do mesmo país. Às vezes duram um segundo. Outras vezes duram mais. Não há nada de definitivo em nenhum deles.

Momento um

No pátio da escola, os meninos jogam com a bola de meia. Descalço, franzino, cabelo cortado “bodinho” – raspado por todo lado, menos na frente – Zezé joga como se seu futuro dependesse disto. Quase fim do jogo, empatado. Driblando os meninos mais altos e mais fortes que ele, ele se aproxima do gol, dá uma paradinha, e chuta. O goleiro defende. Bola de novo em jogo, os meninos jogam desordenadamente, suando, gritando, insultando-se uns aos outros e as mães dos outros. Zezé pega a bola outra vez, vem chegando, chegando, perto, perto, quase chuta, mas é derrubado pelo grandalhão do time contrário. Pênalti. Todos se posicionam. Zezé faz o sinal da cruz. Chuta. O goleiro vai pra um lado. A bola pro outro. É GOOOOOOOOOL!!!!! Zezé cai no chão, de costas, e olha pra cima, direto pro céu, onde nuvens esqueceram de aparecer. Ele sente que vai diretamente pra dentro do azul.

Momento dois

A cidade de Kirkagaanga, em Bali, já foi um “país” separado, e como tal, tinha seu próprio rei. E todo rei tem seu palácio, não é? O rei já se foi há muito tempo, e Bali virou parte da Indonésia. Hoje em dia a casa do rei – que não passa de uma casa, afinal – é uma espécie de hotel. E foi assim que eu dormi num palácio. E, muito à moda de Bali, tudo no palácio é muito tranqüilo, sem nenhuma ordem fixa. Os empregados e os gerentes se sentam nas cadeiras do lado de fora e batem papo entre si, ou com os hóspedes. Nada é feito às pressas. O quarto em que ficamos era úmido, não exatamente bem limpo, mas o banheiro era uma maravilha, porque a água vinha diretamente de uma fonte natural para o “chuveiro”. Água fria, logicamente, mas o banho estava sempre pronto pra ser usado.

Ficamos em Kirkagaanga três dias. No último, a vila inteira veio ao templo do palácio, porque era um entre os muitíssimos feriados religiosos de Bali. Questão de matemática: quanto mais deuses uma religião tem, mais feriados religiosos. Nos sentamos nas cadeiras do lado de fora de nosso quarto, que dava para o pátio central do palácio, e olhamos a procissão de pessoas. Todas estavam vestidas com suas melhores roupas, e traziam bandejas de palha carregadas de flores que seriam levadas ao templo. Meninas e mocinhas trançavam palhas e folhas, fazendo as bandejas, e passando-as às pessoas, enquanto algumas mulheres mais velhas se encarregavam dos incensos. Rapazes conversavam entre si e fumavam, olhando as meninas e moças, e era bem evidente que algo mais que religião acontece nestas muitas festas religiosas: os jovens assim têm ocasião de se encontrarem, de se conhecerem.

No meio da tarde, fomos caminhar junto com os balinenses. Uma menina de uns dez anos, de cabelos longos e soltos, veio até nós e nos ofereceu uma flor. Ela não sabia a nossa língua, nem nós a dela, mas nós três nos cumprimentamos com o “wai” – mãos postas e baixando a cabeça – e dissemos, em uníssono, “namaste”. Existe um deus em cada um de nós. Cada um de nós é uma manifestação deste deus. Nada melhor que saudá-lo sempre e, assim, saudar a todos na sua condição de portadores de deus. Naquele instante, senti que realmente tinha um deus dentro de mim, e que todos à minha volta o tinham também. Eu saudei, sem ironia, a este deus naquelas pessoas tão diferentes, mais sempre minhas semelhantes, “NAMASTE”.

Momento três

Os jovens pais chegam com os filhos pequenos a uma cidadezinha de Goiás. Eles tinham caminhado vários dias até chegar àquele lugar, trazendo tudo o que possuíam no lombo do burro. As crianças maiores caminharam, a mulher e o marido carregaram o menino de menos de um ano, por turnos. Toda a cidade parece bombardeada. Poucas paredes permanecem de pé. A comida – arroz e feijão em sacos de pano, o sal em uma sacolinha plástica, a rapadura e o café numa outra, e a carne de porco conservada cozida, em banha, em uma lata bem tampada – é pouca, só chega pra mais uns dias.

Eles têm uma vaga noção de seu destino, algum lugar numa direção que só o pai conhece. Mas estão muito cansados, e têm que parar neste lugar. As sandálias de todos, feitas em casa, de couro cru, estão gastas, e a mãe tem bolhas de sangue nos pés. Caminham pelas ruas desertas, procurando um lugar onde pelo menos acampar e acender o fogo. Já é bem depois do meio dia, as sombras das árvores começam a estender-se, e eles sabem que têm que achar um lugar antes que anoiteça. No cerrado tem animais que podem vir, no meio da noite, e atacá-los. Esta cidade morta é a única opção.

Por fim encontram uma casa que tem um cômodo coberto. “Aqui ficamos, pelo menos é um teto” o pai diz. A mãe entra e vê, numa parede, um crucifixo de ferro, e na outra uma enorme mancha vermelha. “É sangue”, ela diz. Ninguém se aventura a dizer o que pensa sobre aquele sangue, mas os adultos sabem que há bandidos nesta região, e escutaram histórias de como um homem foi morto pelos próprios amigos nesta cidadezinha.

Que fazer? Ficar ao léu e arriscar ataque de animais? Passar a noite neste quarto onde uma pessoa foi morta? O pai e as crianças mais velhas vão até o riacho buscar água. Eles lavam a parede como podem, esfregando cinza achada por ali, esperando que a mancha saia, junto com o espírito de quem foi morto. O calor de Goiás seca tudo rápido. As crianças têm fome. Os pais estão exaustos. Sangue ou não sangue, espírito ou não espírito, eles têm que passar a noite ali mesmo. A mãe junta três pedras, improvisa um fogão. Logo da panela sai o aroma da comida – arroz, carne de porco retirada da gordura, verduras silvestres colhidas no caminho. Não é muito, mas é suficiente. O burro pasta na frente da casa, pelo menos ele tem comida à vontade.

Todos se sentam no chão, e comem, devagar, em silêncio. As jornadas longas levam as pessoas, até as crianças, ao silêncio. Depois de comer saem da casa e olham a rua, agora já no lusco-fusco da tarde. Uma luzinha ao longe indica que pelo menos uma outra casa é habitada neste vilarejo perdido. A mãe amamenta o mais novo, enquanto o pai pega o cavaquinho e começa a tocar. As crianças brincam na frente da casa, colocando pedra sobre pedra, fazendo pontes e prédios.

Nenhum deles sabe o que vai acontecer amanhã. Sabem que a comida está no fim, e que não chegaram a lugar nenhum, ainda. Mas neste momento, neste pedacinho do universo, debaixo das estrelas, estão felizes. Dentro do quarto, no escuro, o crucifixo de pedra vigia as tralhas espalhadas no chão.

Momento quatro

Um de meus irmãos mais velhos mora em um bairro em São Paulo. Quase todos do bairro vieram da mesma vila em Maringá. Então, é como se aquela rua fosse um “transplante” de Maringá no meio do coração de pedra de São Paulo. As casas não são diferentes das outras. Até os quintais são iguais, todos ou asfaltados ou cobertos de lajotas, para – em verdadeira moda portuguesa – atacar a natureza, conquistá-la, reduzi-la a cimento e vidro.

Ali estão os maringaenses. Parece que primeiro veio uma família e se deu bem: os filhos arrumaram emprego, os pais arrumaram emprego (ou sub-emprego). Logo mandaram cartas aos que tinham ficado em Maringá, e em seguida outros vieram, e foram comprando terrenos, fazendo casinhas, depois aumentando-as, aumentando-as. Hoje quase todas as casas têm dois andares, grades nas janelas, carros nas garagens, netos brincando nos jardins calçados.

Estive na “vila” uma vez em um mês de junho, e vi os preparativos. Os vizinhos tinham conseguido permissão para fechar a rua ao tráfego, e fizeram uma festa junina, com direito a quadrilha, quentão, e todas as outras delícias de praxe. Cada família trouxe cadeiras, comidas, bandeirolas. Tinha até um sanfoneiro!

Naquela noite da festa, quando todos se juntaram na rua, histórias foram contadas, causos compartidos, saudades visitadas. Fofocas, inevitáveis, aconteceram. Mas teve também baile, e namoros. E as crianças, algumas delas que nunca tinham posto os pés no Paraná, muito menos em Maringá, cantaram, com os adultos, as canções que os pais trouxeram, tanto a da cabocla humilde que veio numa leva e ficou sendo a retirante que mais dava o que falar, quanto o hino aprendido nas escolas humildes de Maringá, exaltando a beleza da cidade, seu passado, seu futuro.

Eu não pude ficar pra festa; só vi os preparativos. Nem sei ao certo se foi assim mesmo que aconteceu. Só sei que aconteceu e todos se divertiram: assim me disseram meus sobrinhos a quem perguntei. Assim como eles, os moradores de uma vila em São Paulo, eu também preciso recriar este “Maringá” que levo comigo. “Maringá” é aquele lugar utópico criado – ou re-criado – com as cores da nostalgia. Mesmo aqueles que saíram do Paraná porque precisavam buscar uma vida melhor em outro lugar, mesmo aqueles que estavam desempregados na “cidade Canção”, talvez naquele momento mágico, naquela festa junina em uma vila humilde em São Paulo, aquecida também com o calor que só existe quando estamos com nossos compatriotas, naquelas notas da canção, se lembraram, ou fabricaram lembranças, da felicidade de Maringá.

Momento cinco

A porta do avião finalmente abre e eu oficialmente entro na Alemanha. Mas antes, tem a alfândega. As perguntas de sempre, as respostas de sempre. Passaporte carimbado, atravesso os muitos portões, e chego na recepção do aeroporto.

Esta foi uma viagem inesperada, causada pelo fato de que no Brasil os oficiais fizeram um erro no passaporte de meu marido, e tivemos que sair do país antes do que tínhamos planejado. A viagem à Alemanha, além de não ter sido planejada, não tinha sido sequer desejada. Com minha ojeriza adquirida nos tempos de escola de Maringá, quando os coleguinhas “alemães”, viviam arrotando sua grandeza, sua pureza, e sua brancura, seu “arianismo”, eu jamais quis realmente ir à Alemanha. O mundo é grande, cheio de outros lugares interessantes. Mas fui à Alemanha, porque uma amiga nos chamou.

Kirsten tinha vindo trabalhar nos Estados Unidos em 1990, dois anos depois da queda do muro de Berlim. Ela nasceu na Alemanha oriental, e quando nos conhecemos eu gostava de brincar com ela e chamá-la de “minha querida comunista”. Fomos colegas lecionando na mesma universidade por um ano, e continuamos nossa amizade desde então. Agora, em 1994, ela estava de volta a Berlim, e tinha perdido seu irmão de 28 anos, que tinha se suicidado por ter perdido o emprego e a razão de viver na Alemanha unificada. Ela me telefonou no Brasil e me pediu para vir ficar com ela uns tempos. Fomos. Tínhamos tempo naquela ocasião, e nossa amiga nos chamava.

Ao chegar ao salão de recepção do aeroporto, todas as caras eram as mesmas, e nenhuma delas era a nossa amiga. Uma hora se passou. Nos preocupamos. E se ela não aparecesse? Não tínhamos um número de telefone, porque Kirsten não tinha telefone em sua casa. Se saíssemos do aeroporto e ela chegasse? Jamais nos encontraríamos! Eu não sabia o telefone dos pais dela. Não conhecia seus amigos. Nada. Nos vi parados no aeroporto até conseguir um vôo de volta. E o aborrecimento? E a irritação de uma enorme viagem para nada? Lá fora, o céu estava cinzento, e chovia. Berlim mostrava sua cara triste.

Tomamos um café. Caminhamos. Anunciamos no sistema do aeroporto que estávamos esperando por ela. Nos sentamos. Nos levantamos. Folheamos revistas. Quando já estávamos nos decidindo a ir trocar nosso bilhete de volta para o mais rápido possível, vimos Kirsten. Ela vinha correndo, com um ramalhete de flores nas mãos. Naquele momento, quando a vimos, olhos inchados ainda de tanto chorar pelo irmão, esquecemos tudo, a longa viagem, a espera, a incerteza. Estávamos com nossa amiga que precisava de nós num momento de tanta dor na sua vida. Ela correu até nós, sorrindo, nos abraçou aos dois ao mesmo tempo, e nos disse, quase sem fôlego, “Estou tão feliz que vocês estão aqui!”

Momento seis

Tenho aqui uma foto em que estou com minha mãe, na cozinha do apartamento em que ela viveu os últimos 27 anos de sua vida. É uma destas fotos “espontâneas”, tirada por meu marido. Estou voltada para a pia, lavando louças, e usando um avental velho. Minha mãe está virada para a outra direção, provavelmente guardando algumas das vasilhas que eu tinha lavado. Nós duas estamos olhado para a câmera, e o meu olhar parece, à primeira vista, expressar surpresa.

Mas não é só surpresa. Cada uma de nós parece estar em meio de uma frase. Na metade de um movimento. Ao fundo, se vê a geladeira branca, o liquidificador sobre a geladeira, depois a porta que passa pela área de serviço, e ao fundo, o banheiro. Minha mãe está sorrindo. Ela está usando uma blusa amarela e uma saia cinza. Eu me lembro daquela roupa.

Assim que ela viu esta foto revelada, riu e disse que era uma pena que a porta do fundo estivesse aberta, e que ela deveria ter colocado uma outra roupa, e eu deveria ter penteado o cabelo. Mas riu, e disse que nós duas estávamos bem engraçadas.

Meu marido ampliou a foto e colocou numa moldura. Quando voltamos para nossa casa nos Estados Unidos, deixamos a foto com minha mãe. Ali ela esteve, em cima de um móvel na sala, e a vi várias vezes quando retornei à casa de meus pais nos anos seguintes. Minha mãe sempre ria e comentava que ainda não gostava que a porta dos fundos aparecia aberta na foto. Esta era a foto que ela mostrava quando as pessoas vinham visitar e perguntavam por mim. Ali estávamos nós duas, ”apanhadas de surpresa”, no meio de uma conversa entre mãe e filha, enquanto lavávamos a louça do almoço. Para ela, eu sei que esta foto passou a representar o melhor da nossa relação, da nossa amizade, da nossa confiança mútua.

Quando minha mãe morreu, em 2004, e eu fui ajudar minhas irmãs a desfazerem o apartamento e repartir os objetos pessoais da casa dos meus pais. Eu pedi para ficar com esta foto, que agora se encontra em minha sala, junto com outras fotos de toda a família. Mas esta foto, com uma humilde moldura, mostrando duas mulheres em um momento banal de atividade doméstica, veio a representar um dos momentos mais felizes da minha vida, e, talvez, também da vida da minha mãe.

Em 1993, ano em que a foto foi tirada, eu e ela já sabíamos que o fim se aproximava. Ela já estava bem velhinha, e de vez em quando se referia ao fato que iria morrer, um dia, num futuro não muito longínquo. Eu jamais queria ouvir falar destas coisas, e ela não insistia. Mas todos nós sabíamos, como todos sempre sabemos, que vamos morrer. A lei natural da vida nos dizia que ela iria antes de mim, porque ela tinha 37 anos mais que eu. Em 1993 fui passar o ano no Brasil, e foi uma escolha consciente da necessidade de aproveitar estar perto especialmente da minha mãe, porque este tempo era precioso, e cada vez mais curto.

Esta foto captura esta fugacidade da vida. Eu e ela sabíamos que o nosso tempo juntas não ia durar para sempre. Estamos as duas, mãe e filha, como se fôssemos pequenas sementes dentro de uma bolsa cósmica – a pequena cozinha no apartamento humilde – envolvidas em uma atividade que sempre nos uniu, a vida doméstica, o fazer, e servir comida para os outros membros da família, e a manutenção de uma cozinha limpa e acolhedora. Para minha mãe, sempre foi claro que não importa quanto uma mulher estuda, ela deve manter um tempo e um espaço para as atividades da família. Na nossa família, estas atividades estavam centradas na boa comida, preparada com cuidado, servida na hora certa.

Sim, naquele momento em que nós duas nos vimos surpreendidas pelo flash da câmera, talvez tivéssemos consciência completa e total da felicidade que estávamos experimentando naquele momento, no fulgor da presença uma da outra, fazendo algo que ela tinha me ensinado a apreciar como mulher, como filha de uma cultura mineira.

Mas o mais importante nesta foto não sou eu, é ela. Seus olhos sorriem, sua boca sorri, de um jeito que só ela sabia sorrir. Vejo suas mãos, segurando objetos da cozinha. Conheço aquelas mãos veia por veia. Aquelas mãos cobriram as minhas quando me ensinaram a segurar o lápis para escrever as primeiras letras. Aquelas mãos me ensinaram a segurar a faca, cortar o pão. Aquelas mãos seguraram as minhas, e a de meus filhos. Não têm unhas longas, nem pintadas. São mãos, como diz Cora Coralina, “cavouqueiras”: mãos que trabalharam toda a vida, sem rebuliço, sem discurso, sem chamar atenção para si mesmas. Nos lábios, o sorriso brincalhão, que podia virar uma risada solta. Também podia se fechar em uma bronca. Os olhos, castanhos, muito claros, que eu vi se transformarem de uma manhã de primavera em bruta tempestade quando ela estava brava com alguém – tanto marido, como filhos, como qualquer pessoa que fizesse algo que ela considerava errado. Em seu menos de metro e meio, esta pequena mulher muitas vezes parecia uma gigante. Mas não nesta foto. Aqui ela é só mesmo uma mãe, na cozinha com sua filha caçula, provavelmente conversando algo deliciosamente banal.

Eu sei que só agora posso recuperar, nesta foto despretenciosa, tirada numa tarde de verão, em que provavelmente eu tinha pressa de terminar de lavar os pratos para ir cuidar de outras coisas, talvez sair, talvez conversar com outras pessoas, a preciosidade daquele momento. No fundo dos meus olhos, não vejo a dor da perda que viria em onze anos, por mais que eu sempre dissesse que sabia que um dia minha mãe ia morrer. Do fundo dos meus olhos, naquela foto, vem somente a luz da ignorância da dor que viria, inescapável, porque desta ninguém foge, por mais que tentemos ignorar esta verdade. Talvez, então, isto explique a minha felicidade naquele momento, quando tento recuperá-la no presente.

Momento sete

Na península Noto, na costa oeste do Japão, por muitos séculos dominaram algumas famílias feudais, cuja vida consistia de caçadas, lutas entre eles, guerras, e intrigas. Os camponeses – a maioria da população – tinham que pagar os pesados impostos, além de trabalhar de graça uma parte do tempo. A sua produção agrícola mais apreciada, o arroz, tinha que ser completamente entregue aos senhores feudais. Capatazes se certificavam, no plantio e na colheita, que nem um grão de arroz ficava para os camponeses. Eles comiam um outro cereal que tinha menos valor. O arroz, este era somente para os poderosos, os samurais, os aristocratas, e os pelegos que viviam debaixo da tutela dos senhores feudais. Os camponeses eram proibidos de comer arroz.

Mas, em um pequeno vale entre as montanhas, de difícil acesso, os moradores de uma pequena comunidade começaram a plantar algumas sementes de arroz, começando com bem poucas, que talvez ficaram nas dobras das roupas de um camponês que trabalhara na colheita. Estas poucas sementes deram frutos. A cada ano, quando vinham recolher as sementes maduras do ano anterior, eles as guardavam com cuidado, para plantá-las de novo na nova safra, neste mesmo vale escondido, que somente os camponeses conheciam. Depois de muitos anos e muitas colheitas, o pequeno vale passou a produzir suficiente arroz para uma refeição. Somente uma tigela de arroz para cada pessoa da aldeia.

Este arroz plantado à noite, cultivado às escondidas, dava aos camponeses uma oportunidade por ano, de estarem juntos e comerem o fruto do seu trabalho que não era devorado pelos poderosos. Uma vez por ano, uma tigela cheia de arroz, uma festa escondida, sob a luz da lua. Uma vez por ano, a felicidade de saberem que, ainda que miseráveis e subjugados, tinham subvertido o sistema e comiam a mesma comida dos reis. A festa, feita em silêncio, compartida como um pecado saboroso, os alimentava durante o ano de privações impostas por outros.

Este tempo passou. Hoje o Japão é um país rico, em que todos têm o que comer.

E os ecos daquela felicidade? Talvez existam simplesmente no fato de que, quando se vai à península Noto, todos contam esta história. Se foi verdade, já não importa. O que importa é o seu valor simbólico, mesmo no mundo de hoje, quando as pessoas crêem, ou precisam crer que, mesmo num passado de incrível opressão, os humildes puderam – ainda que somente uma vez ao ano – festejar ao seu bel prazer, contra as determinações dos seus senhores.

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

 

clique e acesse todos os artigos publicados...

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2006 - Todos os direitos reservados