|
Por EVA PAULINO BUENO Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
|
|
Momentos
Cada
ano, temos muitas oportunidades de desejar a amigos, conhecidos,
colegas, que sejam felizes. “Feliz aniversário”, por exemplo,
significa que a gente deseja que a pessoa seja feliz naquele dia, e
também no ano todo em que tiver aquela idade. Por associação, se
deseja que a pessoa seja feliz sempre. “Feliz Natal”, outra
frase comum, se refere a um dia somente, e envolve várias outras
atividades e reuniões com amigos e familiares, mesmo aqueles que não
têm nada a ver com o cristianismo; logicamente, ao desejarmos
“Feliz Natal”, estamos desejando que a felicidade não pare
naquele dia. Da mesma forma desejamos “feliz ano novo”, “feliz
dia das mães”, “feliz dia dos pais”, “feliz dia dos
namorados”, “feliz dia dos professores”, “feliz dia das
crianças”, etc. Mas nem sempre temos a ocasião de pensar o que
significa esta felicidade que desejamos às pessoas, em ocasiões
específicas como as citadas, ou em outras, que podem ocorrer freqüentemente
ou não.
E
para nós mesmos, como desejamos a felicidade? O que vem a ser
felicidade? E o que vem a ser alegria, que parece que é a parente
mais próxima da felicidade? Ou será que a alegria é a prima pobre
da felicidade, aquela que, não podendo ser, digamos, uma temporada
na praia, é o pulo na banheira?
O
que parece ser verdade é que cada pessoa tem uma medida e uma
receita diferente para a felicidade, baseada nas suas experiências
do passado e suas expectativas de realizações para o futuro.
Infelizmente, em muito poucas ocasiões da vida somos felizes
enquanto estamos sendo felizes, e geralmente precisamos do filtro do
passado ou das lentes do futuro para reconhecê-la. Como diz uma canção,
“Felicidade foi embora/ e a saudade no meu peito/ ainda mora”.
Será que quando a felicidade “estava morando” no peito, podia
ser reconhecida como tal? Quantos de nós, quando paramos para
pensar, identificamos os momentos felizes quando já não podemos
recuperá-los? Talvez todos. À medida que as circunstâncias da
vida mudam, as pessoas morrem, as amizades se quebram, os casamentos
se desfazem, os filhos crescem, a tendência de muitos de nós é
lembrar dos momentos felizes exatamente
porque não podem ser reproduzidos.
Outra
canção diz que “a felicidade do pobre parece/ a grande ilusão
do carnaval/ a gente trabalha o ano inteiro/ por um momento de
festa/ pra fazer a fantasia/ de rei ou de pirata ou marinheira/ pra
tudo se acabar na sexta feira”. É possível que a medida da
felicidade está exatamente na sua transitoriedade? Ou, no caso da
canção, estaria ela ligada ao fato que pode ser repetida
anualmente, enquanto a pessoa tiver saúde e dinheiro e trabalho
para fabricar esta felicidade?
Mas
talvez, ao invés de tentar definir, o melhor seria mesmo falar de
momentos em que ambas, a felicidade, ou aquela que parece ser a sua
manifestação no dia a dia, a alegria, parecem se juntar num
instante luminoso, transcendente. São aqueles momentos em que,
quando nos lembramos deles, “saltam” aos olhos, e ficam como uma
imagem fotográfica. Naturalmente, às vezes a nossa memória nos
prega peças, e escolhemos lembrar somente aquilo que nos interessa
lembrar, isolando o momento de todas as tribulações do dia a dia,
das pequenas irritações, das incertezas. Isso é, no mínimo,
humano: todos nós precisamos das nossas pequenas ficções, nossas
ilusões, assim como dos nossos sonhos, os quais vivem em momentos,
já que não na vida inteira. O domingo é sempre seguido pela
segunda feira.
Então,
aqui estão alguns destes momentos. Me parecem ser boas ilustrações
de como a felicidade pode acontecer. Nem todos são meus. Alguns são
de familiares, outros são de amigos, ou mesmo de um grupo de
pessoas do mesmo país. Às vezes duram um segundo. Outras vezes
duram mais. Não há nada de definitivo em nenhum deles.
Momento um
No
pátio da escola, os meninos jogam com a bola de meia. Descalço,
franzino, cabelo cortado “bodinho” – raspado por todo lado,
menos na frente – Zezé joga como se seu futuro dependesse disto.
Quase fim do jogo, empatado. Driblando os meninos mais altos e mais
fortes que ele, ele se aproxima do gol, dá uma paradinha, e chuta.
O goleiro defende. Bola de novo em jogo, os meninos jogam
desordenadamente, suando, gritando, insultando-se uns aos outros e
as mães dos outros. Zezé pega a bola outra vez, vem chegando,
chegando, perto, perto, quase chuta, mas é derrubado pelo grandalhão
do time contrário. Pênalti. Todos se posicionam. Zezé faz o sinal
da cruz. Chuta. O goleiro vai pra um lado. A bola pro outro. É
GOOOOOOOOOL!!!!! Zezé cai no chão, de costas, e olha pra cima,
direto pro céu, onde nuvens esqueceram de aparecer. Ele sente que
vai diretamente pra dentro do azul.
Momento dois
A
cidade de Kirkagaanga, em Bali, já foi um “país” separado, e
como tal, tinha seu próprio rei. E todo rei tem seu palácio, não
é? O rei já se foi há muito tempo, e Bali virou parte da Indonésia.
Hoje em dia a casa do rei – que não passa de uma casa, afinal –
é uma espécie de hotel. E foi assim que eu dormi num palácio. E,
muito à moda de Bali, tudo no palácio é muito tranqüilo, sem
nenhuma ordem fixa. Os empregados e os gerentes se sentam nas
cadeiras do lado de fora e batem papo entre si, ou com os hóspedes.
Nada é feito às pressas. O quarto em que ficamos era úmido, não
exatamente bem limpo, mas o banheiro era uma maravilha, porque a água
vinha diretamente de uma fonte natural para o “chuveiro”. Água
fria, logicamente, mas o banho estava sempre pronto pra ser usado.
Ficamos
em Kirkagaanga três dias. No último, a vila inteira veio ao templo
do palácio, porque era um entre os muitíssimos feriados religiosos
de Bali. Questão de matemática: quanto mais deuses uma religião
tem, mais feriados religiosos. Nos sentamos nas cadeiras do lado de
fora de nosso quarto, que dava para o pátio central do palácio, e
olhamos a procissão de pessoas. Todas estavam vestidas com suas
melhores roupas, e traziam bandejas de palha carregadas de flores
que seriam levadas ao templo. Meninas e mocinhas trançavam palhas e
folhas, fazendo as bandejas, e passando-as às pessoas, enquanto
algumas mulheres mais velhas se encarregavam dos incensos. Rapazes
conversavam entre si e fumavam, olhando as meninas e moças, e era
bem evidente que algo mais que religião acontece nestas muitas
festas religiosas: os jovens assim têm ocasião de se encontrarem,
de se conhecerem.
No
meio da tarde, fomos caminhar junto com os balinenses. Uma menina de
uns dez anos, de cabelos longos e soltos, veio até nós e nos
ofereceu uma flor. Ela não sabia a nossa língua, nem nós a dela,
mas nós três nos cumprimentamos com o “wai” – mãos postas e
baixando a cabeça – e dissemos, em uníssono, “namaste”.
Existe um deus em cada um de nós. Cada um de nós é uma manifestação
deste deus. Nada melhor que saudá-lo sempre e, assim, saudar a
todos na sua condição de portadores de deus. Naquele instante,
senti que realmente tinha um deus dentro de mim, e que todos à
minha volta o tinham também. Eu saudei, sem ironia, a este deus
naquelas pessoas tão diferentes, mais sempre minhas semelhantes,
“NAMASTE”.
Momento três
Os
jovens pais chegam com os filhos pequenos a uma cidadezinha de Goiás.
Eles tinham caminhado vários dias até chegar àquele lugar,
trazendo tudo o que possuíam no lombo do burro. As crianças
maiores caminharam, a mulher e o marido carregaram o menino de menos
de um ano, por turnos. Toda a cidade parece bombardeada. Poucas
paredes permanecem de pé. A comida – arroz e feijão em sacos de
pano, o sal em uma sacolinha plástica, a rapadura e o café numa
outra, e a carne de porco conservada cozida, em banha, em uma lata
bem tampada – é pouca, só chega pra mais uns dias.
Eles
têm uma vaga noção de seu destino, algum lugar numa direção que
só o pai conhece. Mas estão muito cansados, e têm que parar neste
lugar. As sandálias de todos, feitas em casa, de couro cru, estão
gastas, e a mãe tem bolhas de sangue nos pés. Caminham pelas ruas
desertas, procurando um lugar onde pelo menos acampar e acender o
fogo. Já é bem depois do meio dia, as sombras das árvores começam
a estender-se, e eles sabem que têm que achar um lugar antes que
anoiteça. No cerrado tem animais que podem vir, no meio da noite, e
atacá-los. Esta cidade morta é a única opção.
Por
fim encontram uma casa que tem um cômodo coberto. “Aqui ficamos,
pelo menos é um teto” o pai diz. A mãe entra e vê, numa parede,
um crucifixo de ferro, e na outra uma enorme mancha vermelha. “É
sangue”, ela diz. Ninguém se aventura a dizer o que pensa sobre
aquele sangue, mas os adultos sabem que há bandidos nesta região,
e escutaram histórias de como um homem foi morto pelos próprios
amigos nesta cidadezinha.
Que
fazer? Ficar ao léu e arriscar ataque de animais? Passar a noite
neste quarto onde uma pessoa foi morta? O pai e as crianças mais
velhas vão até o riacho buscar água. Eles lavam a parede como
podem, esfregando cinza achada por ali, esperando que a mancha saia,
junto com o espírito de quem foi morto. O calor de Goiás seca tudo
rápido. As crianças têm fome. Os pais estão exaustos. Sangue ou
não sangue, espírito ou não espírito, eles têm que passar a
noite ali mesmo. A mãe junta três pedras, improvisa um fogão.
Logo da panela sai o aroma da comida – arroz, carne de porco
retirada da gordura, verduras silvestres colhidas no caminho. Não
é muito, mas é suficiente. O burro pasta na frente da casa, pelo
menos ele tem comida à vontade.
Todos
se sentam no chão, e comem, devagar, em silêncio. As jornadas
longas levam as pessoas, até as crianças, ao silêncio. Depois de
comer saem da casa e olham a rua, agora já no lusco-fusco da tarde.
Uma luzinha ao longe indica que pelo menos uma outra casa é
habitada neste vilarejo perdido. A mãe amamenta o mais novo,
enquanto o pai pega o cavaquinho e começa a tocar. As crianças
brincam na frente da casa, colocando pedra sobre pedra, fazendo
pontes e prédios.
Nenhum
deles sabe o que vai acontecer amanhã. Sabem que a comida está no
fim, e que não chegaram a lugar nenhum, ainda. Mas neste momento,
neste pedacinho do universo, debaixo das estrelas, estão felizes.
Dentro do quarto, no escuro, o crucifixo de pedra vigia as tralhas
espalhadas no chão.
Momento quatro
Um
de meus irmãos mais velhos mora em um bairro em São Paulo. Quase
todos do bairro vieram da mesma vila em Maringá. Então, é como se
aquela rua fosse um “transplante” de Maringá no meio do coração
de pedra de São Paulo. As casas não são diferentes das outras. Até
os quintais são iguais, todos ou asfaltados ou cobertos de lajotas,
para – em verdadeira moda portuguesa – atacar a natureza,
conquistá-la, reduzi-la a cimento e vidro.
Ali
estão os maringaenses. Parece que primeiro veio uma família e se
deu bem: os filhos arrumaram emprego, os pais arrumaram emprego (ou
sub-emprego). Logo mandaram cartas aos que tinham ficado em Maringá,
e em seguida outros vieram, e foram comprando terrenos, fazendo
casinhas, depois aumentando-as, aumentando-as. Hoje quase todas as
casas têm dois andares, grades nas janelas, carros nas garagens,
netos brincando nos jardins calçados.
Estive
na “vila” uma vez em um mês de junho, e vi os preparativos. Os
vizinhos tinham conseguido permissão para fechar a rua ao tráfego,
e fizeram uma festa junina, com direito a quadrilha, quentão, e
todas as outras delícias de praxe. Cada família trouxe cadeiras,
comidas, bandeirolas. Tinha até um sanfoneiro!
Naquela
noite da festa, quando todos se juntaram na rua, histórias foram
contadas, causos compartidos, saudades visitadas. Fofocas, inevitáveis,
aconteceram. Mas teve também baile, e namoros. E as crianças,
algumas delas que nunca tinham posto os pés no Paraná, muito menos
em Maringá, cantaram, com os adultos, as canções que os pais
trouxeram, tanto a da cabocla humilde que veio numa leva e ficou
sendo a retirante que mais dava o que falar, quanto o hino aprendido
nas escolas humildes de Maringá, exaltando a beleza da cidade, seu
passado, seu futuro.
Eu
não pude ficar pra festa; só vi os preparativos. Nem sei ao certo
se foi assim mesmo que aconteceu. Só sei que aconteceu e todos se
divertiram: assim me disseram meus sobrinhos a quem perguntei. Assim
como eles, os moradores de uma vila em São Paulo, eu também
preciso recriar este “Maringá” que levo comigo. “Maringá”
é aquele lugar utópico criado – ou re-criado – com as cores da
nostalgia. Mesmo aqueles que saíram do Paraná porque precisavam
buscar uma vida melhor em outro lugar, mesmo aqueles que estavam
desempregados na “cidade Canção”, talvez naquele momento mágico,
naquela festa junina em uma vila humilde em São Paulo, aquecida
também com o calor que só existe quando estamos com nossos
compatriotas, naquelas notas da canção, se lembraram, ou
fabricaram lembranças, da felicidade de Maringá.
Momento cinco
A
porta do avião finalmente abre e eu oficialmente entro na Alemanha.
Mas antes, tem a alfândega. As perguntas de sempre, as respostas de
sempre. Passaporte carimbado, atravesso os muitos portões, e chego
na recepção do aeroporto.
Esta
foi uma viagem inesperada, causada pelo fato de que no Brasil os
oficiais fizeram um erro no passaporte de meu marido, e tivemos que
sair do país antes do que tínhamos planejado. A viagem à
Alemanha, além de não ter sido planejada, não tinha sido sequer
desejada. Com minha ojeriza adquirida nos tempos de escola de Maringá,
quando os coleguinhas “alemães”, viviam arrotando sua grandeza,
sua pureza, e sua brancura, seu “arianismo”, eu jamais quis
realmente ir à Alemanha. O mundo é grande, cheio de outros lugares
interessantes. Mas fui à Alemanha, porque uma amiga nos chamou.
Kirsten
tinha vindo trabalhar nos Estados Unidos em 1990, dois anos depois
da queda do muro de Berlim. Ela nasceu na Alemanha oriental, e
quando nos conhecemos eu gostava de brincar com ela e chamá-la de
“minha querida comunista”. Fomos colegas lecionando na mesma
universidade por um ano, e continuamos nossa amizade desde então.
Agora, em 1994, ela estava de volta a Berlim, e tinha perdido seu
irmão de 28 anos, que tinha se suicidado por ter perdido o emprego
e a razão de viver na Alemanha unificada. Ela me telefonou no
Brasil e me pediu para vir ficar com ela uns tempos. Fomos. Tínhamos
tempo naquela ocasião, e nossa amiga nos chamava.
Ao
chegar ao salão de recepção do aeroporto, todas as caras eram as
mesmas, e nenhuma delas era a nossa amiga. Uma hora se passou. Nos
preocupamos. E se ela não aparecesse? Não tínhamos um número de
telefone, porque Kirsten não tinha telefone em sua casa. Se saíssemos
do aeroporto e ela chegasse? Jamais nos encontraríamos! Eu não
sabia o telefone dos pais dela. Não conhecia seus amigos. Nada. Nos
vi parados no aeroporto até conseguir um vôo de volta. E o
aborrecimento? E a irritação de uma enorme viagem para nada? Lá
fora, o céu estava cinzento, e chovia. Berlim mostrava sua cara
triste.
Tomamos
um café. Caminhamos. Anunciamos no sistema do aeroporto que estávamos
esperando por ela. Nos sentamos. Nos levantamos. Folheamos revistas.
Quando já estávamos nos decidindo a ir trocar nosso bilhete de
volta para o mais rápido possível, vimos Kirsten. Ela vinha
correndo, com um ramalhete de flores nas mãos. Naquele momento,
quando a vimos, olhos inchados ainda de tanto chorar pelo irmão,
esquecemos tudo, a longa viagem, a espera, a incerteza. Estávamos
com nossa amiga que precisava de nós num momento de tanta dor na
sua vida. Ela correu até nós, sorrindo, nos abraçou aos dois ao
mesmo tempo, e nos disse, quase sem fôlego, “Estou tão feliz que
vocês estão aqui!”
Momento seis
Tenho
aqui uma foto em que estou com minha mãe, na cozinha do apartamento
em que ela viveu os últimos 27 anos de sua vida. É uma destas
fotos “espontâneas”, tirada por meu marido. Estou voltada para
a pia, lavando louças, e usando um avental velho. Minha mãe está
virada para a outra direção, provavelmente guardando algumas das
vasilhas que eu tinha lavado. Nós duas estamos olhado para a câmera,
e o meu olhar parece, à primeira vista, expressar surpresa.
Mas
não é só surpresa. Cada uma de nós parece estar em meio de uma
frase. Na metade de um movimento. Ao fundo, se vê a geladeira
branca, o liquidificador sobre a geladeira, depois a porta que passa
pela área de serviço, e ao fundo, o banheiro. Minha mãe está
sorrindo. Ela está usando uma blusa amarela e uma saia cinza. Eu me
lembro daquela roupa.
Assim
que ela viu esta foto revelada, riu e disse que era uma pena que a
porta do fundo estivesse aberta, e que ela deveria ter colocado uma
outra roupa, e eu deveria ter penteado o cabelo. Mas riu, e disse
que nós duas estávamos bem engraçadas.
Meu
marido ampliou a foto e colocou numa moldura. Quando voltamos para
nossa casa nos Estados Unidos, deixamos a foto com minha mãe. Ali
ela esteve, em cima de um móvel na sala, e a vi várias vezes
quando retornei à casa de meus pais nos anos seguintes. Minha mãe
sempre ria e comentava que ainda não gostava que a porta dos fundos
aparecia aberta na foto. Esta era a foto que ela mostrava quando as
pessoas vinham visitar e perguntavam por mim. Ali estávamos nós
duas, ”apanhadas de surpresa”, no meio de uma conversa entre mãe
e filha, enquanto lavávamos a louça do almoço. Para ela, eu sei
que esta foto passou a representar o melhor da nossa relação, da
nossa amizade, da nossa confiança mútua.
Quando
minha mãe morreu, em 2004, e eu fui ajudar minhas irmãs a
desfazerem o apartamento e repartir os objetos pessoais da casa dos
meus pais. Eu pedi para ficar com esta foto, que agora se encontra
em minha sala, junto com outras fotos de toda a família. Mas esta
foto, com uma humilde moldura, mostrando duas mulheres em um momento
banal de atividade doméstica, veio a representar um dos momentos
mais felizes da minha vida, e, talvez, também da vida da minha mãe.
Em
1993, ano em que a foto foi tirada, eu e ela já sabíamos que o fim
se aproximava. Ela já estava bem velhinha, e de vez em quando se
referia ao fato que iria morrer, um dia, num futuro não muito longínquo.
Eu jamais queria ouvir falar destas coisas, e ela não insistia. Mas
todos nós sabíamos, como todos sempre sabemos, que vamos morrer. A
lei natural da vida nos dizia que ela iria antes de mim, porque ela
tinha 37 anos mais que eu. Em 1993 fui passar o ano no Brasil, e foi
uma escolha consciente da necessidade de aproveitar estar perto
especialmente da minha mãe, porque este tempo era precioso, e cada
vez mais curto.
Esta
foto captura esta fugacidade da vida. Eu e ela sabíamos que o nosso
tempo juntas não ia durar para sempre. Estamos as duas, mãe e
filha, como se fôssemos pequenas sementes dentro de uma bolsa cósmica
– a pequena cozinha no apartamento humilde – envolvidas em uma
atividade que sempre nos uniu, a vida doméstica, o fazer, e servir
comida para os outros membros da família, e a manutenção de uma
cozinha limpa e acolhedora. Para minha mãe, sempre foi claro que não
importa quanto uma mulher estuda, ela deve manter um tempo e um espaço
para as atividades da família. Na nossa família, estas atividades
estavam centradas na boa comida, preparada com cuidado, servida na
hora certa.
Sim,
naquele momento em que nós duas nos vimos surpreendidas pelo flash
da câmera, talvez tivéssemos consciência completa e total da
felicidade que estávamos experimentando naquele momento, no fulgor
da presença uma da outra, fazendo algo que ela tinha me ensinado a
apreciar como mulher, como filha de uma cultura mineira.
Mas
o mais importante nesta foto não sou eu, é ela. Seus olhos
sorriem, sua boca sorri, de um jeito que só ela sabia sorrir. Vejo
suas mãos, segurando objetos da cozinha. Conheço aquelas mãos
veia por veia. Aquelas mãos cobriram as minhas quando me ensinaram
a segurar o lápis para escrever as primeiras letras. Aquelas mãos
me ensinaram a segurar a faca, cortar o pão. Aquelas mãos
seguraram as minhas, e a de meus filhos. Não têm unhas longas, nem
pintadas. São mãos, como diz Cora Coralina, “cavouqueiras”: mãos
que trabalharam toda a vida, sem rebuliço, sem discurso, sem chamar
atenção para si mesmas. Nos lábios, o sorriso brincalhão, que
podia virar uma risada solta. Também podia se fechar em uma bronca.
Os olhos, castanhos, muito claros, que eu vi se transformarem de uma
manhã de primavera em bruta tempestade quando ela estava brava com
alguém – tanto marido, como filhos, como qualquer pessoa que
fizesse algo que ela considerava errado. Em seu menos de metro e
meio, esta pequena mulher muitas vezes parecia uma gigante. Mas não
nesta foto. Aqui ela é só mesmo uma mãe, na cozinha com sua filha
caçula, provavelmente conversando algo deliciosamente banal.
Eu
sei que só agora posso recuperar, nesta foto despretenciosa, tirada
numa tarde de verão, em que provavelmente eu tinha pressa de
terminar de lavar os pratos para ir cuidar de outras coisas, talvez
sair, talvez conversar com outras pessoas, a preciosidade daquele
momento. No fundo dos meus olhos, não vejo a dor da perda que viria
em onze anos, por mais que eu sempre dissesse que sabia que um dia
minha mãe ia morrer. Do fundo dos meus olhos, naquela foto, vem
somente a luz da ignorância da dor que viria, inescapável, porque
desta ninguém foge, por mais que tentemos ignorar esta verdade.
Talvez, então, isto explique a minha felicidade naquele momento,
quando tento recuperá-la no presente.
Momento sete
Na
península Noto, na costa oeste do Japão, por muitos séculos
dominaram algumas famílias feudais, cuja vida consistia de caçadas,
lutas entre eles, guerras, e intrigas. Os camponeses – a maioria
da população – tinham que pagar os pesados impostos, além de
trabalhar de graça uma parte do tempo. A sua produção agrícola
mais apreciada, o arroz, tinha que ser completamente entregue aos
senhores feudais. Capatazes se certificavam, no plantio e na
colheita, que nem um grão de arroz ficava para os camponeses. Eles
comiam um outro cereal que tinha menos valor. O arroz, este era
somente para os poderosos, os samurais, os aristocratas, e os
pelegos que viviam debaixo da tutela dos senhores feudais. Os
camponeses eram proibidos de comer arroz.
Mas,
em um pequeno vale entre as montanhas, de difícil acesso, os
moradores de uma pequena comunidade começaram a plantar algumas
sementes de arroz, começando com bem poucas, que talvez ficaram nas
dobras das roupas de um camponês que trabalhara na colheita. Estas
poucas sementes deram frutos. A cada ano, quando vinham recolher as
sementes maduras do ano anterior, eles as guardavam com cuidado,
para plantá-las de novo na nova safra, neste mesmo vale escondido,
que somente os camponeses conheciam. Depois de muitos anos e muitas
colheitas, o pequeno vale passou a produzir suficiente arroz para
uma refeição. Somente uma tigela de arroz para cada pessoa da
aldeia.
Este
arroz plantado à noite, cultivado às escondidas, dava aos
camponeses uma oportunidade por ano, de estarem juntos e comerem o
fruto do seu trabalho que não era devorado pelos poderosos. Uma vez
por ano, uma tigela cheia de arroz, uma festa escondida, sob a luz
da lua. Uma vez por ano, a felicidade de saberem que, ainda que
miseráveis e subjugados, tinham subvertido o sistema e comiam a
mesma comida dos reis. A festa, feita em silêncio, compartida como
um pecado saboroso, os alimentava durante o ano de privações
impostas por outros.
Este
tempo passou. Hoje o Japão é um país rico, em que todos têm o
que comer.
E
os ecos daquela felicidade? Talvez existam simplesmente no fato de
que, quando se vai à península Noto, todos contam esta história.
Se foi verdade, já não importa. O que importa é o seu valor simbólico,
mesmo no mundo de hoje, quando as pessoas crêem, ou precisam crer
que, mesmo num passado de incrível opressão, os humildes puderam
– ainda que somente uma vez ao ano – festejar ao seu bel prazer,
contra as determinações dos seus senhores.
|
|

|