por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em
Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée
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Levanta,
sacode a poeira e dá a volta por cima!
Apos
três meses de “crise”, discussões e manifestações sobre a
CPE – “Contrat du Premier
Embauche” (Contrato do Primeiro Emprego) as coisas, que na visão
sindicalista, ainda não foram resolvidas, começam a se acalmar.
Os
estudantes de toda a França resolveram, durante quase dois meses,
protestar ativamente contra a insegurança do Contrato que os
emprega durante dois anos, tendo o empregador, nesse longo período,
o direito de mandá-los embora sem justa causa.
Os
alunos de segundo grau também participaram, entretanto, menos
intensamente, mas já mostrando sua preocupação com o futuro. Os
empregados da distribuidora francesa de gás – “Gas de France” – GDF juntaram-se aos universitários,
aproveitando para reivindicar a não privatização da empresa.
Entre
os manifestantes, encontramos aqueles que queriam fechar as
universidades, e os outros que queriam ter aulas, a divergência
reinou por tudo, mas num mesmo impulso de conquista. De um lado uns
gritando que os prédios de ensino fossem bloqueados, e de outro os
que reviviam a história, na Praça do Panthéon, gritando “Il est interdit d’interdire aux étudiants d’étudier” (É
proibido proibir os estudantes de estudar).
Além
desses, houve também, os que, aproveitando-se da situação,
manifestaram por nada, pelo simples prazer da desordem,
desencadeando violências e prejudicando a todos. Muitas vitrines,
restaurantes, carros, foram quebrados, pessoas foram interpeladas,
molestadas e feridas nas ruas. Estes, que ficaram conhecidos como
“jovens quebradores” fazem parte dos que querem destruir o pouco
que se tem de bom, em vez de buscarem melhorias.
A
Sorbonne (Université Paris
IV), que não havia sido invadida desde maio de 68, foi tomada,
fechada, e teve vários danos materiais, num sinal típico do francês,
que é reclamar, numa atitude destemida de um povo que sabe e busca
o que quer, mesmo que, para isso, tenha que sair às ruas, fazendo o
barulho que os políticos precisam ter pra escutar.
O
jornal de esquerda “Libération”, do dia 13-04-06, publicou que a crise terminara,
as barricadas de frente da Sorbonne já haviam sido tiradas, não
havia mais pichações, nem gritos, nem policiais bloqueando o
acesso à Universidade. Em seguida, vieram as férias de primavera
e, somente, no dia 24 as aulas que são ministradas no prédio
puderam ser retomadas.
Podemos
observar que a conquista vai longe. Nada resolvido, tendo o Governo
alegado que a exigência é muito geral: os alunos pediram a extinção
do Contrato, sem discutir certas especificidades que poderiam ser
retocadas. Os Governantes querem uma coisa, os estudantes querem
outra. Será que já vimos esse filme?
Depois
da poeira abaixada, o primeiro ministro, Dominique de Villepin,
afirmou, em entrevista ao jornal “le Figaro” do sábado 29-04-06, que não vê necessidade de
remanejar seu governo, pois passaram por provas e saíram mais
fortalecidos, tendo todos os elementos necessários para recomeçar.
Não fala, contudo, em candidatar-se à Presidência, alegando que
ainda é cedo para tocar no assunto. Ficou para os estudantes a missão
de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, tentando
acreditar que na próxima tentativa, talvez, dê certo.
Desgastes,
danos morais, físicos, materiais. Alguns contentes pela “paz”
que reina, outros angustiados pelo “não” resultado. Uns dizendo
que foi uma situação vergonhosa, outros querendo acreditar que foi
uma luta digna. Muita energia desperdiçada por nada, mais uma vez o
lado fraco arrebentou. Bem coisa do sistema francês que protege
mais o emprego do que o empregado.
Os
sindicatos ainda querem prosseguir o debate, proposta aceita pelo
poder, “em longo prazo”, deixe-se claro! O prazo necessário
para tentar uma amnésia geral. Será que os franceses, gente de
tradição, esquecem tão facilmente? Teremos, em breve, essa
resposta que está no tempo e devemos esperá-la. Enquanto isso, o
povo está voltando a se preocupar com a gripe aviária...
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