por
JAIRO DE CARVALHO
Professor
de História em Maringá. |
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Sobre
raças humanas
Desde
a Antigüidade, a mentalidade ocidental convive com a idéia de que
os seres humanos estão divididos em raças, mas foi no decorrer do
século XIX, quando os países europeus necessitavam justificar seus
projetos de expansão imperialista, que uma grande parte dos seus
recursos intelectuais estiveram mais empenhados em definir e
hierarquizar as raças que compõem nossa espécie.
Para
classificar a variedade de fenótipos humanos, muitos cientistas
trabalharam exaustivamente e sua influência deu credibilidade à
afirmação de que os brancos de origem européia ocupariam os estágios
mais elevados do desenvolvimento, em detrimento dos não-brancos,
invariavelmente identificados com o atraso.
Muitas
pessoas ganharam celebridade ao expor o resultado de suas pesquisas
que, de alguma forma, reforçavam um suposto determinismo biológico
aplicado às sociedades humanas, um darwinismo social. Para auferir
crédito às asserções, executavam tendenciosamente análises da
anatomia de grupos humanos, utilizando, inclusive, instrumentos da
antropologia criminal da época, como a craniometria por exemplo,
para classificar os povos e estabelecer correlações entre aparências
físicas e aptidões.
A
ciência do século XIX dava ao racismo o fundamento que lhe
permitia justificar a escravização criminosa de milhões de
africanos e o autorizava a contradizer de modo convincente o 1º
artigo da "Declaração Universal dos Direitos do Homem"
de que os seres humanos nascem livres e iguais.
Entre
os resultados práticos da noção de que a humanidade se divide em
raças, e que algumas são superiores e outras inferiores, está o
extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas nas décadas de
1930 e 1940.
Entretanto,
com o progresso da genética e da biologia molecular, os biólogos e
antropólogos observaram que nenhum gene humano é específico de
uma raça e que todas as populações têm mais ou menos os mesmos
genes. As suas conclusões são de que nem a genética e nem bioquímica
fornece qualquer subsídio para justificar a existência do conceito
"raças humanas". Pelo contrário, afirmou-se em seu
lugar, que a espécie humana é essencialmente uma só, o que
municiou a ciência para atestar com absoluta segurança que as
bases conceituais das afirmações anteriores não têm qualquer
valor.
Assim,
logo depois da Segunda Guerra Mundial, portanto após a derrota de
Hitler e de suas idéias, foram realizados encontros, com o apoio
institucional da Unesco, em que participaram cientistas sociais e
geneticistas, os quais, diante das evidências, decidiram elaborar a
"Declaração Sobre Raça" em que aparecia a afirmação
de que "raça é menos um fato biológico do que um mito
social".
Desde
então, alguém que defenda tal coisa corre o risco de ser visto
como quem procura chifre em cabeça de cavalo, porque a evolução
da pesquisa científica alcançou um outro paradigma: há uma única
raça humana. Como conseqüência desse progresso, a discriminação
dos não-brancos deixou de ter respaldo científico e passou a ser
vista como um produto da ignorância.
Apesar
de que esse progresso da ciência contemporânea não é contínuo,
ele tem alguns retrocessos, um exemplo foi a publicação em 1994 de
"A curva do sino" (The Bell Curve) em que os autores, sem
apresentar nada de novo, tentavam demonstrar a inferioridade nata
dos negros através do cruzamento de estatísticas geradas por
testes de inteligência. Seus resultados são tão absurdos que a
simples citação de alguns nomes de negros que se destacaram no cenário
intelectual, como Cheik Anta Diop ou o nosso Milton Santos, já
seria suficiente para jogar por terra os seus pressupostos.
Embora
cientificamente inadequado, já que o conceito não corresponde a
nada que exista na natureza, a idéia de raça sobrevive como
construção ideológica e cultural. Assim, não pode haver dúvida
que o uso da expressão "raça" continua representando uma
concepção social, política ou cultural, mesmo que nunca mais seu
significado denote um produto da evolução natural da espécie
humana. Pior do que a permanência de raça enquanto conceito, agora
desprovido de seu conteúdo biologizante, é a inegável constatação
do triste fato, que infelizmente expressa uma danosa deformidade de
nossa civilização, o de que o racismo existe e continua fazendo vítimas
diariamente.
Depois
da divulgação de sucessivas pesquisas do IBGE e do Ipea, mostrando
a situação desigual entre negros e brancos, agora a antiga proposição
de que no Brasil o que existia era uma "democracia racial"
já não se sustenta mais. Os defensores da tese do "racismo
cordial" precisam de novos argumentos.
A
afirmação, sempre progressista, de que não existem raças
humanas, agora que está em discussão a adoção de políticas de ação
afirmativa como iniciativa para minimizar a situação de exclusão,
pela escravidão e pelas práticas racistas cotidianas, a que foram
submetidos os negros e os índios — as maiores vítimas do uso
tanto científico quanto ideológico da idéia de raça —, pode
acabar assumindo as cores do reacionarismo se for utilizada como
argumento contrário à institucionalização dessas medidas. O
discurso, aparentemente sintonizado com as mais humanitárias teses
do Iluminismo, de que a raça humana é uma só e que, portanto, não
há sentido que uma parcela se beneficie de tratamento diferenciado,
nesse momento só serve para erigir mais obstáculos à transformação
dessa sociedade criando dificuldade para que ela se torne pelo menos
um pouco mais justa, na medida que fornece argumento para que mudanças
na nossa pirâmide social, mesmo mínimas, não sejam efetivadas e a
melanina continue colorindo apenas a sua extensa base, deixando,
convenientemente, intocado o estreito cume.
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