por ANTÔNIO MENDES DA SILVA FILHO

Doutor em Ciência da Computação

 

 

Criatividade: usando persistência, desorganização e reclusão na busca do ‘momento criativo’

 

Entender os elementos de pessoas criativas e ajudá-las a desenvolver suas habilidades tem sido algo que tenho feito como professor e ser humano. As pessoas têm características intrínsecas ao seu ‘eu’ que as influenciam a agirem das mais variadas maneiras quando deparadas com situações não casuais. Neste artigo juntamente com os demais recomendados ao final deste texto, procuro esclarecer e descrever aspectos do intelecto humano.

Aqui, saliento duas características de suma importância do intelecto humano: Persistência, Desorganização e Reclusão.

Persistência

Pessoas criativas têm uma persistência incomum com o objetivo de concluir tarefas, bem como projetos nos quais estejam envolvidas. A persistência, em alguns casos, transforma-se em teimosia, obstinação e tenacidade.

Imagine-se trabalhando num projeto no qual você precisa apresentar uma solução para um problema e você não consegue chegar a qualquer lugar após horas, dias, semanas, meses e, em alguns casos, até anos. Repentinamente, uma solução surge em sua cabeça. Isto ocorreu comigo em uma ocasião importante de minha vida quando tive um lampejo criativo que resultou em minha dissertação de mestrado. Eu buscava de forma obstinada uma forma de estender uma solução já existente de um problema, visando torná-la mais eficiente. Quando então percebi que propor uma extensão poderia até melhor o resultado obtido anteriormente, mas a solução mais adequada não era aquela já proposta e sim o uso de uma outra técnica ainda não pensada por qualquer pessoa trabalhando naquele problema.

Isto que aconteceu comigo é um exemplo de um momento criativo no qual o indivíduo consegue vislumbrar a solução de um problema. Um aspecto importante a observar é a determinação, persistência e, porque não, teimosia em encontrar uma solução ou criar algo puramente novo. Vale salientar que o instante criativo ocorre em situações nas quais o cérebro humano está descansando como, por exemplo, quando um indivíduo está dormindo, descansando, em momento de lazer e descontração. Em outras palavras, quando o cérebro não está trabalhando sobre pressão. Esse instante criativo pode resultar numa solução para algum problema de matemática, física ou até a descoberta de um novo produto como uma vacina ou mesmo alguma tecnologia inovadora. Entretanto, embora esse lampejo criativo do ser humano ocorra em tais ocasiões, o indivíduo criativo encontra-se numa busca incessante, obstinada e tenaz por uma solução que seja concomitantemente adequada e eficiente, caracterizando-o como persistente.

Desorganização

Pessoas criativas tendem a aceitar a desorganização num ambiente ou em situações que elas interagem. Geralmente, elas não estão preocupadas com a organização dos objetos de um ambiente, nem tampouco se interessam por detalhes. Algumas vezes chegam a serem taxadas de individualistas ou mesmo de pessoas diferentes. Isto não implica que toda pessoa desorganizada seja criativa ou o inverso, mas que a pessoa criativa não tem um grande apreço pela organização, sendo mais organizadas e tendo suas atividades melhor planejadas. Já as pessoas tidas como organizadas gostam de ter suas atividades bem programadas e em conformidade com uma agenda antecipadamente definida. Existe quase uma dependência de tal programação. Entre elas defende-se o lema de que “Se você não sabe para onde está indo, então não saberá aonde e quando chegar”. Trata-se de um ditado que tenho cunho de verdade uma vez que é necessário ter metas claramente definidas a fim de alcançá-las.

Entretanto, você pode se deparar com situações, ao mesmo tempo, interessantes, mas inesperadas. Refiro-me especificamente a situações na qual ocorre algum tipo de descoberta por acidente ou sagacidade, i.e. serendipismo. O que fazer em tais situações? Pessoas criativas, em tais situações, tendem a despender tempo e a explorar o serendipismo (Vide texto intitulado “Serendipismo: Descoberta por Acidente e Sagacidade” publicado na Revista Espaço Acadêmico disponível em http://www.espacoacademico.com.br/013/amsf.html). Na visão delas, o pior que pode resultar é algum resultado inesperado ou ter uma percepção tardia do que devia ter sido feito.

Já ouvi algumas pessoas criativas dizerem que ‘se soubessem o que estavam fazendo, certamente não era uma descoberta ou pesquisa’. Note que esta afirmativa é verdadeira se considerarmos que o momento criativo resultará na criação de um novo produto ou idéia. Dentro deste contexto, a organização e o planejamento podem levar um indivíduo a ter um instante criativo. Todavia, convém lembrar que o lampejo, geralmente, dar-se-á em ocasiões em que nosso cérebro descansa, isto é, não trabalha sob pressão de cronogramas.

Reclusão

Experiências, muitas vezes, impetuosas e inebriantes, resultado de busca de modo quase obcecado por alguma solução, fazem com que indivíduos criativos venha a negligenciar as necessidades comuns aos seres humanos como descanso, alimentação, atividades físicas e diversão. Esse ‘desligamento’ das coisas da vida faz com que tais pessoas entrem em estado de reclusão, afastando-se de pessoas e caracterizando-se por ter uma vida isolada.

Você deveria observar que esse traço de personalidade não acarreta que uma pessoa vivendo como um eremita, afastado dos demais seja criativo. Uma das razões atribuídas a essa busca pela reclusão é que sua atividade de criação requer concentração e até certo ponto isolamento do mundo exterior. Exemplo disso é que grande parte dos cientistas (nas áreas de Matemática, Física e Engenharia) não se casa ou não têm filhos em razão deles terem dificuldade de relacionamento e, normalmente, serem tímidos. Muitos consideram que qualquer tipo de envolvimento dessa natureza como mera distração e desvio do real trabalho que precisa ser feito.

Pessoas criativas desenvolvem suas atividades de criação motivadas, principalmente, por prazer, satisfação e desafio do trabalho. Elas não estão preocupadas com remuneração ou notas. Eles carregam consigo uma motivação interior em pró da criação.

Quanto a reclusão, alguns apontam a criatividade ser um trabalho inerentemente solitário e que, portanto, requer reclusão. Isto, de fato, ocorre. Mas, não é regra. Uma outra motivação para esse ‘afastamento’ que considero mais plausível é necessidade que os indivíduos criativos têm de evitar insultos, críticas e zombaria. Eles não têm medo de serem ou parecerem diferentes, mas costumam se sentir, emocionalmente, magoados por não haver uma aceitação de sua personalidade. Em geral, eles consideram que a importância de suas idéias e criações tem mais valor que a aceitação dos demais.

Ao lidar com pessoas criativas, deveríamos tratá-las com respostas criativas. Mas, como?

As respostas e relacionamento deveriam oferecer apoio, valorizando seus pontos fortes e não meramente tendo um foco nos pontos fracos. Momentos de criação podem ser, facilmente, perdidos e são tidos como ‘frágeis’. Similarmente a uma criança, eles precisam de apoio e proteção. Assim, é preciso entender a necessidade de reclusão (para, por exemplo, concentrar-se na solução de um problema) e dar o devido suporte.

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Sugestão: Complemente o entendimento sobre criatividade lendo:

O Valor da Criatividade no Ambiente Corporativo

Entendendo a  Criatividade: A Dinâmica do Processo Criativo

Entendendo a Criatividade: O Comportamento de Pessoas Criativas

Diferenças entre Criatividade e Lógica

Caracterizando a Criatividade: Diligência

Amor ao Trabalho e Excentricidade: Ingredientes da Criatividade e um Não à "Cultura de Conformidade" 

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