por MARCOS DEL ROIO

Prof. de Ciências Políticas, FFC - Unesp de Marília

 

 

 

TROPICUS MUNDI

Pensar o Sul do Mundo pelas lentes de Gramsci

 

I

Desde há cinco séculos, pensar o Tropicus Mundi tem sido pensar a zona colonial e subalterna do Imperium Mundi. Nessa trajetória, tanto quanto anteriormente se pensava em seres míticos antípodas, foram geradas representações do subalterno, igualmente míticas e próprias do Tropicus Mundi: o índio e o negro. Assim, o índio e o negro são representações do subalterno próprias da modernidade. Na realidade da vida colonial, índio e negro eram representações que justificavam a servidão e a escravidão.

A partir do final do século XIX, completado o genocídio do índio (que ficou isolado nas florestas, montanhas e periferias miseráveis) e esgotada a escravidão africana (com a ocupação direta da própria África) as massas de trabalhadores pobres -- expulsos da Europa pela contradição gerada entre a disseminação do capitalismo e a resistência dos herdeiros da nobreza feudal (que geraram formas diversas de ‘revolução passiva’) -- vieram compor a nova geração do ser social subalterno, dentro do Tropicus Mundi.

O Tropicus Mundi não pode ser identificado tão bem nas antigas culturas dos Orientes, nem tampouco na África, reduzida a uma ‘planície’ de deserto e floresta habitados por berberes e negros confundidos com a natureza luxuriante que os envolve. A América meridional é o Tropicus Mundi par excellence, porque Ocidente subalterno e criação ex nihlo do Imperium Mundi nascido na Europa, das entranhas da Igreja de Roma e que, in contradicto representa o encontro possível desses seres sociais subalternos. O encontro, no entanto, só pode se realizar em um movimento emancipatório que desconstrua a próprias noções de índio, negro e branco ou mestiço pobre.

Pensar a particularidade do Tropicus Mundi vinculada a sua universalidade só é possível se for uma operação contra o Imperium Mundi. Mas pensar universalmente contra o Imperium Mundi, partindo da particularidade do Tropicus Mundi e de seu possível horizonte de antípoda, não pode ser feito partindo-se dos fragmentos culturais do ser social subalterno, mas de uma perspectiva universal gerada nas próprias entranhas da ‘besta’.

II

A forma do pensamento e a concepção teórica do comunismo de Gramsci (firmemente ancorado na filosofia da práxis e na teoria social de Marx) oferecem um instrumental precioso para a reflexão sobre o Tropicus Mundi e o antagonismo ao Imperium Mundi. A riqueza da dialética com que Gramsci pensa o particular no universal e as mais recônditas possibilidades de inovação e transformação do mundo, presente ora no pré-moderno, ora na avançada modernidade, em um movimento de pensamento que sempre nos leva para um futuro possível de emancipação humana, mesmo que dentro de condições extremas de dificuldade e insolubilidade.

A dinâmica dialética do pensamento de Gramsci abre enormes possibilidades para se pensar o mundo atual, no qual jamais como antes a representação ideológica do Imperium Mundi se fez tão próxima e tão real sob o intangível poder do capital, único sujeito livre dentro do despotismo universalizado. O fato das lentes de Gramsci viajarem por todos os espaços da Terra e pelo tempo da construção – como uma interminável catedral gótica – do Imperium Mundi, permite um vislumbre radicalmente crítico do existente.

Da identidade matricial do ser sardo, que salta para dentro do mundo da fábrica e da cultura operária de Torino e que sente a necessidade iniludível do retorno a Sardenha, agora ampliada e feita campesinato e Mezzogiorno. Para Gramsci a percepção da necessidade da aliança operário-camponesa ganha, desde logo, um profundo entendimento de como o ‘espírito popular criativo’ e a sua rebeldia endêmica são ingredientes essências a se saldar com a racionalidade científica e técnica da produção capitalista. É essa mistura que origina a cultura e a vontade coletiva nacional-popular, fase transitória da qual emerge a autonomia emancipatória das massas.

Munido dessa dinâmica do pensamento, Gramsci parte para outros tempos e espaços. Percebe como muito poucos que a Rússia soviética se fez possível porque contou com o sólido alicerce da tradição comunal camponesa e manteve os olhos voltados para aquilo de fulgurante erigiu a civilização burguesa. Quando esse nexo e esse horizonte foram rompidos a Rússia regrediu para o estágio econômico-corporativo, característico da época feudal-absolutista, ainda que, ao modo de uma revolução passiva, sob a pressão imperialista do capitalismo tenha realizado sua industrialização.

Percebe, de outro lado, Gramsci, que o americanismo gerou uma nova forma de organização e potencialização da produção capitalista na qual a racionalidade, a disciplina, a ciência e a técnica eram exaltadas; que o resgate do puritanismo se articulava com uma disciplinarização da classe operária movida pelas exigências orgânicas do processo produtivo e que atingia extremos de alienação e estranhamento; que, ao mesmo tempo, uma nova cultura popular emergia na modernidade capitalista e assim um novo campo de disputa pela hegemonia, na produção e na cultura.

III

Assim, de volta a Itália, Gramsci é capaz de articular o particular e o universal não só da Itália como um todo que articula duas diferentes regiões por laços de dominação, mas a particularidade da questão meridional. Uma questão meridional que pode ser vista em perspectiva histórica e sob a especificidade do domínio fascista, mas que também pode tranqüilamente ser ampliada para a Europa e para todo o planisfério, no qual Norte e Sul, Ocidente e Oriente se entrecruzam. Da própria Itália, Gramsci saca elementos de universalidade entrelaçando a questão meridional, o problema dos intelectuais e a perspectiva da vontade coletiva nacional-popular, mas sempre ciente de que as questões particulares somente encontram explicação e significado no quadro internacional. 

Se em Maquiavel é que Gramsci procura na tradição cultural e intelectual da Itália elementos para pensar a vontade nacional-popular e o jacobinismo, em Leonardo Da Vinci, um intelectual cosmopolita pré-moderno do Renascimento, encontra o protótipo do homem massa intelectual universal do horizonte comunista. É o princípio unitário universal presente em Leonardo Da Vinci, que busca a correspondência entre arte, ciência e filosofia, entre pintura, natureza e Deus, a sugerir a Gramsci o perfil do homem emancipado.

Mas se os horizontes do Renascimento não iam além do mundo feudal, não podendo fazer do ‘homem total’ de Leonardo um fenômeno de massa e tampouco podendo dar vazão ao jacobinismo precoce do Príncipe de Maquiavel, e a Reforma protestante contribuiu fortemente para compor o ‘homo oeconomicus’ do capitalismo, Gramsci visualiza uma nova e rica oportunidade de um progresso intelectual de massa, em um contexto de forte teor internacionalista e universal, no possível nexo entre a ciência e a técnica gerada pelo americanismo e as novas expressões da cultura popular. A disciplina e a racionalidade do processo de trabalho acoplado a incorporação do conhecimento técnico e científico, dando vazão a uma nova cultura de massa, no contexto de uma nova hegemonia, ofereceria as condições para a emergência, por detrás do ‘gorila amestrado’, do homem ‘total’ emancipado.

Por outro lado, com sua propensão a Imperium Mundi, a disseminação do americanismo tenderia a se sobrepor não só ao fascismo, mas ao conjunto da Europa e também ao Ocidente subalterno do Tropicus Mundi, gerando uma nova onda de revoluções passivas em conflito com o espírito de rebeldia presente na vontade coletiva nacional-popular em construção em diversas partes do mundo.

IV

Nesse trajeto, Gramsci se desloca e ganha guarida no Tropicus Mundi. Da mesma forma que suas lentes foram capazes de interpretar ‘o mistério de Nápoles’ e experimentar a autogestão operária, Gramsci contribui para desvendar a particularidade do Tropicus Mundi no horizonte universal para além do americanismo e do Imperium Mundi.O Brasil é o Tropicus Mundi em síntese potencial, pois se manifesta como Ocidente e como Oriente, mas principalmente porque é ao mesmo tempo – no dizer de Darcy Ribeiro – Indo-América, Afro-América e Euro-América, cada qual subdividido em muitos, como muitas eram e tem sido a Itália e a Europa.

No Brasil a questão meridional se faz Nordeste, a América se faz Amazônia e a Torino operária se faz São Paulo. Na Itália e no Brasil, a rebeldia operária é combatida com doses de violência e absorvida com o corporativismo e com leis sociais, a rebeldia camponesa é resolvida com a exclusiva violência em nome da perpetuação do monopólio da terra. Os intelectuais críticos do Nordeste migram para o Sul e os grandes intelectuais têm lugar no Estado e prestígio internacional. O ‘espírito popular criativo’ dos meridionais italianos e dos nordestinos brasileiros é identificado como ‘preguiça crônica’, advinda da ‘raça’. A burguesia italiana, assim como a brasileira sonha o americanismo, mas reconhece que o corporativismo é a sua senda até que aquele se torne Imperium Mundi. A cooptação e a permanente decapitação do movimento operário e popular, por meio do transformismo, assemelham a ação político-cultural da burguesia de ambos os países.

Traduzir Gramsci para o Brasil, no entanto, significa ter o objetivo de superar um limite do pensamento crítico brasileiro, nos seus vários matizes, que ora exalta a particularidade desse Tropicus Mundi, seja mostrando aspectos particulares de sus cultura e sociabilidade, ora o dilui no universal gerado pelo capitalismo. A dialética entre o particular e o universal no Brasil do século XXI, a contribuição que o Brasil pode oferecer a humanidade é a de internacionalizar sua cultura nacional-popular e a de digerir o americanismo, naquilo que de rico oferece sua cultura popular e a ciência e a técnica que não cessa de gerar, e expelir o estranhamento que comporta.

No entanto, para que o Brasil seja mais do que um Ocidente subalterno, mais do que uma zona contaminada por um americanismo predatório, deve configurar uma nova hegemonia nacional / internacional / popular, fundada nas forças do trabalho, da ciência e do ‘espírito popular criativo’. Esse é o único caminho para que o Tropicus Mundi se reverta em moradia possível do homem ‘total’ emancipado de Leonardo e de Gramsci.

 

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