TROPICUS
MUNDI
Pensar o
Sul do Mundo pelas lentes de Gramsci
I
Desde
há cinco séculos, pensar o Tropicus Mundi tem sido pensar a
zona colonial e subalterna do Imperium Mundi. Nessa trajetória,
tanto quanto anteriormente se pensava em seres míticos antípodas,
foram geradas representações do subalterno, igualmente míticas e
próprias do Tropicus Mundi: o índio e o negro. Assim, o índio
e o negro são representações do subalterno próprias da
modernidade. Na realidade da vida colonial, índio e negro eram
representações que justificavam a servidão e a escravidão.
A
partir do final do século XIX, completado o genocídio do índio
(que ficou isolado nas florestas, montanhas e periferias miseráveis)
e esgotada a escravidão africana (com a ocupação direta da própria
África) as massas de trabalhadores pobres -- expulsos da Europa
pela contradição gerada entre a disseminação do capitalismo e a
resistência dos herdeiros da nobreza feudal (que geraram formas
diversas de ‘revolução passiva’) -- vieram compor a nova geração
do ser social subalterno, dentro do Tropicus Mundi.
O
Tropicus Mundi não pode ser identificado tão bem nas
antigas culturas dos Orientes, nem tampouco na África, reduzida a
uma ‘planície’ de deserto e floresta habitados por berberes e
negros confundidos com a natureza luxuriante que os envolve. A América
meridional é o Tropicus Mundi par excellence, porque
Ocidente subalterno e criação ex nihlo do Imperium Mundi
nascido na Europa, das entranhas da Igreja de Roma e que, in
contradicto representa o encontro possível desses seres sociais
subalternos. O encontro, no entanto, só pode se realizar em um
movimento emancipatório que desconstrua a próprias noções de índio,
negro e branco ou mestiço pobre.
Pensar
a particularidade do Tropicus Mundi vinculada a sua
universalidade só é possível se for uma operação contra o Imperium
Mundi. Mas pensar universalmente contra o Imperium Mundi,
partindo da particularidade do Tropicus Mundi e de seu possível
horizonte de antípoda, não pode ser feito partindo-se dos
fragmentos culturais do ser social subalterno, mas de uma
perspectiva universal gerada nas próprias entranhas da ‘besta’.
II
A
forma do pensamento e a concepção teórica do comunismo de Gramsci
(firmemente ancorado na filosofia da práxis e na teoria social de
Marx) oferecem um instrumental precioso para a reflexão sobre o Tropicus
Mundi e o antagonismo ao Imperium Mundi. A riqueza da
dialética com que Gramsci pensa o particular no universal e as mais
recônditas possibilidades de inovação e transformação do mundo,
presente ora no pré-moderno, ora na avançada modernidade, em um
movimento de pensamento que sempre nos leva para um futuro possível
de emancipação humana, mesmo que dentro de condições extremas de
dificuldade e insolubilidade.
A
dinâmica dialética do pensamento de Gramsci abre enormes
possibilidades para se pensar o mundo atual, no qual jamais como
antes a representação ideológica do Imperium Mundi se fez
tão próxima e tão real sob o intangível poder do capital, único
sujeito livre dentro do despotismo universalizado. O fato das lentes
de Gramsci viajarem por todos os espaços da Terra e pelo tempo da
construção – como uma interminável catedral gótica – do Imperium
Mundi, permite um vislumbre radicalmente crítico do existente.
Da
identidade matricial do ser sardo, que salta para dentro do mundo da
fábrica e da cultura operária de Torino e que sente a necessidade
iniludível do retorno a Sardenha, agora ampliada e feita
campesinato e Mezzogiorno. Para Gramsci a percepção da
necessidade da aliança operário-camponesa ganha, desde logo, um
profundo entendimento de como o ‘espírito popular criativo’ e a
sua rebeldia endêmica são ingredientes essências a se saldar com
a racionalidade científica e técnica da produção capitalista. É
essa mistura que origina a cultura e a vontade coletiva
nacional-popular, fase transitória da qual emerge a autonomia
emancipatória das massas.
Munido
dessa dinâmica do pensamento, Gramsci parte para outros tempos e
espaços. Percebe como muito poucos que a Rússia soviética se fez
possível porque contou com o sólido alicerce da tradição comunal
camponesa e manteve os olhos voltados para aquilo de fulgurante
erigiu a civilização burguesa. Quando esse nexo e esse horizonte
foram rompidos a Rússia regrediu para o estágio econômico-corporativo,
característico da época feudal-absolutista, ainda que, ao modo de
uma revolução passiva, sob a pressão imperialista do capitalismo
tenha realizado sua industrialização.
Percebe,
de outro lado, Gramsci, que o americanismo gerou uma nova
forma de organização e potencialização da produção capitalista
na qual a racionalidade, a disciplina, a ciência e a técnica eram
exaltadas; que o resgate do puritanismo se articulava com uma
disciplinarização da classe operária movida pelas exigências orgânicas
do processo produtivo e que atingia extremos de alienação e
estranhamento; que, ao mesmo tempo, uma nova cultura popular emergia
na modernidade capitalista e assim um novo campo de disputa pela
hegemonia, na produção e na cultura.
III
Assim,
de volta a Itália, Gramsci é capaz de articular o particular e o
universal não só da Itália como um todo que articula duas
diferentes regiões por laços de dominação, mas a particularidade
da questão meridional. Uma questão meridional que pode ser vista
em perspectiva histórica e sob a especificidade do domínio
fascista, mas que também pode tranqüilamente ser ampliada para a
Europa e para todo o planisfério, no qual Norte e Sul, Ocidente e
Oriente se entrecruzam. Da própria Itália, Gramsci saca elementos
de universalidade entrelaçando a questão meridional, o problema
dos intelectuais e a perspectiva da vontade coletiva
nacional-popular, mas sempre ciente de que as questões particulares
somente encontram explicação e significado no quadro
internacional.
Se
em Maquiavel é que Gramsci procura na tradição cultural e
intelectual da Itália elementos para pensar a vontade
nacional-popular e o jacobinismo, em Leonardo Da Vinci, um
intelectual cosmopolita pré-moderno do Renascimento, encontra o
protótipo do homem massa intelectual universal do horizonte
comunista. É o princípio unitário universal presente em Leonardo
Da Vinci, que busca a correspondência entre arte, ciência e
filosofia, entre pintura, natureza e Deus, a sugerir a Gramsci o
perfil do homem emancipado.
Mas
se os horizontes do Renascimento não iam além do mundo feudal, não
podendo fazer do ‘homem total’ de Leonardo um fenômeno de massa
e tampouco podendo dar vazão ao jacobinismo precoce do Príncipe de
Maquiavel, e a Reforma protestante contribuiu fortemente para compor
o ‘homo oeconomicus’ do capitalismo, Gramsci visualiza uma nova
e rica oportunidade de um progresso intelectual de massa, em um
contexto de forte teor internacionalista e universal, no possível
nexo entre a ciência e a técnica gerada pelo americanismo e
as novas expressões da cultura popular. A disciplina e a
racionalidade do processo de trabalho acoplado a incorporação do
conhecimento técnico e científico, dando vazão a uma nova cultura
de massa, no contexto de uma nova hegemonia, ofereceria as condições
para a emergência, por detrás do ‘gorila amestrado’, do homem
‘total’ emancipado.
Por
outro lado, com sua propensão a Imperium Mundi, a
disseminação do americanismo tenderia a se sobrepor não só
ao fascismo, mas ao conjunto da Europa e também ao Ocidente
subalterno do Tropicus Mundi, gerando uma nova onda de revoluções
passivas em conflito com o espírito de rebeldia presente na vontade
coletiva nacional-popular em construção em diversas partes do
mundo.
IV
Nesse
trajeto, Gramsci se desloca e ganha guarida no Tropicus Mundi. Da
mesma forma que suas lentes foram capazes de interpretar ‘o mistério
de Nápoles’ e experimentar a autogestão operária, Gramsci
contribui para desvendar a particularidade do Tropicus Mundi no
horizonte universal para além do americanismo e do Imperium
Mundi.O Brasil é o Tropicus Mundi em síntese potencial,
pois se manifesta como Ocidente e como Oriente, mas principalmente
porque é ao mesmo tempo – no dizer de Darcy Ribeiro – Indo-América,
Afro-América e Euro-América, cada qual subdividido em muitos, como
muitas eram e tem sido a Itália e a Europa.
No
Brasil a questão meridional se faz Nordeste, a América se faz Amazônia
e a Torino operária se faz São Paulo. Na Itália e no Brasil, a
rebeldia operária é combatida com doses de violência e absorvida
com o corporativismo e com leis sociais, a rebeldia camponesa é
resolvida com a exclusiva violência em nome da perpetuação do
monopólio da terra. Os intelectuais críticos do Nordeste migram
para o Sul e os grandes intelectuais têm lugar no Estado e prestígio
internacional. O ‘espírito popular criativo’ dos meridionais
italianos e dos nordestinos brasileiros é identificado como
‘preguiça crônica’, advinda da ‘raça’. A burguesia
italiana, assim como a brasileira sonha o americanismo, mas
reconhece que o corporativismo é a sua senda até que aquele se
torne Imperium Mundi. A cooptação e a permanente decapitação
do movimento operário e popular, por meio do transformismo, assemelham
a ação político-cultural da burguesia de ambos os países.
Traduzir
Gramsci para o Brasil, no entanto, significa ter o objetivo de
superar um limite do pensamento crítico brasileiro, nos seus vários
matizes, que ora exalta a particularidade desse Tropicus Mundi, seja
mostrando aspectos particulares de sus cultura e sociabilidade, ora
o dilui no universal gerado pelo capitalismo. A dialética
entre o particular e o universal no Brasil do século XXI, a
contribuição que o Brasil pode oferecer a humanidade é a de
internacionalizar sua cultura nacional-popular e a de digerir o americanismo,
naquilo que de rico oferece sua cultura popular e a ciência e a
técnica que não cessa de gerar, e expelir o estranhamento que
comporta.
No
entanto, para que o Brasil seja mais do que um Ocidente subalterno,
mais do que uma zona contaminada por um americanismo predatório,
deve configurar uma nova hegemonia nacional / internacional /
popular, fundada nas forças do trabalho, da ciência e do ‘espírito
popular criativo’. Esse é o único caminho para que o Tropicus
Mundi se reverta em moradia possível do homem ‘total’
emancipado de Leonardo e de Gramsci.