Dilemas
dos Movimentos Sociais e Organizações Populares em Minas Gerais
1.
Preâmbulo
Os
movimentos sociais mineiros e organizações não-governamentais
(ONGs) possuem uma peculiaridade em relação ao restante do país.
Há
uma leitura recorrente nos estudos especializados em perceber uma
trajetória de institucionalização dos movimentos sociais
brasileiros que retira algumas de suas características originais,
como o mobilismo
permanente como instrumento de legitimação de suas lideranças
junto à sua base social e o assembleísmo
na tomada de decisões. A década de noventa teria criado um
ambiente de conquistas legais, combinadas com a crise do modelo
desenvolvimentista e a crise fiscal do Estado moderno, que conformou
uma estrutura organizativa e um distanciamento social progressiva
das lideranças populares. O fórum de embates sociais deixou de ser
a rua e a fábrica e foi transferido para os gabinetes e salas de
negociação.
No
caso das ongs, o fim do mobilismo
abriu uma trincheira política importante. A ABONG, Associação
Brasileira de ONGs, provocou um importante debate a respeito dos
modelos de representação social que despontavam no final do século
passado. Em alguns de seus textos, sugeriu que as ongs haviam se
transformado num importante modelo de representação, típica de
uma sociedade fragmentada, altamente diferenciada em seu interior.
Sindicatos e partidos estariam fadados ao esgotamento da representação
corporativa ou universal. O fato é que as ongs evoluíram, em
alguns casos, para OSCIPs e passaram a assumir a condução de políticas
públicas em muitas regiões do país. Daí, teriam surgido relações
privilegiada entre algumas ongs e agências estatais, conformando anéis
burocráticos entre repartições públicas e coordenações de
entidades. A fragmentação das políticas públicas, em estado avançado
no Brasil, foi alimentada por este processo. Um estudo a ser
realizado, que poderá confirmar esta hipótese, é o montante de
recursos públicos alocados em programas sociais desenvolvidos por
ongs. O mote analítico desta proposição é a crise da sociedade
do emprego assalariado e o aumento da flexibilidade produtiva.
Minas
Gerais passa por esta mutação, mas de maneira muito particular em
virtude da peculiaridade dos seus movimentos sociais e ongs.
A
primeira marca de Minas é o personalismo, herança portuguesa.
Minas Gerais é o Estado mais português de todo o país, seguido
por uma porção de Santa Catarina e norte do Brasil. E Portugal
forjou um binômio de prática política fundado no forte controle
burocrático (que, no Brasil, personalizou as figuras do Governador
Geral, Ouvidor, Juiz de Fora, entre tantos administradores e
controladores criados ainda no século XVI) e no personalismo. Minas
se alimenta, mesmo no campo da esquerda, deste personalismo muito
especial. Não por outro motivo, as forças políticas, incluindo as
populares, possuem forte identidade com deputados, vereadores e,
ainda que em menor grau, lideranças específicas. Este é o Estado
onde a liderança de bispos da Igreja Católica é mais sentida nas
comunidades de base. Há, aqui, uma certa dose de cultura rural
(onde a política é uma adesão a um grupo). Embora não
determinante, é possível, ainda, ressaltar os traços femininos da
cultura política mineira. As conversas reservadas e privadas, a ausência
de agressividade muito acentuada nos embates partidários, a
cordialidade entre adversários, a tendência ao acordo, são marcas
de um Estado onde a economia que por muito tempo fez dos homens
viajantes (tropeiros, em tempos mais remotos), destacou a liderança
feminina na administração dos negócios domésticos, privados, e
condução da família. Minas é também um Estado onde as mulheres
se destacam na liderança dos espaços privados, margeando a liderança
pública (em que outro Estado temos uma galeria de lideranças
femininas como Dona Beja, Xica da Silva e tantas primeiras-damas de
proeminência política?)
Esta
característica respinga e se reproduz nos movimentos sociais e ongs
mineiras. Não por outro motivo, as ongs e a grande maioria dos
movimentos sociais desta região são absolutamente localistas. Não
temos ongs estaduais ou nacionais, como ocorrem em outros Estados da
região sudeste do país. Nossos eventos são efêmeros,
passageiros. Não temos articulações permanentes entre movimentos
sociais, com exceção dos fóruns temáticos, claramente vinculados
aos conselhos estaduais de gestão pública. Não são iniciativas
que emergem de uma vocação pública das entidades populares e
movimentos sociais.
As
exceções reforçam a regra: as ongs e movimentos sociais mineiros
raramente se envolvem com temas e campanhas gerais, nascidas no
Estado. Quando se envolvem com uma pauta nacional ou geral,
dificilmente não o fazem por motivação de articulações externas
ao Estado. Historicamente vinculam-se a grupos de interesses e
beneficiários muito específicos (como é fartamente citado nos
estudos sobre o Vale do Jequitinhonha, onde há baixa articulação
entre entidades e movimentos sociais). Na história recente de
Minas, os movimentos sociais e ações de ongs com maior
visibilidade foram oriundos de regiões rurais. Nas áreas urbanas,
as entidades populares possuem uma rotina de escritórios de
projetos, altamente segmentadas em áreas de especialização (temática
e territorial). São raras as tentativas de articulação estadual
ou nacional a partir de temas mineiros, por iniciativa própria.
Grande parte das ongs vinculam-se a programas ou recursos públicos.
As
características marcantes, contudo, são o localismo e o
personalismo.
Delas
nasce uma crença: em Minas, a organização doméstica, pequena, é
valorizada. A polêmica pública, agressiva, não é reconhecida
como método político eficaz. Não raro, lideranças religiosas
afirmam que os mineiros gostam de denúncias, mas abominam os que
denunciam. O discreto seria mais correto politicamente. Obviamente
que esta crença solapa ações públicas agressivas e de grande
envergadura. Aqui, o recato português ganhou raízes. Trata-se de
uma crença e de um comportamento muito distintos da extroversão
nordestina ou da agressividade paulista e gaúcha. São distintos,
ainda, da cultura pública do norte e centro-oeste do país. Os
mineiros são intimistas.
Daí
uma certa confusão entre descentralizar ou fragmentar ações e políticas.
A cultura política mineira, incluindo as ongs e entidades
populares, parece afiliada à cultura universitária e menos à
cultura criadora, popular. Esta distinção técnica foi proposta
por Alfredo Bosi, separando cultura universitária e de massas da
cultura popular e criadora. O que sugerimos é que o campo popular
(em especial, as ongs e entidades constituídas) de Minas Gerais é
mais racional e mais vinculado ao institucional e menos instituinte.
Esta
breve análise procura responder a crescente indagação que redes e
associações de movimentos sociais e ongs fazem aos mineiros,
procurando compreender a razão das dificuldades para ingressarem em
Minas Gerais ou articularem ações em Minas. Os mineiros, quase
sempre, formam as maiores delegações em encontros nacionais, fora
de Minas Gerais. Mas sentem dificuldades em organizar eventos gerais
em seu próprio Estado. Sentem dificuldades em assumir o
protagonismo das lutas sociais nacionais.
2.
Apesar da teoria...
Em
2005, o refluxo ou a baixa capacidade de mobilização social se fez
sentir em Minas Gerais. Sintomaticamente, as articulações mais
concorridas foram as organizadas pela Via Campesina e deputados
estaduais para discutirem a crise política instalada com as denúncias
de corrupção no governo Lula. Ocorreram greves (como a de
professores da rede pública) e ocupações de terra, mas
dificilmente conseguiram romper com seus limites corporativos ou
territoriais.
As
tensões e conflitos sociais se multiplicaram, mas não ganharam as
manchetes de jornais, nem passaram de moções de apoio de entidades
não diretamente relacionadas com os conflitos. Há uma forte tendência
de lideranças sociais mineiras creditarem ao bloqueio da grande
imprensa mineira o isolamento político. Contudo, este fator, embora
real e relevante, não explica totalmente a dificuldade própria dos
movimentos sociais e entidades populares na sua capacidade de
liderança. É possível, à título de ilustração, destacar
algumas possibilidades não exploradas por este campo político:
a)
Ausência de comunicação e informação em rede: não
existem boletins eletrônicos ou instrumentos de comunicação
freqüentes entre movimentos sociais e entidades populares. A única
agenda popular existente em Minas Gerais e de fácil acesso é a
publicada pelo CEDEFES. Nem mesmo os jornais e boletins do
Sindicato dos Jornalistas conseguem cobrir e divulgar as agendas
populares. O amadorismo e o boca-a-boca ainda marcam as relações
deste campo político;
b)
Formação política fragmentada: apesar de muitos
estados brasileiros avançarem na formulação de cursos
integrados de formação de lideranças populares (em especial, em
controle social de políticas públicas), Minas Gerais nem mesmo
tateia nesta direção. As atividades formativas são erráticas,
localistas, descontínuas. A maior Escola Sindical do país ficava
em Belo Horizonte. Por falta de liderança e protagonismo político,
limita-se, hoje, a um espaço de locação para eventos;
c)
Rede de apoio e solidariedade: áreas de tensão
social e embates políticos intensos não merecem campanhas ou
grandes esforços solidários em Minas Gerais. Este é o caso das
campanhas de professores – que não ganham solidariedade ativa
de movimentos sociais –, a tensão na construção da usina de
Irapé (limitada à luta da CPT-Minas) ou a luta pela contra a
Super-receita e a MP 281 desfechada pelo Unafisco (que nem mesmo
entra na agenda das entidades), ou ainda a luta contra a transposição
do Rio São Francisco (que ganhou maior visibilidade, mas que não
se ganhou projeção nos grandes centros urbanos). A solidariedade
ativa poderia gerar campanhas, passeatas de rua, cartazes e
folders unificados, intervenção articulada e organizada em
programas de TV e rádio, intervenções coordenadas de
parlamentares.
Apesar
das ausências, as poucas iniciativas de articulação já citadas,
continuam estimulando outras ações. No início deste ano, a mais
importante é a convocação do Encontro dos Movimentos Sociais
Mineiros para se prepararem para a 47ª Reunião Anual de
Governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que
ocorrerá em Belo Horizonte entre os dias 28 de março e 05 de
abril. A convocatória feita por um conjunto de 14 entidades e
movimentos sociais,
pode significar um possível avanço na articulação política aqui
reclamada e sugere a construção de um Projeto Popular e Soberano
para o Brasil.
No
final de 2005, a frente estadual de segurança alimentar conquistou
a aprovação da lei que regulamenta a política de segurança
alimentar no Estado. As lideranças populares envolvidas nesta
empreitada já iniciaram encontros para preparar a instalação de
conselhos regionais e municipais de segurança alimentar.
Entretanto, trata-se de mais uma iniciativa ainda isolada, restrita
aos militantes da área.
Em
relação às lutas indígenas, ocorreram alguns avanços, como a
promessa de demarcação de uma área no Parque Estadual Sete Salões,
no Rio Doce, após forte pressão de lideranças indígenas que
chegaram a bloquear a ferrovia Vitória-Minas.
No
que tange à luta pela terra e reforma agrária, o impacto maior do
ano foi a estimativa do INCRA-MG que 10% dos assentados encontram-se
em situação irregular. Existem 15 mil famílias acampadas em 180
localidades (irregulares ou à beira de rodovias mineiras). A maior
concentração de assentamentos está localizada, hoje, no Triângulo
Mineiro (3.300 famílias), seguida pelo norte do Estado (1.000). A
região mais tensa, no momento, está localizada na região leste de
Minas Gerais, onde 120 famílias cadastradas esperam, à beira da
BR-116, por seu assentamento. Em Minas existem 11 milhões de
hectares de terras devolutas (1 milhão ocupadas por posseiros e
companhias reflorestadoras), concentradas na região Norte.
Os
fóruns e redes parecem ocupar, gradativamente, o espaço político
que antes era ocupado pelas centrais sindicais. São freqüentes
encontros e iniciativas articuladas (embora restritas aos seus
campos de atuação) dessas novas formas de organização social.
Parte das dificuldades sindicais reside no modelo de gestão
empresarial adotada pelos governos (estaduais, federal e em parte
dos municipais). O que vários assessores e gestores públicos
denominam de choque de gestão
é, de fato, a adoção de modelos empresariais de gerenciamento da
máquina pública. Esta concepção de gestão foi iniciada no Reino
Unido, nos anos 80, e lá ganhou o título de Nova
Gestão Pública. No Brasil foi inicialmente elaborada pelo
ex-ministro Bresser Pereira, mas rapidamente encampada por
economistas cariocas, vinculadas à PUC-RJ e FGV-RJ. Em Minas
Gerais, economistas e professores da área de administração da
UFMG passaram a reelaborar essas orientações. O viés economicista
que o Brasil adotou gerou o que se pode denominar de financeirização
da gestão pública, ou seja, a adoção de indicadores de mercado
(em especial, de atração de investimentos externos) como sinalização
para prioridades de governo. Assim, cortes nos gastos públicos,
redução de investimentos em áreas sociais, avaliação de
desempenho com foco em resultados de atendimento, criação de
ambiente seguro para investimentos (o que inclui infraestrutura,
segurança pública, desoneração do capital), passaram a
constituir a cantilena gerencial do momento.
Para
o movimento sindical, em especial, vinculado às categorias públicas,
o impacto é imediato, porque sua base social percebe-se cercada.
Cercada, de um lado, pelo controle sobre seu desempenho individual
(e não coletivo) e, de outro, pelo corte constante de recursos. A
fragmentação da categoria aumenta, ainda, em virtude de poucos e
seletivos investimentos ou depreciação acelerada da importância
política das categorias. Dois exemplos ilustram esta afirmação.
Na educação estadual, a criação de escolas-referência gerou uma
forte segmentação da categoria. É freqüente professores dessas
escolas sugerirem estratégias para colegas que não dispõem das
mesmas condições de trabalho nas escolas regulares. Outro exemplo
nítido é a fusão de auditores-fiscais da Receita Federal e Previdência
Social. A fusão diminui o poder político de várias categorias,
procura nivelar funções e aumenta a distância entre funcionários
e dirigentes dos órgãos públicos.
Enfim,
um longo período de encolhimento às pautas corporativas criou um
ambiente propício para ações gerenciais dessa natureza. Vários
sindicatos encontram-se isolados e, embora suas direções sejam
experientes e experimentadas, não conseguem romper com o vício
original dos anos 90: a fragmentação e a especialização.
Parece
evidente que se faz necessária uma nova estratégia organizativa e
de pressão política, possivelmente adotando os métodos de
movimentos que parecem lograr maiores vantagens políticas, como no
caso do MST. A ocupação de escolas-referência por professores e
pais de alunos das escolas regulares, a distribuição de denúncias
em bares e feiras livres, a instalação de bandas e artes plásticas
em áreas públicas (praças e outras áreas com grande
visibilidade, mas que não comprometem a locomoção da população),
o envio de e-mails para formadores de opinião (não apenas
jornalistas, mas também donos de restaurantes, donos de bares,
diretores de cooperativas, livrarias), o uso mais freqüente de
outdoors, a visita programada de muitos sindicatos aos locais de
trabalho de uma categoria (como ato móvel de solidariedade) são
estratégias típicas da Era do Espetáculo.