Sobre dívidas:
externa, interna e social
Foi
proclamada e amplamente divulgada a redução da dívida externa,
inclusive a liquidação do débito com o Fundo Monetário
Internacional. Mas trata-se de pura pirotecnia: a redução
parcial da dívida externa significou na realidade uma transferência
para a dívida interna que chegou a quase R$ 1 trilhão – metade
do PIB anual.
Ainda
por cima, foi um mau negócio para o país, ou seja, para os
contribuintes e para a população em geral, cuja dívida per
capita aumentou para R$ 50 mil ou, em outras palavras, o
brasileiro que ganha um salário mínimo necessitaria pagar sua dívida
de aproximadamente 170 anos!
A
transferência da maior parte da dívida externa beneficiaria,
como sempre, as elites neste jogo de especulação e suposta política
monetária do governo, rentistas e grandes empresas que aplicam
seu dinheiro no mercado interno, sendo contemplados por altas
taxas de juros – atualmente, em fevereiro de 2006, de 17,25% ao
ano, enquanto as aplicações nos outros países, mais
civilizados, alcançam entre 3,5 e 4% ao ano.
Não
é de admirar-se que os chamados “investimentos externos” se
reduzam a aplicações em papéis do governo e dos supostamente
“sólidos” bancos brasileiros, com liquidez até agora instantânea,
e a livre entrada e saída das moedas fortes.
Em
vão, o Banco Central tenta assegurar a queda do dólar, poderoso
fator de desestímulo às exportações, através de leilões de
compra. A entrada de dólares parece inesgotável, por causa da
voracidade por lucros fáceis e rápidos do capital especulativo.
Para cada unidade de moeda estrangeira “investida” no país, o
governo está obrigado a emitir o valor equivalente em moeda
nacional ou recorrer à colocação de papéis, bonds,
letras do Tesouro etc. que rendem 18% ao ano, o que explica a
elevação constante e irreversível da dívida interna, cujo
custo de serviços com os juros pagos constitui o mais sério obstáculo
a um crescimento da economia do país.
É
por este motivo que as classes dominantes, desde os agronegócios
até as grandes empresas industriais ou bancos e a maioria dos políticos
apóiam, apesar de tímidos protestos isolados, a política econômico-financeira
e monetária do governo Lula e, muito provavelmente, darão seu
voto à recandidatura do mesmo nas eleições de outubro vindouro.
Ademais,
a política de “compensação” do governo distribuindo
“bolsas-família” a quase nove milhões de famílias –
aproximadamente 45 milhões de brasileiros mais pobres –
assegura a Lula seus votos para a eleição, mesmo com a perda
parcial de votos da classe média, inclusive de antigos membros do
PT.
Com
tudo isso, a dívida social do Brasil alcança níveis astronômicos,
cujo resgate se distancia a cada dia. Segundo estimativas de agências
internacionais e nacionais idôneas, o déficit habitacional se
eleva a mais de 8 milhões de unidades, significando, a um custo
unitário estimado de R$ 25 mil, a necessidade de investir R$ 200
bilhões. Acrescentem-se as despesas correlacionadas em saneamento
básico, fornecimento de água potável, iluminação, educação,
saúde e, sobretudo a criação de emprego e a formação de
recursos humanos qualificados.
Efetivamente,
com vinte anos de estagnação econômica seguidos de três anos
de política macroeconômica e monetária neoliberal do governo
Lula, obedecendo religiosamente às imposições das políticas
financeiras ortodoxas do Fundo Monetário Internacional, o país
está exaurido pela pesada carga de juros a “credores”
nacionais e internacionais, ou seja, o capital especulativo que
dispõe de imensa liquidez e sempre procura os meios de maximizar
seus lucros. O Brasil, com um taxa de juros oficial de 20% até
recentemente (hoje está em 17,25%) tornou-se o mercado predileto
para o capital e investidores, nacionais e estrangeiros. A entrada
e a “saída” livres do capital e suas aplicações em papéis
de governo e bancos privados – não em investimentos produtivos
– resultou numa elevada carga fiscal que, combinada com o superávit
primário maior do que o programado pelo governo Lula, não
conseguiu pagar os juros (R$ 160 bilhões, em 2005) e, ao mesmo
tempo, deixou o país empobrecido e sem recursos para
investimentos em infra-estrutura e, sobretudo, no resgate da dívida
social.