Voto
Nulo – Uma Outra Política é Possível!
Não
molestarei os leitores com “argumentos de autoridade” retirados
dos clássicos do anarquismo, do marxismo heterodoxo ou mesmo dos cânones
marxistas-leninistas que teceram críticas à dita “democracia
burguesa”. Tampouco almejo convencê-los; nem pretendo, sob hipótese
alguma, liderar o MSP (Movimento dos Sem Partidos). O
objetivo é apenas compartilhar reflexões sobre a política da
esquerda que não compactua com a política petista e se
auto-denomina a alternativa revolucionária para a sociedade
brasileira.
Confesso:
votei em Lula desde 1982. Aliás, meu pecado é maior: fiz
campanha eleitoral e fui o tipo de militante que usava a
estrelinha (ainda a tenho guardada junto a um broche do Che
Guevara – não sei se ele gosta dessa companhia). Não obstante,
tenho orgulho deste passado. Mesmo depois que me desliguei do PT, em
1991, continuei votando no companheiro Lula. Porém, embora lulista
– Freud explica! – não faço parte do time dos desiludidos.
Admito, ainda, que restava uma ponta de esperança de que o governo
Lula conseguisse ao menos se diferenciar dos outros. Mas não me
iludi, votei consciente dos limites. Só não esperava,
sinceramente, que chegasse à situação que vivenciamos. Porém,
mesmo insistindo no voto, conclui há tempos que a política partidária
não é o meu caminho. Desde 1991 que não milito em partidos políticos
e, na próxima eleição, comparecerei à seção eleitoral apenas
para anular o meu voto.
Respeito
a posição dos que ainda investem suas energias na política
institucional e militância partidária. Fazem melhor que os seus críticos
encastelados em instituições públicas e que fazem o papel de
conselheiros, intelectuais isolados em suas torres de marfins, mas
sem qualquer compromisso social e políticos. Os que agem ao menos
tentam fazer algo para mudar a realidade social e política
brasileira. Não se constrói um outro mundo apenas com as teorias e
abstrações dos que parecem viver nas nuvens. As idéias só ganham
força quando são materializadas. Em tempos de comunicação
virtual é fácil fazer o papel de crítico, tendo como interlocutor
apenas o teclado, monitor e um indefinível leitor.
Não
tenho intenção de fazer um julgamento moral dos companheiros e
companheiras que aceitam o caminho político dos partidos e da
institucionalidade. Eles sabem o que fazem e também sabem que
estaremos juntos na crítica social e política e na defesa dos
princípios que ainda acreditamos – apesar do PT e da história
dos partidos ditos revolucionários. Porém, me convenci que, na
atual conjuntura, a política alternativa é a desconstrução da
política institucional, a desligitimação do sistema político e
eleitoral, em suma o ato ativo e consciente de anular o voto.
A
política pela anulação do voto pode vir a ser uma importante
contribuição à sociedade brasileira, e mesmo à democracia e à
transformação das instituições representativas; expressa um
choque na política convencionalmente aceita. E ninguém precisa se
converter ao anarquismo por causa disso, nem será a primeira vez
que partidos se recusariam a legitimar o sistema político vigente.
Por que será, então, que a esquerda, que se afirma como
alternativa ao petismo e aos partidos burgueses, não assume a política
afirmativa pelo voto nulo?
O
preconceito dos iluminados
A
política institucional sempre foi uma atividade restrita à minoria
da sociedade. Mesmo na Grécia antiga, os cidadãos eram os
“homens livres”, a parcela minoritária da sociedade grega, pois
não incluía as mulheres e os escravos. Na modernidade, a política
permaneceu restrita aos proprietários – como na antiguidade, o
estatuto de cidadania é dado pela posse da propriedade. Os liberais
de então não viram contradição entre a liberdade contratual de
mercado e a exclusão das massas à política do Estado. No Brasil,
a política sempre foi elitista – basta recordar que só na década
de 1980 que o direito de voto se tornou realmente universal,
incluindo os analfabetos.
A
conquista da democracia gera a ilusão de que a política finalmente
passou a ser uma atividade das massas. O voto a cada eleição não
indica participação efetiva na política, mas apenas o exercício
de um direito que, em nosso caso, é também um dever, já que é
obrigatório. Boa parte da população nega a política
institucionalizada, considera que é algo próprio dos políticos
profissionais e se restringe a votar nas eleições. Mesmo nestas
oportunidades é cada vez maior o contingente dos absenteístas e
dos que votam nulo e branco (e este não é um fenômeno restrito ao
Brasil).
O
crescente descrédito em relação à política e aos políticos é
uma reação compreensível. A necessidade impele o indivíduo a
viver imerso em seu cotidiano. No fundo, torce para que, na melhor
das hipóteses, os políticos não atrapalhem a sua vida. Acompanha
o noticiário político como se este não lhes dissesse respeito
direto. Sabe, entretanto, que determinadas políticas podem ser
prejudiciais; quando muito, resiste, mas não vê o mundo da política
como o “seu mundo”. Parece-lhe que os políticos vivem em outra
esfera. E isto não se restringe a uma determinada classe social:
empresários e trabalhadores que não estão envolvidos em suas
entidades de classe apenas esperam que lhes deixem viver sem grandes
traumas. Para estes, a política e os políticos são um estorvo,
quando muito aceitam-nos como um mal necessário.
Esta
maioria, na linguagem política, são os alienados, uma espécie
de analfabetismo político, e representariam o conservadorismo
político. Mas a realidade não é tão simples e o simplismo
pode se revelar mero preconceito! Primeiro, a minoria militante,
aquela que se engaja na política, muitas vezes tem mais a conservar
do que os que apenas “deixam a vida lhes levar”. Segundo, há
uma diferença entre ser apolítico e anti-político (contra os políticos
e a política partidária). Terceiro, não participar da política
institucional não significa necessariamente não fazer política: a
negação é também uma ação política. Se negar a embarcar no Titanic
da política institucional é também uma forma de resistência. Por
fim, é esta maioria “alienada” e “analfabeta” que, em
determinados contextos históricos sociais, atuam
extra-institucionalmente e, ao agirem, impõem aos políticos
profissionais o caráter social da política.
Os
iluminados e preconceituosos em relação à massa ignorante,
em geral vista como manipulável aos interesses particulares,
encobertos por uma retórica universalizante e mesmo de matiz
retoricamente revolucionária, tendem a conceber esse movimento como
fruto da sua ação vanguardista e logo tratam de canalizar essa
energia e aprisioná-la nos limites da organização e das instituições
políticas. É assim que nascem os partidos dos trabalhadores; é
assim que se dá continuidade ao círculo historicamente vicioso de
radicalidade, acomodação, adaptação e conservadorismo político
das instituições partidárias identificadas em suas origens com as
aspirações populares e proletárias. Eis uma história que se
repete como tragédia desde o século XIX...
O
eleitor não é bobo!
Se
todos parecem iguais, se o discurso de todos se equivale, por que
participar desta política? O que realmente mudará se elegermos
este ou aquele candidato? A impressão que fica é que tanto faz.
Nestas condições, é lícito perguntar: por que votar? Para que
servem os partidos políticos?
Estas
questões não se resolvem lançando a pecha de conservadorismo
aos que negam a política. Os rótulos políticos, as marcas imprimidas
em relação às atitudes e ações dos indivíduos que não se
adaptam aos esquemas estabelecidos, delimitam politicamente os
campos e estabelecem distinções genéricas que justificam uma
determinada política.
Os
candidatos tentam responder a estas interrogações apresentando um
discurso universalista, do bem comum e tentam ganhar ares de
seriedade. Em tempos eleitorais, a educação, a saúde, a segurança
etc., assumem tom de realismo virtual: todos são transformados em
cidadãos e cidadãs! Todos parecem ter acesso aos direitos de
cidadania ou prometem que usufruiremos e que tais direitos serão
ampliados. Mas a vida real teima em desmentir a propaganda
eleitoral.
Em
tempos de eleições vendem a idéia de que poderemos alcançar o
paraíso. É impressionante como determinados candidatos parecem
duvidar da inteligência dos seus eleitores. Nem me refiro às
promessas mirabolantes e risíveis, mas àquelas que parecem realizáveis.
O eleitor mais simples se pergunta: por que não fizeram isto antes?
Por que nesta época surgem propostas, que se apresentam como novas,
para solucionar velhos problemas que permanecem para serem lembrados
nas próximas eleições? A esquerda critica, mas termina por jogar
o jogo e legitimar os seus resultados. Afinal, por esta lógica,
também precisa eleger os seus e crescer eleitoralmente.
As
perguntas do denominado senso comum são legítimas. Cabe aos
candidatos convencerem de que a política não se restringe apenas
à disputa pelo aparato administrativo, vale afirmar, a capacidade
de empregar os amigos e correligionários.
A
quem serve a política?
Os
indivíduos atuam por interesse, isto é, esperam
recompensas. É a probabilidade de ser recompensado que move a política
– mesmo os idealistas esperam alcançar algo, nem que seja o
reconhecimento de que são missionários de um novo mundo e quem
sabe, por isso, alcançaram o paraíso celeste ou a imortalidade na
memória das gerações posteriores. Porém, o determinante mesmo é
a recompensa material – vide a trajetória e o deslumbramento
desta geração que ascendeu socialmente através da militância política.
São os interesses que prevalecem.
A
palavra interesse, de origem latina, significa “estar
entre”, “no meio”, “participar”. Os partidos políticos são
organizações voltadas essencialmente para os interesses,
isto é, o estar entre os que têm acesso a determinados bens simbólicos
e materiais inacessíveis à maioria dos representados e governados.
Uma das suas principais funções é propiciar a socialização dos
cargos e do patrimônio público à minoria que compõe o sistema
político, a “sociedade política”.
Todo
partido almeja o poder; alguns imaginam fazer a revolução
conquistando o Estado. Porém, o objetivo declarado de conquistar o
poder acaba se traduzindo na conquista do governo e de posições
nas instituições. Ocorre, então, uma inversão: são as instituições
do Estado burguês quem conquista os partidos... O objetivo se
reduzirá simplesmente à garantia dos cargos no partido e no
Estado, e, assim, ter o poder de multiplicar os pães, isto
é, de transferir aos seus seguidores, discípulos e apoiadores, as
benesses da máquina do Estado – e ainda há quem lance mão do
discurso de que é “exigência das bases” ou que foi “chamado
a desempenhar a responsabilidade de participar do governo”, como
se fosse um encargo. Numa realidade sócio-política em que o
governante, desde a esfera municipal e sem levar em conta o poder
legislativo, tem o poder da “canetada”, isto é, o poder de
indicar milhares de cargos de confiança, podemos imaginar a
capacidade de comprometer o partido com a sua política. Eis o mistério
nem sempre manifesto da política institucional.
Pode-se
imaginar que os partidos ideológicos rompem com este esquema
ao se proporem a revolucionar a política, isto é, a priorizarem a
política extra-institucional e, no limite, a instrumentalizar a
democracia qualificada como burguesa. Historicamente, porém, o
resultado foi a instauração de ditaduras, da prevalência de uma
nova classe social que age em nome do povo. De qualquer forma, o
dilema dos partidos pretensamente revolucionários é que eles
aceitam jogar o jogo e, assim, tão logo crescem em densidade
eleitoral e organizativa, tendem a descaracterizar a sua ideologia,
quando muito transubstanciada em retórica.
A
radicalidade destes tipos de partidos é proporcional à sua
fragilidade eleitoral. Quanto menos tem a perder, do ponto de vista
do apoio eleitoral, mais atuará como a consciência crítica, à
maneira do “incrível exército de brancaleone”; quanto menor
sua força eleitoral, maior sua vocação missionária e verborrágica.
Seu projeto de poder o impele a ampliar sua inserção eleitoral e,
portanto, a flexibilizar seu programa e mensagem. Na medida em que
disputam o Estado, os partidos ideológicos terminam por
priorizar a estratégia da ocupação dos espaços em detrimento dos
princípios, relegados à retórica revolucionária. E isto se dá
na proporção das suas vitórias eleitorais.
O
saber popular identifica bem a quem serve a política e os partidos
políticos. O tão falado povo empiricamente observa que, a
despeito da retórica revolucionária, a vida permanece a mesma no
dia seguinte às eleições. Ainda que compartilhe da alegria e/ou
tristeza pela vitória e/ou derrota do candidato ou partido “X”
ou “Y”, logo retorna à dura realidade da luta pela sobrevivência,
longe dos bastidores da política. E ainda que tenha depositado
esperanças num determinado partido e seus eternos candidatos –
enquanto a natureza o permitir – logo também conclui que “são
todos iguais”. Os indivíduos podem não compreender as teorias
políticas, mas não são néscios; percebem claramente quem se
locupleta com a política e mesmo os revolucionários são
identificados a profissionais da política.
Viver
da política e viver para a política
A
esquerda mais radical, portanto, não está livre de contrair o vírus
que combate – em outras palavras, ela também é susceptível ao canto
da sereia das instituições burguesas. Sua crítica é
assimilada pelo sistema eleitoral e o legitima. Seu poder de
convencimento é minado pela linguagem e pelos parcos recursos que
detém, comparado aos outros partidos. Sua capacidade de conquistar
o eleitor “conservador” e “alienado”, já predisposto a
votar nulo pela experiência acumulada em várias eleições, é
limitada pela própria política que defende. Este eleitor até
poderá ver com simpatia os candidatos, da dessa esquerda, mas sabe
que não terão chance. E, no final das contas, reconhece que seu
voto é impotente para realmente mudar substancialmente a realidade.
O
sistema eleitoral e partidário admite uma certa margem de votos na
esquerda radical, outro tanto de nulos e brancos, desde que isto se
mantenha em limites que não questione a sua legitimidade. Por que,
então, a esquerda não adota a política de superar estes limites?
Por que ela não tem a coragem de pregar o voto nulo na conjuntura
atual? A resposta está em sua opção política, instituída desde
que os partidos revolucionários aceitaram disputar e participar das
instituições burguesas. Enquanto a revolução não chega,
conquista-se um cargo aqui, outro acolá; um vereador aqui, outro
acolá; um deputado aqui, outro lá; e amplia-se também o poder de
atender aos interesses dos que compartilham a mesma
ideologia. Multiplicam-se os cargos a conservar, ainda que o
discurso se mantenha radicalizado.
Dessa
forma, cada vez mais aumenta o número dos que passam a viver da
política. A missão revolucionária, ou seja, viver para a
política, é sutilmente substituída pela dependência econômica
em relação ao aparato burocrático do partido e do Estado. E,
ademais, é muito tênue a diferença entre viver da e para
a política. Nos partidos de esquerda são poucos os que têm
condições econômicas para se dedicarem à política sem a
necessidade da recompensa financeira. A política passa a ser mais
um caminho de ascensão social – basta olhar ao redor e observar
os que estão no poder, comparando-os às suas origens sociais.
Eis
uma das maiores dificuldades que a esquerda crítica ao petismo
enfrenta. Sua opção eleitoral tende a reproduzir a tragédia
petista e em circunstâncias históricas desfavoráveis de
desmobilização dos movimentos sociais. As próximas eleições
tendem a reproduzir a bi-polarização e a esquerda não-petista
legitimará o processo. Ganhará algumas posições no aparato
institucional que ela própria denomina de burguês, mas
dificilmente conseguirá convencer os desacreditados com a política
institucional de que vale a pena atuar politicamente. Confirmar-se-á
mais uma vez que a política, essa política, se restringe à
minoria militante vinculada à disputa estatal e partidária. São
os interesses em jogo que determinam a dinâmica da luta eleitoral.
Concluindo...
Uma
outra política, traduzida intencionalmente ou não, na resistência
inconsciente e/ou ativa da massa que não vota nos partidos, poderia
ser politizada pela proposta do voto nulo nas próximas eleições.
Para isso é necessário que os iluminados – os que só vêem
alienação e conservadorismo na postura anti-política das massas
– e a esquerda que se afirma revolucionária tenham a ousadia de
propor o voto nulo e, assim, abrir mão da possibilidade de usufruir
das migalhas do poder, das benesses que o Estado concedem no grau do
seu merecimento às forças políticas que disputam a sua ocupação.
Esta
é uma posição considerada utópica e até mesmo ingênua. Mas ela
se fundamenta na própria história da esquerda que optou pelo
caminho eleitoral, no Brasil e no movimento comunista internacional,
e indica uma estratégia política diferenciada: a ênfase na política
extra-institucional e a radicalização da democracia para além dos
limites do sistema eleitoral e partidário.
A
esquerda que saiu do PT, o fez com atraso. Agora, até de maneira
bem intencionada – e nisso também repete a história do PT das
origens – insiste em trilhar caminhos já percorridos. Falta
à esquerda auto-proclamada revolucionária a ousadia para tentar
uma outra política. Ela tende a repetir os mesmos equívocos que
levaram o PT ao fracasso. Eis o dilema dos partidos de origem
popular e operária: ainda não se encontrou o antídoto para a sua
transfiguração no seu oposto, isto é, de supostamente revolucionário
à sustentáculo da ordem social e política que afirma combater. O
voto nulo é também um voto contra essa “lei de ferro da
oligarquia”. Uma outra política é possível...