Educação
Libertadora, Habitus e Saúde do Trabalhador: uma Articulação
Fundamental
Introdução
Este
ensaio tem por objetivo discutir as relações entre a educação
libertadora, o conceito de habitus e a saúde do trabalhador.
Parte-se da premissa que a noção de educação ultrapassa a idéia
de treinamento e pretende-se destacar como a articulação da idéia
de educação como liberdade com a noção de habitus pode
contribuir para uma melhor fundamentação
metodológica do campo da saúde do trabalhador.
É
importante enfatizar que o campo da saúde do trabalhador representa
uma forma de estudar a relação entre saúde e trabalho heterodoxa
aos setores hegemônicos, pois ao destacar o trabalhador como ser
social no processo de produção, recusa-se em considerá-lo mero
agente passivo de ações e informações (BARROS DE OLIVEIRA; FADEL
DE VASCONCELLOS, 2000: 93).
Esta
reflexão organiza-se da seguinte maneira: na próxima seção será
realizada uma aproximação à educação, já na terceira seção
será apresentada a proposta da saúde do trabalhador e na quarta seção
formula-se a articulação entre educação e saúde do trabalhador.
2.
Uma aproximação à educação
Pode-se
afirmar que a educação é o principal instrumento de continuidade
da vida humana, pois permite que a vida, a memória e a cultura de
um determinado grupo continuem mesmo depois da morte dos indivíduos
deste grupo social (MOREIRA, 2002: 120).
Educar
significa envolver o indivíduo em sua totalidade, considerando
todas as variáveis da história e da cultura de cada educando,
compreendendo que o mesmo nunca
aprende uma habilidade isoladamente, mas ao contrário, a
aprendizagem acontece de maneira simultânea (TEIXEIRA, 1957).
Entretanto, de acordo com a tradição pedagógica predominante, os
educandos são tratados como iguais, desconsiderando-se as suas
particularidades, diferenças e disposições incorporadas (habitus);
tal desconsideração ocasiona sérias implicações como a perpetuação
e legitimação das desigualdades sociais (BOURDIEU, 1998: 53).
De
acordo com Bourdieu (1998: 58), o sistema escolar opera uma seleção,
com as aparências de eqüidade formal, sancionando e consagrando as
desigualdades reais, e contribui
para perpetuar as desigualdades, ao mesmo tempo que as torna legítimas.
Por conferir uma sanção que se pretende neutra a habilidades
condicionadas socialmente que trata como desigualdades de “dons”
ou de mérito, a escola
transforma as desigualdades de fato em desigualdades de direito, as
diferenças econômicas e sociais em “distinção de qualidade”,
e legitima a transmissão da herança cultural (BOURDIEU, 1998: 59).
Além
disto, ao se analisar as relações educador-educando na escola ou
fora dela pode-se perceber estas relações possuem uma característica
marcante: são fundamentalmente narradoras ou dissertativas (FREIRE,
1987). Nesta narração
ou dissertação o sujeito é o educador que conduz o educando a
memorizar de maneira mecânica o conteúdo narrado, com o educando
sendo transformado em “recipiente”
que será “enchido” pelo educador. Assim,
a educação torna-se um ato de depositar, no qual os
educandos são depositários e o educador é o depositante,
concepção denominada por Freire (1987) de
educação “bancária”.
Esta
visão “bancária” da educação anula ou diminui a criatividade
dos educandos, estimulando a ingenuidade dos mesmos, satisfazendo,
desta forma, aos interesses dos grupos dominantes e opressores.
Entretanto, a idéia de educação que se propõe como libertadora
deve envolver a problematização dos homens em suas relações com
o mundo (FREIRE, 1987).
3.
A proposta da saúde do trabalhador
A
construção do campo da Saúde do Trabalhador, na América Latina e
especialmente no Brasil, origina-se na luta dos trabalhadores pelo
direito à saúde no trabalho e é marcada por uma abordagem
diferenciada da relação saúde-trabalho, uma vez que compreende o
"processo de trabalho" como a categoria essencial para
analisar a relação entre a saúde e o trabalho (MENDES; DIAS,
1991: 347; LAURELL; NORIEGA,1989: 106).
O
campo da Saúde do Trabalhador tem como objetivo estudar e intervir
nas relações entre o trabalho e a saúde, a partir do processo de
trabalho, com a incorporação da
experiência do trabalhador, através da participação deste
nas pesquisas e ações. Além disso, parte da compreensão de que
nos grupos humanos, definidos pela sua inserção
social específica, se manifestam de forma mais clara os
nexos bio-psíquicos historicamente determinados, pois os ambientes
são antes de tudo uma síntese das formas sociais (LAURELL;
NORIEGA, 1989: 103). Esse
entendimento se opõe à concepção de causalidade, que vincula a
doença a um agente específico ou a um grupo de fatores de risco
presentes no ambiente de trabalho (MENDES; DIAS, 1991: 347) e aponta
para uma outra noção de saúde: uma luta contínua, uma conquista
permanente, em meio às forças políticas. Neste sentido, o combate aos danos à saúde se dá principalmente através
de mudanças no próprio processo de trabalho e também nas relações
sociais que o organizam.
Esta
concepção foi inspirada no movimento operário italiano (ODONNE et
al., 1986: 76), que
teve como um
de seus princípios fundamentais: a não-delegação, ou
seja, os operários podem e devem organizar-se para solucionar os problemas de saúde surgidos
nos seus ambientes de trabalho. É justamente essa afirmação do
trabalhador como sujeito ativo do processo saúde/doença que
caracteriza a constituição do campo da Saúde do Trabalhador,
abordagem interdisciplinar, que privilegia a participação dos
trabalhadores, capazes de contribuir com seu saber para a compreensão
do impacto do trabalho sobre a saúde e de intervir politicamente
para transformar a realidade.
4.
Educação libertadora, habitus e saúde do
trabalhador: uma articulação profícua
Este
ensaio tem como pressuposto que a noção de educação ultrapassa a
idéia de treinamento, pois quando se faz referência à educação,
alude-se à experiência conjunta,
à atividade comum, algo que não acontece no treinamento ou
mera transmissão de informações (MOREIRA, 2002: 123; DEWEY, 1959:
14).
É
importante destacar também que a comunicação pedagógica depende
estritamente da cultura do receptor,
de seu meio familiar, de seus valores e de seu estilo de vida (BOURDIEU,
1998: 63). Neste sentido, a consideração da noção de habitus
de Bourdieu (1996: 21) enquanto estruturas, disposições
incorporadas que geram, unificam e retraduzem as características
intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo de vida,
torna-se fundamental na educação na sua perspectiva libertadora,
uma vez que tal conceito implica em uma recusa de reduzir os agentes
sociais, considerando-os, ao contrário, ativos e atuantes.
Os
habitus geram práticas distintas e distintivas, sendo
simultaneamente diferenciados
e diferenciadores, sendo também uma espécie de senso prático,
produto da incorporação de estruturas objetivas (BOURDIEU, 1996:
22). O conceito de habitus expressa a negação da dicotomia
entre consciência e do inconsciente,
do finalismo e do mecanicismo, indicando um conhecimento adquirido e
também um haver, uma disposição incorporada, quase postural (BOURDIEU,
1989: 61). Deve-se destacar que a incorporação de tal noção é
muito importante no diálogo da saúde do trabalhador com a educação
em seu sentido amplo, pois, a ênfase
nas diferenças e particularidades de cada trabalhador
individualmente e como parte de um coletivo, de um grupo ou classe,
pode contribuir na superação de
vários tipos de programas de “educação” que com o
pretexto de garantir saúde e segurança no trabalho, padronizam
maneiras de trabalhar “corretas”, desconsiderando, assim, as
singularidades, saberes e habitus
de cada um dos trabalhadores
.
Educar
em um sentido amplo e
libertador significa, também, recusar a concepção “bancária”
da educação (FREIRE, 1987), que
concebe as pessoas na condição de recipientes
passivos de informação, que necessitam ser conscientizadas,
adestradas e treinadas. De acordo com Freire (1987) não é possível
chegar aos trabalhadores por meio da perspectiva “bancária” da
educação, pois, assim, estar-se-ia entregando-lhes conhecimento e
impondo-lhes o modelo de “bom
homem” (passivo) que existe nos programas organizados pelos
opressores-patrões.
Portanto,
a perspectiva da educação libertadora também gera uma contribuição
fundamental ao campo da saúde do trabalhador, pois, com tal
compreensão de educação, há uma ruptura da idéia de educação
como mero treinamento e depósito de informações, que
implica, no caso dos ambientes de trabalho, na simples
transmissão de informações e normas de trabalhar seguras, que, de
acordo com Minayo-Gomez e Thedim-Costa (1997: 23), representam, em
determinadas situações, apenas uma prevenção simbólica.
A
ação educativa em seu enfoque libertador significa, portanto, ao
considerar e respeitar o saber dos trabalhadores, propondo soluções
a partir do conhecimento empírico do trabalhador sobre os riscos no
seu ambiente de trabalho, um dos pressupostos da idéia de uma saúde
do trabalhador, ao invés de relacionada, pertencente ao próprio
trabalhador (BARROS DE OLIVEIRA; FADEL DE VASCONCELLOS, 2000: 93).
Além disto, educar em uma perspectiva ampla e libertadora implica
também em considerar e respeitar singularidades, diferenças e habitus
dos trabalhadores, considerando-os
reais sujeitos de aprendizagem.