Turismo
X Submissão:
as
falas neutras de interesse do capital
Nas
sociedades capitalistas liberal-conservadoras do ocidente, o
discurso ideológico domina a tal ponto a determinação de
todos que muito freqüentemente não temos a mais leve suspeita
de sermos levados a aceitar, absolutamente sem questionamento,
um determinado conjunto de valores a que se poderia opor uma
perspectiva alternativa muito bem fundamentada, juntamente com
as conseqüências práticas que nele se encontram mais ou menos
implícitas.( MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia, p.13e14
)
O
que acontece quando usamos da visão de senso-comum para fazer a
leitura da realidade que nos cerca? Compreendemos a vida segundo
o prisma do interesse do capital, estreitando a compreensão
histórica e crítica do mundo e entendendo a relação humana
como uma simples relação mercadológica. A ditadura e a referência
apologista dos números são efetivos e implacáveis nesse
pensamento, porque produzem pesquisas duvidosas, metodologias
que não são explicitadas, cálculos incorretos e falsas hipóteses
são aceitas como verdadeiras, um ufanismo aos dados empíricos
cujo objetivo é demonstrar a todo custo o crescimento no campo
do turismo. Esse culto a um pragmatismo vulgar, enxerga o fenômeno
do turismo como simples mercadoria, cuja intenção é
contabilizar a entrada de divisas e desenvolver atividades que
venham a aumentar a permanência do turista no território
nacional. Não há nenhum interesse em saber qual foi o impacto
que esse turista trouxe à comunidade e a população local, o
que se busca é contabilizar a quantificação dos números pela
entrada de capital.
O
entendimento do fenômeno turístico no Brasil resvalou para o
caminho da via do conceito salvatério, pois o turismo seria o
instrumento de salvação para a crise econômica do Estado. O
poder que o sistema econômico capitalista e socialista dão a
essa atividade no que se refere a investimentos e preparação
da mão de obra demonstra bem, que o mesmo é encarado como um
processo emulador para os outros setores do desenvolvimento econômico.
Iniciando
com Getúlio Vargas com seu Estado Novo a Divisão de Imprensa e
Propaganda - DIP se encarregava de fazer a divulgação das
belezas do Brasil para o mundo, idolatrando a imagem de um
ditador preocupado com a classe trabalhadora. O referido órgão
possuía uma estrutura que contemplava os setores de divulgação,
radiodifusão, teatro, cinema, turismo e imprensa. Seu objetivo
era coordenar, orientar e centralizar a propaganda interna e
externa desenvolvendo uma rígida censura no que se refere à
imagem permitida para divulgar o Brasil no exterior.
Com
JK, o panorama do turismo como atividade, visualizou-se na lógica
do desenvolvimento, foi usada para a divulgação da mais nova
capital criada no mundo, criando uma estrutura responsável para
o desenvolvimento do turismo no interior do governo federal com
apoio da revista Manchete de Adolfo Bloch.
Com
a ditadura militar o Estado cria a Embratur em 1966, com o
objetivo de organizar o turismo no Brasil e combater a
propaganda negativa . Sendo que seu primeiro*que
havia no exterior sobre o governo militar presidente Joaquim
Xavier da Silveira não media esforços e discursos para exaltar
os nobres interesses do golpe militar para com o turismo:
Ficou,
assim, assentado a idéia de que ao turismo deveria ser dado um
tratamento preferencial, um status de indústria de interesse
nacional. A primeira tarefa seria a criação de instrumento
capaz de iniciar uma política em âmbito nacional. [...]. Sem dúvida,
um ato de governo da maior importância, pois trazia em seu
contexto definições e proposições ainda inéditas com criação
da primeira empresa pública no País. O turismo passava a ser
considerado indústria básica constituindo atividade de
interesse nacional.
Nesse
período, o turismo receptivo foi elemento principal da política
nacional de turismo e permitiu o nascimento de um nacionalismo
xenofóbico ao pensamento crítico de esquerda embalado pela
guerra fria. A exaltação ao turismo se faz por meio da
vergonhosa campanha que foi por três décadas carro chefe da
Embratur expondo eroticamente a imagem da mulher brasileira,
como propaganda para atrair dólares e carimbar na mídia
internacional o Brasil como rota do turismo sexual.
Hoje,
parece incrível, no governo Lula a prática de entender o
turismo pelo viés ecomomicista é hegemônico, está refletido
em seu Plano Nacional de Turismo 2003 a 2007, principalmente
pela ação que cabe a Embratur. Na verdade há uma ênfase
total no turismo receptivo para estrangeiros e uma quase negação
para a formatação de políticas públicas voltadas ao turismo
interno. O pior é que temos que ouvir pronunciamentos
duvidosos, em que se defende a não necessidade do visto aos
turistas estrangeiros, pois isso aumentaria em um bilhão de dólares
o ingresso de divisas para o Estado brasileiro, como foi
defendido pelas autoridades que foram ao congresso nacional,
segundo imprensa. Pergunta-se onde estão essas pesquisas? Quem
as elaborou? Qual e sua metodologia? Onde estão publicadas:
Os
presidentes da Federação Brasileira de Convention &
Visitors Bureaux, João Luiz dos Santos Moreira, e da Associação
Brasileira da Indústria de Hotéis, ABIH, Eraldo Alves da Cruz,
se reuniram com o presidente da Câmara dos Deputados, deputado
Aldo Rebelo para pedir seu apoio na tramitação do Projeto de
Lei 2430/03, do deputado Carlos Eduardo Cadoca (PMDB-PE), que
acaba com a exigência de visto para cidadãos norte-americanos
que visitam o Brasil. A proposta está parada na Comissão de
Constituição e Justiça e de Cidadania e sua aprovação, um
pleito de toda a indústria turística nacional, que eles
representaram, se aprovada, significa a entrada de mais de l
milhão de novos turistas no Brasil.
Em
primeiro lugar, a questão da não necessidade do visto de
entrada em um Estado no caso o Brasil, não pode ser analisada a
luz do interesse puramente econômico, como que essa medida não
fosse ligada a um conjunto de questões de política
internacional e de segurança nacional e da própria geopolítica
internacional. Portanto, esse assunto deve ser estudado pelo
conjunto do Estado. E não por interesses meramente empresarias
de entender a hospitalidade como sinônimo de 100% de ocupação
hoteleira e nem acreditar na mentira que a inexistência do
passaporte aumentaria o fluxo de turistas para o Brasil. Mas
pensar que essa discussão, não pode se esgotar em argumentos
do pensamento irracionalista da mercadoria e do capital. Fazer
campanha contra a não necessidade de passaporte para os
estrangeiros que nos visitam e planificar um discurso contra a
reciprocidade é desconhecer as questões que envolvem a base da
hospitalidade do fenômeno turístico. Colocando as questões de
segurança nacional e de relações diplomáticas internacionais
do Estado brasileiro como coisas secundárias e subordinadas ao
interesses mercadológicos da globalização na lógica do
enfraquecimento dos Estados nacionais latino-americanos.
Desculpem-nos
os guardiões do capital despatriado e defensores dos interesses
transnacionais, a lógica da liberação do passaporte defendida
por vocês, não é para aumentar a entrada do número de
turistas, mas sim, facilitar a circulação da mercadoria o $
turista $. O que parece ser mais grave é querer descarregar no
estrangeiro uma sociabilidade de uma hospitalidade interessada
somente nos seus dólares e praticar a eutanásia para um Plano
Nacional de Turismo que se encontra atualmente na UTI.
Podemos
garantir a vocês que essa discussão não é ideológica,
apesar de entender que toda relação humana é teleologicamente
produzida dentro de uma ideologia, assim, não nos acusem de
comunistas, esquerdistas e xiitas ou por pertencer a esse ou
aquele partido político. Esse discurso esta velho, enfraquecido
e pertenceu à fala da ditadura militar e, portanto é
desprovido de bases racionais.
Acreditamos,
que milhares de brasileiros que se aventuraram a enfrentar a
batalha para conseguir o visto diplomático nas chancelarias dos
Estados Unidos sofreram algum tipo de constrangimento. O pior é
que o controle dos vistos por parte dos norte-americanos não
está restrito somente ao seu país, mas a todos os outros países
que os americanos mantêm domínio político, econômico e
cultural ou aqueles que os yanques tem como inimigo.
Em
1988 a Universidade Estadual de Maringá organizou uma visita à
Universidade de Havana, para a assinatura de um amplo convênio
de cooperação técnica e cientifica. Com a presença do reitor
e vinte e quatro professores de todos os campos do conhecimento
trabalhado pela UEM, estivemos em Cuba durante quinze dias em
visita oficial.
Partimos
da cidade de Maringá para o aeroporto de Cumbica em São Paulo
com destino a Cuba com escala no Panamá e passamos duas semanas
visitando centros de educação e de medicina cubanos e
formatando junto às autoridades da Universidade de Havana um
convênio de cooperação.
No
retorno de Cuba com escala no Panamá fomos alvo de imenso
constrangimento por parte dos fiscais e policiais daquele
aeroporto, que nos separaram dos outros passageiros, tomando
nossos passaportes para xerocopiá-los, nos colocando em uma
sala (cárcere privado) durante duas horas e fotografando todos
os professores.
Depois
de protestarmos e ameaçar contatar a chancelaria brasileira no
Panamá e discutirmos por longo tempo que isso era obra da CIA
americana, na qual os policias reafirmaram nossas suspeitas. Nos
sentimos, impotentes, humilhados e percebemos nossa fragilidade
diante dos nossos próprios destinos e a dominação do Estados
Unidos no mundo. Por isso, leitor não podemos deixar que essa
proposta de eliminação dos vistos para os estrangeiros ganhe
corpo e seja aprovada, pois assim estaríamos enfraquecendo o
Estado brasileiro, abrindo a retaguarda de nossa soberania e
internacionalizando nossa cidadania.