por ALFREDO J. GONÇALVES

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Congregação dos Missionários de São Carlos
Trabalha no Projeto Fronteiras,
em Ciudad del Este, Paraguay
 

 

O não lugar como novo lugar

 

Partimos da concepção de uma sociedade marcada pela hegemonia mundial do mercado financeiro, pela economia mundializada[1] de corte neoliberal, por um novo tipo de imperialismo comandado pelos países centrais, com destaque para os Estados Unidos, e por uma enorme malha de redes que unem praticamente os países de todo planeta, em termos políticos, econômicos, culturais e sociais.[2] Nesse cenário extremamente resumido, acentua-se a concentração da riqueza e da renda, por um lado, e, por outro, cresce o número daqueles que se vêem obrigados a submeterem-se às condições mais degradantes de trabalho e de vida, a troco de uma sobrevivência cada vez mais precária. Enquanto o capital flui e reflui desconhecendo qualquer tipo de fronteira e de obstáculo, os trabalhadores e trabalhadoras encontram enormes dificuldades para vencer as os muros, visíveis e invisíveis, que separam os de fora e os de dentro, os cidadãos e os não cidadãos, os incluídos e os excluídos[3].

Mudanças de nosso tempo

a). As últimas décadas do século XX representam um período de transição em que confluem, entre outras, três mudanças abrangentes e profundas. A primeira delas, de caráter econômico, político e social, pode ser entendida como a crise do neoliberalismo. De fato, após o período dos “anos de ouro” da economia capitalista, que se estende do imediato pós-guerra até o início dos anos 70, instala-se em nível mundial uma crise profunda e prolongada. Dois fatores serão decisivos para o desencadeamento da crise: o aumento dos preços do petróleo e a desvinculação do dólar quanto ao padrão ouro. Em vista disso, no último quartel do século, os grandes conglomerados empresarias, por um lado, e os governos dos países desenvolvidos, por outro, buscaram diferentes saídas a essa crise. O “consenso de Washington” resume bem as alternativas apontadas pelas elites mundiais. Entre elas, podemos destacar rapidamente quatro respostas.

A primeira é a ampliação do mercado a qualquer custo, num processo que se convencionou chamar de globalização. Este processo se caracteriza por dois aspectos simultâneos: um extensivo, no sentido de incorporar novas regiões e/ou países à economia de mercado, como por exemplo os “continentes” chinês e russo; o outro intensivo, em que o marketing apelativo tem papel fundamental, na medida em que procura ampliar o volume de desejos e necessidades nos consumidores tradicionais. Trata-se de uma verdadeira guerra por novos mercados, onde se encaixa a disputa e a defesa dos grandes blocos continentais: asiático, europeu, norte-americano, bem como a tentativa de criação da ALCA. Está em jogo também a necessidade de encontrar matérias-primas mais fáceis e mais baratas

A segunda resposta vem acompanhada de uma segunda guerra, desta vez contra o trabalho e o trabalhador. Termos como flexibilização, terceirização e precarização das relações de trabalho passam a ter grande significação dentro deste quadro. A tendência geral é enxugar os gastos da produção, sacrificando especialmente a fatia representada pelos custos do trabalho. O resultado disso é o aumento do desemprego, subemprego e do trabalho degradante; o vaivém cada vez mais intenso, mais complexo e mais diversificado dos deslocamentos humanos de massa; e a exclusão social, com o surgimento de novos rostos na imensa multidão dos “sem”. Na ponta da linha, vemos esboroarem-se e derreterem-se os ganhos trabalhistas acumulados durante duzentos anos de luta sindical. Por outro lado, no mundo inteiro, diminui e definha a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora.

A terceira resposta tem a ver com o processo de privatizações que marcou, por exemplo, os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso. As empresas mais rentáveis passam para a iniciativa privada, como foi o caso da Vale do Rio Doce, da Usiminas e da Telebrás. Também passam para a iniciativa privada alguns serviços públicos, o que significa, no limite, re-converter os direitos em mercadorias[4]. Daí o preço elevado e a precarização dos transportes públicos, da malha viária, da saúde, etc. O Estado de bem-estar social da era keynesiana se retira ou se contrai, deixando os trabalhadores, frágeis e desamparados, à mercê de um capitalismo cada vez mais competitivo.

A última resposta à crise é representada pela hegemonia crescente do mercado financeiro, em detrimento da produção de bens. O planeta se converte num imenso cassino mundial, onde o fluxo e refluxo de capitais torna-se terreno fértil para a prática da especulação por parte dos mega-investidores internacionais. O mecanismo da dívida externa, com o pagamento de juros e serviços, alimenta essa prática, em que os governos dos países endividados são como reféns a serviço da transferência de renda: recolhem o dinheiro dos contribuintes através de pesados impostos e o repassam às contas bancárias dos investidores. Não é à toa que os bancos foram os que mais lucraram nas últimas décadas e que os indicadores financeiros registram taxas altamente positivas.

b). A segunda grande mudança que converge para a transição do final do século XX e início do século XXI tem um caráter filosófico-cultural. Um bom número de estudiosos referem-se a ela como a crise do paradigma da modernidade[5]. A civilização moderna, em que “vivemos em tempo de gestação e transição para uma nova época”[6], para usar a expressão cunhada por Hegel, consolidou uma espécie de credo baseado em cinco palavras-conceito fundamentais: razão, ciência, tecnologia, progresso e democracia. A crise desse paradigma mergulha suas raízes no final do século XIX, aprofundando-se no decorrer do século XX. A polêmica entre modernidade tardia e pós-modernidade[7] tem aí um solo ao mesmo tempo escorregadio e fecundo. Durante todo o século XX, o retorno da barbárie abriu fissuras irreversíveis no credo da modernidade.

O predomínio da razão conduziu a um desenvolvimento irracional, seja do ponto de vista sócio-econômico, seja do ponto de vista ecológico e cultural; a ciência e a tecnologia, salvo os avanços nas áreas da medicina, dos transportes e das comunicações, colocaram-se sobretudo a serviço da indústria bélica; o progresso econômico e tecnológico caminha em franco descompasso com uma justa distribuição de seus benefícios; a democracia, por fim, hoje pouco mais é do que o suporte institucional, jurídico-formal, da economia de mercado. No geral, aprofunda-se a crítica e o questionamento profundo aos “valores” da cultura moderna, bem como a desconstrução de seu paradigma, isto é, do conjunto de leis, regras e instituições que lhe davam sustentação.

Em termos mais amplos, as certezas foram substituídas pelas dúvidas e as verdades por novas interrogações. O chão parece fugir debaixo de nossos pés. Poderíamos dizer com Marx e Engels que “tudo o que é sólido se desmancha no ar”[8]. A crise se instala justamente quando as perguntas são maiores que nossa capacidade de encontrar respostas. Essa impotência explica, quem sabe, o discurso do sagrado tão presente na cultura “pós-moderna”. Os deuses retornam com a força de água represada, a mesma força com que foram banidos no decorrer da modernidade.

c). A terceira grande mudança da virada do final do século XX é representada por uma urbanização acelerada e caótica, especialmente nos países do Terceiro Mundo. Em grande parte destes países, com efeito, um terço da população ocupa hoje a grande área das respectivas capitais. É o caso do México, da Argentina, da Colômbia, do Peru, do Chile, da Guatemala, entre outros. No Brasil, por exemplo, de acordo com o censo de 2001, do IBGE, mais de 81% da população reside na zona urbana. Nas últimas três décadas do século XX, ao redor de 40 milhões de brasileiros trocaram o campo pela cidade. Nos continentes da Ásia e da América Latina, multiplicam-se como cogumelos cidades com mais de um milhão de habitantes. Por outro lado, megalópolis como Ciudad de Mexico, São Paulo, Buenos Aires, Calcutá, Bombain, Pequim, Xangai, Bancgock – com mais de 10 milhões de pessoas – também crescem de forma desordenada.

A expressão “universo urbano” designa, aqui, não tanto uma determinada área geográfica, circunscrita pelo perímetro urbano, e sim um conceito mais aberto, do ponto de vista simbólico e cultural. Ou seja, o universo urbano não coincide com os limites da cidade. Ele os inclui, mas os ultrapassa. Entendemos por universo urbano, na verdade, uma mentalidade, um modo de ser, uma nova linguagem, uma nova cultura – certamente a cultura do século XXI. Cultura que, ao contrário do que ocorre no universo rural, não mais se rege pelo ciclo da natureza, do plantio e da colheita, das estações do ano, mas pelo ritmo da máquina e do relógio. Não raro os valores e contra-valores do universo urbano exercem maior fascínio e sedução no campo do que na cidade, particularmente entre os jovens. O modo de ser urbano penetra no campo através do vaivém dos migrantes e através da mídia, de modo especial a televisão. Assim a transição do mundo rural para o mundo urbano é experimentada não apenas pelos milhões que migraram da roça para a cidade, mas também por aqueles que nunca saíram do torrão natal em que nasceram. Por outro lado, na zona urbana, não é difícil encontrar bairros inteiros, espécie de bolsões de pessoas que, embora há tempo na cidade, vivem com a cabeça e o coração no campo.

Essa transição do universo rural para o universo urbano é quase sempre acompanhada de profundas rupturas de ordem social, familiar e pessoal. Aqui, a anomia, a solidão e a desesperança costumam ser irmãs gêmeas que seguem de perto os passos dos migrantes. Laços e redes se rompem e se refazem num clima de trauma que pode chegar ao desespero e à loucura. Abrem-se período de grandes perturbações (sociais, familiares, pessoais), os quais, como toda a crise, carregam fracassos e novas potencialidades. Também neste caso, a exclusão social tende a crescer na proporção do desenraizamento cultural e do processo de inserção em um novo ambiente.

As três transformações descritas acima, no seu conjunto, representam não tanto uma época de mudanças, mas uma mudança de época. No fundo, uma transição de tal magnitude que talvez só possa ser comparável à revolução agrícola e à revolução industrial, originárias, respectivamente, da era da agricultura e da era da máquina. Estas duas revoluções, como o nome indica, modificam de alto a baixo o edifício da sociedade: a base material da produção, distribuição e consumo (economia), a organização e instituições sociais (política) e a ordem dos valores e símbolos (cultura). Ambas dão origem a um modo de vida distinto, a um conjunto de novas relações humanas, a uma nova mentalidade e até a uma nova cultura e civilização. A atual transição tecnológica ou informática, como vem sendo chamada, ou a passagem do mundo moderno para o mundo pós-moderno, como preferem outros, também revoluciona os tempos modernos e abre a possibilidade de uma nova cultura ou civilização. Basta ter em vista, por exemplo, os avanços na biotecnologia, na engenharia genética, na informática e na robótica, no acompanhamento à devastação do planeta, na medicina, comunicações e transportes, e assim por diante.

Desafios, riscos e potencialidades

Sobre o pano de fundo da tríplice transição apontada no item anterior, propomos, desde o ponto de vista dos setores excluídos da sociedade, dez desafios para este Encontro de Articuladores do Grito. Na seqüência, procuramos apontar os riscos e potencialidades de cada um desses desafios, alertando desde já para o fato de que os períodos de crise, embora povoados de ameaça e de instabilidade, costumam ser, no terreno da história, sulcos abertos a novas sementes. Trabalhando com o conceito do “possível” ou “potencial”, Lefebvre já insistia que a realidade se compõe de “uma relação dialética entre o atual e o virtual”[9].

  1. A crise é terreno fértil para a abertura de novos caminhos

Toda crise é campo ambíguo: momento difícil e doloroso, por um lado, mas, por outro, solo fértil para a busca de alternativas. O conjunto dos excluídos passa, em geral, por crises sucessivas, seja de ordem sócio-econômica, seja de ordem pessoal ou familiar. O desafio aqui é converter esse campo escorregadio da crise em terreno pronto para novas semeaduras. Desvendar nele novas oportunidades e alternativas. Riscos e potencialidades se escondem no solo movediço de toda crise. Como discernir os riscos de uma crise ampla e profunda, por um lado, e, por outro, identificar as potencialidades que ela contém? É isso, aliás, o que nos ajuda a refletir o lema do Grito dos Excluídos de 2006: na força da indignação, sementes de transformação.

Se, em nível pessoal, quem passa pela crise tende a estar mais aberto às novidades da existência, em nível social e político, as vítimas de uma ordem mundial injusta tendem igualmente a estarem mais permeáveis à necessidade de mudanças profundas na história. A dor e a miséria podem levar ao risco de desespero, sem dúvida, mas é também o adubo potencial da solidariedade. A experiência do abandono e do sofrimento predispõe o coração e a alma para o empenho e a luta pela transformação social, para a construção de uma sociedade onde não haja mais exclusão social.

  1. O silêncio é terreno fértil para engendrar novas palavras

Ao longo da história, os excluídos foram sendo aos poucos silenciados. Silenciados não é o mesmo que silenciosos. Neste caso, o silêncio é uma escolha; no outro, uma imposição do opressor. De tanto serem silenciados, muitas vezes os excluídos acabam por tornarem-se silenciosos. Esse silêncio, carregado de medo e vergonha, contém sérios riscos: podem dar origem à impotência, à apatia, ao comodismo e à anulação. Mas o mesmo silêncio esconde também a potencialidade de novas palavras, de uma nova linguagem.

Na trajetória da escravidão negra, no Brasil, por exemplo, quando os opressores calaram a voz dos escravos, estes souberam desenvolver o gesto, a dança, a capoeira, a culinária e a música, formas de linguagem e de comunicação bem mais significativas do que a própria fala. Até mesmo o banzo, que na aparência é visto como um deixar-se morrer no silêncio e na inércia, contém na verdade sementes de resistência frente à condição de escravo ou à morte por overdose de trabalho.

O silêncio é diferente do mutismo. Enquanto este representa uma recusa a toda forma de comunicação, aquele está povoado de símbolos que expressão relações profundas. O desafio neste caso é saber interpretar o silêncio dos excluídos. Saber identificar nele possibilidades de novas formas de comunicação, de palavras escritas com a mímica e com o corpo, de uma linguagem rica, estética e coreográfica. Mas, para isso, é preciso abrir espaço para suas expressões culturais e religiosas.

  1. O vazio é terreno fértil para elaborar novos conteúdos.

Aparentemente a vida dos excluídos parece um grande vazio. Vazio das condições básicas para uma vida digna; vazio dos direitos essenciais à dignidade da pessoa humana; vazio de alegria e de sentido. Vazio em que os riscos se multiplicam e ganham as ruas, muitas vezes através de formas de violentas, como o tráfico, o consumo de drogas, o sexo apelativo, etc. A “era do vazio”[10], o império do individualismo e a sociedade atomizada parecem tomar conta de tudo e de todos. Mas é preciso enxergar mais fundo.

Sob a capa desse vazio aparente, podemos vislumbrar enormes potencialidades ocultas. Apesar do desemprego, da falta de moradia, da saúde precária, da falta de escola e de transporte, o dia-a-dia nas periferias, nas favelas e nos cortiços costuma revestir-se de uma energia vigorosa e entusiasta. Nem comparar com vazio das mansões e casas da classe média, as quais, apesar de estarem recheadas de luxo, conforto e ostentação, ou precisamente por isso, em geral amargam um tédio deprimente.

Os setores mais pobres e excluídos da população, em geral, sabem como transfigurar o pranto em riso, a dor em esperança, a tristeza em alegria, a pobreza em festa. Embora seja necessário alertar para o risco constante da alienação, torna-se imprescindível reconhecer essa força vital que se abriga no interior mesmo da miséria. Força que, quando bem orientada, pode renovar os conteúdos e os métodos da organização popular, tornando-a mais rica e plural. A partir dela, como diz a canção popular, é possível “levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima”. Nesse solo árido há germes virtuais de luta mobilização.

  1. A exclusão é terreno fértil para construir um novo poder

A citação é longa, mas vale a pena começar por ela. Diz Lefebvre que

“pela necessidade e pelo conhecimento da carência, o homem e sua consciência, embora com saudades e lamentações, saem da natureza, da infância, da fantasia mágica. É pela privação que a consciência se descobre lançada na vida e no mundo, obrigada a criar seu mundo numa distância em relação ao ser que lhe é inicialmente dado (natural), e em relação a si mesmo. Vê-se forçada a recriar e superar esta distância. O deslumbramento divino dos olhos que se abrem ao mundo e a maravilha dos primeiros sorrisos não bastam. É preciso ao homem provar a carência de trabalhar e criar”.

“Sem haver provado a necessidade e a carência, sem a privação e o desnudamento vividos ou possíveis de serem vividos, não há emergência do ser-consciência, não há o surgimento da liberdade. O ser permanece prisioneiro de sua pátria natal, a ‘natureza’ e a inconsciência. É na e pela necessidade que a liberdade nasce e encontra ocasião de ser exercida, ao descobrir a brecha que, no real, lhe permite penetrar esta dura realidade e a modificar. É enfim, a partir da necessidade como falta que o homem explora um mundo de possibilidades, cria-as, escolhe entre elas e as realiza. Ele se torna historicidade. Sua consciência não pode se fechar. As consciências individuais se abrem sobre as consciências sociais e, inversamente, a multiplicidade das consciências humanas se abre sobre o mundo”[11].

Sem mais comentários, podemos concluir que a necessidade, por um lado, e a consciência dela, por outro, constituem dois ingredientes básicos para a construção do poder popular. Este, de fato, mergulha suas raízes no conjunto de carências que penalizam o povo e, a partir do estudo de suas causas e implicações, inicia um processo de transformação social em que as relações de poder se invertem.

  1. A sede é terreno fértil para cavar novos poços de água viva

Sede neste caso é metáfora de uma carência profunda da condição humana. Nosso coração, na verdade, caminha sempre inquieto, tomado por uma sede que jamais se sacia. De alguma forma somos todos caminhantes que, de cada ponto de chegada, fazem um novo ponto de partida. Os excluídos, entretanto, por fatores óbvios, encontram-se sempre a caminho. Na expressão de Marx, constituem o grande “exército de reserva que não mora, acampa”. Constituem, ainda, “as multidões cansadas e abatidas” de que fala o Evangelho (Mt 9,35-38). Multidões que se deslocam pelos caminhos de acordo com as necessidades de mão-de-obra do capital.

Esses caminhos são feitos de pedras e espinhos, de riscos e potencialidades. Entre os riscos, estão as portas fechadas, os muros e cercas, o preconceito e a discriminação, as leis feitas pelos ricos e para os ricos, o desemprego e subemprego, o trabalho escravo ou degradante, a rua, os lixões, a prostituição, o abandono... Enfim, a exclusão social. É a sede de quem está a caminho! Mas no meio do caminho, é possível abrir poços, onde a água viva nutre novas potencialidades de vida. Nas encruzilhadas dos caminhos, criam-se pontos de encontro, costuram-se redes de solidariedade, articulam-se lutas locais e campanhas globais. E a partir dessas lutas e dessa articulação mais ampla, podemos alimentar a utopia de que outro mundo é possível.

  1. As perguntas são terreno fértil para buscar novas respostas.

As crises costumam questionar as certezas, as verdades e os valores, fazendo emergir, por outro lado, novas perguntas e novas inquietações. Perguntas e inquietações que podem abrir fissuras na ordem social perversa e levar a novos horizontes. Porém, o coração e a mente das classes dominantes costumam ser empedernidos e impenetráveis a essas interrogações. Quem nasce em berço de ouro, agarra-se com unhas e dentes ao que tem, ao que acumulou. Rejeita os questionamentos e faz tudo para impedir mudanças.

Somente os despossuídos permanecem abertos a tais perguntas e a suas conseqüências sociais e políticas. Abertos, portanto, à busca de novas respostas, de alternativas à ordem social vigente. Num primeiro momento, as perguntas investigam a realidade com suas contradições e injustiças; depois, à medida que se conhecem as raízes dos problemas sociais, cresce a consciência de que as mudanças são necessárias; por fim, a consciência se transforma em ação social e em prática política.

Este círculo dialético se repete e se amplia, formando uma espiral progressiva de consciência crítica, engajamento e transformação social. Ao lado do risco de perguntas mal formuladas e de diagnósticos equivocados, que podem levar ao fracasso, temos certeza de que uma crítica séria e responsável constitui, por si só, um grande potencial de ação. Um diagnóstico bem feito leva a receitas acertadas. Lembra ainda Lefebvre que “o processo de conhecimento nada tem de atividade abstrata. A teoria jamais se separa da prática, ela lhe é parte integrante”[12].

  1. As dúvidas são terreno fértil para fortalecer uma nova fé

Já vimos que os momentos de crise levantam dúvidas. As grandes referências se reduzem a cinzas, as estátuas viram escombros, os projetos transformam-se em ruínas. Tudo em volta fica tomado pelas trevas, não há saídas. O desespero bate à porta e o chão parece fugir debaixo dos pés. As estrelas se apagam no céu e, cá embaixo na estrada, não há mais sinais que indiquem a direção a tomar. O que fazer nesses momentos? Aqui entra a importância da fé. É no terreno incerto da dúvida que a fé nasce, cresce e se torna robusta. Uma vez mais, só os pequenos, os pobres e os indefesos podem entender a profundidade e o alcance desse momento, crítico e desafiador ao mesmo tempo. Os poderosos, ao contrário, confiam apenas no poder de suas forças e de sua riqueza. Tornam-se, em grande parte dos casos, prepotentes e arrogantes. Só uma queda brutal pode acordá-los e sacudi-los desse torpor auto-suficiente.

Já os que sofrem carências, sejam elas quais forem, tendem a estarem mais abertos às mudanças. Não tendo nada a perder, agarram-se à possibilidade de encontrar novas saídas para a própria situação. O risco, neste caso, é depositar todas as esperanças na magia, num salvador da pátria, numa benção milagrosa, na loteria, na água benta, na promessa ao santo e na romaria ao santuário, e assim por diante. Como se a fé representasse a intervenção espetacular do transcendente em nossa vida. Por trás disso, esconde-se uma visão da história fatalista e imutável. Esconde-se também o descrédito contra as possibilidades de transformar as pessoas e as estruturas sociais.

Mas há também imensas potencialidades na fé popular. Há resistência muda, gritos mudos, mas sempre ativa. Há a certeza de que o destino não pertence aos que hoje detêm as rédeas do poder, há a confiança no Deus da história, há a utopia viva de que o amanhã pode ser mudado. Essa fé, simultaneamente simples e profunda, além de nutrir a esperança nas horas difíceis e tormentosas, pode cimentar a consciência crítica, as lutas sociais e a mobilização. Daí a importância de levar em conta as manifestações culturais e religiosas das diferentes regiões e estados do país.

  1. A escuridão é terreno fértil para acender novas luzes

A crise muitas vezes cega a vista, entorpece os membros, quebra toda vontade se seguir adiante. Não há luz no fim do túnel, os passos não sabem para onde se dirigir. As turbulências políticas de 2005, de certa forma apagaram os faróis que iluminavam nossos caminhos. Aliás, desde o seu início o governo Lula deixou de lado os princípios que vinham iluminando a trajetória do Partido dos Trabalhadores desde sua origem. Após a crise levantada pelas CPI’s e pelo “mensalão”, as forças sociais que apoiaram o projeto popular concentrado na candidatura Lula se fragmentaram: uns continuam no PT, acreditando na possibilidade de re-fundação do partido; outros, migraram para o P-SOL, na esperança, quem sabe, de construir um novo canal político de participação popular; boa parte declara-se abertamente “sem partido”, acrescentando mais um rosto à multidão dos “sem”; uma grande maioria, entretanto, ainda cultua o mito Lula, de carteirinha pronta para reelegê-lo em 2006.

No decorrer desse governo todos nós, de alguma forma, passamos da perplexidade à decepção e desta à indignação. As luzes se apagaram e nos deixaram na penumbra. Aqui há riscos e há fracassos, mas também há lições e há potencialidades. Os fracassos são evidentes nos resultados, ou na falta de resultados, dos três anos do governo Lula. Os compromissos com o mercado financeiro impediram a implementação de políticas públicas, sendo estas substituídas por políticas compensatórias. Só para dar uma idéia dos lucros dos bancos que atuam no Brasil, “segundo levantamento do Banco Central, com dados de 104 instituições financeiras, em 2005, o setor registrou ganhos de R$ 28,3 bilhões, 36% superiores aos de 2004”[13].

O slogan se inverteu: o medo venceu a esperança. Entretanto, tropeçando na política macro-econômica e na corrupção, o governo Lula acabou prestando um grande serviço ao país. Quebrando a hegemonia de um determinado pensamento de esquerda, fez do Brasil de hoje um imenso laboratório político. Laboratório é oficina de experiências onde se realizam novas experiências. O cenário atual abre a possibilidade para novos experimentos, novas combinações, novas posturas e novas práticas, como também novas formas de “fazer política”. Luzes diversificadas se acendem e brilham com força crescente. A expressão “fazer política”, nesta nova maneira de enxergar, não exige necessariamente um partido político. A política do bem comum, na sua acepção original, pode ser levada adiante no interior dos movimentos, associações, pastorais sociais e ONG’s autônomas e independentes. Os papéis das diversas instâncias da sociedade civil, por um lado, e dos partidos políticos, por outro, tendem agora a ficar mais distintos e mais claros.

A verdade é que

“a última eleição presidencial em nosso país, inflou o balão das expectativas populares. Desencadeou anseios de mudança muito acima da capacidade real de mobilização. Inversamente, a correlação de forças das organizações sociais estava muito aquém dos anseios gerados pela subida de Lula ao Planalto. Resultado: hoje as expectativas retornam ao interior dos movimentos sociais e adquirem seu tamanho real. Desfazem-se ilusões, põem-se os pés no chão. Redescobre-se a consciência de que as mudanças não virão de cima. As expectativas de mudança voltam à lenta e dura tarefa das ruas”[14].

Aprendemos a lição: um partido é importante, sem dívida, mas é apenas um entre tantos instrumentos de luta social e política. Não podemos queimar todas as energias e todas as fichas na organização do partido. Impõe-se a necessidade de construir outras vias alternativas de participação popular. Aprendemos também que as mudanças não virão de cima. Os poderes executivo, judiciário e legislativo, no Brasil, estão histórica e estruturalmente viciados. Fazem tudo para garantir os privilégios da Casa Grande, mas viram as costas para as necessidades da Senzala. Aprendemos, ainda, o que já vinha sendo refletido nos espaços do Grito em anos anteriores, ou seja, que as mudanças estão em nossas mãos. Ou elas ocorrem nas ruas, com a mobilização popular, ou simplesmente não haverá mudança de espécie alguma.

  1. O deserto é terreno fértil para desafiar a uma nova vida

Crise é também é deserto. Tudo parece seco e árido. As tempestades de areia – a corrupção política e as dívidas sociais – apagam as pegadas dos pés. Temos que reconstruir veredas novas num terreno incógnito e hostil. O deserto estende a perder de vista e parece não haver um ponto verde de esperança. Será? Também neste caso, o deserto é fértil em riscos e em potencialidades. Do lado dos riscos, a grande mídia insiste em levantar os ventos da tempestade e jogar arei em nossos olhos. Ficamos sem saber ao certo o que é verdade é o que é “intriga da oposição”. Em meio a este vendaval, como discernir?

É aqui que entra o lado das potencialidades. A melhor forma de não errar o caminho é colar os ouvidos nos clamores popular, nas necessidades mais urgentes dos excluídos. Se soubermos permanecer fiéis a esses gritos, nada nem ninguém poderá nos desviar do horizonte, nos cooptar ou nos manipular. Isso ressalta a necessidade de voltar ao trabalho de base, às atividades de “formiguinha”, à criação e/ou fortalecimento de pequenos núcleos de reflexão e ação, desde que esse trabalho local esteja conectado e articulado com as redes nacionais e globais de mobilização.

A Assembléia Popular Mutirão por um Novo Brasil, realizada na capital federal, em outubro de 2005, já nos alertava para a necessidade de avançar da democracia representativa para a democracia direta e participativa. O desafio é abrir novos canais, novos instrumentos e novos mecanismos de controle e fiscalização do poder político e do orçamento da União.

  1. O não lugar é terreno fértil para sonhar com um novo lugar

Tomo emprestado de Boaventura Santos[15] o conceito de “fronteira”, adaptando-o livremente à nossa reflexão, como outro campo de riscos e potencialidades. O excluído é aquele que habita o espaço indefinido da fronteira. O termo “fronteira”, neste caso, é entendido não tanto em termos geográficos, mas em termos simbólicos, culturais e até psíquicos. Uma espécie de não lugar, onde mora um não cidadão, marcado pela carência daquilo que é básico à dignidade humana. Por isso mesmo, vê sua identidade ameaçada, questionada, fragmentada. No extremo, até a esperança e a fé se vêem abaladas. Bastaria ter presente, aqui, os rostos dos sem terra, dos desempregados, dos moradores de rua, dos povos indígenas, dos negros e remanescentes de quilombos, dos jovens aliciados pela tráfico e pelas drogas, das mulheres prostituídas ou vítimas da violência dentro de suas próprias famílias, das crianças abandonadas, dos trabalhadores escravos, das vítimas do tráfico de seres humanos, dos migrantes e imigrantes, entre tantos outros.

A partir desse não lugar, o excluído é levado a interrogar a Deus e a interrogar o próprio destino. Dúvida, medo e insegurança passam a habitar o coração e a alma. O perigo da fome, da solidão e do desespero ronda a porta. De acordo com Boaventura Santos, é aí que o pobre vai lançar mão, simultaneamente, de sua herança cultural e da invenção de novas formas de sociabilidade. Esse espaço ambíguo da fronteira – esse não lugar – é ao mesmo tempo cheio de riscos e de novas potencialidades. Uns e outras se misturam, se confundem e se alternam. Se, por um lado, a fronteira revela o excluído como vítima da ordem mundial vigente, por outro, também o revela como protagonista de um novo tempo. A experiência de passar pela fronteira abre perspectivas para buscar uma nova cidadania. Ou seja, o não lugar torna-se o melhor lugar para refletir sobre um novo lugar.

Potencialmente, o terreno ambíguo da fronteira torna-se o lugar ideal e privilegiado para criar as raízes de uma nova sociedade que, em termos mais amplos, é também uma nova noção de pátria, um terreno fértil para cultivar o conceito de cidadania universal e sem fronteiras. A partir da experiência dolorosa de estar fora dos muros que dão proteção aos “incluídos”, engendra-se o anseio por uma casa aberta a todos e a todas, indistintamente. Numa palavra, a multidão de excluídos hoje habita a fronteira de dois mundos ou duas civilizações: de um lado, uma ordem mundial simultaneamente concentradora e excludente, de outro, o sonho de um outro mundo possível. O próprio fato de ser “excluído” é, ao mesmo tempo, denúncia e anúncio, num tempo marcado por profundas assimetrias sócio-econômicas. Denúncia da falta de condições reais para sobreviver em seu próprio meio e anúncio de que mudanças substanciais se fazem necessárias e urgentes.

Os pobres, ao experimentarem no corpo e na alma profundas carências, são portadores dessa nova utopia mundial. Tornam-se, a um só tempo, sinais das contradições da globalização neoliberal e porta-vozes de uma nova ordem mundial. O solo escorregadio da fronteira gera uma atitude ambígua marcada pela experiência de se encontrar fora de casa e da pátria. Nesse não lugar, o não cidadão se depara frente a uma encruzilhada: o que fazer? Entregar-se ao desespero, apelar para a caridade dos vizinhos ou lutar para abrir novos caminhos?

O não lugar, embora indefinido e cheio de riscos, torna-se então fecundo de potencialidades, com vistas a uma nova reflexão sobre a própria existência, sobre a fé em Deus e sobre a prática solidária para com os irmãos e irmãs. Convém não esquecer, aliás, que o próprio Jesus nasceu e morreu fora dos muros da cidade, respectivamente numa gruta e no calvário das execuções. De um lado, diz o relato evangélico, Maria “deu à luz o seu filho primogênito e o deitou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na pousada” (Lc 2,5-7). De outro, ao ser crucificado, o levam para “fora das portas da cidade (Hbr 13,11-12). A família de Nazaré passou, diversas vezes, pela experiência da migração e da exclusão social. Na trajetória que vai do berço-manjedoura à cruz, e desta à ressurreição, a mensagem da Boa Nova do Evangelho mergulha suas raízes no terreno simultaneamente movediço e fértil do não lugar. Numa palavra, até mesmo do ponto de vista teológico, a fronteira é um lugar fecundo para deitar os alicerces do Reino de Deus.

Conclusão

Utilizamos mais uma vez as palavras de Lefebvre para colocar um ponto final em nossa reflexão: “As questões mistas, os acontecimentos marginais, os fatos em contradição aparente ou real, os conceitos laterais, são os mais reveladores e os mais fecundos. As tensões são fecundas, estéreis são as sujeições”[16]. De fato, uma sociedade fechada, cristalizada, petrificada torna-se impermeável à transformação social. A mudança somente será fértil quando se insinua através das brechas e das fissuras das estruturas de auto-suficiência humana, sejam sócio-econômicas, sejam humanas. A situação e o grito dos excluídos, por si só, expõem as incongruências e as tensões de uma determinada ordem social, ao mesmo tempo que cobra transformações profundas. O terreno da exclusão social constitui um campo minado, em que as correntes subterrâneas pressionam por explodir e vir à superfície. Na encruzilhada entre os riscos e as potencialidades da práxis humana, forjam-se caminhos novos em direção a um outro mundo possível.

 

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[1] CHENAIS, François. A Mundialização do Capital, Xamã VM Editora e Gráfica Ltda., São Paulo 1996.

[2] NEGRI, Antonio & HARDT, Michael. Império, Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 2001; CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Editora Paz e Terra, São Paulo, 1999 – 3 volumes.

[3] Convém ter em conta os conceitos de “inclusão perversa” e de “inclusão diferencial” de MARTINS, J.S. & de NEGRI, Antonio, respectivamente.

[4] BEINSTEIN, Jorge. Capitalismo senil – A grande crise da economia global, Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 2001.

[5] SANTOS, Boaventura de Souza. A Crise da Razão Indolente – Contra o desperdício da experiência, Cortez Editora, São Paulo, 2000.

[6] HEGEL, G.W.F. Fenomenologia del Espiritu, Fondo de Cultura Economica, México, 1988.

[7] Ver, por exemplo: LYOTARD, J.François. A Condição pós-moderna, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 2002; HARVEY, David. Condição pós-moderna, Edições Loyola, São Paulo, 2002 & GIDDENS, Anthony. As Conseqüências da Modernidade. Editora Unesp, São Paulo 1991.

[8] MARX, K. & ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista, Editora Martin Claret, São Paulo, 2001.

[9] LEFEBVRE, Henri. Critique de la vie quotidienne, Tomo II, Fondements d’une sociologie de la quotidienneté, L’Arche Editeur, Paris, 1961, pág. 196-198.

[10] LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio – Ensaios sobre o individualismo contemporâneo, Editora Manole, São Paulo, 2005.

[11]LEFEBVRE, Henri. Idem, pág. 11-12 (tradução livre).

[12] LEFEBVRE, Henri. Idem, pág. 243.

[13] Folha de São Paulo, 10/03/2006, pág. B3.

[14] In: Análise de Conjuntura apresentada em fevereiro de 2006 numa reunião da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

[15] SANTOS, Boaventura Souza. Fronteira, in: Crítica da Razão Indolente – Contra o desperdício da experiência. Cortez Editora. São Paulo, 2000. Págs. 347-356.

[16] LEFEBVRE, Henri. Idem, pág. 275-276.

 

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