por VALDINEI APARECIDO FERREIRA

Doutorando em Sociologia/USP

 

 

O Protestantismo na atualidade

 

O protestantismo é um dos grandes ramos do cristianismo. As grandes linhas divisórias do cristianismo têm sido delineadas da seguinte forma: catolicismo romano, igrejas orientais e ortodoxas e protestantismo. A. G. Mendonça[1] observa que tal categorização deixa em aberto um problema: onde encaixar o anglicanismo? Embora a Igreja da Inglaterra resulte da Reforma Religiosa, acabou ficando a meio caminho entre o catolicismo romano e o protestantismo. Mendonça propõe o estabelecimento de uma quarta categoria, ficando assim a classificação: Romana, Ortodoxas ou Orientais, Anglicana e Protestante.

No agrupamento protestante, temos as igrejas originadas pela Reforma do Século XVI. No interior da Reforma encontramos, de início, duas orientações: luterana e calvinista. Sobre os desdobramentos e conexões com a Reforma A. G. Mendonça faz a seguinte observação:

Então, protestantes seriam aquelas igrejas originadas da Reforma ou que, embora surgidas posteriormente, guardam os princípios gerais do movimento. Estas igrejas compõem a grande família da Reforma: luteranas, presbiterianas, metodistas, congregacionais e batistas. Estas últimas, as batistas, também resistem ao conceito de protestantes por razões de ordem histórica, embora mantenham os princípios da Reforma. Creio não ser, por isso, necessário criar para elas uma categoria à parte. São integrantes do protestantismo chamado tradicional ou histórico, tanto sob o ponto de vista teológico como eclesiológico. Estes cinco ramos ou famílias da Reforma multiplicam-se em numerosos sub-ramos, recebendo os mais diferentes nomes, mas que, ao guardar os princípios fundantes, podem ser incluídos no universo do protestantismo propriamente dito.[2]

Tendo identificado os grandes agrupamentos do cristianismo e da Reforma, devemos passar à definição dos traços gerais da religião protestante. Elaborar definições não é uma tarefa fácil. Steve Bruce faz as seguintes observações sobre tal trabalho:

The aim of definition must be to identify in a systematic and consistent manner the phenomenon under investigation. The problem is to find some method of transcending the particular details of the various appearances of the phenomenon without going so far from the material, and without including so much of one’s explanation in the initial definition, that on is guilty of tautology.[3]

São quase 500 anos de protestantismo e uma miríade de igrejas nascidas dos cinco agrupamentos principais da Reforma. Qualquer apontamento correrá sempre o risco de tomar por essencial algo que seja apenas circunstancial e/ou secundário. Preferimos, ao invés de uma tipologia do protestantismo, o apontamento dos traços principais seguindo o modelo de adesão religiosa elaborado por STARK, R. e GLOCK, C.Y. Os autores[4] propõem as seguintes dimensões para a análise da adesão religiosa: crença, prática religiosa, experiência, conhecimento e conseqüências. Analisando o protestantismo a partir das dimensões listadas, temos o seguinte quadro:

Crença

Crê que a Bíblia é a fonte de autoridade e revelação;

Crê no livre exame da Bíblia;

Crê na salvação individual pela morte expiatória de Cristo;

Prática religiosa

Freqüência aos cultos nos quais são cantados hinos e feitas orações;

Culto centralizado na proclamação da Palavra;

Participação na Ceia do Senhor;

Leitura devocional da Bíblia feita regularmente;

Orações individuais ou em família feitas regularmente; 

Pregação aos não-crentes

Experiência

Ênfase na necessidade de convicção pessoal quanto à salvação;

Pouca concessão às emoções, exceto nos momentos de conversão e arrependimento para santificação pessoal. 

Conhecimento

Freqüência à Escola Dominical;

Cursos preparatórios (catecúmenos) para o batismo;

Ensino de catecismos e confissões (Confissão de Westminster, Heildelberg, Helvética, Ausburgo, Catecismos Maior e Menor);

Leitura de literatura devocional.

Conseqüências

Disciplina no uso do tempo e das finanças;

Participação nas decisões da vida comunitária;

Conduta sexual conservadora;

Sobriedade nas vestimentas e linguagem;

Restrições quanto a festas e consumo de cigarros e bebidas alcoólicas. 

 

Duas observações precisam ser feitas quanto ao quadro acima. Primeiro – as ênfases numa das dimensões serão mais ou menos intensas dependendo do grupo religioso (presbiteriano, luterano, congregacional, metodista ou batista). Exemplo: os batistas enfatizarão mais do que os presbiterianos a pregação aos não-crentes, como elemento da prática religiosa. Luteranos serão mais tolerantes quanto ao consumo de bebidas alcoólicas do que os metodistas etc. Segundo – de acordo com determinados períodos históricos, algumas das dimensões poderão ser enfatizadas com a mesma intensidade pelas diferentes igrejas que compõem o agrupamento Reformado. Exemplo: a ênfase na conversão pessoal passou a ser compartilhada por todos a partir dos dois grandes despertamentos (awakenings) norte-americanos nos séculos XVIII e XIX.

O peso de cada uma das dimensões também poderá variar de acordo com a movimentação do grupo religioso dentro do gradiente seita-igreja.Todavia, a distribuição das características da religiosidade protestante nas dimensões elaboradas por Stark e Glock ajuda-nos na sistematização dos elementos que julgamos constitutivos do fenômeno em estudo.

O termo protestantismo no Brasil é subdividido em dois grupos: de imigração e de missão. O protestantismo de imigração, representado pelo ramo luterano da Reforma, se estabeleceu no Brasil em 1824 com a chegada dos imigrantes alemães.[5] O protestantismo de missão compreende as igrejas que foram implantadas no Brasil, ainda no século XIX, sob a iniciativa das missões  protestantes norte-americanas. São elas: presbiteriana (1859), batista (1881), metodista (1886) e episcopal (1898). A igreja congregacional, também derivada da Reforma Protestante, foi a primeira das igrejas missionárias a ser implantada no Brasil (1855). Sua inserção no Brasil não foi resultado da iniciativa de missão norte-americana, mas do médico Robert Reid Kalley, que para cá veio fugindo da perseguição religiosa movida contra ele na Ilha da Madeira.

Segundo o Censo 2000, 1.062.144 brasileiros se declararam luteranos. Os batistas, de acordo com o Censo 2000, contavam com 3.162.700 fiéis brasileiros. Os presbiterianos com 981.055 fiéis e os metodistas com 340.967 fiéis. Ao somarmos o total de protestantes históricos veremos que em 2000 representavam 5,0% do total da população brasileira. Em 1980 os protestantes históricos representavam 3,4% da população brasileira e em 1991 contavam com 3,0% do total da população. A leve recuperação da tendência declinante ainda é um fenômeno a ser investigado. Todavia, duas hipóteses parecem razoáveis como explicação para a recuperação: a) aproximação das técnicas pentecostais de proselitismo; b) as igrejas pentecostais recebem muitas adesões, mas parte de sua clientela migra para as igrejas do protestantismo histórico. 

Com a menção acima, tocamos numa das questões mais tematizadas no universo protestante da atualidade, o pentecostalismo. A Assembléia de Deus instalou-se no Brasil em 1911 e a Congregação Cristã em 1910. São elas as duas maiores igrejas pentecostais do Brasil. As igrejas Deus é Amor e Evangelho Quadrangular foram criadas em meados do Século XX. Já a Igreja Universal do Reino de Deus foi organizada em 1977, por Edir Macedo. Essas são as maiores igrejas pentecostais no Brasil. De acordo com o Censo 2000 o quadro de fiéis em cada uma delas é o seguinte: Assembléia de Deus – 8.418.154, Congregação Cristã do Brasil – 2.489.089, Igreja Universal do Reino de Deus – 2.101.884, Evangelho Quadrangular – 1.318.812, Deus é Amor – 774.827, Outras – 2.630.721.

Enquanto os protestantes históricos representam 5,0% do total da população brasileira, os pentecostais representam 10,6% da população. Sob o rótulo “pentecostais” agrupamos igrejas com ênfases e estilos bastante diferenciados. Entretanto, sob a perspectiva sociológica é possível identificar alguns traços comuns na multiplicidade pentecostal:

As igrejas pentecostais, no seu conjunto, são mais urbanas que rurais, mais femininas que masculinas (têm cerca de 10% de mulheres a mais que a média), têm muitas crianças (até os 15 anos), mas poucos adolescentes de 15-20 anos e, em geral, em todas as idades, estão um pouco abaixo da média. Quanto à raça ou cor, têm mais negros, pardos e indígenas que a média; têm pouquíssimos amarelos. O nível de instrução é baixo. Quase não há fiéis com formação superior ou pós-graduação. Quanto às atividades, têm poucos agricultores e funcionários públicos, mas têm 50% a mais que a média de empregados em serviços pessoais (domésticos). O alto número de domésticos (com ou sem carteira) é confirmado pela posição na ocupação. Baixa porcentagem de empregadores. A renda é geralmente muito baixa, com poucas exceções.[6]

Como interpretar os significados sociais do pentecostalismo no Brasil? O pentecostalismo representa uma ruptura com a cultura católica popular ou uma continuidade? Diante da diversidade de igrejas pentecostais, não seria melhor falar em “pentecostalismos”? Pode o pentecostalismo ser considerado ainda um tipo de protestantismo? Como se vê, são muitas as questões que o fenômeno pentecostal suscita. Impossível respondê-las nos limites deste artigo. Todavia, julgo que o trabalho de pesquisa deva justamente matizar o fenômeno. É isto que vários trabalhos específicos sobre o campo pentecostal vêm realizando. L. S. Campos[7] analisa as mudanças organizacionais na oferta de bens simbólicos introduzidas pela Igreja Universal do Reino de Deus. Ricardo Mariano[8] mostra como o neopentecostalismo dota os fiéis para uma nova compreensão do dinheiro. Maria das Dores Campos Machado[9] examina o lugar da mulher nas igrejas pentecostais. Sem a pretensão de ser exaustivo no exame da literatura sociológica sobre o pentecostalismo da atualidade, as referências acima ilustram a diversidade e riqueza do tema.

Procurou-se, ainda que de forma bastante sintética, apresentar um panorama do protestantismo brasileiro na atualidade. Uma certeza podemos ter: qualquer análise sociológica do Brasil contemporâneo estará incompleta se não enfrentar o significado da mudança religiosa que está ocorrendo, principalmente a partir dos anos 80.

[1] MENDONÇA, A.G. O Protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas. Disponível em: <http://www.antoniomendonca.pro.br/ > acesso em: 25/02/2006.

[2] Idem

[3] BRUCE, Steve. A house divided: protestantism, schism, and secularization. Routledge: London and New York, 1990. p.31 “O objetivo da definição deve ser identificar de maneira consistente e sistematizada o fenômeno sob investigação. O problema  é encontrar algum método para transcender os detalhes das diferentes manifestações do fenômeno sem afastar-se do material e sem acrescentar muito da explanação na definição inicial, que se torne culpado de tautologia”. (Tradução minha)

[4] STARK, R.; GLOCK, C.Y. Dimensiones de la adhesión religiosa. In:ROBERTSON, R. (org) Sociología de la religión. México: Fondo de Cultura Econômica, 1980. p.228-235.

[5] Houve, em 1810, o estabelecimento de pequenos grupos de anglicanos ligados à presença inglesa no Brasil.

[6] ANTONIAZZI, A. Por que o panorama religioso no Brasil mudou tanto? São Paulo: Paulus,  2004, p. 40.

[7] CAMPOS, L. S. Teatro, Templo e Mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997.

[8] MARIANO, R. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo. São Paulo: Loyola, 1999.

[9] MACHADO, M.D.C. Carismáticos e pentecostais: adesão religiosa na esfera familiar. Campinas/São Paulo: Autores Associados/ANPOCS, 1996.

 

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