por ROBERT LUMSDEN

Robert Lumsden nasceu na Austrália. Ele ensinou inglês e literatura em vários países

 

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versão em inglês

 

 

Felicidade

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

Ele estava sentado ao lado da ponte por dois dias quando o segundo motociclista chegou. Vinha numa daquelas Hondas novas, uma máquina muito mais esplêndida que a sua velha, mas gloriosa lambreta. Ele mal olhou para o recém-chegado acima das botas, quando ele chegou e se postou diante dele, e olharam juntos a torrente de água a mil pés abaixo do barranco. O recém-chegado – que se apresentou como “Abe” – assoviou ao ver a altura.

“Nós temos que atravessar aquilo?”

“Ou atravessamos, ou voltamos.”

Os dois olharam para a ponte se estendendo por cento e cinqüenta metros acima do precipício. Feita de cordas, com um “assoalho” de ripas de madeira colocadas a intervalos de seis centímetros – ele tinha medido a distância entre as duas primeiras ripas, e era de exatamente seis centímetros – a ponte estava escorregadia com o borrifo que vinha das corredeiras abaixo, trazidas pra cima pelo vento.

“Esta ponte é segura?” Abe perguntou.

“Veja você mesmo. Ela parece segura?”

“Ela balança um pouco, não? Balança no vento.”

“Eu tenho certeza que algumas das cordas estão desfiadas,” o velho trabalhador disse,” algumas bem no meio.”

“Jesus.”

“Eu poderia mostrar as partes desfiadas pra você, se você quiser.”

“Eu prefiro não saber.”

Eles ficaram calados por algum tempo, escutando o rugido do rio chegar até eles pelas paredes do precipício. Por fim, Abe disse:

“O que vamos fazer?”

O velho trabalhador se voltou e o olhou de frente, na cara, pela primeira vez, embora ainda não tivesse se levantado.

“Nós poderíamos voltar,” ele disse.

“Que diabos, não! Eu viajei por mais de cem pedaços ruins pra chegar até aqui. Tem que ter outro jeito.”

“Nós poderíamos nos decidir a atravessar.”

Eles ficaram em silêncio por um tempo, compartindo esta possibilidade como se ela fosse um sacramento amargo.

“Qual seria a melhor maneira?” Abe perguntou. “Quem o faria? Passar correndo o mais rápido possível, ou atravessar o mais devagar possível, polegada por polegada?”

“Estou sentado aqui há dois dias, tentando decidir.”

Abe se levantou e caminhou em direção à sua motocicleta, e depois retornou.

“Isto é impossível,” ele disse.

“Há uma terceira opção.”

“OK. Qual?”

“Nós podemos ficar sentados aqui até que uma quarta opção se apresente.”

“Esperar que alguma coisa aconteça enquanto a sua vida se esvai?” Abe estendeu um braço e fez um gesto ao seu redor, incluindo a estrada atrás deles e as rochas em frente deles. “Nada acontece aqui, não é mesmo? Dá pra ver isso.”

O velho trabalhador concordou, mas pensou: por que eu não posso simplesmente ficar sentando aqui e ver o tempo passar, ver o sol levantar e se por, sentir os dias expirando através de mim? Eu poderia conseguir uns bocados de comida dos que passam – aqueles loucos o suficiente ou com coragem suficiente para tentar atravessar, e aqueles que chegam até aqui e voltam. O que estaria errado com esta idéia. Seria um crime?

“Quem seria feliz fazendo isso?” Abe perguntou. “Apenas esperando? Você teria que fazer algum movimento, de uma maneira ou de outra.”

Ele fez uma pausa, buscando alguma idéia conclusiva. “Para ser um homem,” ele disse, “Você teria que.”

Eu poderia mostrar a ele, o velho trabalhador pensou, como alguma coisa sempre traz remorso, mesmo aos homens que têm tanta pressa de se levantarem e saírem. Você poderia dizer que o sucesso de um homem se mede pelo quanto os que ficam sentem que sua partida deixa alguma coisa por fazer, uma ausência que ele poderia ter completado, com uma conversa talvez, ou com uma piada inesperada, ou um gesto memorável para preencher uma tarde ociosa. Nada disto pode acontecer quando ele se decide, finalmente, a partir. Ao permanecer sempre no mesmo lugar, aquelas ausências são resolvidas. Aquele gesto bonito continua sendo possível. Simplesmente ficando onde está, a pessoa atinge o objetivo.

O velho trabalhador olhou para baixo, para o fundo do vale, algo que ele não fazia freqüentemente.

Se eu atravesso aquela ponte e ela se quebra e eu caio e morro naquelas rochas lá embaixo, ele pensou, as incompletudes dos meus amigos serão imutáveis, para sempre.

“Eu estou feliz aqui,” ele disse.

“Isto ‘e besteira,” Abe disse. Ele deu alguns passos, impaciente, limpando as palmas das mãos nas calças. “Você quer saber o que a felicidade é? Eu lhe digo. A felicidade é decidir como atravessar aquela desgraçada daquela ponte, e atravessá-la. É isto. Nenhum grande mistério. A felicidade não é nem chegar onde você quer chegar. É tentar chegar. É alcançar o ponto onde você pode ver sua chegada.”

Ele se afastou, e depois voltou.

“Isto é o que é felicidade,” ele disse.

Os dois se agacharam, e ficaram olhando o sol se por detrás da rocha.

“Já sei o que faremos,” Abe disse. “Amanhã bem cedo saímos. Quem vai primeiro?”

O velho trabalhador pensou em sugerir que eles tirassem a sorte, mas decidiu que isto seria muito grego pro seu gosto; clássico demais.

“O primeiro que arrumar as suas coisas, vai primeiro,” Abe disse. “O primeiro que saudar o dia terá a honra.”

Concordando, o velho trabalhador estava já antevendo a possibilidade de dormir até tarde no dia seguinte, e depois ficar quieto na cama ainda mais tempo. Ele não se surpreenderia se estivesse ainda no saco de dormir até o meio dia.

 

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