Por RAYMUNDO DE LIMA* & MARTA DALLA TORRE FREGONEZZI**

* Raymundo de Lima, professor de Metodologia da Pesquisa, do Departamento de Fundamentos da Educação, da Universidade Estadual de Maringá, Pr, mestre em psicologia (RJ), doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP).

** Marta Dalla Torre Fregonezzi, psicanalista, membro da Biblioteca Freudiana de Curitiba, fundadora do Ato: clínica e transmissão em psicanálise, também atende no serviço público municipal de saúde de Maringá, Pr.

 

 

A Felicidade existe? 

– Freud, a psicanálise e a felicidade

 

"Esse homem encontrou a felicidade ao descobrir o tesouro de Príamo, o que prova que a realização de um desejo infantil é o único capaz de proporcionar a felicidade" S. Freud. [1]

"não escapa a Freud que a felicidade é (…) o que deve ser proposto como termo a toda a busca, por mais ética que seja". J. Lacan  

Ninguém pode me obrigar a ser feliz a sua maneira”. I. Kant

 

Das clássicas proposições filosóficas aos atuais manuais de auto-ajuda, passando pelos trabalhos científicos e as construções utópico-ideológicas predominantes no século 20, a verdade é que o ser humano ainda não conseguiu dar uma resposta definitiva e satisfatória sobre o que é ser feliz e como conseguir sê-lo.

Seguindo o caminho das certezas, as "religiões prometem felicidade eterna, tendo como condição a fé”, observa o sociólogo Pedro Demo, professor da Universidade de Brasília e autor de três volumes “A Dialética da Felicidade” (Ed. Vozes, 2001).

A psicanálise que, junto com Freud, é reconhecida como um saber teórico, uma técnica de interpretação e uma clínica psicanalítica, voltada para diminuir o sofrimento humano, é cética quanto ao sujeito[2] humano ser feliz. O próprio Freud teria dito que a psicanálise até pode resolver os problemas da miséria neurótica, mas ela nada pode fazer contra as misérias da vida como ela é.

Ainda, segundo Freud (1974), não sendo a psicanálise uma Weltanschauung, isto é, não sendo uma “cosmovisão”, uma construção intelectual que visa solucionar todos os problemas de nossa conturbada existência, com base em uma hipótese filosófica ou supostamente científica universal, é praticamente impossível conceber um ser humano plenamente feliz.

Herdeira do estilo socrático porque ousa buscar mas nada conclui, a psicanálise sustenta o compromisso de, por um lado, não deixar nenhuma pergunta sem resposta e, por outro, é  avessa as Weltanschauungs de todo o tipo, que acreditam terem encontrado a chave para explicar e resolver todos os males da humanidade, por meio do indivíduo, do grupo ou da coletividade[3].

A teoria psicanalítica e a felicidade

Para entender a relação psicanálise e felicidade, precisamos resgatar alguns de seus conceitos e categorias. O primeiro deles é o desejo. O desejo é humano, demasiadamente humano. O desejo (D.: Wunsch), tal como é entendido pela psicanálise, não é a mesma coisa que a necessidade. Enquanto a necessidade é um conceito biológico, natural, implica uma tensão interna que impele o organismo numa determinada direção no sentido de busca de redução dessa tensão ou satisfação, logo, a autoconservação (ex.; necessidade de fome, então buscamos comida), o desejo, sendo de ordem puramente psíquica, é desnaturado e como tal pertence à ordem simbólica. Enquanto a necessidade é biológica, instintiva e busca objetos específicos (comida, água, etc) para reduzir a tensão interna do organismo, o desejo não implica uma relação com esses objetos concretos, mas sim, com o fantasma ou fantasia. Ou seja, “o fantasma é, ao mesmo tempo, efeito do desejo arcaico inconsciente e matriz dos desejos atuais, conscientes e inconscientes” [4] (CHEMAMA, 1995: 71).

Diferente dos animais, no mundo demasiadamente humano, as necessidades são atravessadas pelo fenômeno da linguagem, porta-voz das demandas. A criança demanda [pede, solicita] à mãe que lhe forneça o objeto de sua necessidade para ela eliminar sua “falta-para ter”. Só que a demanda é sempre demanda por outra coisa, funcionando como pretexto para conseguir "algo" de que o sujeito sente falta e que pressupõe que o outro disponha a fornecê-lo reconhecimento e amor. Portanto, não somente existe nela (criança ou adulto) a necessidade do objeto "alimento x", mas sobretudo sempre existe uma "demanda para ser reconhecida e amada". No fundo, queremos ser preenchidos, plenos, ou seja, almejamos uma impossibilidade. Porque, a demanda é a solicitação de uma presença ou de uma ausência, e é sempre é dirigida ao Outro, como um pedido de amor e uma expectativa de preenchimento absoluto, de fusão das almas, de plenitude.

A demanda e o desejo fazem aparecer outro registro da falta - "a falta-a-ser". Acontece que, a satisfação do desejo é sempre adiada e nunca atingida, portanto, no fundo, o desejo busca o impossível. Seria o incesto? Restando-lhe sempre insatisfação, o desejo se vê obrigado a buscar outro caminho, a realização. Através de meios-objetos como a fantasia do seio, o sintoma, um beijo, o gozo da droga, o gozo do poder político, o gozo do discurso teórico da fé, o gozo do rico que priva o outro de também ter, o gozo de quem imputa sofrimento a outrem etc. Todas essas formas de realização são marcadas por insatisfações primitivas que se atualizam. O sujeito vive em estado de excitação contínua: prazer e desprazer ao mesmo tempo. A pulsão e o desejo nos diferenciam dos animais estes são seres de puro instinto, seres de necessidade. Os seres humanos por serem desejantes, seres de linguagem são condenados a sentir, primeiro mal-estar e angústia, depois por serem impulsionados para algo que se supõe trazer a felicidade, um estado de completude de não falta.

O que nos sustenta é uma ficção construída e dependente da memória de que um dia fomos para o desejo do Outro primordial (mãe), que nos acolheu em nosso desamparo de recém nato. E neste núcleo de nada, de ter sido o desejo do Outro que nos sustentamos, buscando incessantemente o reconhecimento nos olhares dos outros nossos semelhantes.

Por vezes isso se faz às custas de fazermo-nos sofrer em demasia. “O sofrimento dos neuróticos provém da angústia de não desejar em conformidade com o super-eu” (Nasio, 1993); pois para advir como sujeito, a que renunciar a essa plenitude (de ter sido o tudo para o outro) se adequando em conformidade com as exigências do social.

Continuando. O desejo, no fundo, sempre procura realizar a nostalgia do objeto perdido, que habita no inconsciente, isto é, no lugar do "não-sabido". (Em alemão, a língua de Freud, Unbewusste quer dizer: não-sabido). Então, o objeto não-sabido e recalcado do desejo está condenado a repetir na atualidade o que no passado remoto possivelmente foi prazer e depois virou gozo[5]. Portanto, tal como entende a psicanálise, o desejo implica num desvio ou perversão da ordem natural ou biológica. Deixando de ser instintivos, os humanos se orientam pela ‘ordem’ pulsional e desejante, ou seja, não somos mais movidos pela força instintiva, que é apenas matriz do comportamento dos animais ditos irracionais. Somos seres simbólicos, marcados pela desnaturalização empreendida pela cultura. Somo movidos sempre por ‘outra coisa’. Se fôssemos somente instinto e necessidade, seríamos como os animais, que parecem felizes quando cumprem com seu ciclo biológico de fome e sexo. O animal satisfeito deve  ser feliz. Mas, o mesmo não acontece com os seres humanos. Podemos ter ‘tudo’ e ao mesmo tempo sentir vazio existencial; podemos sentir prazer[6] e ao mesmo tempo colher desprazer em nossos atos demasiadamente humanos. Se estivéssemos presos ao instinto, ainda teríamos cio, faríamos sexo somente em determinada época do ano apenas para procriar; comeríamos apenas para matar a fome e não para degustar para comida de um famoso restaurante e beber um vinho de uma safra ‘x’, servido em um copo especial, etc, etc. Entretanto, a condição humana de ser desnaturalizado, desejante, cultural, complica a sua conquista para ser feliz, embora possamos eventualmente experimentar alguns momentos  de felicidade[7], como o gozo sexual, o recebimento de uma promoção no trabalho, ganhar um prêmio, ver nascer um filho, etc.

Essa distinção é importante porque, além de distinguir a categorias da “satisfação” e da “realização”, tem importantes conseqüências na condução da clínica psicanalítica, na política e na concepção sobre a construção da civilização. Uma psicoterapia baseada na satisfação das necessidades dos pacientes constitui um grave equívoco, é enganação, e pode abrir caminho para a perversão da relação profissional, chamada por Freud (1974: v. XI) de ‘psicanálise selvagem’. No centro da teoria e da prática psicanalíticas está o desejo, diz Freud. Não é a necessidade, mas o desejo. E, no final de um processo de psicanálise onde estava o ‘isso’ [id] o ‘eu’ [ego] deve advir. Esse princípio tem correspondência no campo político. Uma ideologia política movida apenas para proporcionar a ‘satisfação da necessidade coletiva’ começa por confundir o que é necessidade, desejo e demanda. Ela  poderia proporcionar bem-estar coletivo, saúde física, boa educação, mas poderia ser um fracasso quanto à realização das potencialidades subjetivas. As experiências do socialismo real demonstram o quanto às pessoas podem ser gratas ao sistema sustentar uma boa saúde e boa educação, mas, com medo, reclamam sobre a falta de liberdade para ser.

É certo que a necessidade quando preenchida leva o sujeito a obter a sensação de satisfação. Mas, não o leva o leva sentir-se feliz. Isto acontece porque “o desejo, jamais é satisfeito" (GARCIA-ROZA: 144). Por que, então, o desejo humano jamais é satisfeito?

Sujeito x felicidade

Para Freud, o desejo é o que põe em movimento o aparelho psíquico e o orienta segundo a percepção do agradável e do desagradável. O desejo nasce da zona erógena do corpo, e sem se reduzir ao corpo (soma) somente pode se satisfazer apenas parcialmente. Como já foi dito, ele realiza-se no movimento de querer-mais-e-mais. Como formula Lacan, "O  desejo é sempre o desejo de um outro desejo”. O desejo humano é algo sempre adiado, é intervalar. O desejo vive de sua insatisfação, resguardada esta estranha função: a função de insatisfação (MASOTTA, 193: 83-4 – grifo nosso).

O desejo jamais é satisfeito porque tem origem e sustentação da falta essencial que habita o ser humano, daquilo que jamais será preenchido e, por isso mesmo o faz sofrer, mas também o impulsiona para buscar realização – ou satisfação parcial – no mundo objetivo ou na sua própria subjetividade (sonhos, artes, projetos utópicos, fé no absoluto, etc). O que entendemos por sujeito é construído desse circuito onde a libido sempre tem um excesso que sustenta o movimento desejante. O sujeito em psicanálise é dividido; o sujeito não é o in-divíduo (ver nota de rodapé n. 2). Com o sujeito, faz surgir uma história com seus atos de melhoria e transformação. "É pela ação de assimilar o objeto que o homem se vê como oposto ao mundo exterior. O primeiro desejo é um desejo sensual: o desejo de comer, por exemplo, através do qual o homem procura suprimir ou transformar o objeto assimilando-o”(GARCIA-ROZA,1983: 141).

A afirmação freudiana que diz que “o mundo é movido pela fome e pelo amor” também traz sérias conseqüências práticas, para além da biologia, da psicologia, da política, etc. Somente um pensamento complexo que está por ser inventado poderá dar conta dessa questão. Evidentemente, o sujeito humano sempre buscou, para si e para todos, primeiro, a sobrevivência física e, depois, a realização de alguns projetos para além da necessidade, representados pelos sonhos, a arte e os projetos políticos utópicos[8]. Entretanto, é preciso reconhecer que é na dimensão onírica que o desejo se realiza, por meio do disfarce. Só assim ele pode ser feliz. Porque, na dimensão concreta da realidade, jamais o sujeito poderá conquistar a felicidade. A realidade do mundo, dos acontecimentos e dos fatos, sempre frustra nossa capacidade desejante de preenchimento ou a sensação de ser feliz. 

Portanto, não podemos associar a satisfação das necessidades com a felicidade. A arte, a política, a fé religiosa ou laica, prometem, mas não cumprem a aspiração de proporcionar felicidade ‘realista’ao ser humano, porque ele está a priori condenado a insatisfação, a angústia e deve se contentar apenas com os momentos de satisfação parcial ou realização ilusória. Talvez, o sujeito humano pudesse estar mais próximo da felicidade quando sonha ou elabora projetos de uma vida feliz. Desde Agostinho, passando por Leibniz, e Spinoza, a falta essencial está associada ao “mal radical” do ser humano[9]. Não porque ele é um ser diabólico, mas porque é um ser eternamente propenso a buscar, buscar, buscar. Este estado de ‘mal-estar’ do ser humano fundou a cultura ou civilização. Imperfeita em todos os aspectos, esta civilização faz surgir movimentos diversos visando melhorá-la ou destruí-la, para reconstruí-la em outras bases. O mal-estar de nossa civilização nada mais é, segundo Freud, que o reconhecimento de que estamos condenados a uma economia libidinal baseada no mais-gozar. Enquanto a mais-valia sustenta a economia capitalista, em Marx, o mais-gozar sustenta a economia libidinal do sujeito, em Lacan. É na repetição que o sujeito goza. “E, enquanto goza, é feliz. É feliz tanto na ‘felicidade’ – passe a expressão – como na infelicidade, no bem como no mal, no prazer e na dor” (PEREIRINHA, 1997).

O desenvolvimento biotecnológico parece prometer uma felicidade que não se cumpre (vide o alto índice de depressivos, apesar do Prozac).

A psicanálise não ensina o sentido da vida, mas ao questionar sua história e suas escolhas, permite ao sujeito encontrar um sentido para sua vida, do que possa ser as felicidades possíveis, sendo ele o autor de sua própria história.

Embora pareça pessimista essa afirmação psicanalítica, não impede que continuamos tendo como meta de vida ser-feliz, não a maneira do desejo dos outros (Kant), que sempre estão prontos para nos empurrar sua filosofia, ciência, fé, ou ideologia política totalitária, fazendo de nossa vida um inferno.

A felicidade não pode ser produto de uma alienação, enganação ou delírio. Os recentes estudos sobre a felicidade apontam que ela será inventada por um sujeito que aprendeu a conhecer melhor a si próprio e o mundo em que vive. “Conhecer-se a si mesmo é uma grande valia para a felicidade, tanto para termos noção mais concreta de nossas potencialidades quanto para sabermos dos nossos defeitos” (DEMO, 2001).

O procedimento da auto-análise, sem dúvida, pode conduzir o sujeito para desenvolver a coragem de construir um estilo de vida com autocrítica e compromisso de melhorar alguns aspectos da própria vida e dos outros, também. Alguns estudos confirmam antigas sentenças filosóficas que já apontavam sobre o melhor caminho para a felicidade: o  altruísmo e a manutenção das amizades. (“Ninguém pode ser feliz sem amigos”, dizia o velho Aristóteles. “As pessoas felizes de nossa época são aquelas que ajudam o próximo”, conclui a pesquisa de A. Maslow). Em vez de ficar obsessivamente buscando “a” felicidade, deveríamos sustentar uma certa “alegria de viver”[10] no nosso próprio eu, e que pudesse ser irradiada para também animar o próximo. Seria uma “alegria que nasce da verdade” ou sabedoria[11].

Esta concepção sobre a “alegria de viver” aparece numa rara entrevista de Freud, no auge de usa trajetória como pensador e clínico. Diz ele:

“Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade (...) Não, eu não sou pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz – ao menos não mais infeliz que os outros”.

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[1] Citado por L. Flem, (1986, p. 163). (Tb. citado por L. Binswanger, em Analyse Esitentielle et Psychanalyse Freudienne, op. cit. 313).

[2] A psicanálise se refere ao “sujeito” e não do “indivíduo” (da sociologia, por exemplo). “Ou seja, o sujeito, na sua condição de “sujeito dividido”, pode ser feliz, o que não acontece ao “indivíduo”. Quando Lacan diz que “o sujeito é feliz, percebe-se facilmente que não se trata do indivíduo. A tal ponto que, servindo-me outra vez das palavras de Jean-Pierre Klotz, poderíamos dizer que "a felicidade do sujeito é a infelicidade do indivíduo". Eis uma possível formulação do que significa o tão apregoado ‘sujeito dividido’ em Lacan. No ponto mesmo em que o indivíduo sofre, o sujeito é feliz. Como acentua Jacques-Alain Miller, "quaisquer que sejam os seus infortúnios, ao nível do inconsciente ele é sempre feliz". Por conseguinte, o sujeito do inconsciente é feliz”. (PEREIRINHA,  1997).

[3] A felicidade individual é ofertada pelos livros de auto-ajuda. A felicidade grupal é patrocinada pelos clubes de sado-masoquismo, prometida através das comunidades alternativas (“Eu quero uma casa no campo...”), dos diversos grupos religiosos, etc. A felicidade coletiva, talvez o melhor exemplo, criticado por Freud, seja a teoria marxista com seu projeto de uma sociedade comunista.

A seguir, extraímos alguns fragmentos de Freud onde critica o aspecto religioso e a concepção de felicidade do marxismo, notadamente do chamado socialismo real da ex-União Soviética. Freud escreve: “o marxismo teórico, a exemplo do bolchevismo russo, adquiriu a energia e o caráter autosuficiente de uma Weltanschauung,: contudo, adquiriu, ao mesmo tempo, uma sinistra semelhança com aquilo contra o que está lutando. Embora sendo originalmente uma parcela da ciência, e construído, em sua implementação, sobre a ciência e a tecnologia, criou uma proibição para o pensamento que é exatamente tão intolerante como o era a religião, no passado. Qualquer exame crítico do marxismo está proibido, dúvidas referentes à sua correção são punidas, do mesmo modo que uma heresia, em outras épocas, era punida pela Igreja Católica. Os escritos de Marx assumiram o lugar da Bíblia e do Alcorão, como fonte de revelação, embora não parecessem estar mais isentos de contradições e obscuridades do que esses antigos livros sagrados”.

Embora o marxismo prático tenha varrido impiedosamente todos os sistemas idealísticos e as ilusões, ele próprio desenvolveu ilusões que não são menos questionáveis e merecedoras de desaprovação do que as anteriores. Ele espera, no curso de algumas gerações, de tal modo alterar a natureza humana, que as pessoas viverão juntas quase sem atrito na nova ordem da sociedade [comunista] e que elas assumirão as tarefas do trabalho sem qualquer coerção. Nesse meio-tempo, ele muda para algum outro setor as restrições instintuais [pulsionais] que são essenciais na sociedade; desvia para o exterior as tendências agressivas que ameaçam todas as comunidades humanas e apóia-se na hostilidade do pobre contra o rico e na hostilidade daquele que até então esteve impotente contra os governantes anteriores. Mas uma transformação da natureza humana, como esta que pretende, é altamente improvável.(...) Exatamente da mesma forma como a religião, o bolchevismo deve também oferecer aos seus crentes determinadas compensações pelos sofrimentos e privações de sua vida atual, mediante promessas de um futuro melhor, em que não haverá mais qualquer necessidade insatisfeita. Esse paraíso, no entanto, tem de ser nesta vida, ser instituído sobre a terra a ser descerrado num tempo previsível. Convém lembrar, contudo, que também os judeus, cuja religião nada sabe de uma vida após a morte, esperavam a chegada de um Messias sobre a terra, e que a Idade Média cristã, muitas vezes, acreditava que o Reino de Deus estava próximo (...). [Portanto,] a força do marxismo está, evidentemente, não na sua visão [científica] da história ou nas profecias do futuro [da sociedade feliz](...), mas sim na arguta indicação da influência decisiva que as circunstâncias econômicas dos homens têm sobre as suas atitudes intelectuais, éticas e artísticas” (Freud, op. cit., p. 218-216 – grifo nosso).

Ainda, a propósito da felicidade coletiva, é preciso acrescentar que tanto os revolucionários ‘utópicos’ como os ‘científicos’ concebiam a felicidade no passado e no futuro. O presente existe apenas para relembrar ou para projetar a revolução socialista-comunista. A crença na felicidade estaria no passado, supostamente dominado pelo matriarcado ou pelo ‘comunismo primitivo’. Para o psicanalista, a ânsia de retorno à fusão com a mãe seria o fundamento psicológico, fundado um sistema igualitário, justo, feliz. Posta no futuro, a felicidade aparece em forma de realização do projeto de uma sociedade comunista  – onde, curiosamente, a dialética da história se estagnaria, o jogo da política se extinguiria – fazendo reinar entre os homens da terra a felicidade ‘proletária’, nunca antes conseguida na história da humanidade. No fundo, os revolucionários se acham no direito de obrigar todos a serem felizes de acordo com uma suposta felicidade ‘proletária’. Para Freud, trata-se de uma visão mítico-religiosa, que é influenciada pela concepção de um paraíso perdido, como crê as religiões. A abstração de uma felicidade conduzida pelo proletariado no poder estaria na contramão de I. Kant quando diz que ninguém pode me obrigar a ser feliz a sua maneira". Porque, somente o proletariado – concebido como sem divisão de classe – forneceria o modelo “único”, a forma definitiva, para todos serem felizes na simplicidade, fraternidade, igualdade e justiça.

[4] Por exemplo, “o olhar do pai, presente no fantasma, seria muito mais importante [para a constituição do sujeito] do que o próprio pai. O mesmo ocorre com o seio da mãe que amamenta o filho, o chicote manejado pelo professor que pune a criança ou o tato com o qual tortura a vítima (...). Ou seja, esses objetos do fantasma funcionam não apenas como objetos, mas também enquanto significantes. O próprio Freud, aliás, tinha destacado a grande sensibilidade de seu paciente [O homem dos ratos] a toda uma série de palavras, inclusive o fonema ‘rato’” (CHEMAMA, op. cit.: 71-2).

[5] “Gozo não é prazer, mas o estado que fica além do prazer; ou, para retomarmos os termos de Freud, ele é uma tensão, uma tensão excessiva, um máximo de tensão, ao passo que, inversamente, o prazer é um rebaixamento das tensões (...); o gozo ... alinha-se do lado da perda e do dispêndio, do esgotamento do corpo levado ao paroxismo de seu esforço”. O termo “mais-gozar” proposto por Lacan, é inspirado na “mais-valia” de Marx. Por exemplo, a economia libidinal do neurótico o faz ‘mais-gozar’através do sonho, já que ele supõe o gozo do Outro como um gozo impossível, ao passo que o perverso o toma com realizável. Assim, para o neurótico é impossível imaginar a morte, a loucura, a felicidade suprema. Já o perverso não imagina o gozo, mas busca-o, persegue-o e julga ser possível captá-lo. Nasio, observa que “quando [o perverso] espreita atrás de uma árvore, o voyer quer captar o êxtase dos amantes, sem, no entanto, ter nenhuma imagem prévia na cabeça” (p.135).

[6] Na Carta a Meneceu, Epicuro baseia no prazer os alicerces da felicidade. Ele é "o princípio e o fim da vida bem aventurada". Não um prazer desbragado, evidentemente, mas comedido. "Quando falamos do prazer como um fim – avisa Epicuro – não falamos dos prazeres dos dissolutos ou daqueles que têm o gozo por residência – como o imaginam algumas pessoas que ignoram a doutrina, não concordam com ela, ou são vítimas de uma falsa interpretação – mas de alcançar o estádio em que não se sofre do corpo e não se está perturbado da alma." (apud Pereirinha, 1997).

[7] “Felicidade não existe... o que existe são os momentos felizes”, parece não ser uma frase original do cantor brega, Odair José, mas de um obscuro pensador, Terrier (?).

[8] O homem se sustenta na existência porque cultiva utopias, diz E. Bloch. “Não nos livramos do desejo, a não ser nos enganando”. Para este autor, esta seria uma “função utópica”, que se encarregaria de afixar em cada realização crítica do “melhor”, do “mais”, em nome do possível. O homem não é um ser feliz, absolutamente; sua felicidade está na busca diária da felicidade. Este aguilhão o faz andar. Até à morte buscará a felicidade, certo de que foi apenas relativamente feliz e de que poderia ter sido muito mais feliz, guardando em si um desejo absoluto de felicidade”. Ou seja, enquanto brilhar no ser humano a esperança a felicidade é possível, não como algo posto no futuro mas como algo que acontece no dia a dia, embora nem sempre consigamos aperceber ... (Demo, 1981: 188).

[9] Um belo estudo sobre esse assunto é de L.A. Garcia-Roza. O mal radical em Freud. Rio: Jorge Zahar, 1990.

[10] Lacan, numa entrevista a rádio francesa, assim teria respondido.   

[11] Comte-Sponville, A. 2001.

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