Por ROSANNA LAURIOLA

Rosanna Lauriola leciona mitologia, latim e grego na Universidade do Texas em San Antonio.

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versão em inglês

 

De eudaimonia à felicidade. Visão geral do conceito de felicidade na antiga cultura grega, com alguns vislumbres dos tempos modernos*

“... aquele homem é feliz (eudaimon) e abençoado (olbios) o qual, conhecendo estas leis, continua com seu trabalho sem culpa diante dos deuses... e evita a transgressão” (Hesíodo, Trabalhos e Dias 826-828)

“O bom senso é a principal parte da felicidade, e nós não devemos ser ímpios diante dos deuses...” (Sófocles, Antigone 1347-1350)[1]

 

1. Introdução

“...não importa qual seja a nossa situação, se somos ricos ou pobres, educados ou não, de uma raça, gênero, religião ou outra coisa, todos desejamos ser felizes”[2]

Entre os problemas comuns que, através dos séculos, têm preocupado a humanidade, de poetas a filósofos a pessoas comuns, podemos com certeza colocar a questão da felicidade.

Desejar felicidade uns aos outros em várias circunstâncias da vida, ouvir de pessoas que aparentemente têm tudo o que queriam e no entanto não podem dizer que são completamente felizes, ver pessoas que têm tudo que nós achamos que traria a felicidade e que no fim de contas têm todos os tipos de problemas – tais como as drogas e o álcool – problemas que o sentido comum nos diria que são problemas das pessoas que estão lutando com a vida: todas estas experiências e pensamentos todos nós já tivemos pelo menos uma vez. Ironicamente, é possível que nós, depois de termos testemunhado este paradoxo, mesmo assim muitas vezes não nos perguntamos o que é a felicidade, ou, quando perguntamos, sentimos um certo desconforto ao tentar dar uma resposta, se ela não for simplesmente uma resposta vaga cheia de lugares comuns.

É interessante como este desconforto e esta dificuldade em definir a felicidade estão aparentes nos dicionários da maioria das línguas modernas da civilização ocidental[3]: todas as definições parecem ser parcialmente tautológicas, e certamente insatisfatórias, dada a recorrência de motivos como “o estado de bem estar,” “contentamento,” “satisfação.”[4] Nenhuma dessas definições, por exemplo, nos diz explicitamente em quê consiste este “estado de bem estar.” Além do mais, este estado parece não espelhar realmente a visão comum de uma pessoa feliz: aquela que tem tudo o que pensa que quer, deveria estar sempre em um estado de bem estar, mas pode ser infeliz. Isto significa que a felicidade não pode depender do que está fora do indivíduo, isto é, bens materiais e outras possíveis fontes de “bem estar”, desde a possessão do carro mais caro e mais confortável a ter o emprego que a pessoa mais quer? De fato, o outro motivo recorrente é aquele do “contentamento,” que torna o conceito ainda mais subjetivo, e ajuda a esclarecer o que poderia ser difícil de entender, e por fim ajuda a entender a felicidade como um todo.

A dificuldade, ou melhor, o sentimento de desconforto é aparente em algumas definições que um grupo de estudantes universitários deu às perguntas “O que é a felicidade? Como definir a felicidade?” De fato, enquanto alguns deles não podem evitar de afirmar, no começo, como é difícil descrever a felicidade, e como uma definição pode ser subjetiva, um deles não pôde evitar enfatizar, no fim da sua definição, que a felicidade é rara.

De acordo com as respostas dadas pelos alunos, a felicidade pode ser várias coisas, e coisas diferentes para cada pessoa. Pode haver vários tipos de felicidade. À exceção de um deles[5], cada um dos alunos entrevistados tende a enfatizar um componente interior na felicidade: ter as suas necessidades e objetivos satisfeitos, compartir seu tempo com as pessoas que você ama, aceitar o que você tem e o que é parecem ser um denominador comum de suas definições. O que varia é a natureza das necessidades e objetivos, mas a maioria deles no fim dependem de agentes externos (estar rodeados de pessoas que amam e apreciam você e querem o melhor para você, etc.). Portanto, embora um sentimento de auto-aceitação e contentamento pessoal possam ser o segredo da felicidade que está na base de todas as definições, parece que a auto-aceitação e o contentamento se tornam realidade somente se os agentes externos são favoráveis a você e permitem que você satisfaça suas necessidades. Em outras palavras, se estas condições não são satisfeitas, todos nós estamos condenados à infelicidade?

A impressão é mesmo a de um círculo vicioso, e ainda permanece um sentido de desconforto e imprecisão para se apreender e entender o conceito de felicidade.

Nós temos que concluir – como Sócrates o fez com referência à definição de “Bem” (Respublica 505b-507a; Menon 78 d-e) [6] –que está além do nosso poder definir, e assim entender a felicidade? Ela é realmente algo indefinível – como o filósofo G. E. Moore diria – a tal ponto que é melhor nem mesmo incluir tal palavra no dicionário – como um aluno de colegial sugeriu em uma pesquisa na Itália?[7]

Considerando que “não há nada mais antigo no mundo que a língua [...] a história da humanidade começa, não com rudimentares pedras, templos de rocha ou pirâmides, mas com a língua,” [8] o propósito desta apresentação é contribuir para o entendimento de um conceito tão vago, e tão fugidio, baseando minhas observações nas análises léxicas e conceptuais das palavras semanticamente relacionadas com a felicidade, palavras que pertencem à língua e à cultura da qual nasce a história da civilização ocidental, isto é, a língua dos gregos antigos. Sem ter como meta uma resposta completa e infalível, esta análise e a comparação entre as culturas antiga e moderna pode talvez servir pelo menos como um “fertilizante” para outras reflexões e pesquisas sobre este tópicos.

No fim, se a felicidade significa levar uma vida de qualidade, uma maneira possível de alcançar-se este tipo de vida – como Sócrates nos ensina – é através da pesquisa.[9]

2. No começo... A Felicidade na Antiguidade Grega[10]

No grego antigo há uma constelação de palavras que podem ser mais ou menos vistas como relacionadas ao antigo conceito de felicidade, palavras como “feliz”, “abençoado”, “próspero/prosperidade.”[11]

A palavra principal, porém, para a felicidade em grego antigo é eudaimonia e eudaimon é o adjetivo para “feliz”. O significado original destas palavras nos diz muito sobre a maneira como a felicidade era concebida. De acordo com sua etimologia eudaimonia significa “que tem um poder divino (daimon) bem disposto (eu)”.[12] No pensamento grego antigo a felicidade é uma condição concedida por favor divino, e é feliz aquele que desfruta do favor dos daimones, isto é, daqueles poderes divinos que poderiam ser hostís.[13] A manifestação visível e tangível de ser favorecido pelos “poderes divinos”, isto é, de ser livre da “má vontade divina”, é o que é comumente chamado de “prosperidade”, em termos tanto da riqueza material como do sucesso. A palavra do grego antigo denotando este aspecto de ser feliz é olbos, que significa exatamente “prosperidade dada pelos deuses”. Assim, olbios é “próspero, abençoado.”[14]

Embora olbos/olbios descrevam um aspecto da eudamonia, começando com Hesíodo as duas palavras são principalmente usadas uma em lugar da outra. Tal fato é evidente nas traduções modernas onde o significado geralmente escolhido é “feliz,” ou “felicidade.”

O que é importante é apontar que nos dois casos, isto é, tanto em eudaimon ou olbios, uma atividade específica dos deuses está presente a tal ponto que parece que a felicidade humana se transforma em um “brinquedo” dos deuses. Este conceito é mais evidente na poesia de Pindar (V século BC) e na tragédia grega. Em Pindar, os dois termos são usados às vezes um em lugar do outro, freqüentemente inter-relacionados um com o outro, sempre, porém, como um sinal claro do favor dos deuses, e assim como um presente dado pelos deuses através do destino/sorte.[15] A seguinte passagem de Pythian s. 84-89 é muito sugestiva:

“... uma porção de felicidade (eudamonia) assiste a você, porque o senhor de seu povo, ou qualquer homem, é visto favoravelmente pelo grande Destino. Mas uma vida sem tribulações não foi o destino nem de Peleus, nem de uma pessoa quase deus como Cadmus. Mas nós aprendemos que eles, entre todos os mortais, chegaram à maior felicidade (olbos)...”

Com estas palavras o poeta tenta consolar Hieron, o senhor de Syracuse, que tinha uma doença: apesar do seu sofrimento presente, Hieron deve desfrutar a felicidade que lhe foi dada pelos deuses com a consciência da fragilidade deste presente, como a “carreira” mítica de Peleus e Cadmus demonstram.[16] Os deuses jamais dão apenas bênçãos aos homens,[17] e, mais importante, é fácil para eles elevarem o homem somente para atirá-lo num abismo em seguida.

A felicidade humana assim parece ser uma força espiritual além do controle dos homens, isto é, um “brinquedo” dos deuses. Esta idéia reflete uma característica da eudamonia antiga: de estar intimamente relacionada com tyche, isto é, a sorte e a boa fortuna.[18] Um homem feliz era aquele favorecido por um bom daimon e assim eutyches, que é um “homem feliz/de sorte”.[19] Portanto, para os gregos antigos, eudaimon também significava ter sorte, e eudamonia requeria a boa sorte até um certo ponto, mas por fim, porque ela era concebida como o frágil presente dos deuses, ela ficava exposta às vicissitudes do tempo e à vulnerabilidade dos elementos.[20]

Este conceito é central à perspectiva dos gregos antigos, principalmente na Era Arcaica ou Clássica, e tal se prova tanto pelo interessante debate sobre a felicidade que encontramos em uma passagem da Historia de Heródoto, como pelos fortes ecos que o conceito tem na tragédia grega.

No primeiro livro de sua Historia (I, 30-33),[21] Herótoto fala sobre o encontro entre Sólon, um famoso poeta e legislador ateniense (séculos VI e VII AC) e Croesus, rei de Lydia. O diálogo gravita para a questão da felicidade humana. [22] Depois de dar demonstração dos seus tesouros e mostrar sua magnificiência, Croesus pediu a Sólon que lhe dissesse quem, entre todos os homens que ele tinha visto, ele considerava o mais feliz. Croesus fez esta pergunta porque achava que ele mesmo era o homem mais feliz. Mas Sólon respondeu, “Tellus de Athenas,” já que, como Sólon especificava, quando seu país estava em progresso Tellus teve filhos bonitos e bons, e ele mesmo viveu para ver filhos nascidos de seus filhos, e viu as crianças crescerem. Além do mais, o fim de Tellus foi extremamente glorioso porque, quando ele foi em socorro de seus compatriotas na batalha contra Eleusis, ele morreu no campo de batalha, gloriosamente.

Não satisfeito por esta resposta, Croesus perguntou uma segunda vez, quem, depois de Tellus, lhe parecia a pessoa mais feliz, e assim Croesus esperava que talvez Sólon lhe desse pelo menos o segundo lugar. Mas Sólon respondeu, “Cleobis e Biton”. Eles tinham sorte o suficiente para cobrir suas necessidades; mais importante: eles fizeram uma ação extraordinária que deu à sua mãe a possibilidade de participar no festival em honra a Hera em Argos. Ela tinha que ser levada em um carro, mas os bois que puxariam o carro não chegaram do campo a tempo. Então, os filhos Cleobis e Biton puseram o jugo no próprio pescoço, e eles mesmos arrastaram o carro que levava sua mãe. Toda a assembléia dos que haviam ido para o festival viram este ato e, como Sólon comentou, “então a sua vida se encerrou na melhor maneira possível. Aqui, também, o deus mostrou de forma evidente, como a morte é melhor que a vida para um homem”.[23] A mãe implorou à deusa que desse a Cleobis e Biton a bênção mais alta que os mortais podem desejar.[24] Depois disto, Cleobis e Biton dormiram no templo e nunca mais acordaram, e assim se foram da terra.

Enraivecido, Croesus pergunta a Sólon então qual é a sua felicidade, já que ele colocou-a como nada. E Sólon responde:

Oh, Croesus... você perguntou sobre a condição do homem, de um que sabe que o deus é cheio de ciúme, e gosta de trazer problemas para nós...  O homem é um completo acidente. Quanto a você, oh, Croesus, eu vejo que você é muito rico, e você é o rei de muitos homens, mas com respeito ao que você me pergunta, eu não tenho resposta para dar enquanto eu não souber que você terminou sua vida de forma feliz. Porque com certeza aquele que possui grandes estoques de riquezas não está mais próximo da felicidade que aquele que tem somente o suficiente para suas necessidades diárias, a não ser que ele tenha sorte, e ele continue a desfrutar todas as suas coisas boas até o fim da sua vida. Porque muitos dos homens mais ricos foram desfavorecidos pela sorte, e muitos daqueles cujos meios eram moderados tiveram excelente sorte. Os homens da classe anterior se sobressaem aos da seguinte em duas maneiras; os que estão nesta última classe se sobressaem aos da primeira em muitas maneiras. O homem rico tem mais condições de satisfazer seus desejos, e de se manter em pé durante uma calamidade. O outro tem menos condições de suportar estes males... mas ele têm as seguintes bênçãos: ele é perfeito de corpo, não tem doenças, está livre de azar, é feliz com seus filhos, e bonito de se olhar. Se, em adição a tudo isto, ele termina a sua vida bem, ele é verdadeiramente o homem que você busca, o homem que pode ser corretamente chamado de feliz. Antes que ele morrer, porém, você não pode chamá-lo feliz, mas somente um homem com sorte. Raramente um homem pode juntar todas estas vantagens... nenhum ser humano é completo em todos os aspectos – alguma coisa sempre está faltando. Ele que junta em si o maior número destas vantagens, e as mantêm até a sua morte, e depois morre em paz, aquele homem, senhor, na minha opinião, tem o direito de ter o nome de “feliz”. Mas em todos os assuntos temos que considerar bem o fim: porque muitas vezes o deus dá aos homens um vislumbre de felicidade, e depois os atira na ruína.”

Tellus, Cleobis e Biton estavam permanentemente felizes porque eles estavam mortos, e assim não mais vulneráveis aos reversos da sorte. Croesus está vivo ainda, e pode ser exposto às mudanças da sorte, por isto ele não pode ser chamado de “feliz”. Em outras palavras, Sólon considera a felicidade como uma condição da vida total de uma pessoa.

A opinião de Sólon sobre a felicidade humana tem ecos marcantes na tragédia grega[25] e reflete a parte central da idéia grega antiga da felicidade como algo efêmero e mutável como a vida humana, devido ao capricho e à inveja dos deuses[26]: ninguém tem o direito de ter o nome de feliz antes do dia da sua morte, já que os deuses freqüentemente tomam dos homens a prosperidade que acabaram de dar-lhes.

“... Eu diria que um homem mortal, enquanto ele está esperando para ver o dia final, não pode ter felicidade, ou ser libertado da dor até que ele passe o final da vida”. Sófocles, Édipo Rei, 1528-30

“O fim de nenhum homem é feliz,

Ninguém é feliz...”

Euripides, Iphigeneia in Aulis, 161-162)[27]

Baseando-nos nas passagens acima parece que o que importa na definição de felicidade não é um contraste entre o bem estar material e o espiritual, dado que os bens nomeados por Sólon para descrever a felicidade de Tellus, Biton e Cleobis eram, no fim, concretas, tais como boa saúde, bons descendentes, força física. O que importa é o contraste entre o bem estar transitório e o estável, isto é, a felicidade temporária e definitiva que por sua vez é considerada impossível:

“Ah, gerações de homens – exclama o coro em Édipo Rei de Sófocles (1186-1196) – como eu vejo que a sua vida é tão próxima ao nada! Que homem, que homem ganha mais felicidade (eudamonia) e a desfruta, e depois ela desaparece? Com a sua sorte (daimon), sua sorte, infeliz Édipo, eu não chamaria nenhum mortal de abençoado”[28]

Édipo acaba de receber a prosperidade e está sendo homenageado como o rei de Tebas, mas neste mesmo momento ninguém pode ser chamado de mais miserável que Édipo, que tem a sua vida virada de cabeça pra baixo (II. 1197-1208).

De fato, “Nem mesmo o filho de Cronos ... deu aos mortais um destino livre de dor, mas traz a todos sofrimento e alegria, um de cada vez... Porque nem noite estrelada nem desgraças nem riquezas duram para os mortais, mas a alegria e a perda se vão, e depois voltam” (Sófocles, Trachiniae 126-135).[29] Com estas palavras, em outra ocasião Sófocles ressalta os casos alternados da vida humana, isto é, casos em que os seres humanos sofrem mudanças nas mãos dos deuses invejosos. Encontramos a mesma coisa em Pindar: “Curto é o tempo em que a felicidade dos seres humanos cresce, e mesmo assim, ela cai por terra quando é destroçada pela adversa vontade divina” (Pythian 8, 92-94).[30]

Estas são as razões pelas quais devemos esperar pelo fim da vida para dar a alguém o nome de feliz”. Esta condição é tão dependente de ter-se “o poder divino favorável”, e assim ter “sorte” que podemos concluir com Eurípides que “Nenhum homem é feliz (eudaimon). Se a prosperidade (olbos) vem até ele, ele pode ter mais sorte (eutyches) que outros homens, mas feliz, ele não é!” (Medea 1228-1230).[31]

Para resumir, as passagens mencionadas mostram que na antiga cultura grega a felicidade é um brinquedo dos deuses, é transitória, e mutável, e está sujeita às mudanças da sorte, assim como qualquer coisa humana, por causa do desejo dos deuses. Os homens parecem não ter nenhuma responsabilidade em sua felicidade ou infelicidade. Eles podem receber a felicidade e logo podem tê-la retirada deles; eles podem alcançar o ápice e depois cair no abismo.

Mas, os mesmos poetas gregos antigos atestam a existência de um outro fator que intervem para definir o conceito de felicidade em termos de contradição com os resultados que acabamos de encontrar. A contradição se deve ao fato de que os próprios homens, às vezes, são responsáveis pela sua própria perda da felicidade dada pelos deuses.[32] Isto acontece quando a felicidade e a prosperidade dadas pelos deuses produzem um sentimento de saciedade ou excesso (koros) que, por sua vez, fazem com que os homens se tornem avaros. Conseqüentemente, a necessidade de satisfazer o excessivo desejo de ter mais e mais, ao invés de uma apreciação dos presentes recebidos, provoca a insolência e as ações escandalosas, ultrajantes (hybris) que levam à cegueira moral e à ruína completa. [33] Sólon escreve (fr. 6, 4-5):

“..o excesso (koros) produz o escândalo (hybris) quando muita prosperidade segue aqueles cuja mente não é sã”. [34]

Em outras palavras, os homens provam que não são capazes de “digerir” a felicidade que os deuses e a sorte podem dar-lhes. Ao perder o auto-controle, isto é, a consciência das suas limitações, eles tentam ganhar ainda mais do que receberam, embora já tenham recebido muito, e inevitavelmente cairão. Então isto acontece, por exemplo, a Tântalo e a Ixion, personagens míticos que são capazes de imitar o comportamento humano e dar lições.

“Se realmente existia algum homem mortal que foi honrado pelos deuses do Olimpo –diz Pindar – aquele homem foi Tântalo; mas, por fim! Ele não foi capaz de digerir sua grande prosperidade e, devido a sua perda das coisas boas, ele se atraiu uma maldição poderosíssima sobre ele mesmo...” (Olympian 1. 53-59).

Tântalo, homem mortal, recebeu dos deuses o privilégio de ser admitido ao banquete dos deuses, e de comer ambrósia e beber o néctar – a comida e a bebida especiais dos deuses – com as quais os deuses o fizeram imortal. Mas Tântalo não soube usar bem este presente de felicidade e ele ousou demasiado: ele abusou da hospitalidade do Olimpo ao roubar a comida especial dos deuses, a ambrósia, e ao dá-la aos mortais. Sua insaciedade foi então punida quando ele foi forçado a experimentar um desejo insaciável que é eternamente insatisfeito.[35] Similarmente incapaz de manter a felicidade recebida foi Ixion:

“Os homens nos contam que Ixion... ensina a lição que os homens devem pagar ao seu benfeitor com demonstrações de gratidão. Ele aprendeu aquela lição bem, porque embora ele tenha recebido o presente de uma feliz vida entre os filhos de Cronos, ele não se contentou com sua grande prosperidade, mas com loucura de espírito, ele se enamorou de Hera, a parceira das alegrias conjugais de Zeus. Mas a insolência de Ixion o levou a uma louca paixão...” (Pindar, Pythian 2.21-30)[36]

As passagens mencionadas parecem invalidar a conclusão de que para os gregos antigos a felicidade é algo que os homens não podem alcançar por si mesmos, alguma coisa dada pelos deuses, alguma coisa conectada à sorte e exposta às mudanças da vida, ou algo além do controle dos homens, já que ela depende de fatores externos. Na verdade, um certo grau de participação humana e responsabilidade em pelo menos ser capazes de manter a felicidade recebida foi algo que os antigos já consideravam importante. Manter-se os bens dados pelos deuses significa estar contente e não desejar mais, respeitando e aceitando os limites que os homens receberam. “É correto tomar a medida de todas as coisas de acordo com a situação própria de cada um” (Pythian 2.33-34) – como Pindar comenta da insolência de Ixion – o que significa que os homens devem desfrutar dos presentes dos deuses e buscar aquilo que beneficia a mente mortal, ao mesmo tempo mantendo-se consciente em que estado se encontra.

“Não busque, minha alma, a vida dos imortais; mas desfrute completamente os recursos que estão ao seu alcance.” (Pindar, Pythian 3. 59-620.

O que pode arruinar a felicidade é a falta de auto-controle dos homens, isto é, quando eles vão além da medida humana. E isto é ser irreverente e despeitoso com os deuses cuja punição é inevitável.

Se a falta de auto-controle é o que põe em risto a felicidade distribuída pelos deuses juntamente com a boa sorte, o auto-controle e a moderação podem permitir que os homens conservem sua felicidade. Se a falta de auto-controle é uma forma de tolice, o auto-controle e a moderação são uma forma de sabedoria, ou, ainda melhor ainda, é “ter o bom senso de evitar comportamento que é nocivo para a própria pessoa”.[37] Isto é possível uma vez que a pessoa conhece os princípios básicos e éticos. E os gregos antigos sabiam muito bem que os comportamentos mais nocivos são aqueles da hybris, já que os seus princípios éticos básicos eram aqueles resumidos na chamada sabedoria Délfica. “Conheça-se a si mesmo”, e “Nada em excesso”, eram as máximas inscritas na fachada do templo de Apolo em Delfos, como uma maneira de lembrar às pessoas da necessidade de estarem sempre conscientes dos limites da nossa frágil natureza humana diante do esplendor dos deuses. Respeitar estes princípios éticos é eusebeia, a reverência para com os deuses.

Aquele que tem o bom senso e o auto-controle é capaz de desfrutar dos presentes dados pelos deuses e de mostrar, ao fazê-lo, uma pia reverência para com eles, sem almejar aquilo que não está ao seu alcance, e assim começar a sofrer de avarícia. Este parece ser o segredo da felicidade nas palavras de Pindar e dos dramaturgos trágicos.

“O bom senso é a coisa mais importante na felicidade, e não devemos ser ímpios para com os deuses... (Sófocles, Antigone 1347-1350)

Com estas palavras o coro comenta na destruição do rei Creon, que tolamente ousou contrariar as leis dos deuses para proteger a segurança do seu reino, e assim praticou hybris e cegueira moral. Mas mesmo assim ele recebeu um estado invejável dos deuses[38], mas, de uma certa forma, não foi capaz de digerí-lo.

Ser feliz, então, é ser sábio, isto é, é ter o bom senso de estar contente com os bens que você recebeu, e estar consciente que ninguém no mundo pode ser completamente eudaimon, “porque é impossível para qualquer pessoa receber o prêmio da felicidade completa” (Pindar, Nemean 7, 55-56). [39]

3. Possível conclusão

Os componentes envolvidos no conceito antigo de felicidade são de diferentes naturezas e mesmo contraditórios entre si. A felicidade então seria:

1. uma condição caracterizada pela existência de um deus com boa disposição,cuja expressão concreta é a prosperidade;

2. uma condição afetada pela sorte e pelo acaso, portanto mutável e transitória (a boa disposição do poder divino não é garantida, digamos, para sempre):

3. uma condição que se relaciona com a pessoa ter bom senso, quer dizer, em ter auto-controle e reverência pelos deuses.O que significa que a pessoa deve ser contente e não procurar ter mais nem ir além daquilo que está a seu alcance.

À luz destes resultados, a felicidade parece ser tanto algo independente e dependente da força de vontade e da alma do indivíduo. Pode esta natureza implicitamente contraditória da felicidade ser a razão, ou uma das razões, porque é tão difícil até mesmo descrevê-la?

Ter as suas necessidades e desejos satisfeitos, ter pessoas que o amam, fazer o possível para se sentir bem, receber o mesmo amor que você dá, aceitar-se e/ou tornar-se auto-confiante, e assim por diante, todas estas situações podem ser afetadas pelo acaso, pela sorte, isto é, elas podem ser vulneráveis a circunstâncias externas que estão fora do controle da pessoa. Por exemplo, a pessoa não pode ser feliz se as pessoas que ele/a ama morrem na hora errada. Em outras palavras, várias definições de felicidade implicam que ela está sempre sujeita à sorte. Neste aspecto, talvez não é por acidente que na maioria das línguas indo-européias, os termos modernos para a felicidade estão relacionados de perto com a palavra “sorte,” e “acaso.”[40] Para mencionar alguns exemplos, o termo moderno do inglês, “happiness” tem a sua raiz no antigo inglês médio “happ” que significa sorte, acaso, isto é, o que “happens” – acontece – no mundo. Da mesma forma, o francês “bonheur” (felicidade), e “hereux” (feliz) têm na sua raiz a velha palavra francesa “heur”, que significa sorte, acaso.[41] A palavra italiana “felicità”, a palavra espanhola “felicidad” e a portuguesa “felicidade”, todas vêm do latim “felix” – afortunado – e “felicitas” – sorte, fortuna.[42]

Se a felicidade é tão dependente da sorte, por que seria tão difícil descrever a felicidade como sendo nada mais do que “ter boa sorte”? Mas por que, então, aqueles que têm boa sorte podem ser infelizes?

“Eu não tenho idéia porque Verônica fez isto”, disse a mulher em lágrimas. “Nós sempre fomos bons pais, nós sacrificamos tudo para dar a ela a melhor educação possível... ela tem um bom trabalho, ela tem boa aparência, a assim mesmo...” “e assim mesmo ela tentou se matar”, disse o Dr. Igor. “Não há razão para vocês ficarem surpresos; as coisas são assim mesmo. As pessoas simplesmente não sabem o que fazer com a felicidade...” Paulo Coelho, Veronica decide morrer[43]

A situação da protagonista do romance de Coelho não é muito diferente da situação de Tântalo ou de outras situações descritas nas passagens poéticas mencionadas acima. A pessoa infeliz é aquela que não sabe lidar com as coisas boas que lhe foram dadas, portanto, a pessoa feliz é aquela que tem o bom senso tanto de desfrutar o que ela tem e estar agradecida pelo que tem, ao perceber que – como Pindar diz - ninguém pode ter tudo. “Um homem que possui riquezas não poderia ser corretamente chamado de homem feliz; muito melhor seria chamar de feliz o homem que aceita o bem que os deuses lhe concederam, e o usa com sabedoria.” (Horácio, Carmen IV. 9, 45-48).

No entanto, existe ainda a imprevisibilidade da sorte que a pessoa deve reconhecer, e neste caso, ter bom senso – que é o segredo que parece garantir a felicidade e a torna mais fácil de descrever – talvez possa também querer dizer aceitar que: “Os eventos seguirão seu cuso, e não vale a pena ficarmos com raiva deles; mais feliz é aquele que toma os eventos e os usa da melhor maneira possível” (Eurípides, Bellerophon, fragmento, 298). Assim uma pessoa sensata, de bom senso, é aquela que é capaz de ser flexível e adaptar-se às circunstâncias, minimizando assim os efeitos do infortúnio.

Apesar da impressão de que estas considerações possam ser lugares comuns, se nós refletirmos profundamente sobre elas, veremos que há pouca diferença entre o que os antigos e nós pensamos sobre a felicidade, como garantí-la, mesmo com tantas coisas que podem acontecer-nos. No entanto, embora os antigos nos deram uma resposta com a qual muitos concordam, nós ainda sentimos a necessidade de perguntar-nos o que a felicidade é, e como sermos felizes.

Esta é uma necessidade nata e inescapável dos seres humanos? Ou nós não somos capazes, no fim das contas, de ter o bom senso de estarmos contentes com as respostas que já obtivemos? E pode ser que o mal estar que sentimos ao definir a felicidade depende simplesmente do fato que, no fim, temos dificuldade de aceitar que nós não podemos ser objetivamente felizes em tudo e para sempre?


APÊNDICE

PEQUENA PESQUISA SOBRE A FELICIDADE

(Pesquisa feita pela autora entre seus alunos na Universidade do Texas em San Antonio)

Claire A. Bransteller

Não tenho certeza se posso ajudar. A felicidade não é uma coisa que se pode colocar em palavras facilmente; a felicidade significa algo diferente para cada pessoa. Como a beleza, ela freqüentemente está no olho de quem olha. Para mim a felicidade é ter perto de mim as  pessoas que eu amo e com as quais me importo, e ser capaz de fazer algo que eu posso desfrutar. Eu acho que existem diferentes tipos de felicidades, a felicidade que eu sinto quando eu posso passar um tempo com meu namorado e melhor amigo Jason, é diferente da felicidade que eu sinto quando ganho um A em uma classe para a qual eu estudei bastante. Eu não tenho certeza se estas palavras fazem muito sentido, mas espero que elas ajudem o projeto.

Jessica Briones

(de um ditado) “A felicidade não é ter tudo o que você quer, é querer tudo o que você tem.”

O desejo pode ser uma força irresistível na vida de uma pessoa e nunca morre ou perde o vigor. A felicidade, para mim, é reconhecer que, mesmo se você constantemente obtêm o que você quer, você sempre pode querer mais. É bom alcançar um ponto de complacência e satisfação; algumas vezes, as coisas precisam ser “boas o suficiente.” Isto é mais do que eu queria dizer, mas basicamente, isto é o que eu entendo deste ditado.

Kate Fischer

A felicidade é difícil de colocar em palavras, mas aqui está minha opinião:

A felicidade não é simplesmente ter tudo o que você quer, é saber o que você quer e ter a confiança de acreditar que você merece esta felicidade, e é capaz de alcançá-la, seja em termos de amor, realizações, ou auto-identidade.

Kiffini Dula

A felicidade para mim é quando todos os aspectos da vida estão, no mínimo, o mais próximo possível do equilíbrio. Com isto eu quero dizer que você está confortável dentro de você mesmo e com o mundo à sua volta. Você tem todas as suas necessidades básicas satisfeitas, e com um pouquinho extra. Você tem a sua saúde e a sua força, você está em uma situação financeira confortável, e você tem pessoas na sua vida que amam e apreciam você pelo que você é e também pelo que você não é. Você é feliz quando as pessoas que você ama têm suas necessidades satisfeitas, mais as coisas que mencionei acima existem nas vidas deles também.

Chrystal Hamilton

A felicidade é difícil de descrever. Ela varia de pessoa a pessoa dependendo das suas crenças. Eu acho que a felicidade consiste em ser capaz de amar-se completamente. Chegar a um estado de espírito feliz é a capacidade de encontrar paz consigo mesmo e amar quem você é.

William G. McBride

A felicidade é o resultado de encontrar-se o melhor que a vida tem a oferecer.

O que este encontro é, e quando ocorre, eu acho que nós sabemos as respostas as duas coisas, graças a Deus, com a ajuda diária das pessoas.

Michael C. Moore

A felicidade significa correr com meu pai num sábado de manhã, e no meio da nossa corrida começa a chover. A felicidade é cozinhar e rir com minha mãe. A felicidade é passar uma tarde sem preocupações com uma pessoa que eu amo, sem medo, sem ansiedade, seguro no conhecimento da adoração e devoção das pessoas que eu amo. A felicidade é completar uma meta ou projeto, alcançando ou excedendo todas as expectativas. Mas acima de tudo, a felicidade é uma evolução, e a felicidade é rara!

Eric Robinson

A felicidade é um estado físico raro, que dá mais prazer que quaisquer outros. A felicidade pode ser sentida como o resultado de vários ganhos e sucessos, mas ela provavelmente não é mais nada que o sentimento subjetivo causado por várias misturas e combinações de hormônios e outros neurotransmissores. Estas combinações parecem produzir vários estados de felicidade, indo desde a satisfação/contentamento, à intensa euforia. Embora alguns insistam que isto é um quadro muito amargo e austero da felicidade humana, um que abre as portas e convida o niilismo e e existência sem sentido, a felicidade, “mesmo como um estado puramente físico” me parece a meta mais importante da vida humana.

Ao contrário daqueles que insistem que a felicidade é simplesmente a ausência de tristeza, eu estou convencido que a felicidade é uma forma de existência positiva, o que é demonstrado pelo fato de que algumas pessoas que não são tristes também não são felizes.

Adreinne M. Villareal

Para mim a felicidade é saber que eu fiz o melhor que pude para mim mesmo a para as pessoas à minha volta que são as mais importantes para mim.


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* Com referência ao conceito de felicidade nos tempos modernos, eu baseio algumas das reflexões nas definições feitas por um grupo de estudantes de faculdade (ser também o Apêndice).  Eu gostaria de agradecer aos seguintes alunos pela sua ajuda: Claire A. Branstetter, Jessica Briones, Kiffini Dula, Kate Fisher, Chrystal Hamilton, William G. McBride, Michael C. Moore, Erick Robinson, Adrienne M. Villareal. A todos meus sinceros agradecimentos.

[1] Os textos gregos são aqueles estabelecidos na série The Loeb Classical Library, exceto por Sófocles, Oedipus Rex, para o qual eu preferi seguir o texto estabelecido por A. Dain e P. Mazon, Sófocles, Paris 1967 Belles Lettres, vol 2. As traduções são em geral adaptações da tradução de The Loeb Classical Library, a não ser que sejam diferentemente identificadas em nota.

[2] The Quest for Human Happiness in R. Mehrotra,  The Essential Dalai Lama, Viking Penguin 2005, p. 7.

[3] Aqui me refiro às línguas que pertencem à família indo-européia, como o grego antigo, o latim (do qual se originam as línguas romance, como o italiano, francês, português), as germânicas (da qual vem a língua dos anglo-saxões, e portanto o inglês).

[4] Para mencionar algumas das línguas ocidentais, o que encontramos nos seus dicionários mais comuns é: “a state of well-being, contentment, joy” in Merriam-Webster’s Collegiate Dictionary (s.v. happiness; see also below n. 43); “Stato di chi è felice” in Dizionario Garzanti della Lingua Italiana  (s.v. felicità); “estado del animo que se complace en la posesion de un bien. Satisfaccion, placer, contento” in Larousse, Diccionario Enciclopédico de la lengua española (s.v. felicidad); “Bonheur supreme” Larousse, Dictionnaire de la Langue Francaise (s.v. félicité). See also below n. 43.

[5] Um aluno, (Eric Robinson, veja o Appendix), considerou a felicidade como o resultado de mudanças fisiológicas no corpo humano. Esta opinião está de acordo com os resultados da ciência moderna que mostra um interesse especial em entender os fatores neurobiológicos por detrás dos estados de felicidade e prazer.

[6] Entretanto, Sócrates então alcança a definição do Bem em Respublica 517b-532c, Timaeus 47b

[7] “Io personalmente non metterei la parola felicità nel vocabolario” (“Eu pessoalmente não gostaria de incluir a palavra felicidade no dicionário”) Ver, AA.VV., Didattica delle Lingue Classiche. Proposte e Applicazioni Pratiche, Perugia 1992, pp. 105-216. The quotation is on p. 138.

[8] F. Max Müller, Contributions to the Science of Mythology, London 1897, vol. I, p. V.

[9] Ver Platão, Apologia 27 a-38 a, Euthyphro 11 c-15 c, Alcibiades I 113 e-114 b.

[10] Esta pesquisa vai ater-se à análise do conceito de felicidade dos gregos antigos como ela é refletida na literatura da poesia arcaica e clássica. É desnecessário dizer que é um dos principais objetivos da indagação filosófica (Ver Agostinho, Sermones 150, 3.4), começando com Platão (ver, por exemplo, Respublica 354ª. Gorgias 471d, Apologia 41c-421, para mencionar algumas passagens)  a Agostinho e Tomás de Aquinas (para um resumo geral, ver AA.VV., didattica cit., 00 195-200). Na filosofia da Grécia antiga, uma atenção especial foi dada por Aristóteles, especialmente em Ethica Nicomachea (para alguns estudos gerais sobre este assunto, ver, see J.L. Ackrill, Aristotle on Eudamonia, in A. Oksenberg Rorty (ed.), Essays on Aristotle’s Ethics, Berkerley 1980, pp. 15-33; M. Vegetti, L’etica degli Antichi Roma-Bari 1989, pp. 10-12; 173-183). Para uma história concisa da felicidade na filosofia e na religião, ver D. M. McMahon, From the happiness of virtue to the virtue of happiness: 400 B.C. - A.D. 1780, in “Daedalus” 133 (2004) 2, pp. 8-17. Para um apanhado geral de evidência tanto em filosofia como em literatura, ver também  C. M. Bowra, The Good man and the good life, in The Greek Experience, Cleveland and New York 1957, pp. 85-102.

[11] Sobre esta mencionada constelação de termos semanticamente associados com a palavra “felicidade”, ver G. L. Dirichlet, De Veterum Macarismis, in “Religionsgeschitliche Versuche und Vorarbeiten”, XIV (1914) 4, pp. 1-71; C. De heer, Makar, Eudaimon, Olbios, Eutyches. A Study of the Semantic Field Denoting Happiness in Ancient Greek to the End of the 5th Century B.C., Amsterdam 1969; AA.VV., Didattica cit., pp.159-169.

[12] “Faveur des deux”: P. Chantraine, Dictionnaire Etymologique de la Langue Grecque, Paris 1999, p. 791. “Eudaimon est... is qui habet bonum daemonem” (“Feliz é aquele que tem um bom espírito tutelar ”): Dirichlet, , art. cit., p. 10.  Não completamente de acordo com esta etimologia está o primeiro significado dado em H. G. Liddel - R. Scott - H. S. Jones [LSJ, e em seguida], A Greek-English Lexicon, Oxford 1996, s.v. eudamonia: “prosperidade, boa sorte, opulência,”. Para ver as variedades de traduções modernas, veja as notas números 15 e 16.

[13] Assim, “livre da má vontade divina,” see De Heer, op.cit., pp. 25-26; cf. Também Chantraine, op. cit., p. 246; McMahon, art. cit., p.7 and n. 2.

[14] Ver Chantraine, op. cit., p. 791. Ele traduz  LSJ “happy, blest” – “feliz, abençoado” especialmente com referência a bens materiais (s.v. “olbios”), e “felicidade, especialmente felicidade material » (s.v. “olbos”). Na verdade, podemos verificar que existe uma certa possível troca no uso de  eudamonia e olbos, o que resulta na não existência de uma boa tradução moderna (ver abaixo, número 16). Outro termo que pode ser incluído no mesmo campo semântico denotando felicidade é makar (sobre este termo, ver acima de tudo, Dirichlet, art. cit.; De Heer, op. cit., pp.4-7), que denota principalmente um estado de felicidade divina, isto é, de beatitude.

[15] Como podemos ver, as duas palavras denotando felicidade, a própria – eudemonia, e a alternativa olbos – são traduzidas da mesma maneira, o que pode provar que elas eram percebidas como igualmente indicando felicidade. Em W. J. Slater, Lexicon to Pindar, Berlin 1969, eudamonia é traduzida como “boa sorte”, eudaimon como “de sorte”; olbos como “prosperidade” e olbios como “de sorte”. Embora nesta tradução o foco seja um pouco diferente, isto é, na presença de sorte (ver abaixo), os termos parecem ser permutáveis. Sobre Pindar, ver também De Herr, op. cit., pp. 40-44.

[16] Cadmus e Peleus são exemplos míticos tanto da mudança da sorte como da impossibilidade de receber-se somente coisas boas dos deuses. Zeus dá aos homens tanto coisas más como boas. Cadmus e Peleus têm o privilégio de ter a presença dos deuses no banquete de seu casamento; ambos recebem presentes de casamento dos deuses, mas depois disto ambos recebem tanto felicidade como tribulações dos deuses. Ver também número 18.

[17] Cf. Homer, Iliad, 24. 527-533. Ver também, sobre este assunto R. Lauriola, Pandora, the Beautiful Evil: the Coming of Evil to Light in Ancient Greek world, em Revista Espaço Acadêmico, September (2005). Ver também J.C. Opstelten, Sophocles and Greek Pessimism, Amsterdam 1952.

[18] Cf. LSJ: que diz “ o ato de um deus... considerado um agente ou causa além do controle humano”, assim também “sorte, destino, acaso”.

[19]Sobre a ligação entre eudaimonia e tyche, cf. Homeric Hymn to Athena 11. 5, e especialmente, Dirichlet, art. cit., p. 10 and n. 4.

[20] Ver Vegetti, op cit.; pp. 175-177.

[21] Para esta passagem, ver T. H. Irwin, Permanent Happiness: Aristotles and Sólon, pp. 82-124.

[22] A passagem de Heródoto apresenta uma grande variedade de termos semanticamente conectados ao conceito de felicidade, todos os termos introduzidos acima, tais como – além dos apropriados eudaimonia e audaimon – olboos, olbios, eutyches. A conexão entre esta proximidade e a possibilidade de permuta é aparente na tradução: quase sempre os termos recebem o significado de “feliz,” ou “felicidade”.

[23] Sobre esta crença, ver Sófocles, Oedipus at Colonu 1225-1226: “Não nascer vem primeiro (como felicidade), e, uma vez que nascemos, voltar para o lugar de onde viemos o mais rápido possível é a melhor coisa (em seguida)”.

[24]  A tradução acima vem de M. I. Finley, The Portable Greek Historians, 41-44.

[25] Ver De heer, pp. 56-100 para uma discussão sobre o léxico denotando felicidade na tragédia grega.

[26] O chamado phthonos theon, i.e. “inveja dos deuses” para os povos gregos antigos: o poder dos seres humanos e a sua prosperidade, se excessivos, podem provocar o ciúme dos deuses que intervêm causando uma mudança a fim de colocar os destinos em equilíbrio e manter os homens dentro deste equilíbrio. Para mais sobre estes conceitos, ver Pindar, Pythian 10. 20-22; Herodotus, History III, 39-43; VII, 10 and 46

[27] Ver também Aeschylus, Agamemnon 928; Sophocles, Women of Trachis 1-3; Euripides, Andromache 96-103; Children of Herakles 863-864.

[28] Sobre o conceito da fragilidade da felicidade na cultura grega dos séculos ver IV e V AC, e Martha C. Nussbaum, The Fragility of Goodness: Luck and Ethics in Greek Tragedy and Philosophy, Cambridge University Press, 1986.

[29] Ver também Sófocles, Antigone 1158-1165: “... a sorte sempre melhora a vida e também e  destrói o homem feliz e o infeliz … Creon uma vez foi objeto de inveja… ele tinha salvo sua terra de Cadmean dos inimigos, tinha sido nomeado rei da sua  terra, e estava na posição de comando, feliz com um grupo de nobres filhos... E agora, tudo está perdido…”

[30] Sobre este conceito, ver Pythian 3, 103-107; 10. 20-21 (e sobre este assunto, ver B. Gentili et al., Pindaro. Le Pitiche, Milano 1995, p. 627); Olympian 7, 94-95; Isthmian 4, 5-7 (on which G. A. Privitera, Pindaro. Le Istmiche, Milano 1982, p. 173).

[31] É muito significativa nesta passagem a ocorrência dos três termos principais (eudaimon, olbos, eutyches) relacionados ao campo semântico da felicidade, e assim denotam a dificuldade do conceito.

[32] A relação dialética entre destino e liberdade humana, isto é, entre responsabilidade humana em determinar o próprio destino da pessoa aparece já nas primeiras expressões literárias dos antigos gregos, na Odisséia (1. 28-43), e desde aquele tempo, ela representa um assunto importante: nós somos livres e portanto responsáveis pelo nosso destino, ou há algum tipo de desígnio vital que nos coloca em um caminho específico na nossa vida, e que não podemos mudar? Neste tópico, para uma visão geral, ver R. May, Freedom and Destiny.

[33] Para uma discussão destes conceitos, ver M. Hoffmann, Ethische Terminologie bei Homer, den alten Elegikerns und Jambographen, Tubingen 1914; D. Herbert Abel, Genealogies of Ethical Concepts from Hesiod to Bacchylides, em “Transactions and Proceedings of the American Philological Association” 74 (1943), pp. 92-101, espec. pp. 94-96.

[34] Ver Pindar, Isthmian 3. 1-3; Aeschylus, Agamemnon 750-755 sobre o qual comenta V. Di Benedetto, em L’ideologia del potere e la tragedia greca. Ricerche su Eschilo.Torino 1978, pp. 40-45.

[35] A punição se refere a uma sede e uma fome intoleráveis: ele foi condenado a ficar em pé em uma poça de água e não poder satisfazer a sua sede, já que cada vez que ele abaixava a cabeça para alcançar a água, a água recedia. Da mesma forma, cada vez que ele tentava alcançar as frutas que cresciam acima da sua cabeça, o vento movia os galhos para longe de seu alcance.

[36] Ver também Sophocles, Oedipus Rex 872-894, e comentários em R. Scodel, Hybris in the Second Stasimon of the Oedipus Rex, em “Classical Philology” 77 (1982), 214-223; R. Lauriola, Sofocle. Edipo Re (Introduzione, Traduzione, Commento e Interpretazioni, a cura di R. L.) Torino 2000, pp. 145-152.

[37] Sobre este assunto, ver A. Rademaker, Sophrosyne and the Rhetoric of Self-restraint. Polysemy & persuasuve use of an ancient Greek value term, Leiden - Boston 2005.

[38] Ver acima, número 30.

[39] Ver também Bacchylides, 5.50 ff., e De Heer, op. cit., pp. 50-51.

[40] Ver M. McMahon, art, cit., pp. 7-8. Também A. Wierzbicka, ‘Happiness’ in cross-linguistic and cross-cultural perspective, in “Daedalus” 133 (2004) 2, pp. 35-37.

[41]  Na verdade, no dicionário inglês mencionado acima (número 5) embora a conotação dada como “obsoleta” para o primeiro significado é a “felicidade” e “boa sorte.” Já o francês, (ver acima, número 5), “heureux” (feliz), lemos: “qui jouit du bonheur favorisé par le sort”. E substantivo «bonheur» significa «circunstance favorable qui amène le succès». A raiz dos dois termos franceses é claramente «heur», ou seja, «sorte».

[42] Em Ch. T Lewis and Ch. Short, A Latin Dictionary, Oxford 1966 (reprint), s.v. felicitas como sinônimo encontramos fortuna, fors, sors, fatum.

[43] Esta citação vem da página 77, Publisher: Harper Perennial, 200. Os itálicos são da autora.

   

Bibliografia

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