por PEDRO DEMO

Pedro Demo, fez doutorado na Alemanha (Universidade de Saarbrücken), em Sociologia, em 1971, com tese premiada e publicada em 1973. Pós-doutorado na UCLA (Los Angeles, EUA), de agosto de 1999 a abril de 2000. Foi técnico de Planejamento e Pesquisa do IPEA, de 1975 a 1994, quando se aposentou. É professor-titular da UnB, Brasília, em Sociologia. Autor de vários livros, dentre os quais "Dialética da felicidade" (3 vols. p. Ed. Vozes, 2001), "Professor do futuro e reconstrução do conhecimento" (Vozes, 2004).

 

 

Amor e felicidade – ou sobre uma “teoria geral do amor”

 

I. À guisa de introdução

Refiro-me a um livro surpreendente editado em 2000 nos Estados Unidos, e escrito por três psiquiatras da Escola de Medicina da University of California, San Francisco – UCSF: Thomas Lewis, Fari Amini e Richard Lannon (2000). Estamos habituados a ver obras com este título ou coisa semelhante ao estilo da “auto-ajuda” e ou de outras formas de banalização, de um lado, ou de, tratamentos positivistas clássicos, de outro. Ora promete-se amor fácil, seguindo fórmulas prontas e extremamente enganosas ou fraudulentas, ora encalhamos na aridez metodológica da ciência inflexível que colhe do fenômeno apenas o que podemos mais ou menos mensurar. Esta obra é muito diferente, seja porque adota olhar pós-moderno mais flexível em termos metodológico-científicos, seja porque reconstrói a cura psiquiátrica como necessária inclusão do envolvimento, ao estilo de um processo autêntico de aprendizagem reconstrutiva política. Tratando-se de polêmica interminável e de abordagem tipicamente ousada e alternativa, não será o caso buscar convencer, mas montar uma discussão que possa interessar pelo sentido de questionamento implícito e sobretudo pela busca honesta de argumentação. Mais do que nunca, cabe aqui a discutibilidade como critério de cientificidade: somente podemos aceitar como científico o que se mantiver discutível, formal e politicamente.

A discutibilidade formal refere-se ao esforço de fundamentação acurada, sistemática e insistente perante realidade tão complexa, rica e dinâmica que não teríamos como dar conta dela, a não ser por tentativas de aproximação reconstruída. Discute-se melhor um texto bem feito, o que evita a pecha pós-moderna do relativismo ou do vale-tudo em ciência. Por outra, a qualidade política assinala que ciência é metier humano, mais vinculado a propósitos de poder do que de verdade, como a história ocidental sobejamente revela. Como diria Popkewitz (2001), conhecimento, para além de outras marcas, é também “efeito de poder”, ou seja: não só “conhece”, como sobretudo faz o que o poder lhe ordena. Os paradigmas científicos são expressões institucionais, histórica e culturalmente marcados, cuja validade depende da trama de poder subjacente e por vezes avassaladora. Enquanto, de um lado, são inevitáveis as “vacas sagradas”, ou os donos do conhecimento à cuja sombra vegetam e se consomem os “discípulos”, de outro, esta institucionalização trai a dinâmica disruptiva do conhecimento, que só medra no confronto e na rebeldia (Collins, 1998). O percurso da ciência vacila entre o “argumento da autoridade”, que jamais deveria ser argumento, e a “autoridade do argumento”, ou seja, do esforço de fundamentar em ambiente de questionamento aberto (Demo, 1989, 2000).

Como efeito de poder, o conhecimento, por mais que jure amor à lógica, vive mais bem de “contradições performativas”, como assinalam Habermas (1989) e Apel (2000, 2000a), à medida que a tudo questiona eximindo-se de ser questionado. Este talvez tenha sido o erro mais crasso do modernismo: a tudo derrubou que não fosse conhecimento científico, sem perceber que estava erigindo-se a si mesmo como verdade absoluta de si mesmo – um círculo vicioso reles, uma “metanarrativa” afogada numa petitio principii das mais vulgares (Lyotard, 1989). Com isto gerou um conceito e uma prática histórica de emancipação que sempre implicaram a submissão das outras culturas e saberes, como tem mostrado a pesquisa do “pós-colonialismo”, sobretudo em sua insistência sobre a categoria da “multiculturalidade” (Harding, 1998). O pós-modernismo também tem suas “contradições performativas”, por exemplo, o enredamento em metanarrativas, à  medida que questiona metanarrativas através de outras, ou à medida que, recaindo por vezes no relativismo, nega qualquer validade própria. Mas, pode ter como vantagem um olhar mais modesto e interdisciplinarmente argumentado frente à realidade. Talvez se pudesse dizer que o passo mais arguto do pós-modernismo foi aceitar que a realidade é no fundo estrito mistério. A ciência, por mais que corra atrás, só capta o que cabe em seu método, sempre incidindo em alguma forma de reducionismo, quando não recai na “cegueira científica”, como diria Morin (1995, 1996).

Há sempre dissonância inevitável entre nosso modo de captar e a realidade como tal. Esta existe fora de nós, ainda que trabalhemos sempre com uma “realidade construída”, pela própria posição hermenêutica interpretativa a partir do “ponto de vista do observador”, na linguagem de Maturana e Varela (1994). Nosso cérebro capta a realidade circunstanciado por duas vertentes pelo menos: a biológica, mais propensa a responder ao desafio da sobrevivência, e a cultural, mais propensa a dar conta da trama social. Não é a realidade externa que se impõe, como queria o representacionismo, mas é o gesto do sujeito que, em última instância, decide o que é real, num processo reconstrutivo interminável, subjetivo, individual e culturalmente marcado (Sfez, 1994). Diante do desconhecido, o primeiro passo do cérebro é buscar princípios ou traços de ordenamento possível, seja porque entendemos melhor a partir do já entendido ou já visto, seja porque o caos nos assusta. O método analítico, típico da ciência sobretudo moderna, procede desta forma: decompõe em partes um todo, que, no todo, parece caótico, indomável, indecifrável. Ao impor ordem no caos, o cérebro parece obter um sentido de domínio do objeto, mas deixa de perceber que não tem nas mãos a realidade como tal, mas versão dela captada pelo cérebro.

A dissonância é hoje vista com maior naturalidade, à medida que aceitamos ser a realidade complexidade dinâmica, não linear, ambígua e ambivalente, tipicamente dialética em sua unidade de contrários. Apresenta-se também linear, e é nesta superfície que as tecnologias agem: dominamos mais propriamente a parte linear da realidade, onde nossos modelos matemáticos podem funcionar. Mas já sabemos que, por trás da superfície linear, aparentemente simples, contorce-se realidade inesgotável, insondável, no fundo indecifrável. Ademais, como parte da natureza, só a podemos ver parcialmente, o que determina um limite marcante do conhecimento: a parte não pode dar conta do todo, embora possa entender partes do todo. O modo lógico de captar a realidade, assim, só faz jus às manifestações lógicas, regulares, recorrentes, sobretudo mensuráveis e estáveis, o que insinua uma perda sempre de substância. A rigor, não captamos a dinâmica propriamente, mas a regularidade da dinâmica. Se levarmos em conta que a dinâmica como tal só é dinâmica em suas faces irrepetíveis, não lineares, surpreendentes, transbordantes, permanecer apenas no recorrente é pouco. Mas é o que a ciência pode dar.

Os Autores em foco buscam outro olhar científico, metodologicamente acurado por certo, mas muito mais flexível, e que já se prenunciava na “psicoterapia construtivista” de Neimeyer e Mahoney (1989), para a qual a cura teria as marcas do processo reconstrutivo político da aprendizagem. Não caberia a noção de paciente, mas de um sujeito que elabora seu projeto próprio de cura, com base na reconquista crítica e autocrítica da autonomia. Por isso, a psicoterapia não pode reduzir-se à química, ou às concepções ainda positivistas de Freud, que imaginava ser a neurose uma lesão física e portanto quimicamente tratável. Embora esteja fora de propósito inventar dicotomias entre quantidade e qualidade, ou entre o físico e o espiritual, pode-se aceitar uma influência mútua, já que, no fundo, se trata de uma só realidade, ao mesmo tempo, material e espiritual, física e virtual, quantitativa e qualitativa. Não se busca, assim, a cura propriamente dita, como seria sanar uma ferida, que cicatriza, fecha e se conclui. A saúde do ser humano é outro “negócio”, sempre também exposta a vicissitudes quantitativas e mensuráveis, quimicamente tratáveis, mas jamais redutível a apenas isso.

Valeria trazer à baila a grande polêmica em torno da “felicidade”, uma vez estudada freneticamente pelos métodos empíricos quantitativistas e com resultados pífios, já que a parte mensurável do fenômeno, embora sempre presente, nem de longe é a mais interessante (Demo, 2001, a, b). Para saber, com algum grau de fundamentação, se alguém é feliz, primeiro, será mister definir teoricamente o que se entende por felicidade, o que já é calvário interminável, e, segundo, produzir informação tipicamente qualitativa, colhida por entrevistas abertas, convivências repetidas, observações detidas e questionadas, até se poder aventar que a pessoa em questão poderia ser considerada feliz ou não. Perante fenômeno tão escorregadio, subjetivo e emaranhado, as propostas de auto-ajuda emergem como tendencialmente fraudulentas, porque inventam fórmulas prontas de algo que precisa ser tipicamente reconstruído todos os dias. O conhecimento científico precisa fazer o gesto humilde de buscar a realidade, não de a “ensacar” de antemão em esquemas metodológicos que salvam o pretenso rigor científico, mas não o objeto de pesquisa. Produzimos, então, um conhecimento intestinamente discutível, cujos resultados sempre podem ser argüidos, retomados, refeitos, bem como contestados. Basta que se mude a definição de felicidade, ou que se forcem os métodos de captação.

O mérito principal desses Autores está – parece-me – em preferir um olhar tipicamente flexível perante a flexibilidade estonteante de uma realidade no fundo sempre misteriosa, sobretudo no que se refere às propriedades da relação humana. A psicoterapia é a engenharia não linear da relação humana, indevassável e necessária, insondável e proveitosa. Desaparece também a figura do médico neutro e indiferente, qual sujeito que, para entender o objeto, o reduz a mero objeto. A participação do psicoterapeuta é essencial, como é essencial a participação do pesquisador na assim dita “pesquisa qualitativa” (Demo, 2001c). O que salva a credibilidade científica não é a indiferença, sempre artificial e hipócrita, porque apenas outro modo de se engajar, mas o ambiente de abertura irrestrita sobre o que se diz e faz. Os resultados desta “teoria geral do amor” podem sempre ser revistos, até porque a postura dos Autores não poderia ser definida a não ser como uma entre outras. Vale o quanto pesa... Mas é pelo menos muito interessante, intrigante e sobretudo alternativa.

II. Colocando o problema

De certa forma, os Autores apostam na tese de que, para termos chance de felicidade, isto “depende de nossa habilidade de decifrar o mundo escondido que gira – de modo invisível, improvável e inexorável – em torno do amor” (p. VIII). Sua visão dialética reponta já nesta combinação incrível: amor é algo improvável e inexorável, ao mesmo tempo. Improvável, porque não se pode garantir mecanicamente nada; inexorável, porque nos arrasta quer queiramos ou não. Entretanto, na visão científica comum, num campo minado como este, aparecem também traços recorrentes, já que toda subjetividade é, simultaneamente, tipicamente individual (irrepetível) e comum (recorrente). No indivíduo aparece algo que não se repete, mas na espécie somos todos no mínimo similares. “Embora a natureza do amor não seja fácil de definir, tem ordem intrínseca, arquitetura que pode ser detectada, escavada e explorada. Experiência emocional, em toda sua complexidade resplandecente, não pode emergir ex vacuo: deve originar-se em sistemas neuronais dinâmicos zumbindo com maquinações fisiológicas tão específicas e padronizadas, quanto são intrincadas. Como o resto do mundo, é governado e descrito por princípios que podemos descobrir mas não mudar. Se apenas soubéssemos onde e como olhar, seríamos capazes de encontrar leis emocionais a cujas ações uma pessoa não poder resistir mais do que poderia frente à força da gravidade ao cair de precipício” (p. 5).

Esta percepção pode merecer algum reparo, porque filia-se a um tipo de positivismo, por exemplo, popperiano, que admitia ciência como “descoberta”, não propriamente como reconstrução (Popper, 1959). Por trás da dinâmica esfuziante haveria princípios recorrentes, que é sempre possível descobrir. Neste sentido, o pós-modernismo vai até certo ponto apenas, porque admite complexidades no fundo lineares (intrincadas, por certo, mas padronizadas). Citando Russell, os Autores tentam criticar a credulidade excessiva frente ao desafio do amor: “O ser humano é animal crédulo e precisa crer em alguma coisa; na ausência de boas razões para crer, pode satisfazer-se com más. Onde quer que estejam ou quando as pessoas, como regra, preferem qualquer explicação (embora defeituosa ou implausível) à nenhuma” (p. 7). Permanecer sem explicação é insuportável para o ser humano. Daí, parte para ordenar o desconhecido, por vezes inventado fundamentos últimos, como faz toda religião. Na prática, porém, os Autores ainda acreditam em algum fundamento último, ao estilo da ciência moderna. Mas, mantêm forte espírito crítico frente à ciência de coloração empirista.

A ciência ainda não dá conta bem do amor, por duas razões principais: “Primeiro, uma correlação curiosa prevaleceu entre rigor científico e frieza: quanto mais o modelo da mente é factualmente fundado, tanto mais alienante. O behaviorismo foi o primeiro exemplo: brandindo empirismo a cada momento, foi totalmente equivocado em sua recusa de reconhecer coisas básicas da vida humana como pensamento ou desejo. A psicologia cognitiva multiplicou caixas e flechas ligando percepção à ação e nada teve a dizer sobre o centro impensável do self que as pessoas tanto apreciam. A psicologia evolucionária derramou luz sobre as dúvidas darwinianas da mente, mas o modelo taxa de ilusões os perfis da vida humana que não mostram vantagem em termos de sobrevivência – incluindo amizade, ternura, religião, arte, música e poesia. A moderna neurociência também tem sido culpada de propagar reducionismo opaco e sem alma. Se os psicanalistas armaram castelo intangível no ar para a humanidade habitar, a neurociência nos deixou casebre concreto. Cada humor ou modo de se comportar é melhor entendido como resultado de bolas moleculares de bilhar carambolando no crânio? Quando surgem problemas emocionais, é a firme dieta de ritalin para crianças ou de prozac para adultos nossa única resposta nacional? Se a mulher perde seu marido e se deprime, sua tristeza contém alguma significação, ou trata-se apenas de química mal sucedida? A ciência é novata no ofício de definir a natureza humana, mas por isso mesmo permaneceu  inimiga do humanismo. Pesquisadores do significado recebem a porta na cara. O segundo impedimento para descrição completamente científica do amor é a falta de dados brutos. A investigação sistemática contém promessas atraentes para os que querem compreender o cérebro – e o que o empirismo dá com gesto generoso, toma de volta com outro. Apesar dos esforços astronômicos em tecnologia, a ciência do cérebro permanece coleção frustrante de palpites suaves, prenhes de ambigüidade. Tais indicações podem apontar para a direção correta, mas não nos levam com finalidade clara para o ponto de chegada. A ciência chegou longe na trilha de compreender o cérebro, mas o caminho se alastra além para o horizonte. O estudioso do amor ainda se confronta com relação venerável entre certeza e utilidade em matéria do coração: somente algumas poucas coisas dignas de se conhecer sobre o amor estão provadas, e também poucas coisas receptivas à prova são dignas de se conhecer. Quando se aventura no terreno do amor, o empirista descomprometido é deixado com pouco para discutir. A saudade intensa e inarticulada da criança por seus pais, a paixão torrencial entre jovens amantes, a devoção inabalável de toda mãe – tudo são vapores elusivos que se riem da mais séria tentativa de objetividade para os ligar a este gene ou a esta coleção de células” (p. 11).

Nesta citação encontramos dois passos metodológicos relevantes. No primeiro momento, os Autores fustigam a redução da complexidade humana a indicadores mensuráveis, embora sejam estes os que a ciência sabe tratar. O que a ciência nos lega parece um “casebre”, ou seja, uma caricatura da exuberância de nossa mente. É impossível restringir tudo a expressões behavioristas, tratáveis quimicamente. Já no segundo passo os Autores reclamam da pequenez dos resultados da pesquisa sobre o cérebro e a mente, porque ainda atrelada ao modelo empirista. Ainda não se consegue estudar de verdade fenômenos como a saudade e ternura, paixão humana, generosidade materna, reduzidos a “vapores elusivos”. Diante deste desafio, os Autores procuram meio termo entre ciência e fantasia ou arte e fatos. De um lado, o “amor emana do cérebro; o cérebro é físico, e assim serve para tema do discurso científico tanto como abóboras ou química. Mas o amor sempre participa do nível pessoal e subjetivo, e assim não podemos colocá-lo em recipiente e pregar as asas no mostruário como lepidopterista faria com borboleta prismática. A despeito do que a ciência ensina, somente mistura delicada de evidência e intuição pode oferecer a visão mais verdadeira da mente emocional. Para escapar dos perigos gêmeos do reducionismo vazio e da credulidade sem base, é mister equilibrar respeito por prova com carinho pelo não provado e improvável. O senso comum deve combinar na medida igual o vôo imaginativo e a aversão pela ortodoxia. Enquanto a ciência oferece ferramenta marcantemente útil para explorar e definir o mundo natural, os seres humanos nascem equipados com instrumento mais velho para discernir a natureza dos corações à sua volta. Este segundo caminho é tão influente quanto a lógica – em muitas circunstâncias ainda mais. Este livro aposta na legitimidade e necessidade de ambos os métodos para ler os segredos emocionais – de amigo, de parceiro, de criança, de si mesmo” (p. 12). Assim, parece tornar-se mais claro que os Autores, embora acenem ao fundo com o campo clássico das ciências naturais, reconstroem um contexto crítico notável, que ultrapassa de longe o positivismo dominante neste tipo de pesquisa. Os papers acadêmicos não detêm a chave dos mistérios do amor, porque, em parte se trata de mistérios. Para além das circunstâncias materiais, as pessoas necessitam dar sentido a suas vidas. Voltam a citar que existiriam “leis escritas em pedra em algum lugar do coração” (p. 13), mas aceitam que a ciência estaria longe do amor, porque, se propõem algumas dicas manejáveis pela pesquisa mensurável, não conseguem definir a complexidade.

A seguir, referem-se à estrutura básica do cérebro, como a conhecemos hoje, ainda que rudimentarmente, segundo a qual “a ciência opera sob princípio árido mas efetivo: para compreender porção do mundo natural, há que dividir em partes. O amor é irredutível. O impasse parece definitivo. Como poderia continuar a pesquisa? O que pode a objetividade que se quer dura apreender sobre o amor evanescente, efêmero, pessoal? Como sói acontecer, a ciência está menos avessa a fantasmas do que em outros tempos. Os primeiros anos do Século XX quebraram a concepção do mundo natural como rede em malha de dentes, podendo-se revelar os detalhes internos desde que se tenha monóculo de aumento de suficiente poder e delicadeza. À medida que a física e a matemática se detiveram mais profundamente dentro da matéria da realidade, colidiram com o fim da jurisdição da objetividade... A ciência encontra a impossibilidade de separar, como fazia tradicionalmente, o conhecedor da coisa conhecida” (p. 16). Esta proposição supera a idéia anterior da mera descoberta científica, aceitando que lidamos, como se diz em metodologia científica, com um “objeto construído”. Esta maneira de ver torna-se tanto mais compelente, quanto se citam autores como Gödel, em seu teorema da incompletude em matemática (esta também seria um objeto pelo em parte construído), ou como Heisenberg, que acabou aceitando que “quanto mais exatamente a velocidade de partícula é mensurada, tanto mais elusiva se torna sua localização” (p. 17). “O significado da descoberta de Heisenberg expandiu-se para além do nível atômico e coloca em xeque os fundamentos do esforço científico. ‘A ciência não descreve e explica a natureza’, concluiu Heisenberg, mas ‘apenas a natureza exposta ao nosso método de questionamento. Junto com Gödel e Einstein, ele introduziu os cientistas em mundo desconfortavelmente indefinido – onde a extensão do cognoscível diminui de modo desapontador, e tais coisas intangíveis como ponto de vista e método de questionamento permeiam previamente as verdades sólidas” (ib.).

Ao mesmo tempo, os Autores apontam para outro desafio dissonante: enquanto seria possível estudar o cérebro de modo “reducionista”, o amor não pode. De partida, o cérebro “produz” fenômenos que pareceriam ultrapassá-lo – a massa cinzenta inventa coisas que parecem não ter nada a ver com ela, ainda que não possam existir sem ela, como o pensamento[1]. O que a ciência pode melhor desvendar é o substrato físico do cérebro, que pode ser separado em partes, mensurado até certo ponto pelo menos. O cérebro é “rede de neurônios, as células individuais do sistema nervoso. Este reconhecimento torna o cérebro em essência não diferente do coração ou do fígado – órgãos que também são coleções ligadas de células similares. O que dá a órgão identidade e poder é sua função especializada que suas células constituintes estão prontas a desempenhar. A vocação peculiar do neurônio é a sinalização de célula a célula. Tais sinais são, ao mesmo tempo, elétricos e químicos; as moléculas cuja carga incessante envia a porção química da mensagem são os neurotransmissores” (p. 19). Como a maioria dos pesquisadores em biologia, aceitam a tese de que tal estruturação cerebral se deve ao desafio da sobrevivência. Basicamente, uma coleção de células sinalizadoras pode dar conta de reações súbitas a mudanças instantâneas, reduzindo ou desfazendo os riscos. Todavia, trata-se de tática de sobrevivência entre outras, apesar de nosso orgulho em torno do cérebro. Por incrível que pareça, as formas de vida mais exitosas não têm cérebro, como as bactérias. Com isto recolocam uma idéia em si muito pertinente: o cérebro é máquina maravilhosa, mas, como toda estrutura em evolução, incompleta em  muitos sentidos.

De acordo com as pesquisas atuais, os Autores adotam a visão do cérebro triuno. Reconhecendo que a evolução não procedeu por transições suaves, admitem saltos de metamorfose. “O desenvolvimento do cérebro humano não foi nem planejado, nem executado de modo inconsútil. Simplesmente aconteceu – e este pedigree elimina expectativas razoáveis sobre a configuração do cérebro. A priori, ninguém suporia que o desenho neuronal avançado iria requerer organismo para regularmente escorregar para o torpor inevitável que convida a ser depredado. Mas o sono é universal em todo o mundo mamífero, ainda que sua função neuronal continue desconhecida. O mesmo senso comum falível sugere que o cérebro humano tenderia a ser unitário e harmonioso. Não é. Cérebro homogêneo poderia funcionar melhor, mas os humanos não o têm. Estruturas evoluídas não respondem a regras da lógica, mas somente às exigências de sua longa cadeia de vitórias de sobrevivência” (p. 21). Afastam pois qualquer teleologia evolucionária, o que serve, ademais, para desfazer a expectativa modernista do homem como rei da natureza. Nesta evolução tortuosa, haveria três subcérebros distintos, de idade diferente. O trio se mistura e comunica, mas alguma informação é inevitavelmente perdida na transição, porque as subunidades diferem em suas funções, propriedades e mesmo em sua química, o que, ademais, poderia também explicar um pouco a anarquia do amor.

O primeiro cérebro é o reptílio: é elaboração bulbosa da coluna vertebral – guarda os centro de controle vital, como a reação rápida a movimento ou barulho brusco. “Encaixado na fisiologia da sobrevivência, o cérebro reptílio é o que ainda funciona na pessoa quando tem morte cerebral. Se o cérebro reptílio morre, assim o faz o resto do corpo; os outros dois cérebros são menos essenciais para a neurologia de sustentação da vida” (p. 22)[2]. O segundo cérebro é o límbico: os mamíferos provieram dos répteis, desenvolvendo no crânio outra estrutura neuronal – não transformou só a mecânica da reprodução, mas também a orientação organísmica com respeito à prole. “Desapego e desinteresse marcam a atitude paterna do réptil típico, enquanto os mamíferos podem entrar em interações sutis e elaboradas com seus filhos. Os mamíferos dão à luz filhos vivos; cuidam deles, defendem e os tratam enquanto estão imaturos. Os mamíferos, em outras palavras, tomam conta dos seus. Criar e cuidar são coisas tão familiares aos humanos que somos capazes de tomar como garantidas, mas tais capacidades foram uma vez novidade – uma revolução na evolução social” (p. 25). Ademais, a relação límbica permite a comunicação vocal e uma trama de sentimentos fortes, que pode ser vista, por exemplo, na dor da separação ou nas brincadeiras conjuntas. O terceiro e mais novo cérebro é o neocórtex: maior que os outros, “como quase tudo no cérebro, o neocórtex é baú de segredos e questões não respondidas” (p. 27). Mas já há algum progresso na pesquisa, que indigita, por exemplo, que comanda o falar, escrever, planejar, raciocinar. Entretanto, embora a consciência seja um dos traços fundamentais do neocórtex, a vida é conduzida sobretudo de modo inconsciente. “Quando o ser humano se move durante o dia, é abençoadamente inconsciente dos feitos prodigiosos de coordenação que subjazem aos atos mais simples” (p. 28). Também tem relação com a sobrevivência, à medida que produz o conhecimento crítico que decifra em parte as realidades desconhecidas ou obscuras, sem falar que gera nossa capacidade de simbolizar.

Esta estruturação tripartite já aponta para desafios importantes: se, de uma parte, a trindade poderia nos dar chance de abrangência maior no manejo de nós mesmos e da realidade externa, também acarreta uma unidade de contrários. “Uma pessoa não pode direcionar sua vida emocional do mesmo modo como maneja seu sistema motor para alcançar um copo. Não pode comandar querer a coisa certa, ou amar a pessoa certa, ou ser feliz depois do desapontamento, ou mesmo ser feliz em tempos felizes. As pessoas carecem desta capacidade não por deficiência de disciplina, mas porque a jurisdição da vontade é limitada ao cérebro mais recente e às funções dentro de sua perspectiva. A vida emocional pode ser influenciada, mas não comandada” (p. 33). Por isso mesmo, é difícil verbalizar emoção, tanto nossa, quanto dos outros. O que parece mais claro é sua finalidade de sobrevivência, pelo menos em termos superficiais. “Alegria, saudade, tristeza, lealdade, fúria, amor – são pigmentos opalescentes que douram nossas vidas com vibração e significado. E as emoções fazem mais que colorir nosso mundo sensível; estão na raiz de tudo que fazemos, a origem inquestionável de todo ato mais complicado que reflexo. Fascinação, paixão e devoção nos empurram para pessoas e situações compelentes, enquanto medo, vergonha, culpa e desgosto causam repulsão frente aos outros. Mesmo as abstrações neocorticais mais áridas pulsam com vibração emocional. Ambição e inveja latejam por baixo da economia; vingança e reverência correm por baixo da aparência de justiça. Em todos os casos, as emoções são o motivador da humanidade e seu guia onipresente” (p. 36).

Por vício histórico racionalista, nossa sociedade tende a desconsiderar as emoções – prefere análise à intuição, lógica ao sentimento. Todavia este desequilíbrio é mais prejudicial do que pode parecer. A emocionalidade possui propósito mais profunda: “os mecanismo montados no tempo da emoção permitem que dois seres humanos recebam os conteúdos das mentes de cada um. A emoção é o mensageiro do amor; é o veículo que carrega cada sinal de um coração palpitante para outro. Para seres humanos, sentimento profundo é sinônimo de estar vivo” (p. 37). É marca profunda dos mamíferos que, neste sentido, formam “sociedade secreta” (ib.). Na superfície, a emoção – já dizia o próprio Darwin – serve a razões de sobrevivência, como equipamento somático útil. Ao mesmo tempo, apesar de seu tom subjetivo eminente, descobriu-se que as expressões faciais, por exemplo, seriam idênticas pelo mundo afora, em toda cultura e em cada ser humano estudado. Seria linguagem universal da humanidade: até mesmo criança cega sorri ao interagir prazerosamente com a mãe. “Tal sorriso provém de criatura em desenvolvimento incapaz de falar, andar e mesmo de sentar, mas já sabe como expressar felicidade através da configuração de contrações musculares que nunca viu antes na face de alguém. Seu conhecimento deve ser inato. O sorriso da criança cega deve refletir a arquitetura emocional herdada do cérebro” (p. 40).

Esta estruturação emocional redunda em sofisticado sistema de comunicação através da expressividade. Estuda-se também muito a expressividade de animais, por mais que isto continue polêmico. Entretanto, podemos distinguir uma hierarquia evolucionária da emoção, que se estenderia do primeiro precursor reptílio até nosso aparato complexo e muito nuançado. “Medo é provavelmente a emoção mais velha do cérebro límbico, elaboração do susto reptílio primordial” (p. 41). Raiva ajuda a combater, inveja é alerta. Emoções posteriores contribuem para afinar o status grupal – desprezo, orgulho, culpa, vergonha, humilhação. Aumentando a abstração, torna-se mais humana, como fervor religioso. Mesmo assim, a maioria das emoções não requer pensamento, consciência explícita, já que o código da emocionalidade parece emergir de arquitetura neuronal uniforme. “A função da ciência da emoção é escavar esta estrutura arcaica, e, à medida que o tem feito, revelou as verdadeiras raízes do amor. Os seres humanos, como animais que inventam ferramentas, tendem a associar importância com durabilidade. As colunas do Partenon ou os blocos de pedra maciça de pirâmides gigantes facilmente incrementam nossa admiração e respeito. A instantaneidade das emoções nas vidas humanas está em contraste perturbador com sua brevidade impossível. As emoções são como certas borboletas que rapidamente se desdobram e morrem quase tão rapidamente quanto surgiram. Videografia de alta velocidade mostra que as expressões faciais começam dentro de milissegundos depois de evento provocativo, e somem imediatamente” (p. 43). As emoções possuem a evanescência da nota musical. Por outra, não se sabe ainda por que o cérebro pode empacar numa emoção (“idéia fixa”), tornando a empreitada de desempacar muito complicada. De todos os modos, para a sobrevivência da espécie, parece ter surgido certo meio termo: medo demais inibe, de menos leva ao risco excessivo. “O cérebro límbico não é apenas a sede dos sonhos, mas igualmente da emocionalidade avançada. O propósito primordial do cérebro límbico era monitorar o mundo externo e o ambiente corporal interno, e orquestrar sua congruência. O que se vê, ouve, sente e cheira é armazenado no cérebro límbico, bem como os dados sobre a temperatura corporal, pressão do sangue, batimento cardíaco, processos digestivos, e escores de outros parâmetros somáticos. O cérebro límbico responde pela convergência desses dois fluxos de informação; coordena-os e afina a fisiologia para capacitar o corpo face ao mundo externo” (p. 52).

Já o neocórtex comanda os desempenhos mais elevados da cognição – linguagem, solução de problemas, física, matemática. A função emocional, como tal, não requer vastas hipóteses. Enquanto se exige gênio neocortical para formular a teoria da relatividade, é menos exigente estar triste depois de perda, ou estar excitado ao ver a pessoa amada passando pela sala cheia de gente. Mas, enquanto o cérebro neocortical não produz emocionalidade em si, tem papel importante em modular os sentimentos e integrá-los com algumas de suas funções simbólicas próprias. Na verdade, ter emoções está sob controle límbico, enquanto falar delas é do neocórtex. Pode parecer boa divisão de trabalho, mas facilmente desanda... Seja como for, a comunicação emocional é marca forte dos seres humanos. “As crianças são mestras em detectar e expressar emoções, o que pode ajudar a entender sua fascinação inata por faces” (p. 60). Mesmo sem saber, as mães usam os sinais universais da emoção para ensinar a seus bebês sobre o mundo. O sistema vai se tornando, com o tempo, afinado e sofisticado – o bebê checa ambigüidade na face da mãe, sobretudo monitora sempre as expressões da mãe, para saber como reagir ou comportar-se, sobretudo quando sente que fez algo que possa merecer censura. Pode captar mudanças mínimas.

Os Autores introduzem, então, o conceito de RESSONÂNCIA LÍMBICA, para assinalar a “sinfonia de intercâmbio mútuo e adaptação interna, através da qual dois mamíferos se tornam afinados aos estados internos de um e de outro” (p. 63). Garante a harmonia sem palavras que vemos em todo lugar, tomando-a como garantida – entre mãe e bebê, o menino e seu cão, entre amantes que seguram as mãos. Esta mesma relação foi descoberta pelos lingüistas, quando insistem na confiabilidade da fala, implicando que o entendimento é possível porque os dois lados acreditam um no outro intuitivamente. Estão afinados. Em si, poderíamos questionar toda palavra ou desconfiar dela. Enquanto em ciência, este procedimento faz parte do método científico crítico, não subsiste no senso comum, permeado de forte emocionalidade. Neste sentido, as relações emocionais permeiam corpo, mente e alma. Com efeito, a falta de relacionamento no início da vida pode ser fatal, levando mesmo à morte. Contato humano rivaliza com alimento e água. Os Autores lamentam a cultura americana de coibir os contatos com crianças, já que é notória a importância das experiências nos primeiros anos de vida para o bom desenvolvimento da personalidade. “Alguns céticos vêem esta asserção com suspeita, mas o estudo da afeição humana (human attachment) a provou verdadeira” (p. 73). A ciência positivista reluta em aceitar este tipo de contexto, como se tornou marcante a obra de Harris (1998), sobre o “pressuposto do cuidado”, considerado hipótese insustentável empiricamente. Esta psicóloga tentou, sob os aplausos de biólogos duros como Dawkins e Pinker, mostrar que, na educação dos filhos, a influência dos pais é bem menor do que se imagina, predominado o grupo de idade (peer group).

Todavia, os Autores reconhecem, usando outro olhar, a telepatia da ressonância límbica, chagando a falar de “anatomia do amor” (p. 76), ao aceitarem impacto anatômico da relação emocional. Por certo, persiste a dificuldade extrema da medicina ocidental de perceber a importância da afeição. “O paradigma da medicina dominante não tem capacidade de incorporar o conceito de que a relação é processo fisiológico, tão real e potente quanto qualquer comprimido ou procedimento cirúrgico” (p. 81). Entretanto, a própria ciência é exemplo desta dinâmica dialética. De um lado, como método, ordena as complexidades, decifra-as em parte, alarga o conhecimento passo a passo. De outro, Einstein teria descoberto a teoria da relatividade cavalgando o raio de luz em sua imaginação livre. “Quem sabe quantas revoluções científicas se perderam porque seus descobridores potenciais não deram atenção ao excêntrico, incidental, inconveniente dentro do laboratório?” (p. 81).

O corpo humano é em parte sistema fechado e em parte aberto. Através da REGULAÇÃO LÍMBICA ocorre a sincronização mútua. A fisiologia do bebê é das mais abertas, até porque depende em tudo dos familiares, sobretudo da mãe. “Sem regulação límbica, seus ritmos vitais entram em colapso, e morrem” (p. 85). Os adultos, permanecendo animais sociais, continuam a exigir fonte de estabilização fora deles. Por isso, esta mescla necessária de fisiologias faz da afeição e da vida em comum os centro da vida humana. “Reconhecemos instintivamente que humanos sadios não são pessoas sozinhas” (p. 86). A regulação límbica expressa-se na interdependência natural dos mamíferos sociais em todas as idades. Os jovens, todavia, precisam mais dela. Trata-se de rede reconstruída sempre, intrincada e complexa, que seria pouco apropriado reduzir a flechas fixas de direcionamentos, como se houvesse claras causas e claros efeitos. “O cérebro não é máquina simples, com alavanca aqui para deslanchar alegria e roldana ali para desandar pânico” (p. 91). Uma das marcas do cérebro neocortical está em que consegue ver diferença entre corpo e alma, enquanto os outros não. Na história, todavia, insistiu mais em ver o corpo, sobretudo com o avançar da ciência, deixando de lado as outras dimensões, tão definitórias do ser humano, quanto as materiais.

A memória é designada como encarnação da gravidade, no sentido de estocar e moldar o amor. A memória é pequeno mundo que contém mundos inteiros. “De alguma forma, a imensidade do passado está dormindo lá dentro, e algumas partes despertam sob nosso comando. Mas a memória é ainda mais: define, cria e mantém junto o mundo mental da pessoa” (p. 100). Os autores valorizam a memória sobretudo como fator de estabilização e identidade do indivíduo: nela os cacos da história de cada um aparecem amalgamados em conjuntos aos quais se podem atribuir sentidos. Sendo plástica, a mente pode adaptar-se e reconstruir: não armazena simplesmente, mas refaz o que nela entra. Cientificamente falando, uma teoria da memória é um mapa da alma, se assim se pode dizer. Mas é um “continente negro”, até porque há conhecimento emocional que não deixa traço consciente. Por exemplo, a atração mútua entre pessoas, sempre levanta a incógnita: como somos escolhidos pelos outros, como surge a compatibilidade. “O trabalho enigmático do amor é feito no escuro: parceiros prospectivos caçam cegamente; não conseguem descrever a pessoa que procuram” (p. 101).

Diante desta perspectiva, os Autores negam a idéia freudiana de inconsciente atemporal, muito utilizado, por exemplo, na metodologia estruturalista da análise dos sonhos e mitos. Para eles, a memória não é coisa. “Memória é outro processo corporal, produzido por objetos físicos, mas é, ele mesmo, imaterial como a alma” (p. 103). Em nossa tradição cultural, atribuímos nosso sucesso à compreensão racionalista. Entretanto, os estudos da memória tenderiam a insinuar que a intuição nos comanda muito mais. Até mesmo inconscientemente, o cérebro tende a destacar na realidade, sobretudo no desconhecido, os traços recorrentes, porque, para a sobrevivência, produzir seguranças e certezas é essencial. Mas não temos como decifrar todas as perguntas que nos assolam. Não somos capazes de tudo racionalizar, dizer, definir, categorizar. Implicitamente, a memória nos indica que muita coisa se aprende na vida de modo camuflado. A própria linguagem falada pressupõe um labirinto de regras fonológicas e sintáticas que os falantes nativos não saberiam explicar ou mesmo reconhecer. O conhecimento implícito torna as estruturas da linguagem disponíveis para uso automático. As crianças aprendem a falar sem instrução. Toda língua é muito intrincada sintática, e sobretudo semanticamente. Mas isto não impede que tenham estruturas recorrentes, que são organizadas implicitamente na memória. Neste sentido, pode-se dizer que a aprendizagem emocional é implícita.

Por isso também, o mundo do amor é feito de sombras. A ignorância do próprio coração não se deve apenas a possível repressão, mas igualmente ao desenho dual da memória no cérebro, que  mescla horizontes explícitos com implícitos. Os desencontros dos livros do amor não são traço próprio, não erro. “Desfilamos nosso conhecimento inconsciente em todo movimento pensante que fazemos na dança do amor. Se a criança tem os pais corretos, aprende os princípios corretos – que amor significa proteção, cuidado, fidelidade, sacrifício. Vem a sabê-lo não porque se lhe conta, mas porque seu cérebro automaticamente estreita a confusão exuberante em poucos protótipos regulares” (p. 116). Como regra, confiamos na inteligência para resolver problemas, e, por isso, ficamos perplexos quando nos vemos impotentes para fazer mudança emocional. “Para o cérebro neocortical, rico no poder da abstração, compreender faz toda diferença, mas não conta muito nos sistemas neuronais que evoluíram antes de existir a compreensão. As idéias saltam como tantas ervilhas da robusta incompreensão dos cérebros límbicos e reptilianos. A implicitude obstinada do conhecimento emocional, sua força irrazoável incessante, evita que a lógica garanta salvação, tanto quanto destitui os livros de auto-ajuda como tábuas de salvação. O enorme volume e variedade da parafernália da auto-ajuda testemunha desde logo a vastidão do apetite a que pretendem satisfazer e sua inabilidade de satisfazer” (p. 118). A emoção tem o gesto do desejo: só vale enquanto deseja; quando satisfeito, sobretudo se frustra. Eis estrutura que apresenta energia exuberante, incontrolável, mas que facilmente pode desequilibrar, tornando a felicidade o que mais se deseja e o que menos se satisfaz. Por ser algo tão individual e subjetivo, não cabe em fórmulas prontas.

Por outra, o amor muda quem somos e quem podemos nos tornar. Em todos os momentos, esta realidade no toca, também quando produzimos diagnósticos médicos, intrinsecamente eivados de incerteza. Gostaríamos de forjar avaliações cristalinas, infalíveis, mas isto está além de nossa capacidade, seja porque não podemos conhecer a realidade até ao fim, já que não tem fim, seja porque nos envolvemos nela e com ela também nos confundimos. Mas, por isso mesmo, somos melhores que os computadores: estes processam apenas algoritmos, enquanto nós podemos compreender unidades de contrários, sentidos à revelia, significados imprevistos. Na verdade, os ser humano tem dois corações: um feixe de músculos no peito, e um feixe de cabos de neurônios comunicativos que criam sentimento, saudade e amor. Enquanto o músculo pode funcional quase como máquina física, a rede neuronal, por sua vez, é única. Por isso, o programa de computador inventado para diagnosticar pode perder-se por inteiro, quando se trata de ver além do ritmo cardíaco. O médico que diagnostica faz bem em usar o computador, mas precisa saber que está lidando com um ser humano, que pulsa para além de sua base física. Em cada novo caso, aprende algo mais, coisa que o computador não faz, a não ser estabilizar novas conexões ocorridas. Os Autores apostam, a estas alturas, que o computador que imita a rede neuronal pode significar um salto qualitativo, embora isto ainda esteja muito distante da plasticidade de nossa inteligência e emoção. Em toda rede neuronal, a inclinação é estabilizar padrões neuronais na proporção do uso. A rende neuronal do cérebro vai além: ao mesmo tempo que estabiliza padrões, donde adviria a personalidade única de cada ser humano, está sempre aberta à aprendizagem ulterior, mesmo que fisicamente a plasticidade possa diminuir. Por isso “estar junto por longo tempo escreve mudanças permanentes dentro do livro aberto do cérebro” (p. 144). “No relacionamento, uma mente revisa a outra; um coração muda seu parceiro. Este legado surpreendente de nosso status combinado como mamífero e seres neuronais é a REVISÃO LÍMBICA: o poder de remodelar as partes emocionais das pessoas que amamos, à medida que os atratores ativam certas trilhas límbicas, e o mecanismo inexorável da memória do cérebro os reforça” (p. 144).

De certa forma, o livro da vida se encerra em como o amor forma, guia e altera a mente emocional da criança. Este livro, entretanto, não se abre apenas à padronização lógica, porque não há propriamente causas e efeitos separáveis e mecânicos. De um lado, existem os limites da evolução e da história de cada um. De outro, existe a possibilidade infinita de aprender. Se uma criança tem chance adequada, pode desenvolver-se de maneira surpreendente. “Tudo que a pessoa é e tudo que conhece reside na camada interconectada de seus neurônios entrelaçados. Tais pontes fatídicas e diminutas chegam aos quatrilhões, mas emergem só de duas fontes: DNA e vida diária. O código genético traz à vida algumas sinapses, enquanto a experiência gera e modifica outras. Assim o cérebro toma forma como compromisso entre limites dados e liberdade aproximadamente infinita” (p. 148). Entre genética e experiência histórica se fazem as oportunidades da vida. “Enquanto os genes são cruciais em estabelecer alguns aspectos da emocionalidade, a experiência desempenha papel central em ligar e desligar genes. O DNA não é o destino do coração; a loteria genética pode determinar as cartas à sua mesa, mas a experiência negocia a mão com a qual se joga. Os cientistas provaram que, por exemplo, bom cuidado materno pode superar temperamento desvantajoso” (p. 153). Trazemos, de modo inato, um hardware para ativar o sentimento límbico, mas para usá-lo jeitosamente é preciso orientação emocional. É essencial poder afinar e calibrar o sonar de cada qual, dentro da trama relacional que pode indicar como sentir o mundo emocional corretamente. Porquanto, a pessoa não pode se conhecer até que outra a conheça. “Estar bem reguladas no relacionamento é o estado profundamente gratificante que as pessoas procuram incessantemente no romance, religiões e cultos” (p. 157).

III. Cura como aprendizagem

Com esta fundamentação ao fundo, é possível discutir melhor a idéia atraente da cura como aprendizagem ou como projeto próprio emancipatório também. Faço aqui, obviamente, uma interpretação por conta própria e risco, no intuito de poder contribuir ao debate, e, certamente, como mero aprendiz... Não tenho base especializada para discutir a psicoterapia, nem imagino dar conta deste desafio. Apenas agrego uma discussão aberta que poderia interessar.

Os Autores perguntam: como sanar corações destroçados?... É o desafio da psicoterapia. Assim como a ciência não sabe até hoje responder como se forma uma gota d’água – algo tão efêmero e mole, mas que fura rochas – seria infantil imaginar que temos a chave da solução para os desencontros humanos. Explicitamente concedem que somente Deus teria condição de dar conta deste desafio. Assim como a água assume incontáveis formas e dinâmicas, também a mente humana, acrescendo-se a isto a subjetividade de cada caso. “Qual gota do borrifo do mar, o futuro da mente emocional está pendurado entre a imobilidade da pedra e a liberdade do céu de verão. Identidade pode mudar, mas somente dentro dos contornos que sua arquitetura comanda. Tanto pode ser aprendido emocionalmente na idade adulta, quanto a neurofisiologia permite” (p. 166). Assim, a terapia precisa postar-se entre a capacidade de confrontar limites e de ter que assumi-los, para não instituir novos desequilíbrios comprometedores.

Para tanto, há que “reformatar as barras e paredes da prisão tornando-a casa onde o amor pode desabrochar e a vida florescer” (p. 166). No campo científico, todavia, continua a guerra de sempre. “Num lado, um grupo ‘biológico’ sustenta que os eventos mentais emanam do mundo material do cérebro. Patologia mental por isso começa em deformações da fisicalidade: receptores estragados, genes defeituosos, dano cerebral. Tudo bem. Esta escola favorece a remédios como medicações, corrente elétrica, campos magnéticos. Algumas vezes funciona. No outro lado, o quadro venerável ‘psicológico’ vê os distúrbios emocionais fluindo de reino entrelaçado, onde os espíritos da memória andam, sentimentos mostram força e relações se ordenam conforme padrões passados. Também tudo bem. Este campo advoga a cura através de multiplicidade algo selvagem de psicoterapias – também intermitentemente efetiva” (p. 167). Trata-se de divisão falaciosa. “O mundo natural não faz promessas de alinhamento a pressuposições que os humanos acham ajustadas ou convenientes. Como sucede sempre, a luz confunde a dicotomia enganosamente simples que sustenta os cientistas por décadas. Todo experimentador que tentou provar que a luz é partícula teve êxito, como também o fez todo este pressupondo sua natureza de onda. Impossível, na teoria. Partícula e onda são idéias mutuamente excludentes; uma coisa não pode ser ao mesmo tempo o contrário dela. Na realidade, ‘partículas’ e ‘ondas’ existem nas mentes, não na natureza. Estas categorias cruas não podem capturar a essência da luz” (p. 168).

Segue daí, que não se pode separa mente e corpo. Psicoterapia não é apenas fisiologia, pois implica reformatação somática também. A terapia implica realinhamentos límbicos tão físicos quanto digestão e respiração, mas igualmente imateriais e emocionais. Por isso também não cabe só racionalizar verbalmente os problemas, porque, sendo a conversa habilidade fantasiosa neocortical, não basta para atingir o reino mais antigo da mente límbica. A terapia não pode passar por cima das forças primevas que antecedem a civilização, porque, “como o amor, a terapia é uma delas” (p. 169). Por isso, “o resultado da interação límbica entre paciente e médico é tão eficiente que só os mais poderosos medicamentos podem ser mostrados como definitivamente mais fortes” (p. 174). Remédios também funcionam, é claro, porque todo distúrbio mental também implica base fisiológica. Entretanto, a bem da verdade, os mecanismos subjacentes aos próprios remédios, até hoje, são algo misteriosos. Os medicamentos, porém, “não podem resolver todas as questões límbicas, sequer a metade. O que lhes falta em nuança, sobra em força, mas por vezes nuança é mais decisiva” (p. 176).

Racionalizar um distúrbio mental é importante, já que, como se sabe, dominando a causa, pode-se mudar o efeito. Dificilmente, porém, isto se aplica ao mundo psíquico de maneira linear. O neocórtex coleta e ordena fatos rapidamente. Já o cérebro límbico não procede assim. Impressões emocionais negam a importância do insight, mas são sensíveis a outro tipo de persuasão: à força do atrator de outra pessoa, que se atinge pela porta da conexão límbica. “A psicoterapia muda as pessoas porque um mamífero pode reconstruir o cérebro límbico do outro” (p. 177). Voltando à crítica da auto-ajuda, os Autores acrescentam que ela é como os manuais para consertar carros: pode-se ler todo dia, mas seguindo-os não se arruma nada. A ajuda correta precisa chegar à conexão límbica, implicando a especificidade evolucionária e social de cada qual, para além do que todos podem ter em comum. “A transmutação da terapia não consiste em elevar a razão apropriada sobre a paixão cega, mas em substituir intuições silenciosas, intratáveis por funcionais. Os pacientes muitas vezes desejam avidamente explicações, porque estão acostumados a pensar que artefatos neocorticais como explicação poderiam ajudar. Mas insight é a pipoca da terapia” (p. 179).

Na prática, o “paciente” não se torna mais saudável, mas mais igual ao terapeuta. “A pessoa do terapeuta é o catalista conversor, não sua ordem ou credo, não sua localização espacial na sala, não suas palavras caprichadas ou silêncios estratégicos. Enquanto as regras do sistema terapêutico não atingirem a transmissão límbica – um caveat crítico – permanecem distrações inconseqüentes neocorticais. Os dispensáveis adornos do dogma podem determinar o que o terapeuta pensa que está fazendo, o que fala quando fala acerca da terapia, mas o agente de mudança é quem ele é” (p. 187). A cultura, entretanto, nos tem cegado nos caminhos do amor, substituindo as relações límbicas por artefatos racionalistas reducionistas ao extremo, confundindo, desde logo, métodos de cura com possibilidades de cura. Esta não pode ser vista como produto, mas principalmente como arte de reconstrução pessoal e social, cuja politicidade também é inegável: trata-se de forjar um ser humano com habilidade de reconstruir história própria, unindo dimensões que nunca vemos por completo. Não damos conta de nós mesmos, muito menos dos outros. A incompletude nos assola, a frustração faz parte, a decadência é intrínseca. Mas, se salvação houver, não provém de fora, de outro que pensa por nós. Este outro é importante, porque somos seres relacionais, mas a saúde depende de como equilibramos esta relação: se nos fechamos, já não amamos; se nos entregamos aos outros, não seremos amados. “A evolução do cérebro límbico há cem milhões de anos atrás criou animais com poderes luminosos de emocionalidade e afeição, cujos sistemas nervosos foram desenhados para interagir e suportar-se mutuamente, qual malha flexível de trepadeiras. Mas na vida, como no palco grego, cada atributo confere correspondente vulnerabilidade; cada força heróica encontra sua imagem de espelho em falha trágica. As dotações do cérebro límbico experimentam riquezas negadas às criaturas mais simples, mas também abrem aos mamíferos tormento e destruição” (p. 191).

Precisamos, por isso, de ressonância límbica, para podermos aprender a nos comunicar emocionalmente; precisamos de regulação límbica, para aprender a nos relacionar como pessoas institucionalmente; precisamos de revisão límbica para nos reconstruir e aprender de modo permanente. A evolução construiu este formato para os mamíferos poderem sobreviver melhor. Infelizmente, “nosso intelecto é vastamente cego para isso”, não porque devesse ser, mas porque a civilização preferiu os caminhos ressecados da racionalização.

Os Autores propõem pelo menos dois passos fundamentais para uma nova terapia:

a) um modo diferente de compreender o desafio, que passa pelo reconhecimento de realidades que não se esgotam em indicadores mensuráveis; isto poderia eclodir em diagnósticos e procedimentos muito alternativos, como perscrutar melhor as histórias de vida, as expectativas de cada qual, sobretudo não restringir a pessoa a “paciente”; a emoção é pelo menos tão importante quanto a razão, embora nos seja possivelmente mais penoso dominá-la; o que espanta no mundo emocional é a possível perda de controle, que todo racionalista detesta sumamente, porque imagina poder controlar a vida conscientemente; ignora que somos sobretudo animais inconscientes e que em nosso relacionamento diário vivemos sobretudo da credulidade natural com respeito aos outros;

b) um modo diferente de conceber e praticar a “cura”; de partida, aparece a relação pedagógica intrínseca no espaço límbico como sendo mais fundamental que a intervenção química ou racionalizante; segue que, mais importante que a “cura”, é a prevenção, no sentido da relevância suprema da capacidade de reconstruir autonomamente a própria vida de modo permanente; o psicoterapeuta não “ajuda” o “paciente”, porque tem como função principal ajudar de tal modo que se possa dispensar a ajuda; não se trata de dispensar a ajuda, porque todos necessitamos deste cuidado, mas é preciso andar com pernas próprias, o que indica uma relação necessariamente igualitária, de estilo dialético.

Podemos apreciar esta relação através da categoria do “cuidado”, como imagina, por exemplo, Boff (1999). Não se trata do cuidado que gera dependência, porque seria, ele também, “efeito de poder”. Trata-se do cuidado que exige a emancipação do outro, não para se confrontar apenas, mas para se relacionar como sujeito capaz de proposta própria. Uma sociedade capaz de cuidado poderia ser mais humana, porque, se perder de vista a importância do conhecimento científico, daria igual relevância à relação límbica, através da qual a trama emocional poderia receber o devido cuidado. Segundo os Autores em foco, a relação límbica, embora imaterial por natureza, produz impactos físicos, tornando-se necessidade também física. O processo educacional, por isso  mesmo, não pode ser apenas à distância. Nenhuma mãe aceitaria educar seu filho à distância, porque, sendo um mamífero típico, saber que o filho precisa de contato físico e que este contato físico também forma a alma, a mente, a personalidade.

Segue que o médico precisa, além de tratar o doente, cuidar dele limbicamente, para que, dentro do devido contexto pedagógico, o “paciente” consiga elaborar seu próprio projeto de cura, e, com isto, entrar no plano permanentemente preventivo. Não se pode entender esta perspectiva como relegação dos aspectos técnicos da profissão. Qualidade formal é absolutamente necessária. Mas qualidade política é sua razão de ser. Mais que intervir num corpo físico, o médico mexe com pessoas, expectativas, medos e ansiedades. Não pode recuar de sua função de educador. O educador é aquele que cuida da aprendizagem do aluno. Não é quem apenas dá aula. Mas quem, toda dia, cuida que seu aluno aprenda, tendo em vista a formação de sua autonomia e capacidade de alternativa histórica. Por isso, curar-se não é apenas engolir remédios, mas sobretudo saber o que fazer da vida para não necessitar de remédios, sobretudo para abandonar a condição de objeto de cura, assumindo a possibilidade de reconstruir sua proposta própria de qualidade de vida.

Pessoas, como todos os mamíferos, precisam de cuidados. Adoram cuidados. Os animais representam bem esta carência, quando vemos o cachorrinho se derretendo com as carícias de seu dono. A sociedade, entretanto, trata as pessoas como consumidores, trabalhadores, entidades estatísticas, não como pessoas de carne e osso, cujo sentido da vida sempre passa pelo relacionamento social emocionalmente criativo. No mercado, só valem relações mercadológicas, uma abstração degradante que Marx estereotipou com rara acuidade. Na lógica abstrata da mercadoria, vale a exploração como relação básica. Infelizmente, o conhecimento científico dominante, de cariz moderno, contribui enormemente com esta tendência, à medida que reforça o lado materialista e positivista da intervenção econômica. As desigualdades passam a ser vistas como componente natural, peripécia inevitável, sina inescapável. Embora toda sociedade seja desigual, poderia ser bem mais igualitária, dependendo da capacidade da cidadania de impor padrões mais equânimes de relação social. Não cuidamos nem da sociedade, nem do meio ambiente. A tudo simplesmente exploramos, porque tudo nos parece ser mero objeto de espoliação. Numa visão mais holista,  interdisciplinar e complexa, a realidade continua mistério indevassável, sobretudo a humana (Davies, 1999). As táticas de intervenção intempestiva e aética apontam para um estigma de nossa histórica colonizadora e prepotente, incapaz de ver aos outros como sujeitos que  merecem, acima de tudo, cuidado.

Como não aprendemos por bem, teremos de aprender por mal. Não é possível sobreviver dignamente em sociedades tão mal cuidadas e com uma natureza tão degradada. Se alguma razão ainda sobra, e sobretudo com devido envolvimento emocional, será mister recuperar o tempo perdido e a rota da humanização da história. Não vale apenas “curar” a humanidade, como se fosse um paciente na UTI, inconsciente e objeto de toda intervenção externa. Será mister redefinir o que se aceita como cura, primeiro, para privilegiar a prevenção, e segundo, para estabelecer relações límbicas de sujeitos. Porquanto, cura é sobretudo aprender a curar-se.

Sobretudo quando se trata de “doenças mentais”, a participação do “paciente” na cura é ainda mais essencial. O médico não produz a cura, embora possa produzir efeitos físicos através de remédios. Para reconquistar a alegria de viver, entretanto, outras referências são fundamentais, como saber lidar com limites, tornando-os desafios criativos, e, ao mesmo tempo, mantendo tais desafios como limitados. Trata-se de outra “engenharia”. Não é aquela que coloca de pé um prédio, mecanicamente. É aquela na qual o engenheiro colabora na autoformação de uma personalidade que precisa de autonomia. Precisa saber intervir de tal modo que a intervenção não degenere em efeito de poder. Precisa exercer um poder que seja capaz de controlar o poder. Precisa orientar para que o “paciente” passe a orientar-se por si mesmo. Não deixará de precisar de ajuda. Mas terá da ajuda a noção emancipatória do cuidado: não se degrada quando é ajudado, e não degrada quando ajuda.

Trata-se, pois, de “auto-ajuda”, em seu melhor sentido: saber ajudar-se, porque não há propriamente cura que apenas venha de fora. Se vier apenas de fora, será sobretudo “efeito de poder”. A “auto-ajuda” transformada hoje, como diria Marx, em “mercadoria abstrata”, nega exatamente o gesto emancipatório que a deveria sobretudo caracterizar. Num sentido claro, o psicoterapeuta ajuda o “paciente” a se auto-ajudar. Todo cuidado bem feito, no sentido límbico, afina sujeitos, não reduz um lado a objeto. Saber cuidar, a certa altura, implica, em quem cuida, cuidar de tal modo que a pessoa cuidada possa dispensar cuidados, e, em quem é cuidado, a sabedoria emancipatória para entender a ajuda como complementar, enquanto sua iniciativa deveria se a razão maior de ser.

 

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[1] Veja interessante tese de Noretranders, sobre “o mais é diferente”: NORRETRANDERS, T. 1998. The User Illusion – Cutting consciousness down to size. Penguin Books, New York.

[2] Relatam a estas alturas a história de Phineas Gage, um mestre de obras, que, trabalhando numa mina, ao tentar explodir uma pedra, foi atingido por um pontão de ferro, perfurando sua cabeça a partir do queixo até encima. Perdeu massa encefálica, não deixou de pensar e sobreviveu fisicamente, embora, para espanto de todos passasse a perder progressivamente seu senso moral. Surgiu aí a discussão interminável sobre as propriedades reprogramáveis do cérebros, bem como se haveria um lugar físico no cérebro para o senso moral...

 

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