Amor
e felicidade – ou sobre uma “teoria geral do amor”
I.
À guisa de introdução
Refiro-me
a um livro surpreendente editado em 2000 nos Estados Unidos, e
escrito por três psiquiatras da Escola de Medicina da University of
California, San Francisco – UCSF: Thomas Lewis, Fari
Amini e Richard Lannon (2000). Estamos habituados a ver
obras com este título ou coisa semelhante ao estilo da
“auto-ajuda” e ou de outras formas de banalização, de um lado,
ou de, tratamentos positivistas clássicos, de outro. Ora promete-se
amor fácil, seguindo fórmulas prontas e extremamente enganosas ou
fraudulentas, ora encalhamos na aridez metodológica da ciência
inflexível que colhe do fenômeno apenas o que podemos mais ou
menos mensurar. Esta obra é muito diferente, seja porque adota
olhar pós-moderno mais flexível em termos metodológico-científicos,
seja porque reconstrói a cura psiquiátrica como necessária inclusão
do envolvimento, ao estilo de um processo autêntico de aprendizagem
reconstrutiva política. Tratando-se de polêmica interminável e de
abordagem tipicamente ousada e alternativa, não será o caso buscar
convencer, mas montar uma discussão que possa interessar pelo
sentido de questionamento implícito e sobretudo pela busca honesta
de argumentação. Mais do que nunca, cabe aqui a discutibilidade
como critério de cientificidade: somente podemos aceitar como científico
o que se mantiver discutível, formal e politicamente.
A
discutibilidade formal refere-se ao esforço de fundamentação
acurada, sistemática e insistente perante realidade tão complexa,
rica e dinâmica que não teríamos como dar conta dela, a não ser
por tentativas de aproximação reconstruída. Discute-se melhor um
texto bem feito, o que evita a pecha pós-moderna do relativismo ou
do vale-tudo em ciência. Por outra, a qualidade política assinala
que ciência é metier humano, mais vinculado a propósitos
de poder do que de verdade, como a história ocidental sobejamente
revela. Como diria Popkewitz (2001), conhecimento, para além de
outras marcas, é também “efeito de poder”, ou seja: não só
“conhece”, como sobretudo faz o que o poder lhe ordena. Os
paradigmas científicos são expressões institucionais, histórica
e culturalmente marcados, cuja validade depende da trama de poder
subjacente e por vezes avassaladora. Enquanto, de um lado, são
inevitáveis as “vacas sagradas”, ou os donos do conhecimento à
cuja sombra vegetam e se consomem os “discípulos”, de outro,
esta institucionalização trai a dinâmica disruptiva do
conhecimento, que só medra no confronto e na rebeldia (Collins,
1998). O percurso da ciência vacila entre o “argumento da
autoridade”, que jamais deveria ser argumento, e a “autoridade
do argumento”, ou seja, do esforço de fundamentar em ambiente de
questionamento aberto (Demo, 1989, 2000).
Como
efeito de poder, o conhecimento, por mais que jure amor à lógica,
vive mais bem de “contradições performativas”, como assinalam
Habermas (1989) e Apel (2000, 2000a), à medida que a tudo questiona
eximindo-se de ser questionado. Este talvez tenha sido o erro mais
crasso do modernismo: a tudo derrubou que não fosse conhecimento
científico, sem perceber que estava erigindo-se a si mesmo como
verdade absoluta de si mesmo – um círculo vicioso reles, uma
“metanarrativa” afogada numa petitio principii das mais
vulgares (Lyotard, 1989). Com isto gerou um conceito e uma prática
histórica de emancipação que sempre implicaram a submissão das
outras culturas e saberes, como tem mostrado a pesquisa do “pós-colonialismo”,
sobretudo em sua insistência sobre a categoria da
“multiculturalidade” (Harding, 1998). O pós-modernismo também
tem suas “contradições performativas”, por exemplo, o
enredamento em metanarrativas, à
medida que questiona metanarrativas através de outras, ou à
medida que, recaindo por vezes no relativismo, nega qualquer
validade própria. Mas, pode ter como vantagem um olhar mais modesto
e interdisciplinarmente argumentado frente à realidade. Talvez se
pudesse dizer que o passo mais arguto do pós-modernismo foi aceitar
que a realidade é no fundo estrito mistério. A ciência, por mais
que corra atrás, só capta o que cabe em seu método, sempre
incidindo em alguma forma de reducionismo, quando não recai na
“cegueira científica”, como diria Morin (1995, 1996).
Há
sempre dissonância inevitável entre nosso modo de captar e a
realidade como tal. Esta existe fora de nós, ainda que trabalhemos
sempre com uma “realidade construída”, pela própria posição
hermenêutica interpretativa a partir do “ponto de vista do
observador”, na linguagem de Maturana e Varela (1994). Nosso cérebro
capta a realidade circunstanciado por duas vertentes pelo menos: a
biológica, mais propensa a responder ao desafio da sobrevivência,
e a cultural, mais propensa a dar conta da trama social. Não é a
realidade externa que se impõe, como queria o representacionismo,
mas é o gesto do sujeito que, em última instância, decide o que
é real, num processo reconstrutivo interminável, subjetivo,
individual e culturalmente marcado (Sfez, 1994). Diante do
desconhecido, o primeiro passo do cérebro é buscar princípios ou
traços de ordenamento possível, seja porque entendemos melhor a
partir do já entendido ou já visto, seja porque o caos nos
assusta. O método analítico, típico da ciência sobretudo
moderna, procede desta forma: decompõe em partes um todo, que, no
todo, parece caótico, indomável, indecifrável. Ao impor ordem no
caos, o cérebro parece obter um sentido de domínio do objeto, mas
deixa de perceber que não tem nas mãos a realidade como tal, mas
versão dela captada pelo cérebro.
A
dissonância é hoje vista com maior naturalidade, à medida que
aceitamos ser a realidade complexidade dinâmica, não linear, ambígua
e ambivalente, tipicamente dialética em sua unidade de contrários.
Apresenta-se também linear, e é nesta superfície que as
tecnologias agem: dominamos mais propriamente a parte linear da
realidade, onde nossos modelos matemáticos podem funcionar. Mas já
sabemos que, por trás da superfície linear, aparentemente simples,
contorce-se realidade inesgotável, insondável, no fundo indecifrável.
Ademais, como parte da natureza, só a podemos ver parcialmente, o
que determina um limite marcante do conhecimento: a parte não pode
dar conta do todo, embora possa entender partes do todo. O modo lógico
de captar a realidade, assim, só faz jus às manifestações lógicas,
regulares, recorrentes, sobretudo mensuráveis e estáveis, o que
insinua uma perda sempre de substância. A rigor, não captamos a
dinâmica propriamente, mas a regularidade da dinâmica. Se levarmos
em conta que a dinâmica como tal só é dinâmica em suas faces
irrepetíveis, não lineares, surpreendentes, transbordantes,
permanecer apenas no recorrente é pouco. Mas é o que a ciência
pode dar.
Os
Autores em foco buscam outro olhar científico, metodologicamente
acurado por certo, mas muito mais flexível, e que já se
prenunciava na “psicoterapia construtivista” de Neimeyer e
Mahoney (1989), para a qual a cura teria as marcas do processo
reconstrutivo político da aprendizagem. Não caberia a noção de
paciente, mas de um sujeito que elabora seu projeto próprio de
cura, com base na reconquista crítica e autocrítica da autonomia.
Por isso, a psicoterapia não pode reduzir-se à química, ou às
concepções ainda positivistas de Freud, que imaginava ser a
neurose uma lesão física e portanto quimicamente tratável. Embora
esteja fora de propósito inventar dicotomias entre quantidade e
qualidade, ou entre o físico e o espiritual, pode-se aceitar uma
influência mútua, já que, no fundo, se trata de uma só
realidade, ao mesmo tempo, material e espiritual, física e virtual,
quantitativa e qualitativa. Não se busca, assim, a cura
propriamente dita, como seria sanar uma ferida, que cicatriza, fecha
e se conclui. A saúde do ser humano é outro “negócio”, sempre
também exposta a vicissitudes quantitativas e mensuráveis,
quimicamente tratáveis, mas jamais redutível a apenas isso.
Valeria
trazer à baila a grande polêmica em torno da “felicidade”, uma
vez estudada freneticamente pelos métodos empíricos
quantitativistas e com resultados pífios, já que a parte mensurável
do fenômeno, embora sempre presente, nem de longe é a mais
interessante (Demo, 2001, a, b). Para saber, com algum grau de
fundamentação, se alguém é feliz, primeiro, será mister definir
teoricamente o que se entende por felicidade, o que já é calvário
interminável, e, segundo, produzir informação tipicamente
qualitativa, colhida por entrevistas abertas, convivências
repetidas, observações detidas e questionadas, até se poder
aventar que a pessoa em questão poderia ser considerada feliz ou não.
Perante fenômeno tão escorregadio, subjetivo e emaranhado, as
propostas de auto-ajuda emergem como tendencialmente fraudulentas,
porque inventam fórmulas prontas de algo que precisa ser
tipicamente reconstruído todos os dias. O conhecimento científico
precisa fazer o gesto humilde de buscar a realidade, não de a
“ensacar” de antemão em esquemas metodológicos que salvam o
pretenso rigor científico, mas não o objeto de pesquisa.
Produzimos, então, um conhecimento intestinamente discutível,
cujos resultados sempre podem ser argüidos, retomados, refeitos,
bem como contestados. Basta que se mude a definição de felicidade,
ou que se forcem os métodos de captação.
O
mérito principal desses Autores está – parece-me – em preferir
um olhar tipicamente flexível perante a flexibilidade estonteante
de uma realidade no fundo sempre misteriosa, sobretudo no que se
refere às propriedades da relação humana. A psicoterapia é a
engenharia não linear da relação humana, indevassável e necessária,
insondável e proveitosa. Desaparece também a figura do médico
neutro e indiferente, qual sujeito que, para entender o objeto, o
reduz a mero objeto. A participação do psicoterapeuta é
essencial, como é essencial a participação do pesquisador na
assim dita “pesquisa qualitativa” (Demo, 2001c). O que salva a
credibilidade científica não é a indiferença, sempre artificial
e hipócrita, porque apenas outro modo de se engajar, mas o ambiente
de abertura irrestrita sobre o que se diz e faz. Os resultados desta
“teoria geral do amor” podem sempre ser revistos, até porque a
postura dos Autores não poderia ser definida a não ser como uma
entre outras. Vale o quanto pesa... Mas é pelo menos muito
interessante, intrigante e sobretudo alternativa.
II.
Colocando o problema
De
certa forma, os Autores apostam na tese de que, para termos chance
de felicidade, isto “depende de nossa habilidade de decifrar o
mundo escondido que gira – de modo invisível, improvável e
inexorável – em torno do amor” (p. VIII). Sua visão dialética
reponta já nesta combinação incrível: amor é algo improvável e
inexorável, ao mesmo tempo. Improvável, porque não se pode
garantir mecanicamente nada; inexorável, porque nos arrasta quer
queiramos ou não. Entretanto, na visão científica comum, num
campo minado como este, aparecem também traços recorrentes, já
que toda subjetividade é, simultaneamente, tipicamente individual (irrepetível)
e comum (recorrente). No indivíduo aparece algo que não se repete,
mas na espécie somos todos no mínimo similares. “Embora a
natureza do amor não seja fácil de definir, tem ordem intrínseca,
arquitetura que pode ser detectada, escavada e explorada. Experiência
emocional, em toda sua complexidade resplandecente, não pode
emergir ex vacuo: deve
originar-se em sistemas neuronais dinâmicos zumbindo com maquinações
fisiológicas tão específicas e padronizadas, quanto são
intrincadas. Como o resto do mundo, é governado e descrito por
princípios que podemos descobrir mas não mudar. Se apenas soubéssemos
onde e como olhar, seríamos capazes de encontrar leis emocionais a
cujas ações uma pessoa não poder resistir mais do que poderia
frente à força da gravidade ao cair de precipício” (p. 5).
Esta
percepção pode merecer algum reparo, porque filia-se a um tipo de
positivismo, por exemplo, popperiano, que admitia ciência como
“descoberta”, não propriamente como reconstrução (Popper,
1959). Por trás da dinâmica esfuziante haveria princípios
recorrentes, que é sempre possível descobrir. Neste sentido, o pós-modernismo
vai até certo ponto apenas, porque admite complexidades no fundo
lineares (intrincadas, por certo, mas padronizadas). Citando
Russell, os Autores tentam criticar a credulidade excessiva frente
ao desafio do amor: “O ser humano é animal crédulo e precisa
crer em alguma coisa; na ausência de boas razões para crer, pode
satisfazer-se com más. Onde quer que estejam ou quando as pessoas,
como regra, preferem qualquer explicação (embora defeituosa ou
implausível) à nenhuma” (p. 7). Permanecer sem explicação é
insuportável para o ser humano. Daí, parte para ordenar o
desconhecido, por vezes inventado fundamentos últimos, como faz
toda religião. Na prática, porém, os Autores ainda acreditam em
algum fundamento último, ao estilo da ciência moderna. Mas, mantêm
forte espírito crítico frente à ciência de coloração
empirista.
A
ciência ainda não dá conta bem do amor, por duas razões
principais: “Primeiro, uma correlação curiosa prevaleceu
entre rigor científico e frieza: quanto mais o modelo da mente é
factualmente fundado, tanto mais alienante. O behaviorismo foi o
primeiro exemplo: brandindo empirismo a cada momento, foi totalmente
equivocado em sua recusa de reconhecer coisas básicas da vida
humana como pensamento ou desejo. A psicologia cognitiva multiplicou
caixas e flechas ligando percepção à ação e nada teve a dizer
sobre o centro impensável do self
que as pessoas tanto apreciam. A psicologia evolucionária derramou
luz sobre as dúvidas darwinianas da mente, mas o modelo taxa de
ilusões os perfis da vida humana que não mostram vantagem em
termos de sobrevivência – incluindo amizade, ternura, religião,
arte, música e poesia. A moderna neurociência também tem sido
culpada de propagar reducionismo opaco e sem alma. Se os
psicanalistas armaram castelo intangível no ar para a humanidade
habitar, a neurociência nos deixou casebre concreto. Cada humor ou
modo de se comportar é melhor entendido como resultado de bolas
moleculares de bilhar carambolando no crânio? Quando surgem
problemas emocionais, é a firme dieta de ritalin
para crianças ou de prozac
para adultos nossa única resposta nacional? Se a mulher perde seu
marido e se deprime, sua tristeza contém alguma significação, ou
trata-se apenas de química mal sucedida? A ciência é novata no ofício
de definir a natureza humana, mas por isso mesmo permaneceu
inimiga do humanismo. Pesquisadores do significado recebem a
porta na cara. O segundo impedimento para descrição
completamente científica do amor é a falta de dados brutos. A
investigação sistemática contém promessas atraentes para os que
querem compreender o cérebro – e o que o empirismo dá com gesto
generoso, toma de volta com outro. Apesar dos esforços astronômicos
em tecnologia, a ciência do cérebro permanece coleção frustrante
de palpites suaves, prenhes de ambigüidade. Tais indicações podem
apontar para a direção correta, mas não nos levam com finalidade
clara para o ponto de chegada. A ciência chegou longe na trilha de
compreender o cérebro, mas o caminho se alastra além para o
horizonte. O estudioso do amor ainda se confronta com relação
venerável entre certeza e utilidade em matéria do coração:
somente algumas poucas coisas dignas de se conhecer sobre o amor estão
provadas, e também poucas coisas receptivas à prova são dignas de
se conhecer. Quando se aventura no terreno do amor, o empirista
descomprometido é deixado com pouco para discutir. A saudade
intensa e inarticulada da criança por seus pais, a paixão
torrencial entre jovens amantes, a devoção inabalável de toda mãe
– tudo são vapores elusivos que se riem da mais séria tentativa
de objetividade para os ligar a este
gene ou a esta coleção de células” (p. 11).
Nesta
citação encontramos dois passos metodológicos relevantes. No
primeiro momento, os Autores fustigam a redução da complexidade
humana a indicadores mensuráveis, embora sejam estes os que a ciência
sabe tratar. O que a ciência nos lega parece um “casebre”, ou
seja, uma caricatura da exuberância de nossa mente. É impossível
restringir tudo a expressões behavioristas, tratáveis
quimicamente. Já no segundo passo os Autores reclamam da pequenez
dos resultados da pesquisa sobre o cérebro e a mente, porque ainda
atrelada ao modelo empirista. Ainda não se consegue estudar de
verdade fenômenos como a saudade e ternura, paixão humana,
generosidade materna, reduzidos a “vapores elusivos”. Diante
deste desafio, os Autores procuram meio termo entre ciência e
fantasia ou arte e fatos. De um lado, o “amor emana do cérebro; o
cérebro é físico, e assim serve para tema do discurso científico
tanto como abóboras ou química. Mas o amor sempre participa do nível
pessoal e subjetivo, e assim não podemos colocá-lo em recipiente e
pregar as asas no mostruário como lepidopterista faria com
borboleta prismática. A despeito do que a ciência ensina, somente
mistura delicada de evidência e intuição pode oferecer a visão
mais verdadeira da mente emocional. Para escapar dos perigos gêmeos
do reducionismo vazio e da credulidade sem base, é mister
equilibrar respeito por prova com carinho pelo não provado e improvável.
O senso comum deve combinar na medida igual o vôo imaginativo e a
aversão pela ortodoxia. Enquanto a ciência oferece ferramenta
marcantemente útil para explorar e definir o mundo natural, os
seres humanos nascem equipados com instrumento mais velho para
discernir a natureza dos corações à sua volta. Este segundo
caminho é tão influente quanto a lógica – em muitas circunstâncias
ainda mais. Este livro aposta na legitimidade e necessidade de ambos
os métodos para ler os segredos emocionais – de amigo, de
parceiro, de criança, de si mesmo” (p. 12). Assim, parece
tornar-se mais claro que os Autores, embora acenem ao fundo com o
campo clássico das ciências naturais, reconstroem um contexto crítico
notável, que ultrapassa de longe o positivismo dominante neste tipo
de pesquisa. Os papers acadêmicos não detêm a chave dos
mistérios do amor, porque, em parte se trata de mistérios. Para além
das circunstâncias materiais, as pessoas necessitam dar sentido a
suas vidas. Voltam a citar que existiriam “leis escritas em pedra
em algum lugar do coração” (p. 13), mas aceitam que a ciência
estaria longe do amor, porque, se propõem algumas dicas manejáveis
pela pesquisa mensurável, não conseguem definir a complexidade.
A
seguir, referem-se à estrutura básica do cérebro, como a
conhecemos hoje, ainda que rudimentarmente, segundo a qual “a ciência
opera sob princípio árido mas efetivo: para compreender porção
do mundo natural, há que dividir em partes. O amor é irredutível.
O impasse parece definitivo. Como poderia continuar a pesquisa? O
que pode a objetividade que se quer dura apreender sobre o amor
evanescente, efêmero, pessoal? Como sói acontecer, a ciência está
menos avessa a fantasmas do que em outros tempos. Os primeiros anos
do Século XX quebraram a concepção do mundo natural como rede em
malha de dentes, podendo-se revelar os detalhes internos desde que
se tenha monóculo de aumento de suficiente poder e delicadeza. À
medida que a física e a matemática se detiveram mais profundamente
dentro da matéria da realidade, colidiram com o fim da jurisdição
da objetividade... A ciência encontra a impossibilidade de separar,
como fazia tradicionalmente, o conhecedor da coisa conhecida” (p.
16). Esta proposição supera a idéia anterior da mera descoberta
científica, aceitando que lidamos, como se diz em metodologia científica,
com um “objeto construído”. Esta maneira de ver torna-se tanto
mais compelente, quanto se citam autores como Gödel, em seu teorema
da incompletude em matemática (esta também seria um objeto pelo em
parte construído), ou como Heisenberg, que acabou aceitando que
“quanto mais exatamente a velocidade de partícula é mensurada,
tanto mais elusiva se torna sua localização” (p. 17). “O
significado da descoberta de Heisenberg expandiu-se para além do nível
atômico e coloca em xeque os fundamentos do esforço científico.
‘A ciência não descreve e explica a natureza’, concluiu
Heisenberg, mas ‘apenas a natureza exposta ao nosso método de
questionamento. Junto com Gödel e Einstein, ele introduziu os
cientistas em mundo desconfortavelmente indefinido – onde a extensão
do cognoscível diminui de modo desapontador, e tais coisas intangíveis
como ponto de vista e método de questionamento permeiam previamente
as verdades sólidas” (ib.).
Ao
mesmo tempo, os Autores apontam para outro desafio dissonante:
enquanto seria possível estudar o cérebro de modo
“reducionista”, o amor não pode. De partida, o cérebro
“produz” fenômenos que pareceriam ultrapassá-lo – a massa
cinzenta inventa coisas que parecem não ter nada a ver com ela,
ainda que não possam existir sem ela, como o pensamento.
O que a ciência pode melhor desvendar é o substrato físico do cérebro,
que pode ser separado em partes, mensurado até certo ponto pelo
menos. O cérebro é “rede de neurônios, as células
individuais do sistema nervoso. Este reconhecimento torna o cérebro
em essência não diferente do coração ou do fígado – órgãos
que também são coleções ligadas de células similares. O que dá
a órgão identidade e poder é sua função especializada que suas
células constituintes estão prontas a desempenhar. A vocação
peculiar do neurônio é a sinalização
de célula a célula. Tais sinais são, ao mesmo tempo, elétricos
e químicos; as moléculas cuja carga incessante envia a porção química
da mensagem são os neurotransmissores” (p. 19). Como a maioria dos pesquisadores em
biologia, aceitam a tese de que tal estruturação cerebral se deve
ao desafio da sobrevivência. Basicamente, uma coleção de células
sinalizadoras pode dar conta de reações súbitas a mudanças
instantâneas, reduzindo ou desfazendo os riscos. Todavia, trata-se
de tática de sobrevivência entre outras, apesar de nosso orgulho
em torno do cérebro. Por incrível que pareça, as formas de vida
mais exitosas não têm cérebro, como as bactérias. Com isto
recolocam uma idéia em si muito pertinente: o cérebro é máquina
maravilhosa, mas, como toda estrutura em evolução, incompleta em
muitos sentidos.
De
acordo com as pesquisas atuais, os Autores adotam a visão do cérebro
triuno. Reconhecendo que a evolução não procedeu por transições
suaves, admitem saltos de metamorfose. “O desenvolvimento do cérebro
humano não foi nem planejado, nem executado de modo inconsútil.
Simplesmente aconteceu – e este pedigree elimina
expectativas razoáveis sobre a configuração do cérebro. A
priori, ninguém suporia que o desenho neuronal avançado iria
requerer organismo para regularmente escorregar para o torpor inevitável
que convida a ser depredado. Mas o sono é universal em todo o mundo
mamífero, ainda que sua função neuronal continue desconhecida. O
mesmo senso comum falível sugere que o cérebro humano tenderia a
ser unitário e harmonioso. Não é. Cérebro homogêneo poderia
funcionar melhor, mas os humanos não o têm. Estruturas evoluídas
não respondem a regras da lógica, mas somente às exigências de
sua longa cadeia de vitórias de sobrevivência” (p. 21). Afastam
pois qualquer teleologia evolucionária, o que serve, ademais, para
desfazer a expectativa modernista do homem como rei da natureza.
Nesta evolução tortuosa, haveria três subcérebros distintos, de
idade diferente. O trio se mistura e comunica, mas alguma informação
é inevitavelmente perdida na transição, porque as subunidades
diferem em suas funções, propriedades e mesmo em sua química, o
que, ademais, poderia também explicar um pouco a anarquia do amor.
O
primeiro cérebro é o reptílio: é elaboração bulbosa da coluna
vertebral – guarda os centro de controle vital, como a reação rápida
a movimento ou barulho brusco. “Encaixado na fisiologia da
sobrevivência, o cérebro reptílio é o que ainda funciona na
pessoa quando tem morte cerebral. Se o cérebro reptílio morre,
assim o faz o resto do corpo; os outros dois cérebros são menos
essenciais para a neurologia de sustentação da vida” (p. 22).
O segundo cérebro é o límbico: os mamíferos provieram dos répteis,
desenvolvendo no crânio outra estrutura neuronal – não
transformou só a mecânica da reprodução, mas também a orientação
organísmica com respeito à prole. “Desapego e desinteresse
marcam a atitude paterna do réptil típico, enquanto os mamíferos
podem entrar em interações sutis e elaboradas com seus filhos. Os
mamíferos dão à luz filhos vivos; cuidam deles, defendem e os
tratam enquanto estão imaturos. Os mamíferos, em outras palavras, tomam conta dos seus. Criar e cuidar são coisas tão familiares aos
humanos que somos capazes de tomar como garantidas, mas tais
capacidades foram uma vez novidade – uma revolução na evolução
social” (p. 25). Ademais, a relação límbica permite a comunicação
vocal e uma trama de sentimentos fortes, que pode ser vista, por
exemplo, na dor da separação ou nas brincadeiras conjuntas. O
terceiro e mais novo cérebro é o neocórtex: maior que os outros,
“como quase tudo no cérebro, o neocórtex é baú de segredos e
questões não respondidas” (p. 27). Mas já há algum progresso
na pesquisa, que indigita, por exemplo, que comanda o falar,
escrever, planejar, raciocinar. Entretanto, embora a consciência
seja um dos traços fundamentais do neocórtex, a vida é conduzida
sobretudo de modo inconsciente. “Quando o ser humano se move
durante o dia, é abençoadamente inconsciente dos feitos
prodigiosos de coordenação que subjazem aos atos mais simples”
(p. 28). Também tem relação com a sobrevivência, à medida que
produz o conhecimento crítico que decifra em parte as realidades
desconhecidas ou obscuras, sem falar que gera nossa capacidade de
simbolizar.
Esta
estruturação tripartite já aponta para desafios importantes: se,
de uma parte, a trindade poderia nos dar chance de abrangência
maior no manejo de nós mesmos e da realidade externa, também
acarreta uma unidade de contrários. “Uma pessoa não pode
direcionar sua vida emocional do mesmo modo como maneja seu sistema
motor para alcançar um copo. Não pode comandar querer a coisa
certa, ou amar a pessoa certa, ou ser feliz depois do
desapontamento, ou mesmo ser feliz em tempos felizes. As pessoas
carecem desta capacidade não por deficiência de disciplina, mas
porque a jurisdição da vontade é limitada ao cérebro mais
recente e às funções dentro de sua perspectiva. A vida emocional
pode ser influenciada, mas não comandada” (p. 33). Por isso
mesmo, é difícil verbalizar emoção, tanto nossa, quanto dos
outros. O que parece mais claro é sua finalidade de sobrevivência,
pelo menos em termos superficiais. “Alegria, saudade, tristeza,
lealdade, fúria, amor – são pigmentos opalescentes que douram
nossas vidas com vibração e significado. E as emoções fazem mais
que colorir nosso mundo sensível; estão na raiz de tudo que
fazemos, a origem inquestionável de todo ato mais complicado que
reflexo. Fascinação, paixão e devoção nos empurram para pessoas
e situações compelentes, enquanto medo, vergonha, culpa e desgosto
causam repulsão frente aos outros. Mesmo as abstrações
neocorticais mais áridas pulsam com vibração emocional. Ambição
e inveja latejam por baixo da economia; vingança e reverência
correm por baixo da aparência de justiça. Em todos os casos, as
emoções são o motivador da humanidade e seu guia onipresente”
(p. 36).
Por
vício histórico racionalista, nossa sociedade tende a
desconsiderar as emoções – prefere análise à intuição, lógica
ao sentimento. Todavia este desequilíbrio é mais prejudicial do
que pode parecer. A emocionalidade possui propósito mais profunda:
“os mecanismo montados no tempo da emoção permitem que dois
seres humanos recebam os conteúdos das mentes de cada um. A emoção
é o mensageiro do amor; é o veículo que carrega cada sinal de um
coração palpitante para outro. Para seres humanos, sentimento
profundo é sinônimo de estar vivo” (p. 37). É marca profunda
dos mamíferos que, neste sentido, formam “sociedade secreta” (ib.).
Na superfície, a emoção – já dizia o próprio Darwin – serve
a razões de sobrevivência, como equipamento somático útil. Ao
mesmo tempo, apesar de seu tom subjetivo eminente, descobriu-se que
as expressões faciais, por exemplo, seriam idênticas pelo mundo
afora, em toda cultura e em cada ser humano estudado. Seria
linguagem universal da humanidade: até mesmo criança cega sorri ao
interagir prazerosamente com a mãe. “Tal sorriso provém de
criatura em desenvolvimento incapaz de falar, andar e mesmo de
sentar, mas já sabe como expressar felicidade através da configuração
de contrações musculares que nunca viu antes na face de alguém.
Seu conhecimento deve ser inato. O sorriso da criança cega deve
refletir a arquitetura emocional herdada do cérebro” (p. 40).
Esta
estruturação emocional redunda em sofisticado sistema de comunicação
através da expressividade. Estuda-se também muito a expressividade
de animais, por mais que isto continue polêmico. Entretanto,
podemos distinguir uma hierarquia evolucionária da emoção, que se
estenderia do primeiro precursor reptílio até nosso aparato
complexo e muito nuançado. “Medo é provavelmente a emoção mais
velha do cérebro límbico, elaboração do susto reptílio
primordial” (p. 41). Raiva ajuda a combater, inveja é alerta. Emoções
posteriores contribuem para afinar o status
grupal – desprezo, orgulho, culpa, vergonha, humilhação.
Aumentando a abstração, torna-se mais humana, como fervor
religioso. Mesmo assim, a maioria das emoções não requer
pensamento, consciência explícita, já que o código da
emocionalidade parece emergir de arquitetura neuronal uniforme. “A
função da ciência da emoção é escavar esta estrutura arcaica,
e, à medida que o tem feito, revelou as verdadeiras raízes do
amor. Os seres humanos, como animais que inventam ferramentas,
tendem a associar importância com durabilidade. As colunas do
Partenon ou os blocos de pedra maciça de pirâmides gigantes
facilmente incrementam nossa admiração e respeito. A
instantaneidade das emoções nas vidas humanas está em contraste
perturbador com sua brevidade impossível. As emoções são como
certas borboletas que rapidamente se desdobram e morrem quase tão
rapidamente quanto surgiram. Videografia de alta velocidade mostra
que as expressões faciais começam dentro de milissegundos depois
de evento provocativo, e somem imediatamente” (p. 43). As emoções
possuem a evanescência da nota musical. Por outra, não se sabe
ainda por que o cérebro pode empacar numa emoção (“idéia
fixa”), tornando a empreitada de desempacar muito complicada. De
todos os modos, para a sobrevivência da espécie, parece ter
surgido certo meio termo: medo demais inibe, de menos leva ao risco
excessivo. “O cérebro límbico não é apenas a sede dos sonhos,
mas igualmente da emocionalidade avançada. O propósito primordial
do cérebro límbico era monitorar o mundo externo e o ambiente
corporal interno, e orquestrar sua congruência. O que se vê, ouve,
sente e cheira é armazenado no cérebro límbico, bem como os dados
sobre a temperatura corporal, pressão do sangue, batimento cardíaco,
processos digestivos, e escores de outros parâmetros somáticos. O
cérebro límbico responde pela convergência desses dois fluxos de
informação; coordena-os e afina a fisiologia para capacitar o
corpo face ao mundo externo” (p. 52).
Já
o neocórtex comanda os desempenhos mais elevados da cognição –
linguagem, solução de problemas, física, matemática. A função
emocional, como tal, não requer vastas hipóteses. Enquanto se
exige gênio neocortical para formular a teoria da relatividade, é
menos exigente estar triste depois de perda, ou estar excitado ao
ver a pessoa amada passando pela sala cheia de gente. Mas, enquanto
o cérebro neocortical não produz emocionalidade em si, tem papel
importante em modular os sentimentos e integrá-los com algumas de
suas funções simbólicas próprias. Na verdade, ter emoções está
sob controle límbico, enquanto falar delas é do neocórtex. Pode
parecer boa divisão de trabalho, mas facilmente desanda... Seja
como for, a comunicação emocional é marca forte dos seres
humanos. “As crianças são mestras em detectar e expressar emoções,
o que pode ajudar a entender sua fascinação inata por faces” (p.
60). Mesmo sem saber, as mães usam os sinais universais da emoção
para ensinar a seus bebês sobre o mundo. O sistema vai se tornando,
com o tempo, afinado e sofisticado – o bebê checa ambigüidade na
face da mãe, sobretudo monitora sempre as expressões da mãe, para
saber como reagir ou comportar-se, sobretudo quando sente que fez
algo que possa merecer censura. Pode captar mudanças mínimas.
Os
Autores introduzem, então, o conceito de RESSONÂNCIA LÍMBICA,
para assinalar a “sinfonia de intercâmbio mútuo e adaptação
interna, através da qual dois mamíferos se tornam afinados aos
estados internos de um e de outro” (p. 63). Garante a harmonia sem
palavras que vemos em todo lugar, tomando-a como garantida – entre
mãe e bebê, o menino e seu cão, entre amantes que seguram as mãos.
Esta mesma relação foi descoberta pelos lingüistas, quando
insistem na confiabilidade da fala, implicando que o entendimento é
possível porque os dois lados acreditam um no outro intuitivamente.
Estão afinados. Em si, poderíamos questionar toda palavra ou
desconfiar dela. Enquanto em ciência, este procedimento faz parte
do método científico crítico, não subsiste no senso comum,
permeado de forte emocionalidade. Neste sentido, as relações
emocionais permeiam corpo, mente e alma. Com efeito, a falta de
relacionamento no início da vida pode ser fatal, levando mesmo à
morte. Contato humano rivaliza com alimento e água. Os Autores
lamentam a cultura americana de coibir os contatos com crianças, já
que é notória a importância das experiências nos primeiros anos
de vida para o bom desenvolvimento da personalidade. “Alguns céticos
vêem esta asserção com suspeita, mas o estudo da afeição humana
(human attachment) a provou verdadeira” (p. 73). A ciência
positivista reluta em aceitar este tipo de contexto, como se tornou
marcante a obra de Harris (1998), sobre o “pressuposto do
cuidado”, considerado hipótese insustentável empiricamente. Esta
psicóloga tentou, sob os aplausos de biólogos duros como Dawkins e
Pinker, mostrar que, na educação dos filhos, a influência dos
pais é bem menor do que se imagina, predominado o grupo de idade (peer
group).
Todavia,
os Autores reconhecem, usando outro olhar, a telepatia da ressonância
límbica, chagando a falar de “anatomia do amor” (p. 76), ao
aceitarem impacto anatômico da relação emocional. Por certo,
persiste a dificuldade extrema da medicina ocidental de perceber a
importância da afeição. “O paradigma da medicina dominante não
tem capacidade de incorporar o conceito de que a relação é
processo fisiológico, tão real e potente quanto qualquer
comprimido ou procedimento cirúrgico” (p. 81). Entretanto, a própria
ciência é exemplo desta dinâmica dialética. De um lado, como método,
ordena as complexidades, decifra-as em parte, alarga o conhecimento
passo a passo. De outro, Einstein teria descoberto a teoria da
relatividade cavalgando o raio de luz em sua imaginação livre.
“Quem sabe quantas revoluções científicas se perderam porque
seus descobridores potenciais não deram atenção ao excêntrico,
incidental, inconveniente dentro do laboratório?” (p. 81).
O
corpo humano é em parte sistema fechado e em parte aberto. Através
da REGULAÇÃO LÍMBICA ocorre a sincronização mútua. A
fisiologia do bebê é das mais abertas, até porque depende em tudo
dos familiares, sobretudo da mãe. “Sem regulação límbica, seus
ritmos vitais entram em colapso, e morrem” (p. 85). Os adultos,
permanecendo animais sociais, continuam a exigir fonte de estabilização
fora deles. Por isso, esta mescla necessária de fisiologias faz da
afeição e da vida em comum os centro da vida humana.
“Reconhecemos instintivamente que humanos sadios não são pessoas
sozinhas” (p. 86). A regulação límbica expressa-se na
interdependência natural dos mamíferos sociais em todas as idades.
Os jovens, todavia, precisam mais dela. Trata-se de rede reconstruída
sempre, intrincada e complexa, que seria pouco apropriado reduzir a
flechas fixas de direcionamentos, como se houvesse claras causas e
claros efeitos. “O cérebro não é máquina simples, com alavanca
aqui para deslanchar alegria e roldana ali para desandar pânico”
(p. 91). Uma das marcas do cérebro neocortical está em que
consegue ver diferença entre corpo e alma, enquanto os outros não.
Na história, todavia, insistiu mais em ver o corpo, sobretudo com o
avançar da ciência, deixando de lado as outras dimensões, tão
definitórias do ser humano, quanto as materiais.
A
memória é designada como encarnação da gravidade, no sentido de
estocar e moldar o amor. A memória é pequeno mundo que contém
mundos inteiros. “De alguma forma, a imensidade do passado está
dormindo lá dentro, e algumas partes despertam sob nosso comando.
Mas a memória é ainda mais: define, cria e mantém junto o mundo
mental da pessoa” (p. 100). Os autores valorizam a memória
sobretudo como fator de estabilização e identidade do indivíduo:
nela os cacos da história de cada um aparecem amalgamados em
conjuntos aos quais se podem atribuir sentidos. Sendo plástica, a
mente pode adaptar-se e reconstruir: não armazena simplesmente, mas
refaz o que nela entra. Cientificamente falando, uma teoria da memória
é um mapa da alma, se assim se pode dizer. Mas é um “continente
negro”, até porque há conhecimento emocional que não deixa traço
consciente. Por exemplo, a atração mútua entre pessoas, sempre
levanta a incógnita: como somos escolhidos pelos outros, como surge
a compatibilidade. “O trabalho enigmático do amor é feito no
escuro: parceiros prospectivos caçam cegamente; não conseguem
descrever a pessoa que procuram” (p. 101).
Diante
desta perspectiva, os Autores negam a idéia freudiana de
inconsciente atemporal, muito utilizado, por exemplo, na metodologia
estruturalista da análise dos sonhos e mitos. Para eles, a memória
não é coisa. “Memória é outro processo corporal, produzido por
objetos físicos, mas é, ele mesmo, imaterial como a alma” (p.
103). Em nossa tradição cultural, atribuímos nosso sucesso à
compreensão racionalista. Entretanto, os estudos da memória
tenderiam a insinuar que a intuição nos comanda muito mais. Até
mesmo inconscientemente, o cérebro tende a destacar na realidade,
sobretudo no desconhecido, os traços recorrentes, porque, para a
sobrevivência, produzir seguranças e certezas é essencial. Mas não
temos como decifrar todas as perguntas que nos assolam. Não somos
capazes de tudo racionalizar, dizer, definir, categorizar.
Implicitamente, a memória nos indica que muita coisa se aprende na
vida de modo camuflado. A própria linguagem falada pressupõe um
labirinto de regras fonológicas e sintáticas que os falantes
nativos não saberiam explicar ou mesmo reconhecer. O conhecimento
implícito torna as estruturas da linguagem disponíveis para uso
automático. As crianças aprendem a falar sem instrução. Toda língua
é muito intrincada sintática, e sobretudo semanticamente. Mas isto
não impede que tenham estruturas recorrentes, que são organizadas
implicitamente na memória. Neste sentido, pode-se dizer que a
aprendizagem emocional é implícita.
Por
isso também, o mundo do amor é feito de sombras. A ignorância do
próprio coração não se deve apenas a possível repressão, mas
igualmente ao desenho dual da memória no cérebro, que
mescla horizontes explícitos com implícitos. Os
desencontros dos livros do amor não são traço próprio, não
erro. “Desfilamos nosso conhecimento inconsciente em todo
movimento pensante que fazemos na dança do amor. Se a criança tem
os pais corretos, aprende os princípios corretos – que amor
significa proteção, cuidado, fidelidade, sacrifício. Vem a sabê-lo
não porque se lhe conta, mas porque seu cérebro automaticamente
estreita a confusão exuberante em poucos protótipos regulares”
(p. 116). Como regra, confiamos na inteligência para resolver
problemas, e, por isso, ficamos perplexos quando nos vemos
impotentes para fazer mudança emocional. “Para o cérebro
neocortical, rico no poder da abstração, compreender faz toda
diferença, mas não conta muito nos sistemas neuronais que evoluíram
antes de existir a compreensão. As idéias saltam como tantas
ervilhas da robusta incompreensão dos cérebros límbicos e
reptilianos. A implicitude obstinada do conhecimento emocional, sua
força irrazoável incessante, evita que a lógica garanta salvação,
tanto quanto destitui os livros de auto-ajuda como tábuas de salvação.
O enorme volume e variedade da parafernália da auto-ajuda
testemunha desde logo a vastidão do apetite a que pretendem
satisfazer e sua inabilidade de satisfazer” (p. 118). A emoção
tem o gesto do desejo: só vale enquanto deseja; quando satisfeito,
sobretudo se frustra. Eis estrutura que apresenta energia
exuberante, incontrolável, mas que facilmente pode desequilibrar,
tornando a felicidade o que mais se deseja e o que menos se
satisfaz. Por ser algo tão individual e subjetivo, não cabe em fórmulas
prontas.
Por
outra, o amor muda quem somos e quem podemos nos tornar. Em todos os
momentos, esta realidade no toca, também quando produzimos diagnósticos
médicos, intrinsecamente eivados de incerteza. Gostaríamos de
forjar avaliações cristalinas, infalíveis, mas isto está além
de nossa capacidade, seja porque não podemos conhecer a realidade
até ao fim, já que não tem fim, seja porque nos envolvemos nela e
com ela também nos confundimos. Mas, por isso mesmo, somos melhores
que os computadores: estes processam apenas algoritmos, enquanto nós
podemos compreender unidades de contrários, sentidos à revelia,
significados imprevistos. Na verdade, os ser humano tem dois corações:
um feixe de músculos no peito, e um feixe de cabos de neurônios
comunicativos que criam sentimento, saudade e amor. Enquanto o músculo
pode funcional quase como máquina física, a rede neuronal, por sua
vez, é única. Por isso, o programa de computador inventado para
diagnosticar pode perder-se por inteiro, quando se trata de ver além
do ritmo cardíaco. O médico que diagnostica faz bem em usar o
computador, mas precisa saber que está lidando com um ser humano,
que pulsa para além de sua base física. Em cada novo caso, aprende
algo mais, coisa que o computador não faz, a não ser estabilizar
novas conexões ocorridas. Os Autores apostam, a estas alturas, que
o computador que imita a rede neuronal pode significar um salto
qualitativo, embora isto ainda esteja muito distante da plasticidade
de nossa inteligência e emoção. Em toda rede neuronal, a inclinação
é estabilizar padrões neuronais na proporção do uso. A rende
neuronal do cérebro vai além: ao mesmo tempo que estabiliza padrões,
donde adviria a personalidade única de cada ser humano, está
sempre aberta à aprendizagem ulterior, mesmo que fisicamente a
plasticidade possa diminuir. Por isso “estar junto por longo tempo
escreve mudanças permanentes dentro do livro aberto do cérebro”
(p. 144). “No relacionamento, uma mente revisa a outra; um coração
muda seu parceiro. Este legado surpreendente de nosso status
combinado como mamífero e seres neuronais é a REVISÃO LÍMBICA: o
poder de remodelar as partes emocionais das pessoas que amamos, à
medida que os atratores ativam certas trilhas límbicas, e o
mecanismo inexorável da memória do cérebro os reforça” (p.
144).
De
certa forma, o livro da vida se encerra em como o amor forma, guia e
altera a mente emocional da criança. Este livro, entretanto, não
se abre apenas à padronização lógica, porque não há
propriamente causas e efeitos separáveis e mecânicos. De um lado,
existem os limites da evolução e da história de cada um. De
outro, existe a possibilidade infinita de aprender. Se uma criança
tem chance adequada, pode desenvolver-se de maneira surpreendente.
“Tudo que a pessoa é e tudo que conhece reside na camada
interconectada de seus neurônios entrelaçados. Tais pontes fatídicas
e diminutas chegam aos quatrilhões, mas emergem só de duas fontes:
DNA e vida diária. O código genético traz à vida algumas
sinapses, enquanto a experiência gera e modifica outras. Assim o cérebro
toma forma como compromisso entre limites dados e liberdade
aproximadamente infinita” (p. 148). Entre genética e experiência
histórica se fazem as oportunidades da vida. “Enquanto os genes são
cruciais em estabelecer alguns aspectos da emocionalidade, a experiência
desempenha papel central em ligar e desligar genes. O DNA não é o
destino do coração; a loteria genética pode determinar as cartas
à sua mesa, mas a experiência negocia a mão com a qual se joga.
Os cientistas provaram que, por exemplo, bom cuidado materno pode
superar temperamento desvantajoso” (p. 153). Trazemos, de modo
inato, um hardware para ativar o sentimento límbico, mas para usá-lo
jeitosamente é preciso orientação emocional. É essencial poder
afinar e calibrar o sonar de cada qual, dentro da trama relacional
que pode indicar como sentir o mundo emocional corretamente.
Porquanto, a pessoa não pode se conhecer até que outra a conheça.
“Estar bem reguladas no relacionamento é o estado profundamente
gratificante que as pessoas procuram incessantemente no romance,
religiões e cultos” (p. 157).
III.
Cura como aprendizagem
Com
esta fundamentação ao fundo, é possível discutir melhor a idéia
atraente da cura como aprendizagem ou como projeto próprio
emancipatório também. Faço aqui, obviamente, uma interpretação
por conta própria e risco, no intuito de poder contribuir ao
debate, e, certamente, como mero aprendiz... Não tenho base
especializada para discutir a psicoterapia, nem imagino dar conta
deste desafio. Apenas agrego uma discussão aberta que poderia
interessar.
Os
Autores perguntam: como sanar corações destroçados?... É o
desafio da psicoterapia. Assim como a ciência não sabe até hoje
responder como se forma uma gota d’água – algo tão efêmero e
mole, mas que fura rochas – seria infantil imaginar que temos a
chave da solução para os desencontros humanos. Explicitamente
concedem que somente Deus teria condição de dar conta deste
desafio. Assim como a água assume incontáveis formas e dinâmicas,
também a mente humana, acrescendo-se a isto a subjetividade de cada
caso. “Qual gota do borrifo do mar, o futuro da mente emocional
está pendurado entre a imobilidade da pedra e a liberdade do céu
de verão. Identidade pode mudar, mas somente dentro dos contornos
que sua arquitetura comanda. Tanto pode ser aprendido emocionalmente
na idade adulta, quanto a neurofisiologia permite” (p. 166).
Assim, a terapia precisa postar-se entre a capacidade de confrontar
limites e de ter que assumi-los, para não instituir novos desequilíbrios
comprometedores.
Para
tanto, há que “reformatar as barras e paredes da prisão
tornando-a casa onde o amor pode desabrochar e a vida florescer”
(p. 166). No campo científico, todavia, continua a guerra de
sempre. “Num lado, um grupo ‘biológico’ sustenta que os
eventos mentais emanam do mundo material do cérebro. Patologia
mental por isso começa em deformações da fisicalidade: receptores
estragados, genes defeituosos, dano cerebral. Tudo bem. Esta escola
favorece a remédios como medicações, corrente elétrica, campos
magnéticos. Algumas vezes funciona. No outro lado, o quadro venerável
‘psicológico’ vê os distúrbios emocionais fluindo de reino
entrelaçado, onde os espíritos da memória andam, sentimentos
mostram força e relações se ordenam conforme padrões passados.
Também tudo bem. Este campo advoga a cura através de
multiplicidade algo selvagem de psicoterapias – também
intermitentemente efetiva” (p. 167). Trata-se de divisão
falaciosa. “O mundo natural não faz promessas de alinhamento a
pressuposições que os humanos acham ajustadas ou convenientes.
Como sucede sempre, a luz confunde a dicotomia enganosamente simples
que sustenta os cientistas por décadas. Todo experimentador que
tentou provar que a luz é partícula teve êxito, como também o
fez todo este pressupondo sua natureza de onda. Impossível, na
teoria. Partícula e onda são idéias mutuamente excludentes; uma
coisa não pode ser ao mesmo tempo o contrário dela. Na realidade,
‘partículas’ e ‘ondas’ existem nas mentes, não na
natureza. Estas categorias cruas não podem capturar a essência da
luz” (p. 168).
Segue
daí, que não se pode separa mente e corpo. Psicoterapia não é
apenas fisiologia, pois implica reformatação somática também. A
terapia implica realinhamentos límbicos tão físicos quanto digestão
e respiração, mas igualmente imateriais e emocionais. Por isso
também não cabe só racionalizar verbalmente os problemas, porque,
sendo a conversa habilidade fantasiosa neocortical, não basta para
atingir o reino mais antigo da mente límbica. A terapia não pode
passar por cima das forças primevas que antecedem a civilização,
porque, “como o amor, a terapia é uma delas” (p. 169). Por
isso, “o resultado da interação límbica entre paciente e médico
é tão eficiente que só os mais poderosos medicamentos podem ser
mostrados como definitivamente mais fortes” (p. 174). Remédios
também funcionam, é claro, porque todo distúrbio mental também
implica base fisiológica. Entretanto, a bem da verdade, os
mecanismos subjacentes aos próprios remédios, até hoje, são algo
misteriosos. Os medicamentos, porém, “não podem resolver todas
as questões límbicas, sequer a metade. O que lhes falta em nuança,
sobra em força, mas por vezes nuança é mais decisiva” (p. 176).
Racionalizar
um distúrbio mental é importante, já que, como se sabe, dominando
a causa, pode-se mudar o efeito. Dificilmente, porém, isto se
aplica ao mundo psíquico de maneira linear. O neocórtex coleta e
ordena fatos rapidamente. Já o cérebro límbico não procede
assim. Impressões emocionais negam a importância do insight,
mas são sensíveis a outro tipo de persuasão: à força do atrator
de outra pessoa, que se atinge pela porta da conexão límbica. “A
psicoterapia muda as pessoas porque um mamífero pode reconstruir o
cérebro límbico do outro” (p. 177). Voltando à crítica da
auto-ajuda, os Autores acrescentam que ela é como os manuais para
consertar carros: pode-se ler todo dia, mas seguindo-os não se
arruma nada. A ajuda correta precisa chegar à conexão límbica,
implicando a especificidade evolucionária e social de cada qual,
para além do que todos podem ter em comum. “A transmutação da
terapia não consiste em elevar a razão apropriada sobre a paixão
cega, mas em substituir intuições silenciosas, intratáveis por
funcionais. Os pacientes muitas vezes desejam avidamente explicações,
porque estão acostumados a pensar que artefatos neocorticais como
explicação poderiam ajudar. Mas insight é a pipoca da terapia” (p. 179).
Na
prática, o “paciente” não se torna mais saudável, mas mais
igual ao terapeuta. “A pessoa do terapeuta é o catalista
conversor, não sua ordem ou credo, não sua localização espacial
na sala, não suas palavras caprichadas ou silêncios estratégicos.
Enquanto as regras do sistema terapêutico não atingirem a
transmissão límbica – um caveat
crítico – permanecem distrações inconseqüentes neocorticais.
Os dispensáveis adornos do dogma podem determinar o que o terapeuta
pensa que está fazendo, o que fala quando fala acerca da terapia,
mas o agente de mudança é quem ele é”
(p. 187). A cultura, entretanto, nos tem cegado nos caminhos do
amor, substituindo as relações límbicas por artefatos
racionalistas reducionistas ao extremo, confundindo, desde logo, métodos
de cura com possibilidades de cura. Esta não pode ser vista como
produto, mas principalmente como arte de reconstrução pessoal e
social, cuja politicidade também é inegável: trata-se de forjar
um ser humano com habilidade de reconstruir história própria,
unindo dimensões que nunca vemos por completo. Não damos conta de
nós mesmos, muito menos dos outros. A incompletude nos assola, a
frustração faz parte, a decadência é intrínseca. Mas, se salvação
houver, não provém de fora, de outro que pensa por nós. Este
outro é importante, porque somos seres relacionais, mas a saúde
depende de como equilibramos esta relação: se nos fechamos, já não
amamos; se nos entregamos aos outros, não seremos amados. “A
evolução do cérebro límbico há cem milhões de anos atrás
criou animais com poderes luminosos de emocionalidade e afeição,
cujos sistemas nervosos foram desenhados para interagir e
suportar-se mutuamente, qual malha flexível de trepadeiras. Mas na
vida, como no palco grego, cada atributo confere correspondente
vulnerabilidade; cada força heróica encontra sua imagem de espelho
em falha trágica. As dotações do cérebro límbico experimentam
riquezas negadas às criaturas mais simples, mas também abrem aos
mamíferos tormento e destruição” (p. 191).
Precisamos,
por isso, de ressonância límbica, para podermos aprender a nos
comunicar emocionalmente; precisamos de regulação límbica, para
aprender a nos relacionar como pessoas institucionalmente;
precisamos de revisão límbica para nos reconstruir e aprender de
modo permanente. A evolução construiu este formato para os mamíferos
poderem sobreviver melhor. Infelizmente, “nosso intelecto é
vastamente cego para isso”, não porque devesse ser, mas porque a
civilização preferiu os caminhos ressecados da racionalização.
Os
Autores propõem pelo menos dois passos fundamentais para uma nova
terapia:
a)
um modo diferente de compreender o desafio, que passa pelo
reconhecimento de realidades que não se esgotam em indicadores
mensuráveis; isto poderia eclodir em diagnósticos e procedimentos
muito alternativos, como perscrutar melhor as histórias de vida, as
expectativas de cada qual, sobretudo não restringir a pessoa a
“paciente”; a emoção é pelo menos tão importante quanto a
razão, embora nos seja possivelmente mais penoso dominá-la; o que
espanta no mundo emocional é a possível perda de controle, que
todo racionalista detesta sumamente, porque imagina poder controlar
a vida conscientemente; ignora que somos sobretudo animais
inconscientes e que em nosso relacionamento diário vivemos
sobretudo da credulidade natural com respeito aos outros;
b)
um modo diferente de conceber e praticar a “cura”; de partida,
aparece a relação pedagógica intrínseca no espaço límbico como
sendo mais fundamental que a intervenção química ou
racionalizante; segue que, mais importante que a “cura”, é a
prevenção, no sentido da relevância suprema da capacidade de
reconstruir autonomamente a própria vida de modo permanente; o
psicoterapeuta não “ajuda” o “paciente”, porque tem como
função principal ajudar de tal modo que se possa dispensar a
ajuda; não se trata de dispensar a ajuda, porque todos necessitamos
deste cuidado, mas é preciso andar com pernas próprias, o que
indica uma relação necessariamente igualitária, de estilo dialético.
Podemos
apreciar esta relação através da categoria do “cuidado”, como
imagina, por exemplo, Boff (1999). Não se trata do cuidado que gera
dependência, porque seria, ele também, “efeito de poder”.
Trata-se do cuidado que exige a emancipação do outro, não para se
confrontar apenas, mas para se relacionar como sujeito capaz de
proposta própria. Uma sociedade capaz de cuidado poderia ser mais
humana, porque, se perder de vista a importância do conhecimento
científico, daria igual relevância à relação límbica, através
da qual a trama emocional poderia receber o devido cuidado. Segundo
os Autores em foco, a relação límbica, embora imaterial por
natureza, produz impactos físicos, tornando-se necessidade também
física. O processo educacional, por isso
mesmo, não pode ser apenas à distância. Nenhuma mãe
aceitaria educar seu filho à distância, porque, sendo um mamífero
típico, saber que o filho precisa de contato físico e que este
contato físico também forma a alma, a mente, a personalidade.
Segue
que o médico precisa, além de tratar o doente, cuidar dele
limbicamente, para que, dentro do devido contexto pedagógico, o
“paciente” consiga elaborar seu próprio projeto de cura, e, com
isto, entrar no plano permanentemente preventivo. Não se pode
entender esta perspectiva como relegação dos aspectos técnicos da
profissão. Qualidade formal é absolutamente necessária. Mas
qualidade política é sua razão de ser. Mais que intervir num
corpo físico, o médico mexe com pessoas, expectativas, medos e
ansiedades. Não pode recuar de sua função de educador. O educador
é aquele que cuida da aprendizagem do aluno. Não é quem apenas dá
aula. Mas quem, toda dia, cuida que seu aluno aprenda, tendo em
vista a formação de sua autonomia e capacidade de alternativa histórica.
Por isso, curar-se não é apenas engolir remédios, mas sobretudo
saber o que fazer da vida para não necessitar de remédios,
sobretudo para abandonar a condição de objeto de cura, assumindo a
possibilidade de reconstruir sua proposta própria de qualidade de
vida.
Pessoas,
como todos os mamíferos, precisam de cuidados. Adoram cuidados. Os
animais representam bem esta carência, quando vemos o cachorrinho
se derretendo com as carícias de seu dono. A sociedade, entretanto,
trata as pessoas como consumidores, trabalhadores, entidades estatísticas,
não como pessoas de carne e osso, cujo sentido da vida sempre passa
pelo relacionamento social emocionalmente criativo. No mercado, só
valem relações mercadológicas, uma abstração degradante que
Marx estereotipou com rara acuidade. Na lógica abstrata da
mercadoria, vale a exploração como relação básica.
Infelizmente, o conhecimento científico dominante, de cariz
moderno, contribui enormemente com esta tendência, à medida que
reforça o lado materialista e positivista da intervenção econômica.
As desigualdades passam a ser vistas como componente natural, peripécia
inevitável, sina inescapável. Embora toda sociedade seja desigual,
poderia ser bem mais igualitária, dependendo da capacidade da
cidadania de impor padrões mais equânimes de relação social. Não
cuidamos nem da sociedade, nem do meio ambiente. A tudo simplesmente
exploramos, porque tudo nos parece ser mero objeto de espoliação.
Numa visão mais holista, interdisciplinar
e complexa, a realidade continua mistério indevassável, sobretudo
a humana (Davies, 1999). As táticas de intervenção intempestiva e
aética apontam para um estigma de nossa histórica colonizadora e
prepotente, incapaz de ver aos outros como sujeitos que
merecem, acima de tudo, cuidado.
Como
não aprendemos por bem, teremos de aprender por mal. Não é possível
sobreviver dignamente em sociedades tão mal cuidadas e com uma
natureza tão degradada. Se alguma razão ainda sobra, e sobretudo
com devido envolvimento emocional, será mister recuperar o tempo
perdido e a rota da humanização da história. Não vale apenas
“curar” a humanidade, como se fosse um paciente na UTI,
inconsciente e objeto de toda intervenção externa. Será mister
redefinir o que se aceita como cura, primeiro, para privilegiar a
prevenção, e segundo, para estabelecer relações límbicas de
sujeitos. Porquanto, cura é sobretudo aprender a curar-se.
Sobretudo
quando se trata de “doenças mentais”, a participação do
“paciente” na cura é ainda mais essencial. O médico não
produz a cura, embora possa produzir efeitos físicos através de
remédios. Para reconquistar a alegria de viver, entretanto, outras
referências são fundamentais, como saber lidar com limites,
tornando-os desafios criativos, e, ao mesmo tempo, mantendo tais
desafios como limitados. Trata-se de outra “engenharia”. Não é
aquela que coloca de pé um prédio, mecanicamente. É aquela na
qual o engenheiro colabora na autoformação de uma personalidade
que precisa de autonomia. Precisa saber intervir de tal modo que a
intervenção não degenere em efeito de poder. Precisa exercer um
poder que seja capaz de controlar o poder. Precisa orientar para que
o “paciente” passe a orientar-se por si mesmo. Não deixará de
precisar de ajuda. Mas terá da ajuda a noção emancipatória do
cuidado: não se degrada quando é ajudado, e não degrada quando
ajuda.
Trata-se,
pois, de “auto-ajuda”, em seu melhor sentido: saber ajudar-se,
porque não há propriamente cura que apenas venha de fora. Se vier
apenas de fora, será sobretudo “efeito de poder”. A
“auto-ajuda” transformada hoje, como diria Marx, em
“mercadoria abstrata”, nega exatamente o gesto emancipatório
que a deveria sobretudo caracterizar. Num sentido claro, o
psicoterapeuta ajuda o “paciente” a se auto-ajudar. Todo cuidado
bem feito, no sentido límbico, afina sujeitos, não reduz um lado a
objeto. Saber cuidar, a certa altura, implica, em quem cuida, cuidar
de tal modo que a pessoa cuidada possa dispensar cuidados, e, em
quem é cuidado, a sabedoria emancipatória para entender a ajuda
como complementar, enquanto sua iniciativa deveria se a razão maior
de ser.