Finais
felizes
[Tradução:
Eva Paulino Bueno]
Os
finais felizes não são sempre iguais. Pra falar a verdade, eles
nem sempre são felizes. As pessoas em geral têm muitas idéias
estranhas sobre os filmes de Hollywood, e nem sempre fica muito
claro o que as pessoas querem fizer com o termo. “Hollywood”
freqüentemente parece significar qualquer filme em inglês, e não
o produto de um certo sistema em uma certa cidade que têm uma fábrica
de filmes. Também, “Hollywood” é freqüentemente tomado como
um termo pejorativo, uma maneira de fazer uma crítica sem se
importar em examiná-la detalhadamente.
Mas
um dos clichês mais esquisitos que existem é que os filmes de
Hollywood têm finais felizes. Esta idéia leva ao desprezo,
zombaria, e sátira. Eu me lembro de um artigo muito engraçado que
imaginava como Hollywood filmaria versões de histórias clássicas,
e (no texto) um centurião iria galopando até o calvário para
anunciar que Jesus tinha sido perdoado. Ele e Mary se abraçam.
Provavelmente
hoje em dia há mais finais felizes que no passado, e isto se deve
ao fato de que os executivos dos estúdios vivem sob o peso desta idéia
falsa—de que Hollywood providencia finais felizes. Vamos desmontar
esta idéia de uma vez por todas.
Logicamente,
há uma verdade menor neste assunto—e uma verdade maior, à qual
chegarei mais tarde. Por hora, vamos considerar os filmes da era clássica
dos estúdios, mais ou menos entre 1920, e os anos cinqüenta—aquele
tempo quando, como todos acham que sabem, a Fábrica de Sonhos
fabricava finais felizes.
A
verdade menor é que Hollywood produziu filmes em muitos gêneros e,
sim, alguns gêneros terminam felizes. Comédias, por exemplo,
incluindo os musicais. Muito freqüentemente, estas terminam em
casamento, que, vamos aqui dizer, é um final feliz, pelo menos na
definição clássica. E alguns tipos de aventuras ou filmes de
suspense, tanto os filmes de detetives como os faroestes,
invariavelmente terminam com o herói derrotando o vilão e beijando
a garota.
Mas
os filmes dos quais Hollywood tinha mais orgulho, as chamadas
superproduções com um orçamento grande, e com estrelas, os seus
filmes mais “sérios,” os filmes que ganham prêmios, os filmes
que passam o teste do tempo, são virtualmente todos os que terminam
em morte ou separação.
“Francamente,
minha querida, pra mim tanto faz,” diz Rhett Butler, quando ele
abandona Scarlett O’Hara. [i]
“Os
problemas de duas pequenas pessoas não valem um montinho de feijão
neste mundo louco,” explica Rick a Ilsa sobre porque ela vai se
arrepender se ela não subir naquele avião.[ii]
E ela vai se arrepender, com certeza. Talvez não hoje, talvez não
amanhã, mas logo vai se arrepender, e depois vai ser só
arrependimento pelo resto da sua vida.
“Rosebud!”[iii]
Eu
acabo de me referir a três dos mais famosos filmes de Hollywood, e
eles não são a exceção que prova a regra. Eles são a apoteose.
Para
desbancar “E o vento levou,” a Warner Brothers colocou Bette
Davis em “Jezebel,” outra saga da guerra civil. Este é o filme
que deixa que ela seja má e egoísta o quanto queira, por duas
horas, somente para “puni-la” nos últimos cinco minutos ao mandá-la
a uma colônia de leprosos com o marido doente.
A
maioria dos filmes importantes de Davis, sim, e de Joan Crawford
também, termina em morte ou em resignação. Se Bette não marcha
bravamente e cegamente em direção a sua “Negra Vitória,” ela
se pergunta estoicamente, como em “Now Voyager,” por que as
pessoas pedem pela lua quando têm as estrelas. E não vou nem dizer
nada sobre o filme “Mildred Pierce.”
E
algora talvez você reconheça outro gênero, e um muito importante,
um que literalmente não é feito mais, a não ser em filmes para a
tevê—o filme para mulheres, o chamado melodrama, o que faz
chorar, o que requer três lencinhos—todas as mães solteiras,
todas as esposas de fim de rua, toda imitação da vida naquela
serenata de tostão, naquele desfile interminável de Stanwycks e
Dunnes e Kay Frances (quem se lembra de Kay Francis?), toda aquela
sofrida irmandade de sacrifício.
Mas
o aguaceiro também flui em filmes lacrimosos como “O campeão,”
e “Capitão Coragem.” A diferença é que os melodramas
masculinos se focalizam em ações físicas, enquanto que os filmes
de mulheres se baseiam em escolhas internas relacionadas com
carreiras, casamento e filhos.
Estas
são essencialmente mais realísticas do que, digamos, “Stagecoach,”
ou “Captain Blood,” em termos de como a sua audiência vivia,
mas os filmes de mulheres também tiveram suas extraordinárias
fantasias interpretadas por Garbo e Dietrich, aquelas sereias exóticas
que, abandonadas por seus homens, caminham para o deserto
incandescente ou se jogam embaixo de trens, ou tossem até destruir
seus lindos pulmões. Ah, felicidade!
Os
estúdios entenderam que, assim como o público gosta de rir, ele
também gosta de chorar. Uma “boa chorada” era investigada tão
agressivamente e composta tão
cuidadosamente como se fosse uma canção de amor, e ambas tinha seu
lugar.
Nós
temos uma idéia revisionista que, durante a Depressão, o público
se voltou às frivolidades de Bursby Berkeley para “escapar.”
Bem, o público fez isto, e também se interessou por estes filmes
chorões (dirigidos especialmente às mulheres), e por filmes de
bandidos (dirigido aos homens), e aos filmes de terror (bons para
levar a namorada).
Os
filmes de bandidos e os de terror funcionavam de uma maneira
similar. Eles se focalizam no monstro, um anti-herói que corta uma
trilha de sangue na boa vontade do público até (“Mãe de misericórdia!”)
as suas mortes catárticas, que dão o clímax da história. Esta fórmula
fez estrelas de James Cagney, Edward G. Robinson, Humphrey Bogart,
Bela Lugosi e Boris Karloff, os quais disseram “Nós merecemos
morrer” antes de apertar o fusível no fim do filme “A noiva de
Frankenstein.”
“Foi
a beleza que matou a besta,” alguém diz olhando o cadáver de
King Kong. Não, foi o gênero do filme.
Esta
tradição de filmes de bandidos continuou nos filmes “noir” do
pós-guerra, que terminam geralmente na morte de todos os tolos e
das femmes fatales: “O carteiro sempre toca duas vezes,”
“Indenização dupla,” “Uma voz do passado,” etc.
Até
mesmo os filmes de aventura podiam terminar em morte ou separação
quando Hollywood queria que o filme fosse levado a sério. Entre
estes estão os filmes de faroeste como “O incidente de Ox-Bow”
e “Shane” (“Volte, Shane, Volte!”), ou a busca pelo
“Tesouro de Sierra Madre.”
Depois
veio aquela cavalgada de filmes de propaganda da segunda guerra
mundial, tais como “Casablanca.” Estes são os filmes onde John
Wayne podia morrer, como em “As areias de Iwo Jima.” Eles não
terminam em exaltação, mas em determinação. As mortes dos heróis
assinalam uma renovação, e uma maneira de lembrar-nos da razão da
luta.
E
esta é a verdade maior. Hollywood não se especializou em finais
felizes. Hollywood se especializou em Afirmação. Toda esta tragédia,
este desejo não satisfeito, todas estas lágrimas serviram um propósito—o
status quo era restabelecido, o sofrimento redimido, a tragédia
transcendida.
É
por esta razão que “As vinhas da ira” termina não com a
desilusão e desesperança com a desgraça dos Joads, mas com a
transformação de Henry Fonda em uma figura de Cristo, transformado
em Todos os Okies (pessoas de Oklahoma), trocando assim a sua tragédia
pessoal pela imortalidade de todos os pobres que sempre estarão
entre nós. “Onde quer que haja uma luta para que os famintos
posam comer, eu estarei lá. Onde quer que haja um policial batendo
em um cara qualquer, eu estarei lá.”
Os
finais infelizes são na verdade muito comuns em Hollywood, mas
finais desesperados e desesperançados são raros. Mesmo “Cidadão
Kane” pode ser reduzido a uma fábula de como as coisas simples
trazem mais felicidade que o poder e a ganância, e aí está. Mas
os finais sem esperança podem também ser encontrados, desde “Eu
sou um fugitivo de um grupo de presos acorrentados,” a “Meio
Dia,” que têm um final feliz mas a gente acaba sentindo que não
é nada feliz.
Hoje,
as pessoas têm a ilusão que Hollywood quer dizer “final
feliz,” mas o que as pessoas se lembram não é o arco superficial
de uma história que termina com gente feliz. Na verdade, as pessoas
se lembram como os bons filmes as fazem sentir-se, mesmo quando elas
saíram do cinema enxugando as lágrimas. Elas se lembram da afirmação.
Na
maioria dos casos, a audiência fica com o sentimento de que, de uma
forma ou de outra tudo está certo com o mundo se o delicado monstro
morre, se a justiça e a ordem são restabelecidas, se a Stella
Dallas pode sorrir no casamento da filha pela qual ela se
sacrificou, se a Madame X encontra uma morte em paz nos braços de
seu filho, se Jezebel pode sorrir em triunfo a caminho de um destino
de redenção, se este poderia ser o começo de uma linda
amizade—porque, afinal de contas, amanhã é um novo dia.