por MICHAEL BARRETT

Michael Barrett escreve sobre filmes para o San Antonio Express News

 

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versão em inglês

 

 

Finais felizes

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

Os finais felizes não são sempre iguais. Pra falar a verdade, eles nem sempre são felizes. As pessoas em geral têm muitas idéias estranhas sobre os filmes de Hollywood, e nem sempre fica muito claro o que as pessoas querem fizer com o termo. “Hollywood” freqüentemente parece significar qualquer filme em inglês, e não o produto de um certo sistema em uma certa cidade que têm uma fábrica de filmes. Também, “Hollywood” é freqüentemente tomado como um termo pejorativo, uma maneira de fazer uma crítica sem se importar em examiná-la detalhadamente.

Mas um dos clichês mais esquisitos que existem é que os filmes de Hollywood têm finais felizes. Esta idéia leva ao desprezo, zombaria, e sátira. Eu me lembro de um artigo muito engraçado que imaginava como Hollywood filmaria versões de histórias clássicas, e (no texto) um centurião iria galopando até o calvário para anunciar que Jesus tinha sido perdoado. Ele e Mary se abraçam.

Provavelmente hoje em dia há mais finais felizes que no passado, e isto se deve ao fato de que os executivos dos estúdios vivem sob o peso desta idéia falsa—de que Hollywood providencia finais felizes. Vamos desmontar esta idéia de uma vez por todas.

Logicamente, há uma verdade menor neste assunto—e uma verdade maior, à qual chegarei mais tarde. Por hora, vamos considerar os filmes da era clássica dos estúdios, mais ou menos entre 1920, e os anos cinqüenta—aquele tempo quando, como todos acham que sabem, a Fábrica de Sonhos fabricava finais felizes.

A verdade menor é que Hollywood produziu filmes em muitos gêneros e, sim, alguns gêneros terminam felizes. Comédias, por exemplo, incluindo os musicais. Muito freqüentemente, estas terminam em casamento, que, vamos aqui dizer, é um final feliz, pelo menos na definição clássica. E alguns tipos de aventuras ou filmes de suspense, tanto os filmes de detetives como os faroestes, invariavelmente terminam com o herói derrotando o vilão e beijando a garota.

Mas os filmes dos quais Hollywood tinha mais orgulho, as chamadas superproduções com um orçamento grande, e com estrelas, os seus filmes mais “sérios,” os filmes que ganham prêmios, os filmes que passam o teste do tempo, são virtualmente todos os que terminam em morte ou separação.

“Francamente, minha querida, pra mim tanto faz,” diz Rhett Butler, quando ele abandona Scarlett O’Hara. [i]

“Os problemas de duas pequenas pessoas não valem um montinho de feijão neste mundo louco,” explica Rick a Ilsa sobre porque ela vai se arrepender se ela não subir naquele avião.[ii] E ela vai se arrepender, com certeza. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas logo vai se arrepender, e depois vai ser só arrependimento pelo resto da sua vida.

“Rosebud!”[iii]

Eu acabo de me referir a três dos mais famosos filmes de Hollywood, e eles não são a exceção que prova a regra. Eles são a apoteose.

Para desbancar “E o vento levou,” a Warner Brothers colocou Bette Davis em “Jezebel,” outra saga da guerra civil. Este é o filme que deixa que ela seja má e egoísta o quanto queira, por duas horas, somente para “puni-la” nos últimos cinco minutos ao mandá-la a uma colônia de leprosos com o marido doente.

A maioria dos filmes importantes de Davis, sim, e de Joan Crawford também, termina em morte ou em resignação. Se Bette não marcha bravamente e cegamente em direção a sua “Negra Vitória,” ela se pergunta estoicamente, como em “Now Voyager,” por que as pessoas pedem pela lua quando têm as estrelas. E não vou nem dizer nada sobre o filme “Mildred Pierce.”

E algora talvez você reconheça outro gênero, e um muito importante, um que literalmente não é feito mais, a não ser em filmes para a tevê—o filme para mulheres, o chamado melodrama, o que faz chorar, o que requer três lencinhos—todas as mães solteiras, todas as esposas de fim de rua, toda imitação da vida naquela serenata de tostão, naquele desfile interminável de Stanwycks e Dunnes e Kay Frances (quem se lembra de Kay Francis?), toda aquela sofrida irmandade de sacrifício.

Mas o aguaceiro também flui em filmes lacrimosos como “O campeão,” e “Capitão Coragem.” A diferença é que os melodramas masculinos se focalizam em ações físicas, enquanto que os filmes de mulheres se baseiam em escolhas internas relacionadas com carreiras, casamento e filhos.

Estas são essencialmente mais realísticas do que, digamos, “Stagecoach,” ou “Captain Blood,” em termos de como a sua audiência vivia, mas os filmes de mulheres também tiveram suas extraordinárias fantasias interpretadas por Garbo e Dietrich, aquelas sereias exóticas que, abandonadas por seus homens, caminham para o deserto incandescente ou se jogam embaixo de trens, ou tossem até destruir seus lindos pulmões. Ah, felicidade!

Os estúdios entenderam que, assim como o público gosta de rir, ele também gosta de chorar. Uma “boa chorada” era investigada tão agressivamente e composta  tão cuidadosamente como se fosse uma canção de amor, e ambas tinha seu lugar.

Nós temos uma idéia revisionista que, durante a Depressão, o público se voltou às frivolidades de Bursby Berkeley para “escapar.” Bem, o público fez isto, e também se interessou por estes filmes chorões (dirigidos especialmente às mulheres), e por filmes de bandidos (dirigido aos homens), e aos filmes de terror (bons para levar a namorada).

Os filmes de bandidos e os de terror funcionavam de uma maneira similar. Eles se focalizam no monstro, um anti-herói que corta uma trilha de sangue na boa vontade do público até (“Mãe de misericórdia!”) as suas mortes catárticas, que dão o clímax da história. Esta fórmula fez estrelas de James Cagney, Edward G. Robinson, Humphrey Bogart, Bela Lugosi e Boris Karloff, os quais disseram “Nós merecemos morrer” antes de apertar o fusível no fim do filme “A noiva de Frankenstein.”

“Foi a beleza que matou a besta,” alguém diz olhando o cadáver de King Kong. Não, foi o gênero do filme.

Esta tradição de filmes de bandidos continuou nos filmes “noir” do pós-guerra, que terminam geralmente na morte de todos os tolos e das femmes fatales: “O carteiro sempre toca duas vezes,” “Indenização dupla,” “Uma voz do passado,” etc.

Até mesmo os filmes de aventura podiam terminar em morte ou separação quando Hollywood queria que o filme fosse levado a sério. Entre estes estão os filmes de faroeste como “O incidente de Ox-Bow” e “Shane” (“Volte, Shane, Volte!”), ou a busca pelo “Tesouro de Sierra Madre.”

Depois veio aquela cavalgada de filmes de propaganda da segunda guerra mundial, tais como “Casablanca.” Estes são os filmes onde John Wayne podia morrer, como em “As areias de Iwo Jima.” Eles não terminam em exaltação, mas em determinação. As mortes dos heróis assinalam uma renovação, e uma maneira de lembrar-nos da razão da luta.

E esta é a verdade maior. Hollywood não se especializou em finais felizes. Hollywood se especializou em Afirmação. Toda esta tragédia, este desejo não satisfeito, todas estas lágrimas serviram um propósito—o status quo era restabelecido, o sofrimento redimido, a tragédia transcendida.

É por esta razão que “As vinhas da ira” termina não com a desilusão e desesperança com a desgraça dos Joads, mas com a transformação de Henry Fonda em uma figura de Cristo, transformado em Todos os Okies (pessoas de Oklahoma), trocando assim a sua tragédia pessoal pela imortalidade de todos os pobres que sempre estarão entre nós. “Onde quer que haja uma luta para que os famintos posam comer, eu estarei lá. Onde quer que haja um policial batendo em um cara qualquer, eu estarei lá.”

Os finais infelizes são na verdade muito comuns em Hollywood, mas finais desesperados e desesperançados são raros. Mesmo “Cidadão Kane” pode ser reduzido a uma fábula de como as coisas simples trazem mais felicidade que o poder e a ganância, e aí está. Mas os finais sem esperança podem também ser encontrados, desde “Eu sou um fugitivo de um grupo de presos acorrentados,” a “Meio Dia,” que têm um final feliz mas a gente acaba sentindo que não é nada feliz.

Hoje, as pessoas têm a ilusão que Hollywood quer dizer “final feliz,” mas o que as pessoas se lembram não é o arco superficial de uma história que termina com gente feliz. Na verdade, as pessoas se lembram como os bons filmes as fazem sentir-se, mesmo quando elas saíram do cinema enxugando as lágrimas. Elas se lembram da afirmação.

Na maioria dos casos, a audiência fica com o sentimento de que, de uma forma ou de outra tudo está certo com o mundo se o delicado monstro morre, se a justiça e a ordem são restabelecidas, se a Stella Dallas pode sorrir no casamento da filha pela qual ela se sacrificou, se a Madame X encontra uma morte em paz nos braços de seu filho, se Jezebel pode sorrir em triunfo a caminho de um destino de redenção, se este poderia ser o começo de uma linda amizade—porque, afinal de contas, amanhã é um novo dia.

 

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[1] E o vento levou .(1939)

[2] Casablanca. (1942)

[3] Cidadão Kane. (1941) “Rosebud” é a útima palavra pronunciada pelo milionário Kane que é o protagonista da história. Um jornalista então começa sua investigação para saber o significado da palavra.

Há excelentes comentários sobre este filme em português, na internet.  

 

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