por FRITZ DESHOMMES

Fritz Deshommes é vice reitor da Université d’État d’Haïti, membro fundador da Associação Haitiana dos Economistas e considerado um dos pioneiros do jornalismo econômico contemporâneo no Haiti. Possui vários publicações: Via Cara e Política Econômica no Haiti (1992), Neoliberalismo, Crise Econômica e Alternativa de Desenvolvimento (1993),Universidade e Lutas Democráticas no Haiti (202) e Política Econômica no Haiti (2005.)

 

 

O Primeiro Congresso Nacional dos Movimentos Democráticos

Por um Outro País, na Medida de sua História 

[Tradução: Lúcia Skromov]

 

O presente artigo, de autoria de Fritz Deshommes, vice reitor da Universidade do Estado do Haiti, foi publicado pela primeira vez em 7 de fevereiro de 1987 – por ocasião do primeiro aniversário da queda formal da ditadura Duvalier - pelo jornal «Le Nouvelliste». Expressava, naquele momento, os sentimentos haitianos na direção de um novo Haiti, celebrando a iniciativa de un congresso nacional, com alta representatividade, para discutir os rumos do país.

Quase vinte anos depois, em 7 de fevereiro de 2006, este artigo volta a ser publicado pelo mesmo jornal. Exatamente no momento em que, depois do recente processo eleitoral, o Haiti tem a oportunidade de refazer-se e há propostas de vários setores e camadas da sociedade para que seja reeditada a iniciativa de 1987. Trata-se de um pacto social que sob várias denominações - contrato social ou consenso nacional ou ainda diálogo nacional – pretende buscar e apontar saídas para um desenvolvimento sustentável.  O texto, pois, é bastante atual.

 

Eram mais de 800. Eles vêm de todos os cantos geográficos do país. Eles representam todas as organizações, a maior parte recentemente nascida. Todos eles sonham com a mudança. Mudança para eles. Mudanças para os outros. Mudança para todos.

Porque eles todos sabem que este país é primeiramente deles.

Eles todos sabem que este país não pode mais continuar funcionando desta maneira.

Que a fome, o analfabetismo, os dormitórios à luz das estrelas são inadmissíveis.

Que os emigrantes boat-people[1], os emigrantes que viram trabalhadores braçais da cana de açúcar também são haitianos como qualquer outro de nós que demonstramos o nosso orgulho (ou a nossa vergonha) da cidadania haitiana.

Que não há nenhuma nobreza em se encontrar dependente da assistência internacional. Eles também sabem que este país pode funcionar de outro modo. Por seus próprios meios.

Porque eles não acreditam na fatalidade.

Porque também eles se recordam.

Eles se recordam que seus pais haviam mudado a face do mundo. Ah! Isto já faz tempo, foi em 1791, foi em 1804. O mundo inteiro gritou que foi um milagre. Mas outros, outras gentes, outros povos se aproveitaram disto para experimentar o gosto do sal[2] da liberdade.

Este povo que tinha inventado a luta contra a escravatura, contra o colonialismo, contra a exploração, contra o racismo e cujo nome era sinônimo de todos os tipos de liberdades e de todos os tipos de humanismos.[3] De todas as liberdades e de todos os humanismos de que outros se apropriaram, celebraram, proclamaram.[4] Este povo que deveria ser hoje a liderança do Terceiro Mundo.

Entretanto, é este povo que hoje é enviado como escravo à República Dominicana, em nome do qual foi vendido petróleo à África do Sul do apartheid[5], a quem se estende mil pratos multiformes para como mendigos receber o trigo, o pão e a esmola.de algum dinheiro.

Entretanto, é este povo que se encontra novamente acorrentado.

E é ainda a este povo eminentemente criativo que querem fazer engolir que não há salvação fora das maquiladoras, da assistência estrangeira e das boas notas do FMI.

Então, firmes na convicção que este país pode funcionar de outra maneira, todos nós estamos interessados no que se passa, e mesmo essas supostas “elites” não estão isentas disto, sabemos que cabe a nós, Haitianos, fazer as mudanças necessárias – ninguém poderá fazê-las em nosso lugar -, é eles estão reunidos no «Congresso dos Movimentos Democráticos»..

Forças Democráticas do meu país, Saudações!

Haitianos vindos de toda parte. São de Fort-Liberté, de Jérèmie, de Savanette, de Bahon, de Moron, de Liancourt, de Thomassique, de Maugé etc. Mas também de Montréal. Diga, pode você situar todos esses lugares colocados no mapa geográfico?

Camponeses, operários, intelectuais, comerciantes, industriais, artesãos, padres católicos, protestantes, pais de santo do vodu. Eram mais de 800.

Mais de 800 delegados pertencentes a 284 diferentes organizações distribuídas em todo o país.Todos portadores de inquietações, de preocupações, de questionamentos. Mas também de visões de futuro, de sonhos, de projetos de sociedade. Eles jamais (ou quase) haviam se encontrado antes. Alguém dizia: «Coloque dois haitianos juntos e eles fundarão três partidos políticos.»

Então, eles discutiram durante 4 dias e chegaram a um acordo. Sobre um novo projeto de sociedade.

Na abertura, foram vistos padres católicos se sentando e celebrando ao lado de pastores protestantes. Com o mesmo fervor. E um respeito recíproco de um para com o outro. Invocando o mesmo Deus, cada um segundo seus ritos. Pela mesma causa: aquela da mudança na terra do Haiti. Você se recorda do tempo em que uma inocente visita a um templo protestante podia valer a excomunhão ao fiel católico?

Mas se eu lhe digo que, nesse mesmo tempo, no mesmo momento e no mesmo lugar, tinha acontecido a atuação de um ougan (pai de santo) do vodu? Celebrando sem complexo e com toda a dignidade que lhe é inerente. Chamando para nós toda as bençãos de todos os espíritos da Mãe África[6], com o mesmo ardor tal como o fizeram seus predecessores cristãos.

Manno[7] Ambroise, comovido até às lágrimas, não pôde se impedir de recordar daquele tempo em que Jean Brierre, inspetor de escolas em Jacmel, atraiu a animosidade da boa Sociedade Jacmelense por ter, num discurso pronunciado num 18 de maio, reclamado da entrada do cômico atabaque nas escolas.

Na verdade eu lhes digo, qualquer coisa sendo mudada sobre na terra do Haiti-Thomas[8]. Entusiasmo excessivo ou prematuro? No Ayiti![9] (nada é garantido, dirá cético. É verdade e se sabe disto.

Mas, para mim, um convicto haitiano de 30 anos, vivendo no Haiti durante estes trinta últimos anos, é muito importante o fato único de poder reunir Haitianos provenientes de horizontes tão diversos, haitianos que aceitaram se sentar juntos durante 4 dias, para falar do país, para discutir projetos de sociedade, da organização da produção, da Independência Nacional, de uma nação a ser consolidada e de todo um país a ser refeito..

E se sabe, pois, que saiu disto uma resolução. Trata- se de uma sociedade onde todo mundo tem que comer de acordo com sua fome, onde todas as crianças têm que ir à escola, onde a terra deve pertencer àquele que nela trabalha, onde o operário tem que ter seus direitos, onde nós poderemos valorizar em nosso próprio benefício nossos recursos humanos e materiais, onde não mais seremos um celeiro de emigrantes que se evadem de barco ou trabalham em canaviais.

Mas uma sociedade de homens, livres da intolerância, da injustiça, da dependência.

Sonhador! você me dirá?

Mas você, também não sonha você com isto?

Fritz Deshommes, 4 de fevereiro de 1987

 

[1] Referência aos haitianos que emigram para los EUA em barcos e aos que emigram para trabalhar os canaviais na República Dominicana.

[2] A referência ao sal tem que ver com os costumes do vodu. Quando alguém se transforma em zumbi, passa a ser escravo de outro ou de outros, não necessariamente do ougan (pai de santo) y não pode comer sal, porque este funciona como antídoto e estimulante. O sal permite a pessoa, mesmo com traumas, volte a ser humano. O sal reabilita as funções do corpo da pessoa, tal como o sistema nervoso que se encontra paralisado no  estado de zumbi. .O zumbi sai do estado de letargia que o mantém escravo de alguém e não mais vai querer sê-lo outra vez.  Daí, a expressão «sal da liberdade» e toda a simbologia que dela vem e é usada neste texto.

[3] Em referência à gesta épica dos escravos de Saint-Domingue (hoje Haiti), ao romper suas correntes através de luta sangrentas contra o colonialismo francês, para construir sua sociedade de homens livres. Epopéia, cuja dimensão histórica, restabeleceu ante os povos da terra, a humanidade dos negros escravizados e a de todos os escravos de todas as raças.  Desafiando com esta contribuição transcendental o mesmo horizonte dos filósofos franceses do século das luzes, aqueles que nunca colocaram em suas considerações, os escravos negros. Além disto, uma vez independente, o jovem estado haitiano (suas chagas estão ainda abertas) deu um apoio substancial e generoso aos povos da América Latina e do Caribe em suas lutas de libertação contra ol colonialismo e a escravidão.

[4] Apesar de haver conseguido à ponta de fusil e de sacrifícios a abolição da esclavidão desde 1793 e obtido sua independência em 1804, ol mundo ocidental negou à nação haitiana sua condição de pioneira na luta antiescravagista.   Assim, a historiograiía mundial concedeu à França  (potência escravagista e colonial) a paternidade da proclamação da abolção da escravatura em 1848, 44 anos depois da celebraçao da independência do Haiií, 55 anos depois da abolição da escravidão na terra haitiana.

[5] Trata-se do acordo de Sâo José, em cujo marco a Venezuela e o México vendíam petróleo a preços módicos a certos países da América Latina e dol Caribe, incluindo o Haiti. Conta –se uma pequena historia que o petróleo concedido aoHaiti foie desviado directamente para a África dol Sul, naquele moemnto punidapelas Nações Unidas por conta de sua política de apartheid., por Jean-Claude Duvalier, ol Baby Doc. Estamos falando dos princípios dos anos 80. Cabe destacar que o governo de então cometeu duas faltas imperdoáveis.:

a)por haver roubado deste povo pobre tão importante ajuda; b)por haver pisoteado, a luta heróica de nossos antepassados e de todo o povo haitiano.  É preciso recordar que sempre o Haiti manteve uma posição líder em todas as lutas em todas  as comissões, formadas nas Nações Unidas ou em outros fóruns contra o racismo e o apartheid.

[6] 7Lafrik Guinen" expressão usada para que se recorde a região de origem da maioria da população.

[7] Manno – apelido de Emannuel.

[8] Referência ao apóstolo  São Tomás: «ver para crer», o mesmo que dizer que no Haiti, as pessoas não acreditam em palavras, mas, sim, em provas.

[9] Ayiti é o nome do país em  crioulo, a língua da identidade nacional.

 

Versão em espanhol 

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