Eram
mais de 800. Eles vêm de todos os cantos geográficos do país.
Eles representam todas as organizações, a maior parte
recentemente nascida. Todos eles sonham com a mudança. Mudança
para eles. Mudanças para os outros. Mudança para todos.
Porque
eles todos sabem que este país é primeiramente deles.
Eles
todos sabem que este país não pode mais continuar funcionando
desta maneira.
Que
a fome, o analfabetismo, os dormitórios à luz das estrelas são
inadmissíveis.
Que
os emigrantes boat-people[1],
os emigrantes que viram trabalhadores braçais da cana de açúcar
também são haitianos como qualquer outro de nós que
demonstramos o nosso orgulho (ou a nossa vergonha) da cidadania
haitiana.
Que
não há nenhuma nobreza em se encontrar dependente da assistência
internacional. Eles também sabem que este país pode funcionar
de outro modo. Por seus próprios meios.
Porque
eles não
acreditam na fatalidade.
Porque
também eles se recordam.
Eles
se recordam que seus pais haviam mudado a face do mundo. Ah!
Isto já faz tempo, foi em 1791, foi em 1804. O mundo inteiro
gritou que foi um milagre. Mas outros, outras gentes, outros
povos se aproveitaram disto para experimentar o gosto do sal da liberdade.
Este
povo que tinha inventado a luta contra a escravatura, contra o
colonialismo, contra a exploração, contra o racismo e cujo
nome era sinônimo de todos os tipos de liberdades e de todos os
tipos de humanismos.
De todas as liberdades e de todos os humanismos de que outros se
apropriaram, celebraram, proclamaram.
Este povo que deveria ser hoje a liderança do Terceiro Mundo.
Entretanto,
é este povo que hoje é enviado como escravo à República
Dominicana, em nome do qual foi vendido petróleo à África do
Sul do apartheid[5],
a quem se estende mil pratos multiformes para como mendigos
receber o trigo, o pão e a esmola.de algum dinheiro.
Entretanto,
é este povo que se encontra novamente acorrentado.
E
é ainda a este povo eminentemente criativo que querem fazer
engolir que não há salvação fora das maquiladoras, da assistência
estrangeira e das boas notas do FMI.
Então,
firmes na convicção que este país pode funcionar de outra
maneira, todos nós estamos interessados no que se passa, e
mesmo essas supostas “elites” não estão isentas disto,
sabemos que cabe a nós, Haitianos, fazer as mudanças necessárias
– ninguém poderá fazê-las em nosso lugar -, é eles estão
reunidos no «Congresso dos Movimentos Democráticos»..
Forças
Democráticas do meu país, Saudações!
Haitianos
vindos de toda parte. São de Fort-Liberté, de Jérèmie, de
Savanette, de Bahon, de Moron, de Liancourt, de Thomassique, de
Maugé etc. Mas também de Montréal. Diga, pode você situar
todos esses lugares colocados no mapa geográfico?
Camponeses,
operários, intelectuais, comerciantes, industriais, artesãos,
padres católicos, protestantes, pais de santo do vodu. Eram
mais de 800.
Mais
de 800 delegados pertencentes a 284 diferentes organizações
distribuídas em todo o país.Todos portadores de inquietações,
de preocupações, de questionamentos. Mas também de visões de
futuro, de sonhos, de projetos de sociedade. Eles jamais (ou
quase) haviam se encontrado antes. Alguém dizia: «Coloque dois
haitianos juntos e eles fundarão três partidos políticos.»
Então,
eles discutiram durante 4 dias e chegaram a um acordo. Sobre um
novo projeto de sociedade.
Na
abertura, foram vistos padres católicos se sentando e
celebrando ao lado de pastores protestantes. Com o mesmo fervor.
E um respeito recíproco de um para com o outro. Invocando o
mesmo Deus, cada um segundo seus ritos. Pela mesma causa: aquela
da mudança na terra do Haiti. Você se recorda do tempo em que
uma inocente visita a um templo protestante podia valer a
excomunhão ao fiel católico?
Mas
se eu lhe digo que, nesse mesmo tempo, no mesmo momento e no
mesmo lugar, tinha acontecido a atuação de um ougan (pai de
santo) do vodu? Celebrando sem complexo e com toda a dignidade
que lhe é inerente. Chamando para nós toda as bençãos de
todos os espíritos da Mãe África,
com o mesmo ardor tal como o fizeram seus predecessores cristãos.
Manno
Ambroise, comovido até às lágrimas, não pôde se impedir de
recordar daquele tempo em que Jean Brierre, inspetor de escolas
em Jacmel, atraiu a animosidade da boa Sociedade Jacmelense por
ter, num discurso pronunciado num 18 de maio, reclamado da
entrada do cômico atabaque nas escolas.
Na
verdade eu lhes digo, qualquer coisa sendo mudada sobre na terra
do Haiti-Thomas.
Entusiasmo excessivo ou prematuro? No Ayiti!
(nada é garantido, dirá cético. É verdade e se sabe disto.
Mas,
para mim, um convicto haitiano de 30 anos, vivendo no Haiti
durante estes trinta últimos anos, é muito importante o fato
único de poder reunir Haitianos provenientes de horizontes tão
diversos, haitianos que aceitaram se sentar juntos durante 4
dias, para falar do país, para discutir projetos de sociedade,
da organização da produção, da Independência Nacional, de
uma nação a ser consolidada e de todo um país a ser refeito..
E se
sabe, pois, que saiu disto uma resolução. Trata- se de uma
sociedade onde todo mundo tem que comer de acordo com sua fome,
onde todas as crianças têm que ir à escola, onde a terra deve
pertencer àquele que nela trabalha, onde o operário tem que
ter seus direitos, onde nós poderemos valorizar em nosso próprio
benefício nossos recursos humanos e materiais, onde não mais
seremos um celeiro de emigrantes que se evadem de barco ou
trabalham em canaviais.
Mas
uma sociedade de homens, livres da intolerância, da injustiça,
da dependência.
Sonhador!
você me dirá?
Mas
você, também não sonha você com isto?
Fritz
Deshommes, 4 de fevereiro de 1987
Trata-se do
acordo de Sâo José, em cujo marco a Venezuela e o México
vendíam petróleo a preços módicos a certos países da América
Latina e dol Caribe, incluindo o Haiti. Conta –se uma
pequena historia que o petróleo concedido aoHaiti foie
desviado directamente para a África dol Sul, naquele
moemnto punidapelas Nações Unidas por conta de sua política
de apartheid., por Jean-Claude Duvalier, ol Baby Doc. Estamos
falando dos princípios dos anos 80. Cabe destacar que o
governo de então cometeu duas faltas imperdoáveis.: