Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

 

 

Primeiro de Abril, Páscoa e Primavera

 

No dia 1° de abril, comemora-se, na França, o “Peixe de Abril”, um dia semelhante ao que, no Brasil, chamamos de “Dia da Mentira”. Essa tradição remonta ao ano de 1564, quando Carlos IX, rei Francês, resolveu mudar o primeiro dia do ano, que até então era o 1° de abril (há quem diga que era dia 25 de março), para o dia 1° de janeiro. Evidentemente, o povo estranhou e os mais idosos que eram, geralmente, os mais conservadores, resolveram protestar, continuando a comemorar o dia 1° de abril. Entretanto, como esse não era mais o primeiro dia oficial do ano, passou a ser uma farsa. Desta maneira, ficou conhecido o dia da farsa, ou da mentira, por quase todo o mundo.

Existem várias teorias para a existência do nome “Peixe de Abril”. Uns dizem que é devido aos tais tradicionalistas que queriam continuar a começar o ano com a primavera e, ao saírem em protesto festejando o tal dia, acabaram ganhando uma chuva de peixes pelas costas. Outros afirmam que deve-se à proibição da pesca durante esse mês, no século XVI, por causa do período de reprodução, fazendo com que algumas pessoas, para zombarem dos pescadores, jogassem harengues - peixe de água salgada, nos rios gritando fortemente : “- Peixe de abril!”. Existem os que crêem que seja por causa do mês coincidir com o final da quaresma, período de abstinência para os cristãos que substituem a carne pelo peixe. Há, ainda, quem diga que o nome esta ligado ao zodíaco, porque a lua sai do signo zodiacal de peixes no inicio de abril.

O que sabemos é que o tal Peixe de Abril (Piscavrilii zygotus) existe de verdade e é uma espécie em extinção, foi descoberto recentemente nos Estados Unidos. Segundo o Centre de Documentation sur l’Origine du Poisson d’Avril – CEDOPA (Centro de Documentação sobre a Origem do Peixe de Abril), o primeiro da espécie teria aparecido no dia 07 de novembro de 2000 (Seria esta informação uma mentira? Um verdadeiro Peixe de Abril, peixe de mentira?).

Por toda a França, inclusive nas escolas, a tradição é mantida. O dia é de colar peixes recortados em papéis nas costas dos companheiros, alguns podem conter inscrições como “chute-me”, “beije-me”, etc. Mesmo os professores entram no espírito animado da data, apesar da rigorosidade das escolas francesas. Não são mentiras, como no Brasil, mas brincadeiras, na maior parte das vezes, sadias. Tradições devem ser mantidas, eis a palavra de ordem!

A Páscoa, que é a Festa após a quaresma, também esta ligada à primavera, símbolo de vida e de ressurreição. A tradição cristã é mantida, não com tanta ênfase como na América do Sul. Há muitos que não crêem e que limitam-se a oferecer alguns ovos de chocolates às crianças. Contudo, elas, as crianças em geral, são parte integrante do tradicionalismo. São elas que acreditam que os sinos partem a Roma durante a quaresma e por isso não tocam, vão recolher-se com o Santo Papa, retornando no domingo de Páscoa. Mas o que elas mais gostam nesta história é que, durante a viagem de volta, os sinos vão jogando chocolates que caem por toda parte. E divertido vê-los procurar, nos jardins, os ovos escondidos pelos adultos.

Como o clima, normalmente, ajuda, os aperitivos do almoço de Páscoa são feitos, em sua maioria, nos jardins ou nas sacadas. As famílias se reúnem, na medida do possível e, de maneira geral, o almoço é regado de bons pratos, onde o patê de fígado de ganso é, comumente, servido como entrada.

Além disso, na segunda-feira é feriado, e não se diz “Domingo de Páscoa”, mas “Segunda de Páscoa”, apesar de não haver uma comemoração especial nesse dia. Missas são celebradas somente no domingo, relembrando a Ressurreição de Jesus.

Os símbolos pascais estão ligados à fertilidade, à vida, ao feminino. Oferecer ovos é uma tradição bem anterior ao cristianismo. O ovo é, sem dúvida, o mais velho e universal símbolo de vida e renascimento. Oferecê-los, na Páscoa, é um costume ligado à quaresma : no século IV, a igreja proibiu o consumo de ovos durante o período penitencial de quarenta dias fazendo com que uma grande quantidade deles fosse obtida durante esse época. Para que os aproveitassem, as crianças saiam distribuindo-os durante os últimos dias da quaresma e, sobretudo, na véspera pascal que ficou conhecida como “sábado dos ovos”. No domingo, o almoço era à base de omeletes.

Desde o século XII, em diversos países europeus, o povo costumava trocar simples ovos bentos. Os nobres logo aderiram ao hábito, mas encomendavam-nos aos artistas para que os decorassem com pinturas delicadas, esmaltes ou pedras preciosas. Colocar uma surpresa dentro deles foi uma criação do século XVI. Luis XIV fazia benzer solenemente inúmeras cestas de ovos dourados, no dia de Páscoa, e os oferecia em seguida. Foi, somente, no século XVII, na França, que se decidiu esvaziar seu conteúdo para recheá-lo com chocolate, surgindo, por conseqüência, os nossos conhecidos ovos de chocolates.

Outro símbolo importante é o coelho, também ligado à fertilidade, pois, na primavera, eles estão em plena forma para reprodução. Existem inúmeras interpretações, todas associadas à essa estação do ano, pois é a estação da época no norte. Estão sempre ligadas à fertilidade, reprodução, vida nova, início e promessa de renascimento após a morte (morte, inclusive, da natureza durante o longo inverno). Até mesmo, alguns caixões e túmulos portam a forma oval lembrando, além do ovo, os casulos, tendo as borboleta como símbolo da alma que voa, mas, por outro lado, símbolo primaveril.

A água e a terra também estão inclusas nesta simbologia. Dois elementos femininos e origem de todas as coisas. A água não é somente associada ao cristianismo (água da páscoa), mas antes disso, já era um símbolo ligado à água da primavera, do mês de abril, e numa aproximação mais pertinente à nossa cultura: o símbolo da água do nascimento, o líquido amniótico e, na visão cristã, a água do batismo. Além disso, a água é tida como agente de conhecimento ou de ressurreição. A terra, por sua vez, será sempre a mãe, o feminino que produz e acolhe.

Símbolos, tradições, culturas, essências, tudo isso se mistura nessas comemorações que são freqüentes em quase todo o mundo. Dados que nos fazem entender os grandes mitos do presente associados ao primeiro de abril e à Páscoa, vividos de uma forma ou de outra, por toda a cultura ocidental. Não devemos, portanto, esquecer que após meses de frio, inverno, ausência de vida na natureza, a primavera vem dar um colorido especial aos moradores de países onde pouco se vê o sol e, essas festas são comemoradas num espírito alegre e esperança de renovação.

 

Fonte : www.marseamer.fr

www.lescale.net

www.joyeuse-fete.com

http://radio-canada.ca

http://ango.chez-alice.fr

 

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