Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

 

Os bárbaros nos portões da cidade

 

Nestes últimos dias, a televisão americana está cheia de referências, conversas, discussões, sobre a questão da imigração ilegal. Muitos jovens das escolas secundárias na Califórnia, Arizona e Texas estão saindo da aula e promovendo protestos e passeatas. Muitos levam consigo a bandeira do México. O país, já sobrecarregado com as imagens da morte no Iraque, vê estas novas imagens de tumultos dentro do próprio território. Na TV, muitos comentários. No rádio, outros tantos, e nos jornais, da mesma maneira. É realmente um tempo em que as cabeças estão quentes, e muita gente fazendo declarações a torto e a direito, dizendo ou que o país está contra os imigrantes, ou que o país precisa se assegurar que suas fronteiras vão impedir a entrada de mais imigrantes.

Mas algumas coisas têm que ser esclarecidas. A primeira dela, é que todo país tem direito a proteger suas fronteiras, e a estabelecer leis regulando a entrada de imigrantes. Estes dois pontos básicos são algo que alguns dos manifestantes dos últimos dias – a maioria estudantes da escola secundária – parecem nem sequer entender.

Os Estados Unidos, como todos os países, têm as leis que dizem que tipo de imigrante deseja. Aqui, o país quer admitir imigrantes com habilidades e profissões que requerem um alto nível de educação. Existem quotas de quantos podem vir e para que áreas. Há uma grande porcentagem de médicos, cientistas, professores, engenheiros que vieram de outros países, especialmente dos chamados países em desenvolvimento. O que, para os países pobres pode ser considerado uma hemorragia de cérebros, para os Estados Unidos – ou qualquer país que receba a estes imigrantes – é uma grande vantagem, porque estes indivíduos não utilizaram o sistema de educação do país, e vêm contribuir para o enriquecimento de uma mão-de-obra altamente sofisticada e especializada.

O problema com os imigrantes começa quando tratamos dos que chegam, primeiro, sem ter nenhuma profissão altamente técnica, e sem ter passado pelas redes do INS – Serviço de Imigração e Naturalização. A chegada destes imigrantes é desorganizada, no sentido de que o governo não tem como manter os olhos no deslocamento destas pessoas, e, em muitos casos, de não poder recolher impostos delas uma vez que elas se estabeleçam no país.

Mas seria um erro dizer que estes trabalhadores são menos necessários do que os que chegam com sua documentação legalizada, para trabalhar em posições que requerem educação formal. O fato de que estes trabalhadores chegam ilegalmente não diminui a verdade de que são imprescindíveis para a continuação de muitas indústrias do país. Um estudo recente do New York Times indica que os imigrantes ilegais estão mais concentrados na agricultura, na pesca e no cuidado do campo, onde constituem 24% dos trabalhadores. Na limpeza, são 17%; na construção são 14%, na preparação de alimentos são 12%, na indústria são 9%, e no transporte são 7% (NYT, 2 de abril, 2006, WK3)

O que parece preocupar uma parcela da população americana é o fato que a taxa de imigrantes ilegais entrando nos Estados Unidos cresceu 185% desde 1992, e agora se calcula que há 7,2 milhões de trabalhadores ilegais no país, e mais 3,9 milhões de imigrantes ilegais que não estão trabalhando. Embora, como vimos acima, a maior concentração de imigrantes ilegais esteja no campo, 2% deles ocupa outras posições, que o New York Times não esclarece quais sejam. O país é grande e complexo, e até bem recentemente era muito frouxo com relação a documentos, assim, é possível que alguns profissionais liberais e até da área médica estejam nestes 2%.

Há alguns fatores importantes a considerar quando falamos desta controvérsia sobre a imigração. Uma delas seria, por que este assunto está sendo levantado neste momento? A cada vinte anos, mais ou menos, o mesmo assunto vem à tona, mas por que agora? Não podemos esquecer que o presidente Goerge W. Bush começou a falar no seu “guest worker program” (“programa do trabalhador convidado”) há algum tempo. De repente, o assunto “ferve,” e, repito, vem à tona.

Os mais cínicos podem achar que este assunto, neste momento, serve como uma distração aos outros problemas que a nação defronta na atualidade. Os erros e as perdas com a guerra no Iraque, o desastre causado pela falta de liderança quando houve os furacões do ano passado, o problema da corrupção, do preço altíssimo da gasolina, e do sentimento generalizado de insegurança no país, e o medo de terroristas: todos estes assuntos são extremamente desagradáveis para a presente administração, e a questão dos ilegais é uma conveniente mudança de assunto, pelo menos temporária.

E este assunto também traz um benefício extra: a possibilidade de dar o que fazer às pessoas que querem, mas não podem, estar na guerra ajudando “a espalhar a liberdade pelo mundo” (uma das frases favoritas do presidente). Grupos como o “Minute Man” assim têm uma oportunidade de reafirmar sua utilidade política.[1] Muitos cidadãos, envolvidos na “Minute Man” ou não, estão praticamente dizendo que os trabalhadores ilegais são terroristas no nosso meio, e devem ser impedidos de entrar, ou, se já estão dentro, que sejam deportados sumariamente. Entre os entrevistados pelo New York Times, 9% dizem que a maneira de parar com a sua entrada será a construção de um muro de cem pés de altura ao longo de toda a fronteira com o México, quase mil milhas; 33% dizem que necessitamos mais polícia na fronteira, e 49% dizem que a multa e prisão dos empregadores que dão trabalho aos ilegais resolveria o problema.

Mas por que os empregadores empregam os ilegais, sabendo que isto é contra a lei? Dia 3 de abril, durante um programa na estação de rádio NPR – National Public Radio – (Rádio Público Nacional) um dono de empresa da Pennsylvania telefonou ao programa e disse que ele agora só emprega ilegais, por várias razões: eles trabalham sério, com uma ética profissional que está faltando aos trabalhadores americanos, e estão agradecidos pela oportunidade. Um dos especialistas que estava participando no programa, comentando o telefonema deste empregador, disse que os ilegais, por não poderem ter nenhum recurso legal no caso de serem maltratados no emprego, inevitavelmente aceitam mais as ordens dos patrões, e se apegam ao trabalho por medo de não conseguir repô-lo.[2] Tal atitude cria uma atmosfera negativa para os trabalhadores legais, e para os cidadãos americanos, que são nivelados “por baixo” dentro do sistema empregatício, em termos de seus direitos e salários. Isto é: se uma pessoa não quer um trabalho, sempre haverá outra que o fará por um pagamento menor, e sem exigências. Isto ocasiona uma redução no salário de todos os trabalhadores, de acordo com o professor George J. Borjas, da universidade de Harvard (citado no New York Times)

A coisa que mais esquenta os ânimos é o chamado “muro” que alguns sugerem que seja construído na fronteira separando o México dos Estados Unidos. Esta questão é não só política, como também racista, por várias razões.

Logicamente, os mexicanos constituem a maioria dos imigrantes sem documentos nos Estados Unidos, sendo 56% dos imigrantes ilegais que chegam ao país. Muitos deles têm família deste lado da fronteira. Muitos deles dizem que, na verdade, já que os estados do sudoeste dos Estados Unidos uma vez pertenceram ao México, eles estão simplesmente fazendo uma retomada do território. Mas são poucos os que têm tempo para tal perspectiva histórica. A maioria vem mesmo em busca de trabalho, atraídos em parte pelo valor imediato do dólar, e em parte pela ilusão do sonho americano.

O que os defensores do muro dizem é que pelo menos estes ilegais latino americanos seriam impedidos de entrar. O muro teria uma profundidade suficiente também para impedir que túneis – como os muitos já encontrados especialmente na Califórnia – continuassem a ser construídos. Mas o muro não impediria a chegada dos outros ilegais, 13% da Ásia, 6% do Canadá e Europa, 3% da África, e 22% de outros lugares. Estes chegam em outras condições, a maioria deles por avião. O que impediria a chegada destes, que vêm bem vestidos, e rapidamente se mesclam com o restante da população?

E, como os mexicanos ilegais nos Estados Unidos sempre dizem, os terroristas que pilotaram os aviões de 11 de setembro de 2001 não eram do México, e todos tinham entrado no país legalmente. Além do mais, insistem, os que entram no país vindo do México vêm para trabalhar, para contribuir com o país. Se existe uma demanda de trabalhadores, eles continuarão vindo, de alguma forma, através da porosa fronteira. E este não é um problema americano somente. Atualmente, mais de cem milhões de pessoas emigraram de seus países e foram a outros.

Em outras palavras, as levas migratórias são inevitáveis, especialmente para os países ricos, que têm um território grande e suficiente mescla étnica para absorver os recém chegados. Impedir a entrada de imigrantes a todo custo, e criminalizar os que montam uma rede de apoio e proteção aos que advogam pelo bem estar dos imigrantes – legais e ilegais – seria imitar o exemplo de Singapura, que mantém o seu corpo de trabalhadores estrangeiros dentro de parâmetros estritos: eles são vigiados, controlados e punidos imediatamente quando cometem qualquer infração.[3] Singapura jamais terá problemas de imigração semelhantes aos que os Estados Unidos têm. Mas – é importante frisar – Singapura é um país de três milhões de habitantes que vivem sob um governo totalitário: cada pessoa é um informante em potencial.

Entre alguns intelectuais americanos, se fala muito que a chegada em hordas destes imigrantes ilegais nestes últimos vinte anos é uma reprise, nos séculos XX e XXI, do que aconteceu com o império romano perto do seu fim: os bárbaros, cansados de serem invadidos por Roma, e mesmo atraídos pelo fulgor de Roma, começaram a invadir a capital do império. Mas, e se não existissem mais imigrantes aos Estados Unidos, ou a nenhum outro país do mundo? Nada melhor que arrematar este assunto com o poema de um egípcio que trata exatamente disto, da relação entre a cidade e os bárbaros, que agora seriam nossos imigrantes e estrangeiros indocumentados.

 

 Waiting for the barbarians

Constantine Cavafi[4]

What are we waiting for, assembled in the forum?

The barbarians are due here today.

 

Why isn’t anything going on in the senate,

Why the senators sitting there without legislating?

 

Because the barbarians are coming today.

What’s the point of senators making laws now?

Once the barbarians are here, they’ll do the legislating.

 

Why did our emperor get up so early,

and why is he sitting enthroned at the city’s main gate,

in state, wearing the crown?

 

Because the barbarians are coming today

and the emperor’s waiting to receive their leader.

He’s even got a scroll to give him,

loaded with titles, with imposing names.

 

Why have our two consuls and praetors come out today

wearing their embroidered, their scarlet togas?

Why have they put on bracelets with so many amethysts,

rings sparkling with magnificent emeralds?

Why are they carrying elegant canes

beautifully worked in silver and gold?

 

Because the barbarians are coming today

and things like that dazzle the barbarians.

 

Why don’t our distinguished orators turn up as usual

to make their speeches, say what they have to say?

 

Because the barbarians are coming today

and they’re bored by rhetoric and public speaking.

 

Why this sudden bewilderment, this confusion?

( How serious people’s faces have become. )

Why are the streets and squares emptying so rapidly,

everyone going home lost in thought?

 

Because night has fallen and the barbarians haven’t come.

And some of our men just in from the border say

there are no barbarians any longer.

 

Now what’s going to happen to us without barbarians?

They were, those people, a kind of solution.

 

 

Esperando pelos bárbaros

Constantine Cavafi

 

O que estamos esperando, todos reunidos no fórum?

Os bárbaros vão chegar aqui hoje.

 

Por que nada está acontecendo no senado/

Por que os senadores estão sentados sem legislar?

 

Porque os bárbaros estão vindo hoje.

Qual é o sentido dos senadores fazerem leis agora?

Assim que os bárbaros chegarem, eles mesmos farão as leis.

 

Por que o nosso imperador levantou tão cedo,

E por que ele está sentado no trono no portão principal da cidade

Engalanado, usando a coroa?

 

Porque os bárbaros estão vindo hoje

E o imperador está esperando para receber o seu líder.

Ele tem até um pergaminho para dar-lhe,

Cheio de títulos, com nomes imponentes.

 

Por que os nossos dois cônsules e nossos pretores saíram hoje

Usando as suas togas vermelhas bordadas?

Por que eles se colocaram braceletes com tantas ametistas,

Anés brilhando com esmeraldas magníficas?

Por que eles estão carregando suas elegantes bengalas

Ricamente decoradas em prata e ouro?

 

Porque os bárbaros estão vindo hoje

E coisas como essas impressionam os bárbaros.

 

Por que os nossos distintos oradores não aparecem como de costume

Para fazer seus discursos, dizer o que eles têm pra dizer?

 

Porque os bárbaros estão vindo hoje

E eles se aborrecem com a retórica e os discursos públicos.

 

Por que de repente há este aturdimento, esta confusão?

(As caras das pessoas ficaram sérias.)

Por que as ruas e praças se esvaziaram tão rapidamente,

E todos estão indo pra casa pensativos?

 

Porque a noite caiu e os bárbaros não vieram.

E alguns dos nossos homens que acabaram de chegar da fronteira dizem

Que já não há mais bárbaros.

 

O que vai nos acontecer sem eles?

Eles eram, aqueles bárbaros, um tipo de solução.

 

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[1] Estes grupos, que variam de grupos de cidadãos interessados em manter a ordem na sua comunidade a grupos neo-fascistas e praticamente uma outra faceta da famigerada Ku-Klux-Klan, tem várias páginas na internet. Quem quiser saber mais sobre eles, suas filosofias e seus modos de funcionar, basta fazer uma pesquisa usando como palavra chave “minute man.” Em resumo, este grupo se diz estar disposto a patrulhar a fronteira com o México. Embora eles não tenham direito a prender ninguém, ninguém me garante que um grupo de pessoas brancas, armadas, escoradas no poder do seu país, não se sintam encorajadas a “fazer justiça” contra pessoas de outra raça, desarmadas, que estão tentando entrar no país ilegalmente.

[2] E nem sequer precisamos tocar no assunto de que a grande maioria destes trabalhadores ilegais aos Estados Unidos envia quase todo o seu dinheiro aos parentes nos seus países de origem. Governador Valadares é uma prova vida deste fenômeno.

[3] As empregadas domésticas que vão a Singapura de vários países asiáticos mais pobres, por exemplo, são imediatamente deportadas se engravidam, ou se os patrões reclamam contra elas. Qualquer trabalhador estrangeiro em Singapura não pode se envolver com os cidadãos em nenhuma relação que possa levar a uma estadia mais longa do que a estabelecida no contrato que o trabalhador e o empregador assinam com o governo antes do trabalhador chegar ao país.

[4] Constantine Cavafi nasceu na Alexandria em 1863 e morreu em 1933 na mesma cidade.

Para um fascinante estudo da tradução deste poema, ver a página “Paradox Ethereal,” que contém mais informações sobre o poema e o poeta.

Este poema, o mai famoso de Cavafi, está publicado em C.P. Cavafy Collected Poems. Traduzido por Edmund Keely and Philip Sherrard, editado por George Savidis, The Hogaith Press, Londres, 1984

 

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