O
“bom comportamento” de
um país e o cenário internacional. Ou, como ser o “bom
menino” nem sempre é um caminho adequado
No
nosso dia-a-dia, todos nós devemos obedecer a inúmeras
regras sociais, sob pena de sanção do grupo. Eu posso achar
indigna minha situação financeira frente à do meu vizinho,
ou me queixar que os impostos que pago são absurdos. Mas, se
por causa disso, eu resolver roubar um banco ou tentar fraudar
a Receita, serei imediatamente punido e disciplinado.
Do
mesmo modo, a vida em sociedade implica em certas normas de
civilidade e bom comportamento, que variam enormemente, claro,
segundo o contexto geográfico e o período histórico. No
caso da nossa sociedade, normas como respeitar os mais velhos,
ser polido, não incomodar o vizinho com música alta, não
furar a fila e várias
outras, muitas não escritas, estão presentes. No caso de
desrespeito a elas, na maioria das vezes, não há uma punição
legal, mas há sanções, que na maior parte das vezes não
inibem o mal educado, em termos simbólicos, verbais, etc.
No
cenário internacional, essa mesma situação acontece. Desde
o século XVII, temos um sistema internacional formado por
Estados, o qual se organiza a partir de um ou mais Estados
centrais, os quais deixam claras as regras e os limites de ação
para os membros do sistema. Seja no sistema multipolar dos
Estados europeus no século XIX, seja no bipolar do período
da Guerra Fria, ou ainda,
no atual período de hegemonia norte-americana, os
Estados fortes escrevem as regras do jogo e verificam a sua
aplicação. Aos Estados mais fracos, resta obedecer, se
adaptar ou reunir
forças para tentar a formação de um outro sistema.
Ao
lado do sistema internacional, há também, segundo a
diferenciação criada pelo teórico australiano Hedley Bull,
uma sociedade internacional. Esta teria se formado ao lado do
sistema internacional e forneceria outras regras de cooperação
e bom comportamento a serem aceitas por todos, como
a resolução dos conflitos por meios pacíficos, a
luta pelo desenvolvimento, o intercâmbio entre os povos, etc.
Temos,
portanto, uma situação clara na qual, no ambiente
internacional, os Estados não são livres para se comportarem
como querem, sob risco de sofrer sanções. Há um “código
de conduta”, normalmente não escrito,
sobre como um país deve se comportar frente aos
mercados internacionais, ao poder hegemônico dos Estados
centrais, etc. Quem
não segue essas normas é um desajustado frente aos outros
Estados e um perigo para os que dominam o sistema. Claro que,
assim como as leis de bom comportamento social podem receber
diferentes enfoques conforme quem as burla (você é mal
educado ou excêntrico, grosso ou determinado, conforme sua
classe social), os diferentes Estados e sociedades também têm
uma margem de manobra frente às leis e normas, conforme o seu
diferencial de poder;.
Assim,
os Estados Unidos de George W. Bush, por exemplo, podem
desprezar o Direito internacional quando aprisionam pessoas
sem acusação no Iraque e em Cuba, se recusar a ratificar o
tratado que criaria o Tribunal Penal Internacional, lançar
uma política de gastos estatais maciços para reativar a
economia, etc. São deslizes frente ao que se espera de um país
“civilizado”, mas eles têm o cacife para tal e pronto.
Não
espanta realmente, aliás, que um grande historiador como Eric
Hobsbawm tenha escrito que um dos maiores trunfos para a
hegemonia americana no mundo hoje é que eles conseguem
escrever as regras do jogo do capitalismo global e do sistema
internacional e
fazer com que os outros países as sigam, enquanto as
interpretam livremente quando é vantajoso para eles. Nesse
quadro, a pergunta que fica é: será que vale a pena
respeitar esse código sem contestação?.
Alguns
fatos recentes do noticiário internacional ressaltam a relevância
dessa pergunta. Desde os governos Collor e FHC (e ainda mais
no governo Lula), o governo brasileiro se esforça para
agradar os mercados financeiros internacionais. O câmbio
flutua, há livre movimentação de capitais, as taxas de
juros ficam nas alturas, etc. A idéia que parece estar
presente é mostrar ao mundo financeiro global que somos
“bons meninos” e que, portanto, eles podem e devem
investir aqui. A partir daí, viria um dilúvio de recursos
internacionais e a redenção.
No
entanto, qual o resultado real? Os mercados internacionais
preferem continuar investindo pesadamente na China, onde o câmbio
não flutua livremente, há intervenção estatal maciça
na economia, etc. Claro que os chineses garantem o mínimo
necessário para que eles continuem atraentes para o sistema
capitalista global, como garantia de liberdade para enviar os
lucros para fora, força de trabalho controlada, etc. Mas o
que atrai realmente as grandes empresas transnacionais para a
China é a perspectiva de ganhar dinheiro, e muito.
Nessa
perspectiva, o Brasil só terá verá o capital internacional
entrando em grande quantidade quando a economia crescer e
houver, aqui, potencial para que as empresas internacionais
aufiram lucros maciços nas suas atividades.
Garantir a segurança institucional, reformar leis
tributárias e trabalhistas obsoletas, etc é perfeitamente
correto, mas não basta. Sem perspectiva de lucros, não há
“lição de casa” bem feita que faça os
investidores internacionais colocarem seu dinheiro aqui, a não
ser para a especulação.
O
mesmo poderia ser dito quando examinamos o caso da Argentina.
Depois de ser o “filhinho dileto”
do sistema financeiro internacional, a Argentina
virtualmente quebrou e, a partir de então, ela tem ido contra
todas as normas que regem esse sistema. Mesmo assim, meses atrás,
o seu “risco país” estava
quase no nível do brasileiro. O aluno “mal comportado”
recebeu uma nota quase igual a do “bom menino”
e, isso, pelo mais simples dos motivos: havia chances
de lucro na compra de papéis argentinos naquele momento e,
portanto, eles se tornaram atraentes.
Acho
que ninguém de bom senso defenderia um calote como o que
ocorreu na Argentina, pois o preço a se pagar por ele é
imenso. Aliás, não é nenhuma novidade dizer que a Argentina
não deu o calote, mas foi forçada a tanto. Também parece óbvio
que, por muitos anos, as
empresas e o governo argentino terão dificuldades para
levantar empréstimos no mercado externo, etc. Mas, como a
regra básica do sistema é obter lucros, acredito que,
havendo tal perspectiva, a economia argentina dificilmente
ficará a mingua.
Outro
exemplo recente é o caso indiano. Quando a Índia fez testes
nucleares ostensivos em 1998, ela recebeu críticas e sanções
por parte da comunidade internacional, Estados Unidos incluídos.
Meros oito anos depois, ao invés de ser reduzida à condição
de “pária internacional”, ela teve seu status de grande
potência reconhecida e assinou um tratado de cooperação
nuclear com Washington. Podemos ter certeza que a voz da Índia
será mais ouvida nos foros internacionais a partir de agora.
Enquanto isso, o Brasil, fiel cumpridor do tratado de não
proliferação nuclear (TNP),
tem apenas a satisfação do dever cumprido.
Ninguém
razoável advogaria a idéia de que o Brasil deve desenvolver
um arsenal nuclear aos moldes do indiano. Mas fica claro que o
que importa, para o reconhecimento internacional, é dispor do
cacife para tanto, o que a Índia tem e cuja aquisição do
poder nuclear apenas ampliou. Simplesmente cumprir ordens pode
levar a bonitos discursos e declarações do Departamento de
Estado ou do Parlamento Europeu, mas não muito mais do que
isso.
Pode
parecer, a partir da leitura do já escrito, que advogo um
rompimento total, por parte do Brasil, com as regras do
sistema e da sociedade internacionais. Deveríamos nos fechar
frente ao sistema financeiro mundial, dar um calote na dívida,
construir uma bomba atômica, invadir nossos vizinhos, apoiar
o terrorismo mundial contra os Estados Unidos, etc. De forma
alguma. Qualquer uma dessas idéias, por si só, seria danosa
para o país e não traria nenhum benefício. Não haveria
nenhuma vantagem, para nós, em nos tornarmos uma nova Coréia
do Norte, Irã ou Venezuela.
Depois,
existe o mais puro e simples realismo político. O grau de
flexibilidade que um Estado tem frente às restrições e
regras internacionais depende claramente, como já visto, do
seu poder. Ora, o Brasil não tem o potencial necessário,
mesmo se quisesse, para bater de frente com o sistema, o que
obriga à acomodação.
Acomodação,
mas ativa, pensando nas possibilidades que essas regras e
normas também oferecem e negociando a cada momento. Negociar,
lutar e, se representar o que acreditamos e nos for vantajoso
e/ou for impossível evitar, ceder. A ação brasileira na OMC,
por exemplo, é exemplar desse tipo de abordagem. O que está
mais do que na hora de abandonar é a idéia de que
simplesmente cumprir a
cartilha dos países dominantes, ou dos tão famosos
“mercados”, vai
nos levar ao Primeiro Mundo.
Enfim,
o que fica mais do que claro é que simplesmente seguir as
regras do bom comportamento não leva, obrigatoriamente, a
grandes resultados práticos. Já em 2001, escrevia, nesse
mesmo espaço, algo nesse sentido,
e me parece incrível que ainda não tenhamos aprendido
a lição.