por LUIZ ANTÔNIO BOGO CHIES

Professor Ajunto da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais (UMSA, Argentina). Doutorando em Sociologia (UFRGS, Brasil).

 

 

A Universidade Líquida

 

Ela vinha formando-se há muito tempo... Na verdade, já estava lá; ou mesmo aqui! Nós é que não nos tínhamos dado conta; ou mesmo não queríamos ver... assim, pareceu-nos que ela desabou sobre nós como uma chuva de verão... daquelas que são precipitações abruptas; que só tornam a atmosfera mais sufocante e tampouco resolvem a estiagem; ela: a Universidade Líquida.

E não nos dávamos conta de sua consolidação – ou mesmo não queríamos assim perceber – porque, como alerta Boaventura de Sousa Santos (2003), estamos num período de transição que nos compele à irreflexividade.

“Vivemos num período avassalado pela questão da sua própria relatividade”, diz Santos. “O ritmo, a escala, a natureza e o alcance das transformações sociais são de tal ordem que os momentos de destruição e os momentos de criação se sucedem uns aos outros numa cadência frenética, sem deixar tempo nem espaço para momentos de estabilização e de consolidação” (SANTOS, 2003: 3).

E, “sentencia”:

A natureza da transição define-se pelo facto de as questões complexas por ela suscitadas não encontrarem um ambiente sócio-cultural conducente às respectivas respostas. De um lado, aqueles que lideram as sequências de destruição e criação social – normalmente pequenos grupos sociais dominantes – estão tão absorvidos no automatismo da sequência que a pergunta pelo que fazem será, na melhor das hipóteses, irrelevante e, no pior dos casos, ameaçadora e perigosa. Do outro lado, a esmagadora maioria da população que sofre as consequências da intensa destruição e da intensa criação social está demasiado ocupada ou atarefada com adaptar-se, resistir ou simplesmente subsistir, para sequer ser capaz de perguntar, quanto mais de responder as questões complexas acerca do que fazem e porquê. (2003: 3)

São as características dos líquidos, dos fluidos, que melhor ilustram o estágio atual da Modernidade, como propõe Zygmunt Bauman (2001):

Os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”, Borrifam”, “pingam”; são “filtrados”, “destilados”; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho. Do encontro com sólidos emergem intactos, enquanto os sólidos que se encontraram, se permanecem sólidos, são alterados – ficam molhados ou encharcados. A extraordinárias mobilidade dos fluidos é o que os associa à idéia de “leveza”(...) (...) Associamos “leveza” ou “ausência de peso” à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leve viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos. (2001: 8)

A Modernidade Líquida é a Modernidade do software em oposição ao hardware (em todos os sentidos da ilustração); é a Modernidade do tempo instantâneo que pouco se importa com o espaço... é a vitória, como propõe Paul Virilio (1993) do dromos (corrida, velocidade de percurso) sobre a relação tempo/espaço da cronometria... É a Modernidade das guerras fiscais patrocinadas por “Fords”, “GMs” etc, que por sua atual fluidez permitem-se instantaneamente escorrer de um ponto (Estado) ao outro sem ocupar-se que qualquer compromisso que lhes possam significar menor condição de leveza... É a Modernidade que, retratada no documentário Roger & Eu (de Michael More), permite à GM abandonar Flint – sua pesada “comunidade natal” – e avançar, sem pudores, remorsos ou autocríticas no plano da ética, sobre a fronteira do México – intransponível num sentido unilateral ao homem, mas tão permeável para outros fins.

Nessa Modernidade tudo há de ser fluido... as instituições, os relacionamentos, as práticas... A menos que queiramos suportar o “ônus” e o “peso” de uma ética de compromissos e solidariedades.

Em realidade, como diz Bauman:

A nossa era é era de individualismo não-adulterado e de busca de boa vida, limitada só pela exigência de tolerância”; contudo, como imediatamente complementa: “quando casada com individualismo autocelebrativo e livre de escrúpulos, a tolerância só pode se expressar como indiferença (1997: 7).

Admitir viver conforme a pauta estrutural e valorativa da Modernidade Líquida é – para ainda aproveitar as metáforas utilizadas por Bauman – esquiar sobre gelo fino: “a salvação está na velocidade”; pois: “Quando se é traído pela qualidade, tende-se a buscar a desforra na quantidade” (2004: 13).

E a Universidade Líquida?

Sua ilustração mais adequada se chama “Currículo Lattes”... esta base de dados individuais e autocelebrativos; disponível numa plataforma virtual e atualizável em tempo real... métrica muito mais de nossa quantidade do que de nossa qualidade! (tanto o é que vamos, ao analisá-lo, direto à última folha – “indicadores de produção” – sem percorrer todos seus itens).

A Universidade Líquida é a universidade do preenchimento do “Lattes”... é a Universidade do “publique ou pereça”... pare de publicar e o gelo fino se quebrará sob seus pés!

Mas a questão aqui não se volta contra a produção e a divulgação científica (tarefa indeclinável das instituições universitárias); mas, sim, contra a liquefação dos compromissos éticos, sociais e comunitários das instituições se propõem como verdadeiras universidades, e não só como linhas de montagem de diplomados.

Naquilo, portanto, que o “Lattes” ilustra a Universidade Líquida está implícito um novo código de conduta que tende a opor reflexão e produção.

A Universidade Líquida é ambígua em seus critérios...

Ao mesmo tempo que questiona a qualidade do saber do seu ingresso – muitas vezes oriundos dos questionáveis saberes dos supletivos e dos pré-vestibulares – para a apreensão crítica, científica e ética dos conhecimentos que se propõe a ofertar-lhes, mede a eficiência de seus resultados no número de egressos aprovados nos menos críticos, científicos ou éticos certames de competição por uma vaga (pública ou privada) de exercício profissional.

A Universidade Líquida é fragmentária...

Necessita negar a complexidade social, a complexidade dos fenômenos que são objetos de seus campos de saber, para estruturar as linhas de montagem de diplomas e habilitar sua clientela não à cognição reflexiva, mas sim à operacionalidade dos fragmentos de sobrevivência que a Modernidade lhes legará.

A Universidade Líquida é fragmentadora...

Porque a união de seus quadros (em especial docentes), quando reflexiva e crítica, e, portanto, não só voltada para uma produtividade quantitativa de quantidades de docentes (quando muitos aproveitam a produção de poucos), é perniciosa uma vez que cria vínculos de solidariedade e co-responsabilidade que tornam o indivíduo menos leve sob a camada de gelo na qual transita.

A Universidade Líquida é beligerante...

Porque na necessidade de se permanecer veloz somos estimulados a ver o outro não como cooperador, mas sim como um competidor dos escassos subsídios disponíveis... como um inimigo a ser vencido; no máximo, um estranho a ser tolerado com indiferença.

Mas a Universidade Líquida não é obra de uma cúpula perversa... é um produto coletivo de toda uma acriticidade Moderna. Da crença nos mitos tecnocráticos, burocráticos e dogmáticos de uma prepotente racionalidade científica, que se diz neutra e se auto-engana na convicção da certeza e da segurança de seus resultados.

Se a Universidade Líquida nos assaltou e nos tomou de surpresa, não é porque nos espreitava atrás de uma porta; mas sim porque – enquanto recheávamos nossos “Lattes” – preferíamos não querer ver que auxiliávamos a construí-la.

 

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Bibliografia:

BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997.

______. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

______. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Poderá o direito ser emancipatório? Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n. 65, p.3-76, mai. 2003.

VIRILIO, Paul. O Espaço Crítico e as Perspectivas do Tempo Real. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993 .

 

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