O
interlocutor do poder:
Raymond
Aron e sua concepção de militância durante a guerra da Argélia
Nesses
tempos atuais, marcados pela falência dos "horizontes de
expectativa", o ceticismo dos intelectuais tende a engendrar
discursos ambivalentes e redutores sobre o objeto "o
intelectual e seu papel na vida da "citá".
No entanto, se o modelo do "intelectual engajado" perdeu,
no contexto francês, sua legitimidade, a questão da sua
participação (direta ou indireta) na vida pública, como
"consciência moral e crítica", jamais desapareceu da
atualidade.
Durante
a guerra da Argélia (1954/1962), as violações dos direitos
internacionais e humanos, deram margem à colocação em prática da
noção, até então, um tanto abstrata, de engajamento político. A
exemplo de Sartre, outros intelectuais, como Raymond Aron, vindo de
horizontes ideológicos distintos, se lançaram no combate
anticolonialista, defendendo, ora reformas no sistema, ora a
independência da Argélia. Mas, se levarmos em conta que a “ação” política de
Raymond Aron, foi ditada, sobretudo, por um “instinto” político
e por uma lucidez histórica, e não por considerações de ordem
moral, a designação de “intelectual engajado” (considerando a
dimensão ética desse termo) não pode se aplicar a esse sociólogo.
Defensor
da razão, em uma época “irracional”, esse “observador
intelectual” da política, situando-se para além das ideologias e
das paixões, atravessou em solitário o campo intelectual francês,
durante os anos 1950, 60 e 70. Ora, um dos pontos fortes de sua
carreira de pensador deve-se à sua crítica ao stalinismo, no
momento mesmo em que a doutrina marxista triunfava junto aos
intelectuais da esquerda.
Pouco propício ao “profetismo intelectual” da época, mas em
avanço sobre o seu tempo, suas análises sobre a fascinação da
intelligentsia francesa pela “doutrina”, testemunharam o seu
papel de visionário da história.
Fascinado
pelo acontecimento, mas “instintivamente” afastado da ação,
Aron assumiu posições políticas, explicitamente, favoráveis à
descolonização. Suas intervenções públicas não emanaram tanto
de uma questão de consciência (embora o ideal humanista
perpassasse toda sua obra), mas do desejo de associar a “história-objeto”
à sua “ação”. Em sua “Introdução à filosofia da história”,
ele dirá: “eu me confundo com o meu devir como a humanidade com
sua história”.(ARON, 1938:11)
Suas
análises políticas sobre o conflito argelino, sem dúvida,
testemunharam uma lucidez em relação à história em via de sua
realização. Recusando “determinismos aleatórios” e
reducionismos da história como uma totalidade, ele pensou a política
em termos, não de intenções, mas de conseqüências.
Distanciando-se da
classe intelectual e do modelo de engajamento, ele se converteu em
“espectador engajado”,
ou melhor, em um observador da política.
“Por
princípio, eu não fui um “anticolonialista”, embora jamais
suportasse o clima das colônias”, dirá ele, em 1958 (R. Aron,
1958:5). Apesar de ter sido favorável à independência da
Indochina (primeira possessão colonial a se rebelar contra a França
entre 1946/54), Aron só se manifestará sobre a questão colonial
durante a guerra da Argélia. Consciente de que a França se
desviava da dinâmica da própria história, ele justificará,
posteriormente, seus “sentimentos anticolonialistas”. Segundo o
autor, em termos racionais, a inevitável perda do império francês,
no imediato pós-guerra, estaria ligada a dois fatores. Primeiro: a
inexistência de meios materiais para conservá-lo, segundo: ao fato
de que “a guerra feita em nome da liberdade, deveria excitar junto
aos povos colonizados o espírito da revolta” (ARON, 1958: 11).
Se
a partir de 1955, Aron se limitou a descrever a situação
insurrecional da Argélia no jornal
Le Figaro, partidário da “Argélia francesa”, as
verdadeiras reflexões sobre o “impasse argelino”, em forma de
notas dirigidas ao governo, somente serão elaboradas em 1956. Esse
conjunto de análises intencionalmente destinado à Frente
Republicana (dos socialistas da IV República) será publicada em
uma brochura intitulada La tragédie algérienne.
O
interlocutor do poder
No
entanto, Aron havia consagrado um capítulo do livro Espoir et
peur du siècle, à perda do império, referindo-se ao
“impasse argelino”. Os fundamentos da tese que ele defenderá em
seguida encontram-se sintetizados nessa frase: “A única política
eficaz se definiria pela promessa da independência e pelo
estabelecimento de um calendário” (ARON, 1957: 200). Segundo ele,
a perda inelutável do império francês, nos anos 1950,
explicava-se, por um lado, em razão dos “erros militares”,
cometidos na Indochina e, por outro, em razão dos “erros políticos”
cometidos, pela França, na Tunísia e no Marrocos. Esses mesmos
malogros levariam os franceses a lutar para conservar sua “presença”
na Argélia.
A
eficácia da intervenção de Raymond Aron no debate sobre a
descolonização – intervenção escrita em forma de defesa de uma
tese – explica-se pela necessidade, segundo o próprio autor, de
convencer e de dialogar com os políticos. Contrariamente aos demais
“intelectuais engajados” que privilegiavam os pares intelectuais
como seus interlocutores, Raymond Aron, por sua vez, na Tragédie
Algérienne, privilegiará o poder político. Em suas memórias,
publicadas em 1983, ele confirmará que altos funcionários, responsáveis
por um relatório sobre a Argélia, entrarão em contato com ele no
final do ano de 1957 (ARON,
1983: 369).
Com
efeito, é graças a esse tipo de “engajamento político” – o
de ser interlocutor do poder - que, nesse exato momento de conflito
nacional, Aron reforçará sua posição enquanto intelectual. A
eficácia simbólica da intervenção dos intelectuais no terreno
político provém diretamente do “capital de reconhecimento” no
interior mesmo do “campo” intelectual. Ora, o engajamento político
dos intelectuais durante o conflito argelino fortaleceu a própria
imagem desses intelectuais.
Fundamentando
sua argumentação em favor da independência da Argélia, Raymond
Aron foi um dos primeiros intelectuais, não pertencendo à
correntes intelectuais da esquerda, que ousou escrever, “preto no
branco”, a palavra, até então tabu, independência.
Se
suas constatações, de ordem político-histórico e sócio-econômico,
evidenciaram, nesse momento, uma lucidez histórica, seus argumentos
não revelaram nenhuma originalidade. A maior parte desses
argumentos já havia sido exposta, de maneira mais fundamentada, por
outros intelectuais, como Sartre, por exemplo.
Foi em função de duas teses opostas –
presença francesa na Argélia ou negociação do futuro
dessa colônia – que Aron pretendeu defender a tese de uma inevitável
independência para a Argélia. Mas, embora ele raciocinasse, nesse
exato momento (1956/57), em termos de conseqüências e do longo
prazo, a partir do
retorno de De Gaulle ao poder (maio de 1958), Aron manter-se-á na
expectativa, ou seja, na espera de uma “renovação política”.
Convém
salientar que a “Argélia francesa”, nutriu o imaginário social
francês durante 130 anos. Após a perda de outras possessões
ultramarinas, os ideais (feridos) de “grandeza da França”,
cristalizados no inconsciente nacional, aguçaram a crença na
“vocação africana da França”.
“Pessoalmente, afirma Aron, por razões morais assim como
nacionais como universais, eu acredito na “missão” da França
na África, eu acredito na “vocação” africana da França. Mas,
nem essa missão nem essa vocação são compatíveis com a recusa
aos povos da África do direito de se auto determinarem” (ARON,
1957: 50, 51). Aliás, os próprios adeptos do anticolonialismo –
os intelectuais da esquerda moderada -, hesitaram, durante alguns
anos, a reivindicar a independência como solução definitiva à
questão argelina. Portadores de um ideal humanista, essa esfera de
influência militou até o ano de 1960 pela idéia de reformas e de
integração.
Insistindo
sobre o fato de que as noções de “preservação pela força” e
de “laços indissociáveis entre a França e a Argélia” eram
contrárias aos “princípios” e aos “valores” da França
(ARON, 1957: 10), Aron antecipou os sentimentos, não revelados
publicamente, dos próprios políticos em relação à futura
independência da Argélia. Mas, como ele mesmo afirmou, “os princípios
políticos são a transfiguração das práticas, a justificação
das vontades de potência”. Segundo Aron, reconhecer a
“personalidade argelina” significava admitir o direito do povo
argelino de se dotar de um “estado”, o que implicaria, em curto
prazo, sua independência. Desejando, nesse início do ano de 1956,
que as negociações fossem conduzidas pelos nacionalistas moderados
em vista da “constituição de uma unidade política argelina”,
Aron estimulou o diálogo entre a França e as elites argelinas. Na
sua opinião, esse intercâmbio propiciaria, “pelo menos, a chance
de uma solução intermediária entre a violência indefinida e a
capitulação imediata”. Portanto, o reconhecimentos do direito à
independência passaria a ser a condição necessária para toda e
qualquer solução política. Recusando as falsas idéias difundidas
sobre o declínio da França, em caso da “perda” da Argélia
(argumento econômico freqüentemente utilizado pelos defensores da
“Argélia francesa”), Aron utilizou provas “técnicas” para
denunciar a hipocrisia daqueles que, embora contestando os
“meios” e os “métodos” da guerra, não conceberam uma
retirada das tropas francesas. Como Sartre, ele partilhava a idéia
de que a continuação da política de “pacificação”, em
outras palavras da guerra, constituiria um fardo econômico para a
França. A colonização – “acidente histórico”, jamais teria
sido indispensável ao desenvolvimento econômico dos países
europeus, afirma Aron. De fato, historicamente falando, o
colonialismo francês teria seria menos uma questão de interesse
econômico do que uma concepção de glória nacional.
Utilizando
dados demográficos e econômicos, Aron, na Tragédie Algérienne,
tentou demonstrar a inconsistência da tese, defendida pela maioria
dos franceses, da integração. Algumas constatações a
confirmariam, primeira: o crescimento da população muçulmana, em
parte explicado pela impossibilidade de se aplicar medidas
malthusianas na Argélia
(em razão da poligamia) impediriam toda tentativa de se nivelar a
vida das duas comunidades (francesa e argelina). Segunda: a ausência
de uma industrialização na Argélia e a impossibilidade de se
criar empregos, confirmariam a extrema dificuldade de se reduzir
esses dois níveis de vida. Ora, a França foi incapaz de elevar o nível
de vida da população muçulmana e de operar uma “simbiose”
entre as duas economias. “Ela não conseguiu sequer encontrar uma
via para a paz”. Assim,
tratando-se de grandes empreendimentos, da escolaridade, da legislação
social, a Argélia “deve” ser submetida a um outro regime,
diferente da França. A meu ver, as medidas necessárias só poderão
ser adotadas pelos governantes argelinos. Não se trata da rebelião,
mas, inicialmente, de fatos que obrigam a reconhecer uma
nacionalidade argelina” (ARON, 1957: 45, 46).
Questionando
sobre as conseqüências da política dita de “pacificação” em
termos de relações futuras da França com o Marrocos e a Tunísia,
a análise “aroniana” inscreve o acontecimento na perspectiva do
longo prazo. Curiosamente, se ele condenou a parcialidade daqueles
que acusaram o exército francês de ser responsável pelas
atrocidades perpetradas na Argélia, ele se silenciou sobre as
conseqüências morais da tortura, que segundo o mesmo “não tê[ve]
o mérito de ser eficaz”. Suscitando
diferentes reações, a Tragédia Argelina não passou
despercebida. Aron foi acusado, por um lado, de ceder ao
“derrotismo econômico” e ao “fatalismo” e, por outro lado,
de se lançar na via do modismo, sendo mesmo designado pelos
atributos de “clareza glacial” e de “aridez intelectual
abstrata”.
Uma
lógica de persuasão?
Retomando
suas idéias anteriores, Aron exprime em L’Algérie et la République
(1958) sua recusa pelo reformismo e pela política de integração
francesa. Adepto de uma negociação, ele considera o retorno de De
Gaulle ao poder um fator positivo e uma forma de “renovação política”.
Interessado, a partir de então, em apreender os novos
acontecimentos, Aron reivindica uma postura crítica de observador,
em princípio, favorável à política conduzida pelo presidente da
V República.
No
entanto, em suas Memórias (1983) Aron nuança seu julgamento
sobre a política argelina de De Gaulle. Segundo o autor, as fórmulas
que ele próprio utilizava eram pouco claras e um tanto ambíguas.
Na verdade, ele interrogava-se sobre o perigo de uma extrema
personalização do poder e sobre o risco de desabamento do “edifício
constitucional”, criado por De Gaulle.
Ao longo do ano 1960, ele se interroga sobre a lentidão das
negociações, sobre a estratégia “hábil” adotada pelo
presidente visando a retardar a negociação política, a recusar o
diálogo, a não explicitar sua política, enfim a prolongar a
guerra.
Enquanto
L’Tragédie Algérienne lança Raymond Aron nas arenas da
política revelando suas veias contestatórias, L’Argélie et
la République, atesta, sem dúvida, os limites de uma pretensa
consciência crítica. Criptogaullista ou adepto do gaullismo? Aron
parece hesitar entre a sua fidelidade ao general e o seu papel de
“observados engajado”.
Hostil
a toda idéia de ruptura do “pacto nacional”, Raymond Aron
desaprova a iniciativa dos intelectuais de esquerda em favor do
direito de insubmissão (dos soldados franceses e do apoio às redes
de ajuda ao FLN), recusando a assinar a famosa petição ou o
“Manifesto dos 121”
Em suas Memórias, ele declara que, encontrando-se nesse
momento (dezembro de 1960) em Harvard, ele tenta persuadir os
universitários americanos, simpatizantes dos “121”, de não
assinarem essa petição. Mas,
ele não hesitará a assinar o contra-manifesto, mais moderado,
intitulado “Para uma paz negociada na Argélia”.
Se,
durante a guerra da Argélia, a luta contra a colonização
mobilizou a ação dos intelectuais (em grande maioria da esquerda),
a defesa da independência só concerniu uma minoria, constituída
por sartristas e progressistas. Na verdade, a evolução gradativa
da classe intelectual em relação à questão argelina, provocando
adesões e divisões na opinião pública, parece ser concomitante
à própria evolução da sociedade francesa.
Distanciado
de toda forma de ação militante, Raymond Aron se serviu de meios
restritos, mas, talvez eficazes, para convencer a classe política
do inelutável processo
histórico de descolonização. No entanto, o engajamento dos
intelectuais contra a guerra da Argélia foi ditado em função de
uma concepção idealista da França cuja representação se fez de
maneira diferente. Se, para defender uma “imagem” da França,
denegrida por essa guerra, Aron justificou sua “ação”, para
combater uma mesma “imagem”, simbolizando opressão e
“fascismo”, Sartre se engajou contra essa guerra.
No contexto brasileiro, o discurso atual sobre “o silêncio
dos intelectuais”, por exemplo, tem revelado
ambigüidades e maniqueísmos. Silêncio em razão de
engajamentos partidários, de não engajamentos? Silêncio por
conveniência? Silêncio justificado pelas “incertezas” do
tempo presente? Mas esse é um outro debate que foge aos limites
desse artigo.
L’opium des intellectuels. Paris, Hachette – Pluriel,
1955.
R.Aron, L’introductuion à la philosophie politique,
Paris, Gallimard, 1938.
Cf., Raymond Aron. Le spectateur engagé – entretiens
avec Jean-Louis Missika et Dominique Wolton. Paris, Julliard,
1981.
Cf. Sartre, “O colonialismo é um sistema”; In: Les
Temps Modernes, avril 1956.
Petição publicada, em dezembro de 1960, por um grupo de,
inicialmente, 121 intelectuais e artistas em favor da submissão
dos jovens convocados a combaterem na Argélia e do apóio às
redes de ajuda ao FLN (Frente de Liberação Nacional).