por HELENICE RODRIGUES

Professora adjunta da UFPR.

 

 

O interlocutor do poder: 

Raymond Aron e sua concepção de militância durante a guerra da Argélia

 

Nesses tempos atuais, marcados pela falência dos "horizontes de expectativa", o ceticismo dos intelectuais tende a engendrar discursos ambivalentes e redutores sobre o objeto "o intelectual e seu papel na vida da "citá"[1]. No entanto, se o modelo do "intelectual engajado" perdeu, no contexto francês, sua legitimidade, a questão da sua participação (direta ou indireta) na vida pública, como "consciência moral e crítica", jamais desapareceu da atualidade.

Durante a guerra da Argélia (1954/1962), as violações dos direitos internacionais e humanos, deram margem à colocação em prática da noção, até então, um tanto abstrata, de engajamento político. A exemplo de Sartre, outros intelectuais, como Raymond Aron, vindo de horizontes ideológicos distintos, se lançaram no combate anticolonialista, defendendo, ora reformas no sistema, ora a independência da Argélia.  Mas, se levarmos em conta que a “ação” política de Raymond Aron, foi ditada, sobretudo, por um “instinto” político e por uma lucidez histórica, e não por considerações de ordem moral, a designação de “intelectual engajado” (considerando a dimensão ética desse termo) não pode se aplicar a esse sociólogo.

Defensor da razão, em uma época “irracional”, esse “observador intelectual” da política, situando-se para além das ideologias e das paixões, atravessou em solitário o campo intelectual francês, durante os anos 1950, 60 e 70. Ora, um dos pontos fortes de sua carreira de pensador deve-se à sua crítica ao stalinismo, no momento mesmo em que a doutrina marxista triunfava junto aos intelectuais da esquerda[2]. Pouco propício ao “profetismo intelectual” da época, mas em avanço sobre o seu tempo, suas análises sobre a fascinação da intelligentsia francesa pela “doutrina”, testemunharam o seu papel de visionário da história.

Fascinado pelo acontecimento, mas “instintivamente” afastado da ação, Aron assumiu posições políticas, explicitamente, favoráveis à descolonização. Suas intervenções públicas não emanaram tanto de uma questão de consciência (embora o ideal humanista perpassasse toda sua obra), mas do desejo de associar a “história-objeto” à sua “ação”. Em sua “Introdução à filosofia da história”, ele dirá: “eu me confundo com o meu devir como a humanidade com sua história”.(ARON, 1938:11)

Suas análises políticas sobre o conflito argelino, sem dúvida, testemunharam uma lucidez em relação à história em via de sua realização. Recusando “determinismos aleatórios” e reducionismos da história como uma totalidade, ele pensou a política em termos, não de intenções, mas de conseqüências[3]. Distanciando-se  da classe intelectual e do modelo de engajamento, ele se converteu em “espectador engajado”[4], ou melhor, em um observador da política.

“Por princípio, eu não fui um “anticolonialista”, embora jamais suportasse o clima das colônias”, dirá ele, em 1958 (R. Aron, 1958:5). Apesar de ter sido favorável à independência da Indochina (primeira possessão colonial a se rebelar contra a França entre 1946/54), Aron só se manifestará sobre a questão colonial durante a guerra da Argélia. Consciente de que a França se desviava da dinâmica da própria história, ele justificará, posteriormente, seus “sentimentos anticolonialistas”. Segundo o autor, em termos racionais, a inevitável perda do império francês, no imediato pós-guerra, estaria ligada a dois fatores. Primeiro: a inexistência de meios materiais para conservá-lo, segundo: ao fato de que “a guerra feita em nome da liberdade, deveria excitar junto aos povos colonizados o espírito da revolta” (ARON, 1958: 11).

Se a partir de 1955, Aron se limitou a descrever a situação insurrecional da Argélia no jornal  Le Figaro, partidário da “Argélia francesa”, as verdadeiras reflexões sobre o “impasse argelino”, em forma de notas dirigidas ao governo, somente serão elaboradas em 1956. Esse conjunto de análises intencionalmente destinado à Frente Republicana (dos socialistas da IV República) será publicada em uma brochura intitulada La tragédie algérienne.

O interlocutor do poder

No entanto, Aron havia consagrado um capítulo do livro Espoir et peur du siècle, à perda do império, referindo-se ao “impasse argelino”. Os fundamentos da tese que ele defenderá em seguida encontram-se sintetizados nessa frase: “A única política eficaz se definiria pela promessa da independência e pelo estabelecimento de um calendário” (ARON, 1957: 200). Segundo ele, a perda  inelutável do império francês, nos anos 1950, explicava-se, por um lado, em razão dos “erros militares”, cometidos na Indochina e, por outro, em razão dos “erros políticos” cometidos, pela França, na Tunísia e no Marrocos. Esses mesmos malogros levariam os franceses a lutar para conservar sua “presença” na Argélia.

A eficácia da intervenção de Raymond Aron no debate sobre a descolonização – intervenção escrita em forma de defesa de uma tese – explica-se pela necessidade, segundo o próprio autor, de convencer e de dialogar com os políticos. Contrariamente aos demais “intelectuais engajados” que privilegiavam os pares intelectuais como seus interlocutores, Raymond Aron, por sua vez, na Tragédie Algérienne, privilegiará o poder político. Em suas memórias, publicadas em 1983, ele confirmará que altos funcionários, responsáveis por um relatório sobre a Argélia, entrarão em contato com ele no final do ano de 1957 (ARON, 1983: 369).

Com efeito, é graças a esse tipo de “engajamento político” – o de ser interlocutor do poder - que, nesse exato momento de conflito nacional, Aron reforçará sua posição enquanto intelectual. A eficácia simbólica da intervenção dos intelectuais no terreno político provém diretamente do “capital de reconhecimento” no interior mesmo do “campo” intelectual. Ora, o engajamento político dos intelectuais durante o conflito argelino fortaleceu a própria imagem desses intelectuais.

Fundamentando sua argumentação em favor da independência da Argélia, Raymond Aron foi um dos primeiros intelectuais, não pertencendo à correntes intelectuais da esquerda, que ousou escrever, “preto no branco”, a palavra, até então tabu, independência. 

Se suas constatações, de ordem político-histórico e sócio-econômico, evidenciaram, nesse momento, uma lucidez histórica, seus argumentos não revelaram nenhuma originalidade. A maior parte desses argumentos já havia sido exposta, de maneira mais fundamentada, por outros intelectuais, como Sartre, por exemplo[5]. Foi em função de duas teses opostas –  presença francesa na Argélia ou negociação do futuro dessa colônia – que Aron pretendeu defender a tese de uma inevitável independência para a Argélia. Mas, embora ele raciocinasse, nesse exato momento (1956/57), em termos de conseqüências e do longo prazo,  a partir do retorno de De Gaulle ao poder (maio de 1958), Aron manter-se-á na expectativa, ou seja, na espera de uma “renovação política”.

Convém salientar que a “Argélia francesa”, nutriu o imaginário social francês durante 130 anos. Após a perda de outras possessões ultramarinas, os ideais (feridos) de “grandeza da França”, cristalizados no inconsciente nacional, aguçaram a crença na “vocação africana da França”.  “Pessoalmente, afirma Aron, por razões morais assim como nacionais como universais, eu acredito na “missão” da França na África, eu acredito na “vocação” africana da França. Mas, nem essa missão nem essa vocação são compatíveis com a recusa aos povos da África do direito de se auto determinarem” (ARON, 1957: 50, 51). Aliás, os próprios adeptos do anticolonialismo – os intelectuais da esquerda moderada -, hesitaram, durante alguns anos, a reivindicar a independência como solução definitiva à questão argelina. Portadores de um ideal humanista, essa esfera de influência militou até o ano de 1960 pela idéia de reformas e de integração.

Insistindo sobre o fato de que as noções de “preservação pela força” e de “laços indissociáveis entre a França e a Argélia” eram contrárias aos “princípios” e aos “valores” da França (ARON, 1957: 10), Aron antecipou os sentimentos, não revelados publicamente, dos próprios políticos em relação à futura independência da Argélia. Mas, como ele mesmo afirmou, “os princípios políticos são a transfiguração das práticas, a justificação das vontades de potência”. Segundo Aron, reconhecer a “personalidade argelina” significava admitir o direito do povo argelino de se dotar de um “estado”, o que implicaria, em curto prazo, sua independência. Desejando, nesse início do ano de 1956, que as negociações fossem conduzidas pelos nacionalistas moderados em vista da “constituição de uma unidade política argelina”, Aron estimulou o diálogo entre a França e as elites argelinas. Na sua opinião, esse intercâmbio propiciaria, “pelo menos, a chance de uma solução intermediária entre a violência indefinida e a capitulação imediata”. Portanto, o reconhecimentos do direito à independência passaria a ser a condição necessária para toda e qualquer solução política. Recusando as falsas idéias difundidas sobre o declínio da França, em caso da “perda” da Argélia (argumento econômico freqüentemente utilizado pelos defensores da “Argélia francesa”), Aron utilizou provas “técnicas” para denunciar a hipocrisia daqueles que, embora contestando os “meios” e os “métodos” da guerra, não conceberam uma retirada das tropas francesas. Como Sartre, ele partilhava a idéia de que a continuação da política de “pacificação”, em outras palavras da guerra, constituiria um fardo econômico para a França. A colonização – “acidente histórico”, jamais teria sido indispensável ao desenvolvimento econômico dos países europeus, afirma Aron. De fato, historicamente falando, o colonialismo francês teria seria menos uma questão de interesse econômico do que uma concepção de glória nacional.

Utilizando dados demográficos e econômicos, Aron, na Tragédie Algérienne, tentou demonstrar a inconsistência da tese, defendida pela maioria dos franceses, da integração. Algumas constatações a confirmariam, primeira: o crescimento da população muçulmana, em parte explicado pela impossibilidade de se aplicar medidas malthusianas  na Argélia (em razão da poligamia) impediriam toda tentativa de se nivelar a vida das duas comunidades (francesa e argelina). Segunda: a ausência de uma industrialização na Argélia e a impossibilidade de se criar empregos, confirmariam a extrema dificuldade de se reduzir esses dois níveis de vida. Ora, a França foi incapaz de elevar o nível de vida da população muçulmana e de operar uma “simbiose” entre as duas economias. “Ela não conseguiu sequer encontrar uma via para a paz”.  Assim, tratando-se de grandes empreendimentos, da escolaridade, da legislação social, a Argélia “deve” ser submetida a um outro regime, diferente da França. A meu ver, as medidas necessárias só poderão ser adotadas pelos governantes argelinos. Não se trata da rebelião, mas, inicialmente, de fatos que obrigam a reconhecer uma nacionalidade argelina” (ARON, 1957: 45, 46).

Questionando sobre as conseqüências da política dita de “pacificação” em termos de relações futuras da França com o Marrocos e a Tunísia, a análise “aroniana” inscreve o acontecimento na perspectiva do longo prazo. Curiosamente, se ele condenou a parcialidade daqueles que acusaram o exército francês de ser responsável pelas atrocidades perpetradas na Argélia, ele se silenciou sobre as conseqüências morais da tortura, que segundo o mesmo “não tê[ve] o mérito de ser eficaz”.  Suscitando diferentes reações, a Tragédia Argelina não passou despercebida. Aron foi acusado, por um lado, de ceder ao “derrotismo econômico” e ao “fatalismo” e, por outro lado, de se lançar na via do modismo, sendo mesmo designado pelos atributos de “clareza glacial” e de “aridez intelectual abstrata”.

Uma lógica de persuasão?

Retomando suas idéias anteriores, Aron exprime em L’Algérie et la République (1958) sua recusa pelo reformismo e pela política de integração francesa. Adepto de uma negociação, ele considera o retorno de De Gaulle ao poder um fator positivo e uma forma de “renovação política”. Interessado, a partir de então, em apreender os novos acontecimentos, Aron reivindica uma postura crítica de observador, em princípio, favorável à política conduzida pelo presidente da V República.

No entanto, em suas Memórias (1983) Aron nuança seu julgamento sobre a política argelina de De Gaulle. Segundo o autor, as fórmulas que ele próprio utilizava eram pouco claras e um tanto ambíguas. Na verdade, ele interrogava-se sobre o perigo de uma extrema personalização do poder e sobre o risco de desabamento do “edifício constitucional”, criado por De Gaulle.  Ao longo do ano 1960, ele se interroga sobre a lentidão das negociações, sobre a estratégia “hábil” adotada pelo presidente visando a retardar a negociação política, a recusar o diálogo, a não explicitar sua política, enfim a prolongar a guerra.

Enquanto L’Tragédie Algérienne lança Raymond Aron nas arenas da política revelando suas veias contestatórias, L’Argélie et la République, atesta, sem dúvida, os limites de uma pretensa consciência crítica. Criptogaullista ou adepto do gaullismo? Aron parece hesitar entre a sua fidelidade ao general e o seu papel de “observados engajado”.

Hostil a toda idéia de ruptura do “pacto nacional”, Raymond Aron desaprova a iniciativa dos intelectuais de esquerda em favor do direito de insubmissão (dos soldados franceses e do apoio às redes de ajuda ao FLN), recusando a assinar a famosa petição ou o “Manifesto dos 121” [6] Em suas Memórias, ele declara que, encontrando-se nesse momento (dezembro de 1960) em Harvard, ele tenta persuadir os universitários americanos, simpatizantes dos “121”, de não assinarem essa petição.  Mas, ele não hesitará a assinar o contra-manifesto, mais moderado, intitulado “Para uma paz negociada na Argélia”.

Se, durante a guerra da Argélia, a luta contra a colonização mobilizou a ação dos intelectuais (em grande maioria da esquerda), a defesa da independência só concerniu uma minoria, constituída por sartristas e progressistas. Na verdade, a evolução gradativa da classe intelectual em relação à questão argelina, provocando adesões e divisões na opinião pública, parece ser concomitante à própria evolução da sociedade francesa.

Distanciado de toda forma de ação militante, Raymond Aron se serviu de meios restritos, mas, talvez eficazes, para convencer a classe política do  inelutável processo histórico de descolonização. No entanto, o engajamento dos intelectuais contra a guerra da Argélia foi ditado em função de uma concepção idealista da França cuja representação se fez de maneira diferente. Se, para defender uma “imagem” da França, denegrida por essa guerra, Aron justificou sua “ação”, para combater uma mesma “imagem”, simbolizando opressão e “fascismo”, Sartre se engajou contra essa guerra.

________

[1] No contexto brasileiro, o discurso atual sobre “o silêncio dos intelectuais”, por exemplo, tem revelado  ambigüidades e maniqueísmos. Silêncio em razão de engajamentos partidários, de não engajamentos? Silêncio por conveniência? Silêncio justificado pelas “incertezas” do tempo presente? Mas esse é um outro debate que foge aos limites desse artigo.

[2] L’opium des intellectuels. Paris, Hachette – Pluriel, 1955.        

[3] R.Aron, L’introductuion à la philosophie politique, Paris, Gallimard, 1938.

[4] Cf., Raymond Aron. Le spectateur engagé – entretiens avec Jean-Louis Missika et Dominique Wolton. Paris, Julliard, 1981.

[5] Cf. Sartre, “O colonialismo é um sistema”; In: Les Temps Modernes, avril 1956.

[6] Petição publicada, em dezembro de 1960, por um grupo de, inicialmente, 121 intelectuais e artistas em favor da submissão dos jovens convocados a combaterem na Argélia e do apóio às redes de ajuda ao FLN (Frente de Liberação Nacional).

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico 

Referências bibliográficas

ARON, Raymond. Espoir et Peur du Siècle, Paris, Calmann-Lévy, 1957.

_____. L’Algérie et la République, Paris, Plon, 1958.

_____. La Tragédie Algérienne, Paris, Plon, 1957.

_____. L’introduction à la philosophie de l’histoire – essai sur les limites de l’objectivité, Paris, Gallimard, 1938.

_____. Mémoires, Paris, Julliard, 1983.

 

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2006 - Todos os direitos reservados