BEZERRA,
Wagner. Acorrentados, a fábula da TV. Rio de
Janeiro: Letra Legal, 2006 (52p.) Home Page: http://www.letralegal.com.br
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“Acorrentados:
a fábula da TV”
“Acorrentados...”
é uma inteligente adaptação da alegoria do livro VII, de Platão,
onde o autor, Wagner Bezerra, cria uma fábula problematizando a
relação do telespectador infanto-juvenil e adulto com a programação
da TV.
Em
vez de cair numa atitude fácil, maniqueísta e “demonizadora”
da televisão, o caminho tomado pelo narrador visa alertar
principalmente as crianças e adolescentes, sobre sua condição
de prisioneiro das imagens, isto é, a possibilidade de eles
estarem acorrentados ao lixo das programações televisivas.
O
que é lixo televisivo? São os programas que tentam passar por
bons, mas, na verdade, são vazios de valores éticos, de
conhecimento, de conteúdo crítico e reflexivo. Por exemplo,
programas que mostram casais brigando; programas que fazem
fofocas, as famosas pegadinhas que no fundo são brincadeiras de
mau gosto porque zombam da dignidade das pessoas; programas que não
respeitam especialmente o público infantil, apresentando, em
qualquer horário, cenas terríveis de violência gratuita;
programas que ficam o tempo todo dizendo que você tem que comprar
uma série de bugigangas que, na maioria das vezes, você nem sabe
bem qual é sua verdadeira utilidade, mas que, só porque saiu na
TV, todo mundo quer comprar, todos podem ser considerados
“lixo” televisivo. Ou seja, são os programas
que desrespeitam a inteligência do telespectador que, em muitos
casos, faz com que ele passe o dia inteiro diante da TV,
contemplando as sombras como se elas tivessem vida, assim como
faziam os acorrentados (p. 29).
No
livro, os personagens inspirados na obra de Platão, podem muito
bem funcionar como uma espécie de educomunicação,
ou seja, algo com o propósito de ser uma forma de “educação
para os meios de comunicação”.
Se
é verdade que “a televisão é 100% educação”, também é
verdade que os pais e professores podem promover entre crianças,
jovens e adultos, debates sobre os efeitos negativos e positivos
que este veículo causa. A educomunicação consiste que pais e
professores assumam o compromisso de preparar principalmente as
crianças e jovens para desenvolverem uma atitude seletiva, crítica
e discursiva discutindo entre si as cenas de violência, sexo
gratuito e doutrinações religiosas, comumente oferecidas na
televisão.
Todavia,
como qualquer livro de ficção, “Acorrentados”, não tem
poder suficiente para transformar a passividade alienante das
crianças, jovens e adultos, em ativismo político, mesmo que
estes sejam bons leitores sustentados num projeto para mudar a
sociedade. Creio que superamos, parcialmente, aquela concepção
romântica convicta que a leitura de autores revolucionários
podia mostrar o caminho para mudança da sociedade, isto porque,
tal transformação radical depende, sobretudo, dos fatores histórico-políticos
e sociais. Platão, o inspirador de “Acorrentados” era
idealista, mas, o materialismo de Marx e Lênin, era consciente e
militante; para esses últimos, não bastava formar uma vanguarda
revolucionária instruída de leituras, mas sim, agir-com-razão,
com projeto revolucionário, porque só a prática da luta pode-se
testar a verdade da teoria.
Entendo
que existem dois tipos de acorrentados: um, está tão preso às
imagens que recebe da mídia, que não se dá conta da importância
do ato de ler livros ou freqüentar uma biblioteca; são pessoas
que vivem, há muito tempo, acomodadas ao seu mundinho de ilusões,
crenças e convicções que “nem percebem a sua real condição
de prisioneiros”. Outro, acorrentado a uma teoria dogmatizada ou
esclerosada, que, mesmo assim, faz uso dela como resposta abstrata
para todos os males e problemas que aflige a humanidade. A abstração
dos conceitos e categorias proporciona a essas pessoas um mais-gozar
conceitual, recusando fazer uma “dialética do concreto” (Kosik,
1976).
Com
prudência, vale a pena investir concretamente na reeducação das
novas gerações para evitar que se tornem escravas do consumismo,
do hedonismo, ou do totalitarismo da coisa “única” de só
assistir um único
canal, um único tipo de
programa, ou ter uma única
atitude sectária ou ignorante como aquela que visa impedir os
filhos assistirem televisão para não ficarem ‘alienados’.
Numa sociedade cujos laços humanos são cada vez mais frágeis ou
“líquidos” (Bauman, 2005) é imprescindível empreender uma
aventura do conhecimento para além de um “único” assunto, de
um único autor, de um único
sistema político, de um único
método, de um único
meio de comunicação, etc.
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Sobre
o autor:
Wagner
Bezerra é redator e diretor de criação publicitária, diretor
e roteirista de programas educativos para TV e
especialista em políticas públicas pela Escola de Políticas
Públicas e Governo da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). Autor do livro Manual do Telespectador
Insatisfeito (Ed. Summus, 1999), e de artigos publicados
na revista www.espacoacademico.com.br |