Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

 

Michelle PERROT, As mulheres ou os silêncios da História. Bauru, Edusc, 2005, 520 p.

Mulheres fazendo a História

 

Começando pelo título, no livro As mulheres ou os silêncios da história, Michelle Perrot expressa toda sua paixão ao demonstrar que “as mulheres” são um sexo inteiro, sem discussões e distinções. Já na introdução, elegantemente inspirada em “A história das mulheres no Ocidente” [1] – considerada, por Perrot, a primeira tentativa de síntese de pesquisas que se desenvolviam intensamente, percebemos que a palavra “mulheres” não tem nada de genérico, mas é objeto de discurso e sujeito do saber.

A obra, composta de 25 artigos publicados entre 1974 e 1997, dos quais 11 são dos anos 90, no original, está dividida em: a - Introdução; b - cinco divisões temáticas, sendo a I – Traces (Traços), subdividida em cinco textos; a II - Femmes au travail (Mulheres no trabalho), em seis; a III – Femmes dans la cité (Mulheres na cidadania), em cinco; a IV – Figures (Figuras), em dois, e a V – Débats (Debates), em sete; c - Notas; d - Bibliografia; e - Índice.[2]

Respeitando todos os protagonistas da história do feminismo dos anos 70, Perrot reconhece a dívida que a história das mulheres tem diante de grandes representantes da disciplina histórica na França como, por exemplo, Georges Duby. Ela não deixa de citar, além dele, vários personagens que atuaram na história do feminismo, com maior ou menor intensidade. Bem como o colóquio de 1973, em Jussieu que, juntamente com Fabienne Bock, intitulou “As mulheres têm uma história?”.

A autora apresenta a história da mulher como marcada pelo silêncio tendo, contudo, formas variadas de resistência feminina, muitas vezes representadas por táticas inconscientes que se tornaram rituais de comportamento. Ela cita, entre outros, o hábito de escrever cartas e diários, os quais acabaram sendo uma fonte documentária para a história da rotina da mulher, uma autêntica referência de como pensavam as mulheres em determinadas épocas, qual era sua relação com Deus, com os outros e consigo mesma. Uma forma silenciosa de manifestação que veio mais tarde, quebrar esse silêncio.

Temos essas duas formas originais de expressão feminina, aqui, especificamente, do final do século XIX, na primeira parte do livro, intitulada Traços que compreende as introduções às cartas das filhas de Karl Marx e os escritos de Caroline Brame.

Entretanto, a quebra desse silêncio ao qual as mulheres foram submetidas pela História que conta a “história do homem pelo homem”, não se encaminhou para uma só direção, mas foi estruturada em círculos concêntricos com repercussões múltiplas, como uma pedra jogada ao rio, onde as pessoas que seguiram esses traços também estão inseridas nesse círculo.

Na segunda parte, Mulheres no trabalho, é sublinhado o antifeminismo profundo dos trabalhadores franceses que querem as mulheres nos lares; o fato que o trabalho assalariado e a mecanização não emancipam a maioria das operárias do século XIX; e a desvalorização do trabalho doméstico induzido pelo desenvolvimento do emprego fora do lar. Além disso, temos aqui a conclusões revolucionárias dos anos 70, onde era corajoso criticar o movimento operário ou a esquerda política; e as críticas masculinas intitulando as mulheres operárias de “rebeldes”.

Mulheres na cidadania, a terceira divisão da obra, explana a pesquisa francesa na história das mulheres que, sob o impulso do bicentenário da Revolução Francesa e da reivindicação da paridade política, deslocou-se do privado para o público. Encontram-se, aqui, citações de historiadores anglófonos que se interessaram pela política dos sexos na França. Esse trabalho tenta constatar que não houve somente uma via percorrida no desenrolar da história das mulheres francesas e, que os pesquisadores estrangeiros trouxeram contribuições importantes que são, freqüentemente, ignoradas.

Na penúltima parte, Figuras, temos dois ensaios onde a historiadora fala das individualidades femininas, ainda que o leitor possa perceber a ausência de interesse pelos detalhes da história política e pelos homens políticos contemporâneos, como faziam, geralmente, os pesquisadores e pesquisadoras francesas, durante anos.

Desembocamos, assim, na última parte da coletânea, Debate, onde deparamo-nos com Michel Foucault, discussões sobre as guerras, a violência sexual, as imagens, a dicotomia “publico-privado”, a questão da possibilidade para as mulheres de serem sujeito da história e, assim, escrever a história das mulheres. Aqui, vale a pena ressaltar a questão identitária, discutida no texto Identidade, igualdade, diferença – o olhar da história onde afirma que a questão da identidade cruza com as da igualdade e da diferença quando a reivindicação de cidadania se apóia sobre o direito das mulheres de serem representadas enquanto tais, em nome de sua especificidade, onde a consciência de gênero pode desembocar na análise de desigualdade.

Temos, no decorrer da leitura, a possibilidade de compreender o trajeto historiográfico que informa sobre as preocupações e limites que estruturaram a escrita da história das mulheres na França desde 1970, investigando, inclusive, textos antecedentes a esta data. Em alguns momentos, temos a impressão de ter histórias cansativas e banais, porém, constatamos que isso se dá pelo fato de que a história feminina, vítima do silêncio, foi contada, rotineiramente, com fatos vividos por mulheres comuns, no contexto de uma determinada época. O livro é instrutivo e de grande importância para quem se interessa pela história da mulher.

 

Fonte:

www.clio.revues.org

www.france-mail-forum.de

 

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[1] G. DUBY e M. PERROT(org.), Histoire des femmes en Occident, 5 v., Paris, Plon, 1991-1992.

[2] Por falta de acesso à tradução de língua portuguesa, foram citadas as divisões do texto no original. (Perrot, Michelle, Les femmes ou les silences de l’histoire, Paris, Flammarion, 1998). Tradução nossa.

 

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