Michelle
PERROT, As mulheres ou os silêncios da História. Bauru,
Edusc, 2005, 520 p.
Mulheres
fazendo a História
Começando
pelo título, no livro As mulheres ou os silêncios da história,
Michelle Perrot expressa toda sua paixão ao demonstrar que “as
mulheres” são um sexo inteiro, sem discussões e distinções. Já
na introdução, elegantemente inspirada em “A história das
mulheres no Ocidente”
– considerada, por Perrot, a primeira tentativa de síntese de
pesquisas que se desenvolviam intensamente, percebemos que a palavra
“mulheres” não tem nada de genérico, mas é objeto de discurso
e sujeito do saber.
A
obra, composta de 25 artigos publicados entre 1974 e 1997, dos quais
11 são dos anos 90, no original, está dividida em: a - Introdução;
b - cinco divisões temáticas, sendo a I – Traces (
Traços),
subdividida em cinco textos; a II - Femmes au travail (Mulheres
no trabalho), em seis;
a III – Femmes dans la cité (Mulheres na cidadania),
em cinco; a IV – Figures (Figuras), em
dois, e a V – Débats (Debates), em sete; c - Notas; d -
Bibliografia; e - Índice.
Respeitando
todos os protagonistas da história do feminismo dos anos 70, Perrot
reconhece a dívida que a história das mulheres tem diante de
grandes representantes da disciplina histórica na França como, por
exemplo, Georges Duby. Ela não deixa de citar, além dele, vários
personagens que atuaram na história do feminismo, com maior ou
menor intensidade. Bem como o colóquio de 1973, em Jussieu que,
juntamente com Fabienne Bock, intitulou “As mulheres têm uma
história?”.
A
autora apresenta a história da mulher como marcada pelo silêncio
tendo, contudo, formas variadas de resistência feminina, muitas
vezes representadas por táticas inconscientes que se tornaram
rituais de comportamento. Ela cita, entre outros, o hábito de
escrever cartas e diários, os quais acabaram sendo uma fonte
documentária para a história da rotina da mulher, uma autêntica
referência de como pensavam as mulheres em determinadas épocas,
qual era sua relação com Deus, com os outros e consigo mesma. Uma
forma silenciosa de manifestação que veio mais tarde, quebrar esse
silêncio.
Temos
essas duas formas originais de expressão feminina, aqui,
especificamente, do final do século XIX, na primeira parte do
livro, intitulada Traços que compreende as introduções às
cartas das filhas de Karl Marx e os escritos de Caroline Brame.
Entretanto,
a quebra desse silêncio ao qual as mulheres foram submetidas pela
História que conta a “história do homem pelo homem”, não se
encaminhou para uma só direção, mas foi estruturada em círculos
concêntricos com repercussões múltiplas, como uma pedra jogada ao
rio, onde as pessoas que seguiram esses traços também estão
inseridas nesse círculo.
Na
segunda parte, Mulheres no trabalho, é sublinhado o
antifeminismo profundo dos trabalhadores franceses que querem as
mulheres nos lares; o fato que o trabalho assalariado e a mecanização
não emancipam a maioria das operárias do século XIX; e a
desvalorização do trabalho doméstico induzido pelo
desenvolvimento do emprego fora do lar. Além disso, temos aqui a
conclusões revolucionárias dos anos 70, onde era corajoso criticar
o movimento operário ou a esquerda política; e as críticas
masculinas intitulando as mulheres operárias de “rebeldes”.
Mulheres
na cidadania, a
terceira divisão da obra, explana a pesquisa francesa na história
das mulheres que, sob o impulso do bicentenário da Revolução
Francesa e da reivindicação da paridade política, deslocou-se do
privado para o público. Encontram-se, aqui, citações de
historiadores anglófonos que se interessaram pela política dos
sexos na França. Esse trabalho tenta constatar que não houve
somente uma via percorrida no desenrolar da história das mulheres
francesas e, que os pesquisadores estrangeiros trouxeram contribuições
importantes que são, freqüentemente, ignoradas.
Na
penúltima parte, Figuras, temos dois ensaios onde a
historiadora fala das individualidades femininas, ainda que o leitor
possa perceber a ausência de interesse pelos detalhes da história
política e pelos homens políticos contemporâneos, como faziam,
geralmente, os pesquisadores e pesquisadoras francesas, durante
anos.
Desembocamos,
assim, na última parte da coletânea, Debate, onde
deparamo-nos com Michel Foucault, discussões sobre as guerras, a
violência sexual, as imagens, a dicotomia “publico-privado”, a
questão da possibilidade para as mulheres de serem sujeito da história
e, assim, escrever a história das mulheres. Aqui, vale a pena
ressaltar a questão identitária, discutida no texto Identidade,
igualdade, diferença – o olhar da história onde afirma que a
questão da identidade cruza com as da igualdade e da diferença
quando a reivindicação de cidadania se apóia sobre o direito das
mulheres de serem representadas enquanto tais, em nome de sua
especificidade, onde a consciência de gênero pode desembocar na análise
de desigualdade.
Temos,
no decorrer da leitura, a possibilidade de compreender o trajeto
historiográfico que informa sobre as preocupações e limites que
estruturaram a escrita da história das mulheres na França desde
1970, investigando, inclusive, textos antecedentes a esta data. Em
alguns momentos, temos a impressão de ter histórias cansativas e
banais, porém, constatamos que isso se dá pelo fato de que a história
feminina, vítima do silêncio, foi contada, rotineiramente, com
fatos vividos por mulheres comuns, no contexto de uma determinada época.
O livro é instrutivo e de grande importância para quem se
interessa pela história da mulher.
Fonte:
www.clio.revues.org
www.france-mail-forum.de