por CARLOS BATISTA PRADO

Graduado em História pela Universidade Católica Dom Bosco

 

 

A interpretação do pensamento de Marx na obra de Che Guevara

 

O Comandante guerrilheiro Che Guevara é conhecido de todos, menos conhecido e difundido são seus estudos e sua interpretação sistemática do marxismo. Citando e dialogando entre alguns autores da bibliografia pertinente ao tema, este artigo pretende esboçar um debate bibliográfico que elege como objeto de estudo a interpretação de Guevara sobre os escritos de Marx.

No debate sobre as premissas fundamentais que constituem o pensamento de Che, existe um consenso entre alguns autores, ao analisarem que sua interpretação do pensamento marxiano se forja da análise das condições objetivas de Cuba. Como afirma Florestan Fernandes:

Não é o “jovem Marx” que retorna transfigurado. É Cuba que forja sua própria versão do socialismo, nos moldes intelectuais das nações proletárias do século XX. O Che Guevara tentou fazer uma reciclagem utópico-ideológica da revolução cubana ex post facto, à luz do marxismo. (FENANDES, 1979, p.146).

O que merece singular realce nessa passagem é que o autor elucida que mediante a análise e interpretação desses textos, Guevara foi criador e interpretou o pensamento marxiano dentro de uma realidade subdesenvolvida e latino-americana, por meio de uma investigação concreta das particularidades da ilha caribenha.

Em 1959, após o triunfo dos rebeldes em Cuba, os dirigentes da revolução se viram obrigados a abrir novos caminhos para a construção do socialismo na ilha. Partindo do princípio que toda Revolução é um fenômeno histórico heterodoxo, a vanguarda revolucionária, na qual incluímos Che Guevara, não podia cair no equívoco de aplicar na sociedade cubana a experiência de outros países socialistas, cuja realidade objetiva não era a mesma. Sobre essa questão em discussão Fernando Martinez Heredia escreve:

La Revolución tuvo que aprender que también en el terreno das ideas debía ser creativa, porque del mismo modo que nadie nos hizo la revolución – nadie puede hacerle a otro la revolución – el ámbito latinoamericano exigía fundaciones del pensamiento marxista leninista que acudiendo también al legado originario del marxismo, produjem sus propias interpretaciones de sus realidades, suas vías y sus sueños, sin temor a romper ninguno de los moldes estabelecidos. (HEREDIA, 1989, p. 58)

O autor fala nitidamente da necessidade de interpretar os escritos de Marx sem deixar de examinar por nenhum instante as especificidades regionais. Cuba trazia em seus aspectos políticos, sociais e econômicos, características peculiares que a diferenciava da experiência de outros países socialistas do século XX. Dentro desta perspectiva, Cuba acabou por forjar um novo socialismo, já que este não possui formulas prontas ou regras gerais, que podem ser facilmente copiadas e aplicadas em diferentes países.

Na obra “O pensamento de Che Guevara”, Michael Löwy avança na análise dessa interpretação que Che faz do pensamento de Marx sobre uma nova realidade.

Em Guevara encontra-se, pois, uma experiência aguda da necessidade de um desenvolvimento criador do marxismo-leninismo, (...) Tal fato não significa, de modo algum, que o pensamento de Che não fosse ortodoxo no pleno sentido da palavra, isto é, construído a partir dos princípios fundamentais do marxismo revolucionário e do método dialético materialista. (LÖWY, 2003, p. 28).

Essa citação de Löwy avança no sentido em que ele diz que a concepção de Che não parte de interpretações do pensamento de outros marxistas do século XX, mas sim do pensamento de Marx, portanto, constitui um pensamento ortodoxo. Além disso, o autor confirma a passagem de Florestan e Heredia, ao salientar que a concepção Guevariana surge mediante uma investigação materialista e dialética das particularidades cubanas, Che interpretou os escritos do jovem Marx dentro as condições concretas de Cuba.

Depois desses esclarecimentos preliminares, uma questão precisa ser suscitada. Quais são os pontos exatos e conceitos desenvolvidos por Marx e interpretados por Che em uma nova realidade? Sobre essas questões, Eder Sader nos traz algumas respostas. Ele elucida que Che Guevara:

Retomando os “Manuscritos econômicos-filosóficos”, se funda na concepção marxista do comunismo como “solução do conflito entre o homem e a natureza e do homem com o homem”, como processo de real apropriação de sua essência e, portanto, como fenômeno consciente. (...) Retornando assim à concepção original de Marx, ele afirma que o comunismo não pode ser, o resultado “objetivo” do desenvolvimento econômico sob um Estado socialista”, mas somente o processo pelo qual a humanidade se apropria de seu social. (SADER, 1981, p.24)

Nessa passagem o autor discute sobre a relação entre a concepção humanista de Che Guevara e o pensamento de Marx. Guevara escreve que no socialismo o homem deve desenvolver uma nova consciência, para poder avançar na construção da sociedade revolucionária. Em seus estudos, Che parte da compreensão de que não se pode chegar ao comunismo mediante apenas o crescimento, o desenvolvimento e a nacionalização das forças produtivas. Ele afirma que: “Para construir o comunismo, simultaneamente com a base material tem que se fazer o homem novo.” (GUEVARA, 2005, p.51). Portanto, sua concepção ressalta que a sociedade cubana deveria forjar um novo indivíduo, e este seria a negação dialética do homem alienado, soterrado pelo pensamento individualista burguês do capitalismo.

O marxismo de Che está enraizada na compreensão do significado humano do comunismo. Löwy escreveu que:

É como humanista que Che sublinha a originalidade e a importância da revolução cubana, que tentou construir “um sistema marxista, socialmente, coerente, ou o mais coerente possível, no qual o homem foi colocado no centro, no qual se fala do indivíduo, da pessoa e da importância que ela tem como fator essencial da revolução. (LÖWY, 2003, p. 29).

Essa citação afirma que o pensamento de Che coloca o homem no centro da construção do socialismo. É essa ação humana que transforma as condições objetivas, que muda uma realidade conhecida, que modifica as relações de produção e reprodução, as quais os homens são submetidos. E mediante essas transformações, também se forja outro pensamento, novas idéias surgem, ou seja, a consciência também ganha nova forma.

Portanto, o homem do qual Marx e Engels falam e Guevara retoma essa interpretação é o homem em revolução constante, por meio de uma prática, que está estreitamente ligada à atividade material. Che retoma o pensamento de Marx na análise do papel do homem em sua ação revolucionária, entendido como ser social que transforma a si mesmo, concomitantemente com a transformação da sociedade, em outras palavras, são os homens que mediante a luta de classes movem o ambiente histórico.

Na discussão sobre a interpretação da realidade cubana, e o marxismo ortodoxo de Che Guevara, Florestan Fernandes afirmou que:

O trabalho coletivo desponta como o alfa e ômega da revolução: só ele poderia alimentar os fluxos da acumulação socialista a partir da agricultura. Aí está o segredo do porque aquele pensamento se voltou tão decididamente, mesmo no que ele possuía de mais abstrato e sistematizado, para o ser humano como o começo e o fim de todas as coisas. (FERNANDES, 1979, p.146).

O que há de mais notável na passagem de Florestan é a clara importância que o trabalho e o homem tem na construção do socialismo na concepção de Guevara. Ele observou que o pensamento humanista de Che foi elaborado sob as perspectivas de um país latino-americano e subdesenvolvido. Portanto, um país como Cuba, que não havia desenvolvido suas forças produtivas, que era essencialmente agrário, precisaria se apoiar no trabalho coletivo para se desenvolver.

Sobre a interpretação que Guevara faz sobre os textos de Marx, Engels e Lênin, Michael Löwy argumentou que:

Uma das qualidades essenciais do marxismo de Che é o seu caráter apaixonadamente antidogmático. (...) Guevara se queixa de vários renascimentos da “escolástica que refreou o desenvolvimento da filosofia marxista” e que se sistematicamente impediu mesmo o estudo do período da construção do socialismo. (LÖWY, 2003, p. 26-27).

O autor elucidou o caráter antidogmático do pensamento de Guevara. Sua concepção apareceu como uma crítica à escolástica, ou seja, contra as concepções stalinistas e contra a interpretação do marxismo como teses cristalizadas, concebidas como verdades absolutas e imóveis. Che concebia o marxismo não como um corpo teórico sólido e imutável, mas como uma ciência que deve se desenvolver em função da análise da realidade objetiva a qual ela será aplicada. Portanto, Guevara em seus estudos sobre as idéias econômicas e políticas ultrapassa os limites da metodologia staliana, no que é referente ao processo de transição socialista.

Ele sabia que Cuba constituiria uma experiência nova e única, na qual se deveria combater o caráter escolástico e dogmático da teoria política e econômica da URSS. Criticando o stalinismo e ressaltando a necessidade de pensar em novos caminhos para o socialismo, Che Guevara escreveu:

(...) o escolasticismo que freou o desenvolvimento da filosofia marxista e impediu o tratamento sistemático do período, cuja economia política não se desenvolveu, devemos convir que ainda estamos no berço e que é preciso dedicar-se a investigar todas as características primordiais deste período antes de elaborar uma teoria econômica e política de maior alcance. (GUEVARA, 2005, p. 56).

Nessa passagem Che crítica o caráter dogmático que dominava a sistematização política e econômica da construção do socialismo do modelo soviético. Sua argumentação segue analisando que, existe uma clara necessidade de investigar minuciosamente todas as características peculiares da realidade concreta desse período, para que se possam evitar erros e teorizar os caminhos corretos a seguir.

Verificamos então que o marxismo de Che parte de uma investigação dos textos marxianos, analisando esse aspecto seu pensamento é ortodoxo, pois, foi construído mediante a análise das premissas fundamentais expostas nos estudos do jovem Marx. Para Guevara foi natural que o homem ocupasse um papel central na construção do socialismo em Cuba. Ele elucida que não basta transformar a base econômica da sociedade em transição é preciso simultaneamente construir um homem novo, desprovido dos valores da sociedade pré-revolucionária.

O pensamento de Guevara desafiou as estruturas, sua concepção surgiu como uma crítica ao dogmatismo, na medida em que não compreendia as teses de Marx como imutáveis ou cristalizadas. Nessa perspectiva Guevara mediante análise sistemática da realidade objetiva de Cuba, desenvolveu um modelo de transição para sua época.

 

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Bibliografia

FENANDES, Florestan. Da guerrilha ao socialismo: a revolução cubana. São Paulo: Tao, 1979.

GUEVARA, Che: Socialismo e juventude. São Paulo: Anita Garibaldi, 2005.

HEREDIA, Fernando Martinez. Ché, el socialismo y el comunismo. Casa de las Américas: Habana, 1989.

LÖWY, Michel. O pensamento de Che Guevara. 5 ed. Expressão Popular: São Paulo, 2003.

SADER, Eder (Org.). Che Guevara. São Paulo: Ática, 1981

 

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