por SIMONE PESSOA

Mestre em Administração de Empresas e autora de “Dissertação não é bicho-papão” (Editora Rocco, 2005) e “Crônicas de uma mulher (quase) madura” (em editoração pela mesma editora)

 

 

Mulher: diferença na igualdade

 

Antes confinada ao restrito âmbito doméstico, dia a dia a mulher conquista mais e mais espaço no mundo público. Trabalhadora diferenciada, atua nas mais diversas profissões. De motorista de caminhão a astronauta, praticamente não há área em que não caiba a mulher tanto quanto o homem.

No trato familiar houve avanços tanto da mulher quanto do homem. O fato de a mulher também compartilhar o ganha-pão na atividade laboral fora de casa  desobrigou-a de centralizar toda a responsabilidade com a casa, impelindo o homem a uma maior participação na vida doméstica, sobretudo na convivência com os filhos.

Nas relações afetivas, ainda há muito a evoluir. Há séculos a sociedade credita ao homem o protagonismo nos relacionamentos amorosos. A ele é concedida uma certa complacência quanto à traição conjugal. Já à mulher, antes, como atualmente, é inaceitável a infidelidade.

A tendência, entretanto, é a igualdade de direitos, tácitos ou explícitos. Mulher e homem poderão, sem restrições, alternar papéis de acordo com a situação e a oportunidade. Essa cumplicidade irá aproximá-los, de maneira que o respeito e a consideração serão cada vez mais ampliados.

Contudo, a natureza definiu regras imutáveis a que a humanidade tem que se submeter, a despeito dessa tendência igualitária. À mulher coube a missão de gestatória da vida. Ao serem gerados no útero materno durante nove meses, os filhos provocam na mulher toda sorte de transformações hormonais, que culminam com o nascimento do bebê, seguindo-se de sua amamentação.

A maternidade, portanto, é privilégio biologicamente intransferível do gênero feminino, de modo que, por mais que o homem possa pleiteá-la, jamais poderá conquistá-lo. Isso não o impede de ficar mais próximo da mulher, e acompanhar pari passu o desenvolvimento do rebento. Aliás, esse comportamento, impensável algumas décadas atrás, é cada dia mais comum.

Mesmo fora da gestação ou do período de aleitamento, a natureza lembra, por meio da menstruação, a inegável diferença da mulher. Todo mês ela é acometida de TPM (tensão pré-menstrual), momento em que seu organismo desmobiliza a engrenagem que seria utilizada para a concepção. Nesse processo, geralmente a mulher se ressente, o que reflete em seu humor, ou, para ser mais precisa, no seu mau-humor.

Daí a mulher precisar ir com freqüência ao ginecologista, para ser examinada em sua total intimidade. Desde cedo, portanto, a mulher tem que enfrentar seus pudores, e se entregar de corpo e alma à expiação alheia.

Submeter-se às exigências sociais, portanto, parece ter sido o caminho quase instintivo. Equilibrar-se em saltos altíssimos, passar horas no gabinete de beleza tentando estirar à força o cabelo ou tingi-lo de loiro, quando sua natureza é outra, ou desfilar ostentando fivelas, pulseiras, anéis, colares, brincos, fitas, bolsas e toda sorte de acessórios espalhados pelo corpo, qual uma ambulante, foram hábitos absorvidos sem maiores resistências (pelo menos para a maioria).

Assim, esse arcabouço diferencial condicionou a mulher a assumir responsabilidades, à propensão para aceitação, à doação e à generosidade, características que remontam aos tempos das cavernas, quando se encarregava da prole e do lar, para viabilizar que o seu companheiro ganhasse as florestas em busca da caça.

Hoje, a despeito do anacronismo da igreja, a mulher atrai para si, a cada dia mais, papéis sociais estratégicos. Ainda não lhe é permitido celebrar uma missa, é bem verdade; mas ela já preside nações. Receptiva, sensível, apta ao acolhimento, a mulher detém plena capacidade de influenciar o mundo e conceder-lhe novas visões e valores.

Com o crédito de quem muito se doou, agora a mulher quer reciprocidade. Quer tempo para si, quer espaço, quer respeito, quer carinho e reconhecimento. E ninguém melhor que o homem está percebendo esses reclamos. Ainda atordoado, é fato; mas pouco a pouco ele assimila essa tendência inexorável.

Que o côncavo e o convexo compreendam suas igualdades e diferenças, para se encaixarem perfeitamente em sua complementaridade. Afinal, como diria Simone de Beauvoir, “os que tanto falam de ‘igualdade na diferença’ mostrar-se-iam de má-fé em não admitir que possam existir diferenças na igualdade”.

 

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