Mulher:
diferença na igualdade
Antes
confinada ao restrito âmbito doméstico, dia a dia a mulher
conquista mais e mais espaço no mundo público. Trabalhadora
diferenciada, atua nas mais diversas profissões. De motorista de
caminhão a astronauta, praticamente não há área em que não
caiba a mulher tanto quanto o homem.
No
trato familiar houve avanços tanto da mulher quanto do homem. O
fato de a mulher também compartilhar o ganha-pão na atividade
laboral fora de casa desobrigou-a
de centralizar toda a responsabilidade com a casa, impelindo o homem
a uma maior participação na vida doméstica, sobretudo na convivência
com os filhos.
Nas
relações afetivas, ainda há muito a evoluir. Há séculos a
sociedade credita ao homem o protagonismo nos relacionamentos
amorosos. A ele é concedida uma certa complacência quanto à traição
conjugal. Já à mulher, antes, como atualmente, é inaceitável a
infidelidade.
A
tendência, entretanto, é a igualdade de direitos, tácitos ou explícitos.
Mulher e homem poderão, sem restrições, alternar papéis de
acordo com a situação e a oportunidade. Essa cumplicidade irá
aproximá-los, de maneira que o respeito e a consideração serão
cada vez mais ampliados.
Contudo,
a natureza definiu regras imutáveis a que a humanidade tem que se
submeter, a despeito dessa tendência igualitária. À mulher coube
a missão de gestatória da vida. Ao serem gerados no útero materno
durante nove meses, os filhos provocam na mulher toda sorte de
transformações hormonais, que culminam com o nascimento do bebê,
seguindo-se de sua amamentação.
A
maternidade, portanto, é privilégio biologicamente intransferível
do gênero feminino, de modo que, por mais que o homem possa pleiteá-la,
jamais poderá conquistá-lo. Isso não o impede de ficar mais próximo
da mulher, e acompanhar pari
passu o desenvolvimento do rebento. Aliás, esse comportamento,
impensável algumas décadas atrás, é cada dia mais comum.
Mesmo
fora da gestação ou do período de aleitamento, a natureza lembra,
por meio da menstruação, a inegável diferença da mulher. Todo mês
ela é acometida de TPM (tensão pré-menstrual), momento em que seu
organismo desmobiliza a engrenagem que seria utilizada para a concepção.
Nesse processo, geralmente a mulher se ressente, o que reflete em
seu humor, ou, para ser mais precisa, no seu mau-humor.
Daí
a mulher precisar ir com freqüência ao ginecologista, para ser
examinada em sua total intimidade. Desde cedo, portanto, a mulher
tem que enfrentar seus pudores, e se entregar de corpo e alma à
expiação alheia.
Submeter-se
às exigências sociais, portanto, parece ter sido o caminho quase
instintivo. Equilibrar-se em saltos altíssimos, passar horas no
gabinete de beleza tentando estirar à força o cabelo ou tingi-lo
de loiro, quando sua natureza é outra, ou desfilar ostentando
fivelas, pulseiras, anéis, colares, brincos, fitas, bolsas e toda
sorte de acessórios espalhados pelo corpo, qual uma ambulante,
foram hábitos absorvidos sem maiores resistências (pelo menos para
a maioria).
Assim,
esse arcabouço diferencial condicionou a mulher a assumir
responsabilidades, à propensão para aceitação, à doação e à
generosidade, características que remontam aos tempos das cavernas,
quando se encarregava da prole e do lar, para viabilizar que o seu
companheiro ganhasse as florestas em busca da caça.
Hoje,
a despeito do anacronismo da igreja, a mulher atrai para si, a cada
dia mais, papéis sociais estratégicos. Ainda não lhe é permitido
celebrar uma missa, é bem verdade; mas ela já preside nações.
Receptiva, sensível, apta ao acolhimento, a mulher detém plena
capacidade de influenciar o mundo e conceder-lhe novas visões e
valores.
Com
o crédito de quem muito se doou, agora a mulher quer reciprocidade.
Quer tempo para si, quer espaço, quer respeito, quer carinho e
reconhecimento. E ninguém melhor que o homem está percebendo esses
reclamos. Ainda atordoado, é fato; mas pouco a pouco ele assimila
essa tendência inexorável.
Que
o côncavo e o convexo compreendam suas igualdades e diferenças,
para se encaixarem perfeitamente em sua complementaridade. Afinal,
como diria Simone de Beauvoir, “os que tanto falam de ‘igualdade
na diferença’ mostrar-se-iam de má-fé em não admitir que
possam existir diferenças na igualdade”.