A
educação e as teses de inclusão social
São
hegemônicos, hoje, os argumentos que conferem centralidade à educação
nos processos individuais e coletivos considerados necessários ao
enfrentamento da denominada exclusão social. Tais argumentos não são
novos, mas adquirem contornos renovados, sobretudo quando associados
às teses hegemônicas que negam o valor das teorias, tidas como metanarrativas
totalitárias, particularmente, o materialismo histórico,
considerado incapaz de se adequar à realidade atual, que prescinde
de análises e exige, sobretudo, ação em busca de transformações
cujo horizonte não é, entretanto, definido.
Para
contrapor-se a argumentos de tal ordem, faz-se necessário
explicitar alguns pressupostos que evidenciam o lugar epistemológico
a partir do qual é tratada a educação neste trabalho. O primeiro
considera que as condições sócio-econômicas características do
sistema-capital não constituem uma fatalidade, não são inexoráveis.
Ao contrário, foram estruturadas pelo agir humano e por ele podem
ser superadas. Isto significa, também, recusar a lógica que
naturaliza a pobreza e a torna objeto de medidas compensatórias.
Um
segundo ponto refere-se ao fato de que no âmbito do
sistema-capital, o binômio inclusão/exclusão é tratado de modo a
obscurecer o paradoxo que lhe é inerente, e que só pode ser
desvelado quando o analisamos em sua radicalidade. Tratado ao nível
do senso comum, tal binômio não permite perceber que as formulações
teórico-práticas, centradas nas propostas de propiciar a inclusão
dos chamados excluídos são socialmente inócuas. E o são por
diversas razões, entre as quais destaca-se o fato de que não há
exclusão real no modo de produção capitalista. Mesmo aquela
parcela da população que "não é mais imediatamente
necessária para a autovalorização do capital" (MARX, 1984.
V.1-T.2, p.48 – grifo meu) possui, hoje, funcionalidades de
diferentes ordens no sistema.
Também
deve ser destacado o fato de que a chamada inclusão, quando ocorre,
se dá de acordo com as necessidades e parâmetros dominantes,
constituindo, assim, um processo que podemos denominar como inclusão
consentida. Tal forma de inclusão
oferece ao sistema-capital a perpetuação do exército de reserva,
que assume diferenciadas configurações em cada fase de expansão e
acumulação do capital. Não menos importante é a forma simbólica
de controle social das frações da classe trabalhadora, que a crença
na inclusão oferece às forças dominantes, no permanente trabalho
de construção e manutenção da hegemonia.
A
favor das teses da inclusão podem
ser contrapostos argumentos que enumeram exemplos de indivíduos, ou
de pequenos grupos, que obtiveram algum tipo de êxito em seus esforços
de inclusão no sistema, em particular a partir de ações de caráter
formativo. Tais casos, entretanto, confirmam a constatação de que
o sistema-capital necessita de uma certa permeabilidade que lhe
assegure a situação de hegemonia aqui referida. Nessa perspectiva,
podemos afirmar que pequenos eventos de caráter inclusivo não
promovem transformações substantivas nas condições de vida do
conjunto da classe trabalhadora que, submetida a cada vez mais
intensos processos de precarização das condições da existência,
se torna objeto de ações focais, de medidas assistenciais ou de
caráter filantrópico.
É
a partir de pressupostos ético-políticos como os até aqui
enunciados que se apresenta a necessidade de explicitar o fato de as
promessas de inclusão pela educação se revestem ou de uma
intencionalidade pouco ética ou de uma ingenuidade epistemológica
que não resiste à análise estrutural da realidade.
Valendo-nos
do materialismo histórico dialético podemos avançar na compreensão
de uma constatação apresentada, em parte significativa da
literatura acadêmica, como um paradoxo. Trata-se da enunciação
que destaca o fato de que o mundo, particularmente em sua fase de
globalização, embora com profundas assimetrias, produz, hoje,
simultaneamente, mais riquezas e mais miséria e desigualdade.
Entendemos que tal fato não constitui um paradoxo. Ao contrário,
estamos apenas diante de uma decorrência da estrutura do
sistema-capital o qual, cada vez mais, gera riquezas de caráter
material e imaterial e as privatiza, em benefício próprio.
Nesse
quadro, verifica-se que as condições de assimetria sócio-econômica
estão, com maior ou menor intensidade, presentes entre países e no
interior dos próprios países, mesmo aqueles que ocupam as posições
dominantes no quadro hegemônico internacional. Tais assimetrias,
entretanto, agravam-se sobremaneira em países situados em condições
de subalternidade no mundo globalizado. É precisamente esse o caso
do Brasil, ao qual, no quadro da divisão internacional do trabalho,
foi destinado o papel de consumidor de ciência e de tecnologia
desenvolvidas nos países dominantes.
Alguns
indicadores podem, para os limites deste trabalho, constituir
exemplos bastante expressivos do quadro de assimetria sócio-econômica
em que estamos mergulhados no país, segundo indicações de
Pochmann (2004). Dos 40 milhões de domicílios aqui existentes, 10
milhões são considerados insalubres e 2 milhões não possuem,
sequer, energia elétrica. Aproximadamente 21 milhões de pessoas não
têm acesso à água tratada. Das necessidades elementares aqui
abordadas, cuja negação ao direito de acesso pode significar, por
extensão, a negação do direito à vida, podemos passar para dados
diretamente relacionados à hoje chamada sociedade do conhecimento
e, neste campo, podemos destacar a informação de que, segundo a
União Internacional de Telecomunicações, apenas 8,2% da população
brasileira possuíam acesso a computadores em 2002.
Evidentemente,
tais indicadores não foram produzidos pela baixa escolaridade da
classe trabalhadora ou, mesmo, pelos mais de dezessete milhões de
analfabetos do país. Não é demais lembrar que, desde o final dos
anos de 1950, o educador Paulo Freire afirmava ser o analfabetismo
um problema, mas que alfabetizar não representava a sua solução.
O que se verifica, ao contrário, é o fato de que as condições de
escolarização da sociedade brasileira constituem uma das mais
claras expressões de nosso padrão estrutural de desigualdade.
A
partir da década de 1990, as forças dominantes retomam, com ênfase,
as teses da Teoria do Capital Humano, ressignificadas segundo as
conveniências do padrão de acumulação flexível, ressaltando a
importância, para o capital, da educação da classe trabalhadora.
Assim, a educação passa a ser apresentada pelo discurso dominante
como a chave para que o país se torne uma economia competitiva no
quadro hegemônico internacional.
Diversas
iniciativas são tomadas pelo Estado, sobretudo no âmbito da educação
profissional e, com menor intensidade, no plano da elevação da
escolaridade no nível de ensino fundamental, principalmente a
partir de 1995. Tais iniciativas, referentes à educação da classe
trabalhadora, entretanto, constituíram e constituem, sobretudo, um
processo de distribuição de ilusões. Tanto pelo anteriormente
exposto, quanto pelo fato de que a esmagadora maioria das
iniciativas de elevação de escolaridade e de educação
profissional apresenta baixa qualidade e se volta, sobretudo, para a
execução do trabalho simples, que demanda precário grau de
apropriação de fragmentos de conhecimentos científicos e tecnológicos.
Chegamos,
assim, aos primeiros anos do século XXI, com claros indicadores de
que nem a educação assegura, por si, o acesso ao emprego e, conseqüentemente,
à inclusão no sistema-capital, nem o Estado assumiu, efetivamente,
o compromisso com a universalização do direito à educação. Tal
afirmação pode ser facilmente constatada por dados recentes. No
que tange, especificamente, à questão da ocupação (sem que
possamos questionar, aqui, o conteúdo do conceito) indicadores do
IBGE informavam, no ano de 2005, que a taxa de desocupação da PEA
de dez anos ou mais de idade, por anos de estudo, assim se
configurava: 6%, sem instrução ou com até 3 anos de estudo,
estavam desocupados; os que apresentavam escolaridade entre 4 e 7
anos de estudo apresentavam um índice de desocupação de 9,7%.
Finalmente, daqueles que declararam ter 8 ou mais anos de estudo,
11,3% estavam desocupados. Como vemos, a desocupação não se reduz
para os que apresentam maior escolaridade, ao contrário do
insistentemente anunciado.
Em
que pese a difusão, pelo Estado, da crença no valor intrínseco e
isolado da educação, também não se verifica a necessária
convergência entre o anunciado e as políticas efetivas no âmbito
educacional. Para os limites deste trabalho, podemos valer-nos de
dados do Ministério da Educação e do IBGE, acerca da situação
de escolarização de jovens e adultos, que, por serem
suficientemente eloqüentes, prescindem de maiores comentários para
corroborar nossa argumentação. Como já mencionado, há no Brasil,
atualmente, mais de dezessete milhões de pessoas, de quinze anos ou
mais, analfabetas. Já a população brasileira, de quinze anos ou
mais com menos de 4 anos de estudo, chega a um total de 31.831.178
de pessoas. Dessas, apenas 2.406.223 freqüentam a escola para a
elevação de sua escolaridade. Uma escolaridade entre 4 a 7 anos de
estudo é registrada por 36.087.339 pessoas, das quais somente
5.276.120 estão na escola (Fontes: PNAD/IBGE/2003 e Tabulações
MEC/SECAD – 2004).
No
que se refere, especificamente ao ensino médio, é importante
destacar que, em 2003, apenas 34,7% da população entre quinze e
dezessete anos estavam na escola e que o ensino médio era ofertado
em apenas 11,5% dos estabelecimentos de ensino do país, segundo o
Censo Escolar do Ministério da Educação de 2003. Embora não
tratemos, especificamente, do ensino superior, não é excessivo
ressaltar o fato de que de acordo com o mesmo Censo, apenas 7,4% da
população entre dezoito e vinte quatro anos estavam matriculados
nesse nível de ensino (Fonte: PNAD/IBGE/2003).
O
acompanhamento das políticas públicas de educação do atual
governo evidencia o fato de que muito pouco foi efetivamente
realizado no sentido de universalizar a educação básica, no
Brasil. Entretanto, várias iniciativas focais foram implementadas,
atendendo a pequenos contingentes populacionais, aos quais são
oferecidas possibilidades de elevação de escolaridade, com caráter
precário e aligeirado, porém anunciadas como portadoras potenciais
de inclusão.
Especificamente
no que se refere à juventude, cuja importância é com insistência
anunciada nos discursos dominantes, temos, hoje, o registro de
aproximadamente cinqüenta programas, distribuídos por dezenove
ministérios, todos predominantemente marcados pelo caráter focal e
emergencial. Aqueles relacionados, direta ou indiretamente, à formação
profissional estão centrados na formação profissional inicial,
que, de acordo com o Decreto 5.154, de julho de 2004, se dá
independentemente do nível de escolaridade, o que permite colocar
em plano secundário a terminalidade da educação básica.
A
título de ilustração, podemos destacar, no âmbito do Ministério
do Trabalho e Emprego, o Programa Jovem Empreendedor, que em 2004
apresentava a singela meta de atendimento a quatro mil jovens entre
dezesseis e vinte e quatro anos, a serem estimulados a desenvolver
atividades autônomas ou se dedicar a pequenos negócios,
valorizando as teses do auto-empreendedorismo. Também o Programa
Primeiro Emprego, atendendo a público de mesma idade que o
anterior, é considerado, na área, um dos grandes fracassos do
governo federal, seja pela pouca capacidade de sensibilização do
empresariado, seja pela gradativa redução dos recursos a ele
destinados.
O
Ministério da Educação é responsável por outras iniciativas
focais, fragmentadas e de metas muito aquém do contingente
populacional demandante. Entre elas podem ser destacados o Projeto
Escola de Fábrica (RUMMERT. 2005), a partir do qual são abertas
salas de aula em empresas de qualquer tipo, para que o capital
treine jovens, de dezesseis a vinte quatro anos, de acordo com suas
necessidades imediatas, e o Programa de Integração Social do Jovem
(Projovem) que promete, no prazo de um ano, garantir elevação de
escolaridade, formação profissional inicial e capacitação para
atuação comunitária. Entre as opções de formação
profissional oferecidas pelas duas iniciativas, encontramos a oferta
de cursos para a execução de trabalhos domésticos, reparos em
costura etc, que explicitam a perspectiva de naturalização da
pobreza e de ações que visam manter os trabalhadores em situação
de permanente subalternidade.
Pretendeu-se
apresentar, aqui, alguns dados sobre da situação educacional do país,
com o objetivo de explicitar o fato de que, a despeito de
recorrentes argumentos, não é a educação por si e em si, que
poderá reverter, por exemplo, o próprio quadro educacional
brasileiro, expressão clara de um modelo sócio-econômio gerador
de absurdas desigualdades. Também destacou-se o fato de que não
existem, até hoje, consistentes e reais intenções de
universalizar a educação básica a partir de iniciativas que
assegurem a todos, sem distinção de classe, formação geral,
acesso às bases do conhecimento científico-tecnológico e formação
política. Esses pilares da escola unitária estão longe da classe
trabalhadora e assim continuarão enquanto a perversa lógica do
sistema-capital prevalecer sobre os direitos inerentes a todos os
seres humanos.
Referências
Bibliográficas
BRASIL,
Decreto nº 5.154 de 23 de julho de 2004. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5154.htm
IBGE.
Síntese de indicadores
sociais – 2004. Rio de Janeiro: IBGE, 2005 (Não incluída a
população rural da Região Norte do país)
Marx,
Karl. O Capital. Capítulo
XIII. V.I. Tomo 2. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
Pochmann,
Márcio (e outros) Atlas da exclusão social. São Paulo: Cortez, 2004.
Rummert,
Sonia Maria. Projeto Escola de Fábrica – atendendo a "pobres
e desvalidos da sorte" do século XXI. Perspectiva:
Revista do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal
de Santa Catarina. Florianópolis. V.23, n.2 – junho/dezembro
2005. p.303-323.