A
Mulher e a sua Luta contra a Opressão e a Exploração
Uma
relação de igualdade substancial no espaço reprodutivo, como no
espaço produtivo, não é do interesse e, nem tão pouco, faz parte
da lógica do capital, que no máximo “permite” uma relação de
igualdade formal. Marx nos lembra que na “relação com a mulher
como a presa e a criada da
luxúria comunitária está exprimida a degradação infinita em que
o ser humano existe para si mesmo, pois o segredo desta relação
tem a sua expressão inequívoca, decidida,
manifesta, desvelada, na relação do homem
com a mulher e no modo
como é tomada a relação natural,
imediata do gênero”. (1983: 166/167)
Isso
evidencia que o capital se opõe ao processo de emancipação da
mulher, visto que ele necessita, para a preservação do seu sistema
de
dominação, do trabalho feminino, tanto no
espaço produtivo
como no reprodutivo, preservando, em ambos os casos, os mecanismos
estruturais que geram a subordinação da mulher.
É
por essa razão que é possível afirmar que a articulação entre a
esfera da produção e a esfera da reprodução ocorre baseada na lógica
da divisão sexual do trabalho existente tanto no mundo assalariado
como na família patriarcal. Portanto, a importante categoria da
divisão sexual do trabalho presente na esfera produtiva e
reprodutiva possibilita a articulação das duas dimensões que
definem essa relação, o trabalho
e a reprodução.
No
mundo produtivo contemporâneo um dos setores que mais absorve a força
de trabalho feminina é o de serviços. Setor esse que permite
evidenciar que freqüentemente a força de trabalho feminina tem
como característica a atribuição de tarefas monótonas,
repetitivas e estressantes, de trabalho part-time,
etc.
Nesse
contexto é possível afirmar que as atribuições mais precárias
estão reservadas para as mulheres no mundo do trabalho porque se
encontram diretamente articuladas às relações de poder presentes
na histórica afirmação que o trabalho feminino tem menos valor
que o masculino em virtude prioritariamente de suas especificidades
“naturais” de mãe e esposa.
É
verdade também que esta realidade está repleta de contradições e
antagonismos, aliás, como ocorre sempre em todos os lugares onde os
interesses do capital impõem sua lógica. O peso imposto pelo
“sistema do capital” sobre as mulheres para que haja a manutenção
da família nuclear é enorme, e a situação delas no espaço
produtivo é profundamente injusta. Ao invés de se verem aliviadas
como pretenderia a retórica da oportunidade de direitos iguais para
as mulheres e da eliminação de qualquer discriminação de gênero,
o que elas presenciam de fato é, ainda, uma acentuada precarização
da sua força de trabalho. (Mészáros,
2002: 302-303).
Por
isso é imprescindível que na luta por uma divisão sexual do
trabalho com mais igualdade esteja presente o combate da opressão
masculina sobre a feminina, como também, o objetivo da superação
da relação capital/trabalho.
Sob
a lógica da expansão do sistema capitalista, o espaço da produção
absorve cada vez mais a força de trabalho feminina, confirmando a
sua feminização. Esse é um movimento que exige muita atenção da
luta feminina, pois ele não deve acontecer sem que se considere a
questão da igualdade de direitos da mulher, eliminando do processo
as desigualdades existentes. Isso porque a inserção acentuada da
força de trabalho feminina se dá não pelo interesse do capital na
emancipação da mulher, mas pela lógica de uma maior acumulação
de valor.
Isso
acontece, segundo Mészáros “não apenas porque as mulheres têm
de aceitar uma parcela desproporcional das ocupações mais
inseguras, mais mal pagas” que existem no mundo do trabalho e, por
isso, representarem 70% dos pobres do mundo, mas em virtude de seu
papel decisivo na família patriarcal. (2002:
304-305)
Desse
modo, quanto mais profundas forem essas "disfunções
sociais", maior será o peso e as exigências impostas às
mulheres como eixo dessa família; quanto mais acentuada for essa
carga, além da sua exploração do trabalho no espaço produtivo,
mais intensa fica a condição de opressão feminina no espaço
reprodutivo.
Outro
aspecto importante ao qual o capital está atento em relação às
mulheres, ainda segundo o autor, “é a fragmentação e redução
da família nuclear a seu âmago mais interior (comprovadas pelos índices
crescentes do divórcio) que, na qualidade de ‘microcosmo’ e
unidade consumidora básica da sociedade, tende a contribuir para a
maior instabilidade da própria família, sob enormes pressões num
momento de crise estrutural cada vez mais profunda (...)”. (Idem: 305)
Nesse
aspecto, é significativo lembrar que estando a luta das mulheres
centrada na questão da igualdade substantiva da divisão sexual do
trabalho, tanto no espaço da reprodução como na esfera da produção,
o sistema do capital indiscutivelmente não pode ser mais do que a
perpetuação da injustiça
fundamental, uma vez que a própria natureza do relacionamento
entre capital, trabalho e reprodução “é a manifestação tangível
da hierarquia estrutural insuperável e da desigualdade
substantiva”. (Idem: 306).
Em
outras palavras, a crítica da sociedade capitalista não pode
limitar-se à análise da exploração existente no espaço
produtivo, por mais importante que ela seja. A crítica deve
abranger também todos os profundos e multifacetados aspectos
negativos dessa lógica, tal como a compreensão da opressão que se
encontra presente no espaço reprodutivo, aqui representado pela
estrutura da família patriarcal que impõe uma desigual divisão do
trabalho para a mulher.
Assim,
podemos afirmar que a articulação das categorias trabalho
e reprodução permitem
que se evidencie o aspecto dialético da positividade e negatividade
que se encontra nessa dinâmica contraditória. A feminização no
mundo do trabalho com certeza é positiva como mais um passo para
sua emancipação, ainda que parcial, porém, esse avanço não
vem amenizando significativamente a dupla jornada de trabalho da
mulher, ao contrário, vem intensificando essa realidade. O trabalho
no espaço doméstico sendo trabalho sem “valorização monetária”,
mesmo que fundamental para a reprodução e manutenção da força
de trabalho em geral, continua reservado prioritariamente para a
mulher. De certa forma, essa situação se traduz em uma acentuada
exploração feminina no mundo do trabalho e uma profunda opressão
masculina sobre a mulher no espaço da reprodução.
Em
suma, uma nova divisão sexual do trabalho, tanto no espaço
produtivo como no reprodutivo é profundamente necessária. Mas, não
é do interesse do capital uma metamorfose nesta divisão
principalmente se esta transformação for direcionada a uma
igualdade substantiva e, muito menos, se tiver o intuito de uma
alteração hierárquica da família, que permita atingir a
igualdade de gênero e conseqüentemente extinguir a opressão
masculina que presenciamos no cerne da família patriarcal.
Bibliografia
Hirata,
H. Nova Divisão Sexual do Trabalho. Boitempo Editorial, S.P.,
2002.
Marx,
K. Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, Editora Ática,
S.P., 1983.
Mészáros,
I. Para Além do Capital, Boitempo Editorial, São Paulo,
2002.
Mitchell,
J. La Condición de la Mujer, Editorial Anagrama, Barcelona,
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Nogueira,
C. M., A Feminização no Mundo do Trabalho, Autores Associados, Campinas
– SP, 2004.
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O Trabalho Duplicado, Editora Expressão Popular, São Paulo,
(no prelo).