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Anos da Morte de Sepé Tiaraju
Os
Sete Povos Missioneiros:
Das
Fazendas Coletivas ao Latifúndio Pastoril Rio-Grandense
I.
A Colonização Tupi-Guarani das Américas
Nos
anos 1600, três grandes comunidades nativas dividiam-se os atuais
territórios do Brasil Meridional. Na Serra e no Planalto viviam
povos de língua jê, especializados na caça, pesca e coleta
florestas. Os campos abertos eram dominados pelos pampianos, hábeis
cavaleiros após a introdução do gado vacum e cavalar nessas
regiões pelos europeus.
Os
guaranis pertenciam à importante civilização tupi-guarani que
colonizara boa parte da América do Sul, após dominarem a
horticultura de floresta tropical e sub-tropical, na Amazônia
Central, há mais de dois mil anos. Eles foram os últimos
chegados ao atual Rio Grande do Sul.
A
aldeias tupi-guaranis, com uns 150 habitantes, tinha de três a
cinco residências coletivas. O chefe da aldeia e das moradias
comunitárias possuía prestígio comunitário, mas nenhum poder
de fato sobre a comunidade aldeã. A família celular independente
era a unidade de produção e consumo de base dessa
micro-sociedade.
Cada
três a cinco anos, as aldeias tupi-guaranis transferiam de local,
devido ao esgotamento da caça e da coleta e à degradação das
condições higiênicas dos terrenos habitados e de suas
proximidades. Comumente as aldeias super-povoadas dividiam-se
durante as transferências periódicas, dando origem a uma nova
comunidade independente.
Minha
aldeia, meu mundo
O
mundo tupi-guarani esgotava-se nos quadros da comunidade aldeão,
formada em geral por famílias aparentadas residindo nas moradias
coletivas. As aldeias eram independentes, já que supriam as
necessidades de subsistência dos moradores sem a necessidade de
realizarem trocas econômicas.
Os
aldeões dispunham comunitariamente dos territórios controlados
pela aldeia, desconhecendo qualquer forma de apropriação privada
da terra. Reinava grande solidariedade entre os produtores,
sobretudo da mesma moradia. Alguns bens eram do domínio dos
moradores da residência – amambaé. Armas, utensílios,
ferramentas, etc. pertenciam aos aldeões, individualmente – abambaé.
A
produção tupi-guarani assentava-se na divisão sexual do
trabalho. O homem caçava, pescava, guerreava, participava da
construção da moradia coletiva, abria as clareiras para as
plantações, em geral associado aos companheiros de moradia, etc.
A divisão sexual do trabalho tupi-guarani sobrecarregava as
mulheres, responsáveis pela coleta, pelo transporte, pelo cuidado
dos filhos, pelo preparo dos alimentos, etc. As mulheres eram
responsáveis pelas plantações.
O
produto-base da horticultura tupi-guarani era a mandioca brava, de
alto poder calórico e escassa riqueza protéica. Os tupi-guaranis
não criavam animais para o abate. Nos meses de escassez de caça
e de coleta, careciam penosamente de proteínas, o que parece ter
contribuído à prática do abate e consumo cerimonial dos
inimigos.
Os
tupi-guaranis partiram do Médio Amazonas para colonizar boa parte
da América do Sul. O braço guarani avançou ocupando as
florestas em galeria dos afluentes da margem direita do Amazonas
– Bolívia, Paraguai, Uruguai, sul do Brasil, etc. O braço
tupinambá despontou na foz do Amazonas e ocupou grande parte da
então exuberante Mata Atlântica do litoral.
II.
Missões – Um novo mundo guarani
Em
1494, em Tordesilhas, as coroas portuguesa e espanhola
dividiram-se os mundos descobertos e a descobrir. Na América do
Sul, a coroa portuguesa enriqueceu-se distribuindo graciosamente
sesmarias – treze mil hectares – aos homens bons com
cabedais suficientes para povoá-las com o braço americano ou
africano escravizado.
Os
colonos espanhóis enricaram-se empregando o trabalho americano
nas fabulosas minas de prata dos Andes. Privilegiados na partilha
de Tordesilhas, faltavam-lhes entretanto capitais para ocupar e
explorar diretamente as imensas regiões do continente que lhe
couberam na exótica apropriação americana.
A
administração espanhola temia que os portugueses avançassem
sobre os territórios não ocupados, aproximando-se das cobiças
minas andinas, fontes de ingentes riquezas. As missões
constituíram inteligente projeto de ocupação, defesa e
incorporação de imensas regiões das Américas ao mundo colonial
espanhol, praticamente sem investimentos.
A
Coroa espanhola propunha que as comunidades nativas dispersas se
reunissem em pueblos estáveis, sob a administração de
jesuítas, franciscanos, dominicanos, etc. Os pueblos
dependeriam diretamente do rei de Espanha, escapando portanto das
pesadíssimas exigências em tributos e em trabalho dos insaciáveis
proprietários coloniais.
Impasses
e solução
À
exclusão dos povos andinos, não houve comunidade nativa que
mantivesse os tupi-guaranis longe dos territórios florestais do
litoral e das margens dos rios e lagoas que conquistavam
para assentar suas roças horticultoras. A aldeia e as moradias
comunitárias tupi-guaranis formavam coesas e poderosas equipes de
produtores de alimentos e de guerreiros.
Por
razões compreensíveis, os guaranis acolheram a opção
missioneira. Após uma expansão territorial pluri-centenar
vitoriosa, havia um século que as comunidades tupi-guaranis
perdiam inexoravelmente as terras e a liberdade para a frente de
expansão colonial ibérica.
O
embate americano entre os nativos guaranis e os colonizadores ibéricos
dava-se entre, por um lado, a comunidade doméstica nativa,
ignorante das diferenças de classe e da organização do Estado,
estruturada em aldeias autárquicas e, por outro, Portugal e
Espanha, Estados classistas, vanguardas do mercantilismo,
inseridos na divisão mundial do trabalho. Comumente a aldeia
tupi-guarani isolada apoiava o europeu no combate à comunidade
vizinha sua inimiga.
Modo
de produção missioneiro
A
proposta das missões retirara as comunidades tupi-guaranis
da perplexidade e do desalento em que haviam sido lançadas pelas
derrotas incessantes diante dos vorazes colonizadores ibéricos,
ao garantir-lhes segurança relativa diante dos encomenderos
espanhóis e dos escravizadores paulistas.
Sobretudo,
as reduções asseguraram melhorias substanciais na
alimentação, na moradia, no vestuário, na segurança, etc. às
comunidades americanas, ao ensejarem a transição das formas de
produção doméstica pré-classista guaranis à sociedade
missioneira, estatal, comunitária, complexa, tendencialmente não-classistas.
Hábeis
horticultores, os guaranis aclimataram com facilidade as técnicas,
as ferramentas e as plantas da agricultura européia.
Incorporaram ao quotidiano produtivo as ferramentas de ferro, o
arado simples, a tração animal, a adubação, a fruticultura.
Com a crescente importância da agricultura, essas práticas,
essencialmente das mulheres na sociedade guarani, tornaram-se
tarefas masculinas, realizadas com o apoio feminino, nas missões.
Tecer
redes e faixas de algodão era tarefa feminina tupi-guarani.
Liberadas parcialmente das obrigações horticultoras, as mulheres
assumiram novas responsabilidades na fiação e na tecelagem do
algodão e da lã, produzindo vestimentas e cobertores que
facilitaram a ocupação de regiões golpeadas duramente pelos
frios invernais, como o noroeste do atual Rio Grande do Sul.
Cerâmica
e olarias
O
conhecimento oleiro guarani desdobrou-se nas práticas ceramistas
missioneiras que produziam os materiais com os quais se levantavam
e telhavam os celeiros, os estábulos, os galões, as igrejas, as
moradias, as oficinas, etc. Novas residências com diversos
aposentos unifamiliares recebiam os habitantes das antigas
moradias coletivas.
A
divisão sexual e familiar do trabalho, apoiada na cooperação
simples entre os produtores das residências coletivas e da
aldeia, ampliou-se, originando práticas produtivas realizadas
comumente por artífices especializados. As reduções possuíam
de trinta a quarenta oficinas: ferraria; marcenaria; olaria;
sapataria; tecelagem; tornearia, etc.
Os
guaranis desconheciam completamente a criação animal. Em
verdade, as Américas desconheciam o gado vacum, cavalar, muar,
etc. Sobretudo, as missões introduziram-nos nas práticas criatórias
vacuns, cavalares, caprinas, ovinas, etc., que forneciam com
segurança e relativa fartura os recursos protéicos que as
comunidades nativas tinham, em abundância, apenas episodicamente.
Realizada
muitas vezes em ervais distantes, a extração e produção da
erva-mate tinha grande importância para as missões. Diariamente,
distribuía-se uma cuia de erva-mate por família missioneira. A
erva entrava como equivalente nas trocas inter-missões e era
exportada, em grandes carretas de duas rodas, para regiões, não
raro, muito distantes – Buenos Aires, Santa-Fé, Chile, Peru,
etc.
Contabilidade
social
O
missioneiro recebia pequena parcela da terra comunal para sua
exploração familiar. Porém, trabalhava nas plantações comunitárias
nas segundas e sábados. A produção agrícola e pastoril comunitária
financiava a subsistência dos trabalhadores especializados –
administradores, artífices, ervateiros, vaqueiros, etc. – ou
improdutivos – velhos, doentes, etc.
No
contexto de técnicas e métodos novos e tradicionais, o
desenvolvimento da produção missioneira comunitária [tupambaé]
e familiar [abambaé] permitiu divisão do trabalho e,
conseqüentemente, produtividade social muito superiores às da
comunidade guarani tradicional. O que certamente ensejou o
sustento de uma comunidade maior, com maior esperança de vida.
Grande
parte do consumo familiar era produzida pela própria família. A
administração central de cada missão – cabildo –,
monopólio dos caciques, realizava a equalização das
trocas internas entre os agentes das diversas esferas produtivas.
A contabilidade central substituía a mercantilização como meio
de troca dos mais diversos produtos, que não se transformavam em
mercadorias, dominando seu valor de uso e não de troca.
A
maior parte do produto excedente, permitido pela maior
produtividade do trabalho, era reinvestida na comunidade. O caráter
progressista do novo modo de organização e de produção
aumentava o prestígio dos seus vetores ideológicos — os jesuítas
e o cristianismo – e a coesão social missioneira.
III.
Das Missões do Tape aos Sete Povos
De
1610 a 1634, os jesuítas espanhóis fundaram as províncias
guaraníticas do Paraguai: Itatim, Guairá e Uruguai. As missões
do Tape faziam parte da província do Uruguai. Elas tinham
dezesseis pueblos e localizavam-se no noroeste
sul-rio-grandense atual, no Planalto e nos vales do Jacuí, Ibicuí
e Ijuí.
Porém,
muito logo, as reduções do Tapes foram atacados por paulistas,
à procura de nativos para serem escravizados, devido à falta de
braços africanos cativos, sobretudo desde a ocupação holandesa
dos portos negreiros portugueses da costa da África. Nesse então,
a casa real espanhola reinava igualmente sobre Portugal [Unificação
Ibérica 1580 – 1640].
Talvez
vinte mil missioneiros tenham sido arrastados para as capitanias
portuguesas como cativos. Antes da viagem, matavam-se os caciques
e os guerreiros mais combativos, para que não organizassem
revoltas. Os velhos e as crianças eram executados ou abandonados,
para que não atrasassem a marcha terrível.
Em
25 de março 1641, expedição escravizadora de 3.400 paulistas,
mamelucos e tupis foi completamente derrotada nas barrancas do rio
M´Bororé, afluente do rio Uruguai, por quatro mil missioneiros
portanto as armas tradicionais, arcabuzes e canhões de bambus
gigantes. Com a guerra de libertação de Portugal, a Coroa
espanhola permitira que os missioneiros se armassem contra os seus
antigos súditos portugueses.
Vacarias
missioneiras
Entretanto,
em 1636-8, para protegerem-se dos ataques, os missioneiros do Tape
transferiram-se para a margem direita do Uruguai, abandonando os
atuais territórios do Rio Grande do Sul para se estabelecerem nas
regiões da atual província argentina de Misiones e no sudoeste
do Paraguai. Em 1634, cada missão recebera umas cem cabeças de
gado para formar rebanhos. Os animais foram deixados nas margens
meridionais do Jacuí, para que se reproduzissem.
Como
as condições ambientais da região – pampa – eram
excelentes, as manadas de gado reproduziram-se exuberantemente e
expandiram-se para o litoral, à busca de pastagens, alcançando o
Atlântico e avançando para o sul, dando origem às vacarias
da região – campos de gado selvagem. Os vaqueiros missioneiros
atravessavam periodicamente o rio Uruguai para levar rebanhos das vacarias
para as estâncias, formadas entre o rio Jacuí e a lagoa
dos Patos.
As
estâncias eram áreas menores onde os gados eram
confinados para que se realizassem periodicamente rodeios. As invernadas
eram pequenas estâncias, próximas às missões. Sobretudo os
acidentes geográficos e valas com plantações de espinheiros e
outras barreiras mantinham os gados nas estâncias. Posteiros
missioneiros controlavam as passagens por onde os gados escapavam.
Os
campos do atual Rio Grande do Sul povoados pelos gados selvagens
formavam uma enorme hacienda trilhada continuamente pelos
vaqueiros missioneiros à busca dos animais. As vacarias do Mar,
nas pastagens que iam da margem direita do rio Camaquã até o rio
Negro, eram mantidas como uma espécie de reserva estratégica.
Sacramento
– os portugueses no Prata
Durante
a Unificação Ibérica [1580-1640], os lusitanos desenvolveram
rentável atividade comercial na bacia do Prata, contrabandeando
trabalhadores escravizados e produtos manufaturados, sobretudo,
ingleses, em Buenos Aires, por couros e a prata andina. As
autoridades espanholas fechavam os olhos para essa
atividade. Em 1640, com a guerra de independência lusitana, o
mercado platino fechou-se inexoravelmente para os lusitanos.
Com
a crise do comércio açucareiro, a Coroa lusitana procurou novos
negócios, entre eles, a ocupação do norte de seus possessões
americanas. No sul da América, em janeiro de 1680, os lusitanos
fundaram a colônia do Santíssimo Sacramento, na deserta margem
oriental do Prata, diante de Buenos Aires, em territórios
pertencentes à Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas, para
prosseguir o rendoso comércio interrompido quarenta anos antes.
A
Coroa espanhola respondeu à intrusão lusitana cercando e
conquistando, em agosto, a cidadela, com a ajuda de mil milicianos
missioneiros. No ano seguinte, Sacramento foi devolvida,
diplomaticamente, aos lusitanos, para tornar-se, então, até
1777, o grande pomo da discórdia entre as Coroas ibéricos no sul
da América.
Sete
Povos das Missões
Diante
da nova situação, a administração espanhola ordenou que os
missioneiros atravessaram novamente o rio Uruguai para fundar,
desde 1682, novas reduções no noroeste dos atuais territórios
sulinos. Os Sete Povos da Banda Oriental do rio Uruguai eram
formados pelas reduções de São Miguel, São Nicolau, São
Borja, São Luiz Gonzaga, São Lourenço, São João Batista,
Santo Ângelo.
A
nova ocupação estendeu o controle, mais ou menos legal e
efetivo, dos Sete Povos sobre grande parte dos atuais territórios
sul-rio-grandenses e uruguaios. No Planalto, os gados missioneiros
ocuparam os campos abertos e os ervateiros missioneiros exploraram
parte das matas da região. Nos pampas, já em 1683, os vaqueiros
de São Miguel chegaram até os a atual cidade de Bagé, próxima
da fronteira atual com o Uruguai, de onde se retiraram devido à
oposição dos nativos locais.
Com
administração própria, os Sete Povos permitiam melhor gestão
dos recursos pastoris, agrícolas, ervateiros da região e uma
melhor proteção desse flanco do Vice-Reinado do Peru, ameaçado
por Sacramento. Entretanto, cada missão possuía suas terras,
seus gados e administrava-se independentemente. Produzindo em
geral os mesmos produtos, eram muito limitadas as trocas e,
portanto, a inter-dependência dos Sete Povos.
No
início do século 18, os trinta povos das Missões Ocidentais e
Orientais do rio Uruguai possuíam uns 150 mil habitantes. A
população dos Sete Povos seria de 30 mil missioneiros, sobretudo
guaranis, ainda que ali vivessem charruas, minuanos e outras
comunidades. Uma população considerável. Na época, Portugal
apenas ultrapassaria um milhão e meio de habitantes.
Missão
cumprida
As
Missões protegiam essas regiões da expansão lusitana,
participando ativamente dos ataques aos portugueses, o que as
debilitava fortemente, já que os milicianos missioneiros eram,
nos fatos, agricultores, vaqueiros, artífices, etc., que tinham
que abandonar suas funções, para ir à guerra. As milícias
missioneiras protegiam também as povoações espanholas dos
ataques de nativos ´selvagens´. Eram verdadeiras guarda
pretoriana contra eventuais insubordinações das elites criollas
às autoridades coloniais.
As
Missões incorporavam também economicamente esses vastos territórios
da América do Sul ao espaço colonial hispânico, já que
exportavam diversos produtos – couros, mulas, erva-mate, etc.
– para pagar os impostos de capitação e adquirir o
que não podiam ou não queriam produzir na região.
O
crescente esgotamento da produção mineradora andina e o
desenvolvimento da importância da bacia do Prata para as trocas
comerciais e as comunicações selaram a sorte dos Sete Povos.
O crescente desenvolvimento semi-autônomo de fato de uma
verdadeira nação guarani-missioneira desagradava mais e mais as
classes dominantes crioulas e a Coroa espanhola.
IV.
O Tratado de Madrid e a Guerra Guaranítica
Em
janeiro de 1750, em Madri, as Coroas ibéricas pactuaram solução
pacífica global das desavenças territoriais americanas. Para a
América Meridional, acordou-se trocar a colônia de Sacramento
pelos territórios dos Sete Povos. O tratado garantia à Coroa
espanhola o domínio pleno do estuário do Prata às custas das
populações missioneiras, expropriadas de suas vilas, moradias,
oficinas, igrejas, terras, fazendas, rebanhos e ervais.
O
Tratado ordenava: “Das povoações ou aldeias que cede sua
Majestade Católica na margem oriental do rio Uruguai, sairão os
missionários com todos os móveis e efeitos, levando consigo os
índios para os aldear em outras terras de Espanha [...];
entregar-se-ão as povoações à Coroa de Portugal, com todas as
suas casas, igrejas e edifícios e a propriedade e posse do
terreno [...].”
Os
missioneiros deviam abandonar as terras natais e localizaram-se, a
mais de seiscentos quilômetros, na então semi-deserta Banda dos
Charruas [Uruguai]. Como a transferência era decisão que os ibéricos
não esperavam que os missioneiros obedecessem de livre-vontade,
em 1751, tratado secreto acertou o uso conjunto da força militar
luso-espanhol contra a previsível resistência missioneira.
Para
ocupar as Missões, a Coroa portuguesa mandou vir camponeses sem
ou com pouca terra das ilhas dos Açores e da Madeira. Os casais
assentados receberiam 272 hectares de terra, ferramentas,
sementes, dinheiro, etc., tudo gratuitamente. Até 1754, três mil
ilhotas associaram-se aos 1.500 povoadores luso-brasileiros da
região. Esperava-se que os camponeses produzissem braços e meios
de subsistência para as tropas coloniais.
Guerra
guaranítica
O
general-de-batalha Gomes Freire de Andrade, comissário português
da expedição demarcadora, ao chegar ao Rio Grande, concedeu
sesmarias no Chauí, em Viamão, em Cima da Serra, no Vale do rio
dos Sinos, no Jacuí, no Caí, no rio das Antas, na Vacaria dos
Pinhais, incentivando ocupação latifundiária sesmeira dos
territórios sulinos pelos luso-brasileiros.
Em
setembro de 1752, a expedição luso-espanhola – astrônomos,
diplomatas, engenheiros, geógrafos, militares, etc., –
encontrava-se em Castilhos Grande e, em inícios de outubro,
assentava o primeiro marco divisório. Porém, muito logo, seria
barrada por tropas missioneiras comandadas por José Tiaraju –
Sepé –, alferes real de São Miguel, na coxilha de São Sebastião,
no atual município de Bagé, já em territórios missioneiros. As
tropas gerais missioneiras encontravam-se sob o comando de Nicolau
Neenguiru, corregedor de Concepción, na margem ocidental do
Uruguai.
Em
23 de fevereiro de 1754, uns trezentos missioneiros atacaram por
quatro horas a apenas fundada tranqueira de Rio Pardo, fronteira
oeste luso-brasileira, no vale do Jacuí. Teriam morrido 22
atacantes e de três a quatorze defensores. Em 28 de abril, tropas
unificadas dos Sete Povos atacam, novamente, com pouquíssima
decisão, o forte de Rio Pardo, que reforçara suas defesas. Nos
inícios dos combates morreu Alexandro Mbaruari, comandante
militar de São Miguel, chefe geral das tropas missioneiras.
Em
1574, um poderoso exército português, com mais de mil homens em
armas, partiu de Rio Grande, no litoral rio-grandense, para Rio
Pardo, onde chegou em agosto. As tropas espanholas também
chegaram à região. Porém, devido ao forte inverno e à resistência
missioneira, em novembro de 1754, os exércitos ibéricos
retiraram-se da região, após pactuarem armistícios separados
com os representantes dos pueblos que, nos fatos,
ampliavam as terras sob controle lusitano.
Finalmente,
em 16 de janeiro de 1756, um exército hispano-português de 2.600
homens, poderosamente armado e artilhado, reuniu-se nas cabeceiras
do rio Negro, nos atuais territórios uruguaios, de onde partiu
para as Missões. Ao entrarem em terras missioneiros, as tropas ibéricas
sofreram diversas emboscadas. Porém, em inícios de fevereiro, caía
em combate Sepé Tiaraju, comandante das tropas de São Miguel.
A
morte de Sepé
Em
7 de fevereiro, os missioneiros armam mais uma emboscada às
tropas ibéricas, ao deixarem, como isca, uma ponta de gado à
vista dos invasores. Cavaleiros missioneiros atacaram céleres e
lancearam mortalmente dois peões portugueses lusitanos que haviam
cruzado o arroio Guacacay para reunir, abater e carnear os
animais.
Talvez
prevenidos contra a tática utilizada anteriormente, às cinco e
meia da tarde, o comandante Andonaégui enviou trezentos soldados
espanhóis e portugueses, em dois esquadrões, em perseguição
dos setenta a oitenta cavaleiros missioneiros, reunidos próximos
a um capão.
Na
perseguição, a montaria de Sepé Tiaraju teria tropeçado em um
desnível do terreno, lançando o cavaleiro ferido ao solo.
Aproveitando a oportunidade, um peão português quebrou uma lança
contra o chefe militar missioneiro. No combate, os espanhóis
tiveram dois mortos e os missioneiros, oito.
Em
São Gabriel
A
documentação é divergente e imprecisa sobre os acontecimentos
posteriores. Possivelmente capturado e identificado, devido ao
livro de orações e cartas que levava consigo, Sepé teria sido
torturado por seus algozes – “queimado com pólvora ainda
quando aspirando” e martirizado “de outras maneiras”.
A
seguir, Sepé teria sido justiçado com um tiro de pistola, pelo
próprio governador de Montevidéu, talvez para conquistar a honra
da morte de um chefe missioneiro. O corpo de Sepé, decapitado,
teria sido recuperado pelas tropas missioneiras, para enterramento
de fortuna. Acredita-se que o chefe missioneiro morreu lutando em
algum ponto próximo da cidade de São Gabriel.
A
grande derrota
As
razões da derrota missioneira foram sobretudo políticas. Os jesuítas
tentaram impedir diplomaticamente e, a seguir, retardar, a
implementação do tratado, esperando sua anulação. Nos fatos,
terminaram dividindo-se quanto à obediência das ordens emanadas
pela Coroa espanhola.
Os
superiores da Companhia de Jesus apoiaram o abandono das Missões,
entregando, em maio de 1753, os Sete Povos às autoridades civis e
religiosas de Buenos Aires. Entretanto, alguns jesuítas
permaneceram, até o fim, nas missões, em contato com os caciques
missioneiros.
Com
a defecção jesuítica, a resistência encontrou-se nas mãos dos
administradores dos Sete Povos que se dividiram igualmente sobre
o caminho a seguir. Eles mantiveram sempre a esperança de
negociar a manutenção dos Sete Povos, procurando preservar
ciosamente as relações com Espanha. Durante todos os combates,
as tropas missioneiras mantiveram ação militar essencialmente
defensiva.
Apesar
de possuírem uma enorme homogeneidade de civilização, os Trinta
Povos jamais constituíram entidade coerida por laços sociais,
econômicos e políticos necessários. Nos fatos, constituíam
verdadeiras autarquias, mantendo frágeis laços essenciais entre
si. A desorganização dos Sete Povos parece também ter sido uma
ação ibérica contra a tendência, jamais realizada, de formação
de uma nação guarani-missioneira no sul da América.
O
Fim da República
Os
povos da margem direita do rio Uruguai não teriam compreendido
que também eram atingidos pelo Tratado de Madri, que se referia
explicitamente às Missões da margem esquerda do rio. Sobretudo
diante da defecção e neutralização do comando jesuítico
unificado, jamais participaram efetivamente da resistência
militar, que se restringiu às milícias dos Sete Povos,
essencialmente.
Vivendo
a mesma autonomia sócio-econômica, os Sete Povos jamais
unificaram e centralizaram ferreamente a resistência ao avanço
ibérico, procurando comumente pactuar acordos em separado e fazer
frente aos invasores apenas quando penetraram em suas terras.
Jamais houve, nos fatos, a consciência plena de uma civilização
guarani-missioneira reunindo os Trinta Povos.
Em
10 de fevereiro, em Caaibaté, 1.800 missioneiros, armados de lanças,
arcos e flechas e peças de artilharia de bambu forradas de couro
tentaram abrir negociações e impedir o avanço dos ibéricos que
contavam com mais de 3.700 combatentes, poderosamente armados e
fortemente artilhados.
Apesar
das oposições históricas, as tropas dos Sete Povos teriam
recebido o apoio de guerreiros charruas, minuanos, guenoas e
outras comunidades nativas regionais, segundo parece chamados ao
desconhecimento dos jesuítas.
Rejeitando
o pedido de negociação, os canhões portugueses e espanhóis
abriram fogo em forma coordenada, desorganizando as desmotivadas
milícias missioneiras. A seguir, iniciou-se o massacre de talvez
mil guaranis, perseguidos e executados. Em 16 de maio de 1756, após
pequenos confrontos, as tropas ibéricas entravam em São Miguel.
A República dos Sete Povos fora derrotada.
V.
A Consolidação do Latifúndio Pastoril Sulino
Em
1757, devido à demora do prosseguimento da demarcação e à não
evacuação dos moradores dos Sete Povos, as tropas lusitanas,
longe de suas linhas de defesa, recuaram para Rio Pardo,
transferindo alguns milhares de missioneiros para Rio Pardo,
Cachoeira do Sul e Gravataí, o que causou grande despovoamento
nas Missões.
Assim,
os portugueses debilitavam as forças militares hispânicas e
minoravam a carestia de trabalhadores nas fazendas, plantações e
vilas lusitanas. A seguir, os missioneiros foram obrigados a
adotar a língua e nomes portugueses, dissolvendo-se na população
subalternizada do Rio Grande do Sul. Essa enorme contribuição ao
povoamento original do Rio Grande é menosprezada pela
historiografia tradicional rio-grandense.
Derrotados,
milhares de missioneiros migraram para a Banda Oriental –
Uruguai –, onde se empregaram nos campos, como peões, e em
Montevidéu, como chacreiros, artífices, etc., guaranitizando
profundamente aquela região. Missioneiros incorporaram-se
igualmente aos toldos charruas e minuanos do pampa uruguaio.
Em
12 de fevereiro de 1761, o Tratado de El Pardo anulou o Tratado de
Madri, mantendo as condições anteriores, ou seja, Sacramento, em
mãos portuguesas, e as Missões, sob domínio espanhol e
administração militar. Finalmente, os jesuítas foram expulsos
das colônias hispano-americanos, em 1767.
Perda
e Restauração
O
confronto da França, em união com a Espanha, com a Inglaterra e,
conseqüentemente, Portugal, seu pequeno e tradicional aliado,
ensejou a chamada Guerra dos Sete – 1756 a 1763 –, que
envolveu diversos outros beligerantes. Em outubro de 1762, tropas
espanholas e missioneiras apoderaram-se da Colônia de Sacramento
e, em abril de 1763, da vila de Rio Grande, obrigando aos
luso-brasileiros a recuarem para os Campos de Viamão.
Apenas
em 1776, a vila e o porto de Rio Grande e as terras do interior
rio-grandense seriam retomadas, por poderoso exército lusitano de
sete mil homens. Em resposta, os espanhóis ocuparam a ilha de
Santa Catarina e Sacramento, permanecendo para sempre na última
povoação.
Em
inícios de 1777, a morte de dom José I, e a entronização de
sua filha, dona Maria I, permitiu a deposição do poderoso marquês
do Pombal, e a volta ao poder pleno da grande aristocracia fundiária
portuguesa. Em outubro de 1777, o Tratado Santo Ildefonso
reconhecia a soberania espanhola sobre a colônia do Sacramento e
sobre as Missões, em troca de Santa Catarina, num tratado em tudo
lesivo aos lusitanos.
Trigos,
couros e mulas
Até
1780, a produção luso-rio-grandense centrava-se sobretudo no
abate de bovinos pelo couro, na triticultura açoriana, na pequena
agricultura de gêneros de subsistência, no envio de tropas
principalmente de mulas para Sorocaba, a grande feira sulina
daqueles animais, em São Paulo.
Os
trigais rio-grandense haviam sido plantados pelos colonos açorianos
nas proximidades da lagoa dos Patos, ao longo do rio Jacuí e
Taquari, nas cercanias de Rio Pardo, em geral com o apoio de
alguns trabalhadores escravizados. Ela era comercializada e
embarcada no porto de Porto Alegre e exportada para o Rio de
Janeiro, Bahia, Pernambuco e Portugal.
A
ferrugem (1811), as dificuldades dos transportes, a rusticidade da
produção, o alto preço relativo dos cativos, a inadequação do
cultivo do produto à produção escravista e, sobretudo, a
concorrência do trigo estadunidense, após a liberdade comercial
decretada em 1808 por dom João, levaram a que o grão
rio-grandense fosse alijado dos mercados regional, `nacional` e
mundial.
O
Rio Grande luso-brasileiro exportava tropas de muares que subiam
pelo nordeste da serra e do planalto em direção da feira de
Sorocaba, onde eram vendidas para São Paulo, Minas Gerais e Rio
de Janeiro. Na época, as mulas eram o principal meio de
transporte de cargas e de homens. A decadência da mineração no
Brasil Central, nos anos 1770, e, portanto, da necessidade de
mulas para o transporte, arrefeceu a criação muar sulina, até
ser relançada pelas necessidades da produção cafeicultura do
Rio de Janeiro, a partir dos anos 1830.
A
ocupação da Campanha
Inicialmente,
a economia pastoril rio-grandense exportava couros para o mercado
internacional e produzia carne apenas para o limitado mercado
regional, em geral através do abate do gado selvagem. A ocupação
da Campanha por fazendas criatórias recebeu poderoso impulso com
a instalação da indústria charqueadora, que valorizava o gado
vacum ao permitir o transporte de suas carnes através da
salgação.
As
grandes secas de 1777-8 e 1791-2, no nordeste do Brasil, dizimaram
os animais que alimentavam a produção de carne-de-sol sobretudo
do Ceará e do Piauí, que abastecia tradicionalmente a colônia
naquele alimento, uma das bases da alimentação das populações
escravizadas e de poucos recursos.
Com
a expulsão dos espanhóis de Rio Grande, em 1776, charqueadas
surgiram nas margens das lagoas, no rio Jacuí, em torno de Porto
Alegre e sobretudo na margem direita do arroio Pelotas. Desde então,
as necessidades do Brasil passaram a ser satisfeitas pelas
charqueadas sulinas, que exploravam duramente a mão-de-obra
escravizada.
No
mesmo sentido, os numerosos oficiais trazidos para a conquista de
Rio Grande receberam ou apoderaram-se de sesmarias, valorizadas
agora pela necessidade de gado das charqueadas. Em pouco tempo, as
terras acessíveis do pampa esgotavam-se. Em 1785, poucos anos após
o início da produção sistemática de charque, 64,22 % das 841
propriedades sulinas recenseadas tinham mais de 1.000 ha.
O
fim das Missões
Diminuídos
poderosamente em sua população e territórios, sob a administração
corrupta de prepostos espanhóis, os Sete Povos vinham conhecendo
rápida e inexorável decadência, após a Guerra Guaranítica. Em
1801, aproveitando as hostilidades entre Espanha e Portugal,
devido à guerra napoleônica, tropas irregulares luso-brasileiras
apoderaram-se dos Sete Povos. A nova administração militar
lusitana aprofundou os desmandos do governo espanhol.
A
privatização definitiva dos territórios missioneiros ocorreria
poucos anos mais tarde. Em 1808, dom João impulsionou a ocupação
dos sertões do Brasil. Nesse processo, mandou "descobrir,
povoar e cultivar os campos de Guarapuava" [Paraná], que se
encontravam "infestados [sic] de gentios". Pretendia-se
abrir estrada direta entre a feira de Sorocaba e as Missões,
agora sob poder português.
Em
1809-1810, um destacamento militar demarcou caminho entre Curitiba
e os campos de Guarapuava, fundando a seguir o forte de Atalaia,
freqüentemente atacado pelas comunidades nativas da região. Nos
anos seguintes, criadores estabeleceram propriedades, nessas regiões,
sempre mais ao sul, em direção à fronteira com o Rio Grande do
Sul.
Em
1816, uma expedição partiu do para estabelecer contato direto
com as Missões, através dos campos de Guarapuava. O nativo Jongong,
que orientou a expedição, temendo a belicosidade coroada nas
margens do rio Uruguai, tomou o caminho do leste e dos Campos de
Palmas, descobriu os Campos Novos, atravessou o rio Pelotas,
chegou ao Campo do Meio, no nordeste do Rio Grande do Sul, de onde
prosseguiu para São Borja.
A
Expropriação Final
A
expedição falhara na abertura de caminho direto entre a feira de
Sorocaba e as Missões, mas redescobrira o caminho, através do
Planalto Médio, ligando os Campos de Vacaria a Santo Ângelo,
utilizado nos séculos anteriores, pelos nativos e pelos tropeiros
e ervateiros missioneiros. A rota ficou conhecida como Caminho
Novo das Missões.
A
abertura do caminho entre os Campos de Vacaria e as Missões
acelerou a substituição das antigas estâncias missioneiras por
latifúndios pastoris luso-brasileiros e a ocupação do Planalto
Médio, onde surgiram, a seguir, as povoações de Cruz Alta,
Passo Fundo, Campo do Meio, Lagoa Vermelha, etc.
Desde
1816, o cabildo dos povos missioneiros e administradores
luso-brasileiros venderam, a preços mínimos, ou concederam,
gratuitamente, terras missioneiros e terrenos não designados,
ensejando que militares, tropeiros e criadores, chegados de São
Paulo, Curitiba, Lages e Laguna, organizassem fazendas criatórias
nas antigas estâncias guaraníticas.
Segundo
Nicolau Dreys, a população missioneira caíra de vinte mil
missioneiros, em 1801, para oito mil, em 1914. O “Relatório ao
Conselho Geral”, de dezembro de 1830, de Caetano Lopes Gama,
presidente da província sulina, sentenciava: “Os Sete Povos
[...] estão quase extintos. Santo Ângelo, São João, São Luiz
e São Nicolau não têm um só índio. São Borja, São Lourenço
e São Miguel, apenas 38.”
Expropriadas
de suas estâncias coletivas, as populações missioneiras
cruzaram o rio Uruguai ou dispersaram-se pelas fazendas sulinas,
onde se empregaram, permanente ou periodicamente, como
trabalhadores pastoris, dando origem, com as populações
escravizadas e as comunidades pampianas aculturadas, às classes
subalternizadas rio-grandenses dedicadas às atividades pastoris.
Com
os anos, à expropriação das terras, seguiu-se a própria
expropriação da memória. Os missioneiros, agora peões pobres,
sequer recordavam-se dos tempos gloriosos em que senhoreavam solidários
as imensas e frutíferas fazendas comunitárias dos Sete Povos
Missioneiros.