Relendo
Marx com a ajuda de Enrique Dussel
Quando
se fala de religião e sociedade, principalmente no mundo da mídia,
somos lembrados dos aspectos negativos da religião, raras vezes da
importância que teve e tem na história do pensamento ocidental.
Por isso, hoje, neste espaço acadêmico, desejo analisar a religião
sob outro aspecto, aquele que teve na montagem de uma das maiores
obras do pensamento no século XIX, sua presença na construção de
O Capital, de Karl Marx
(1818-1883). E o farei a partir de um estudo, Las metáforas teológicas
de Marx, do teólogo argentino Enrique Dussel.
Nesse
texto Dussel considera que Marx não está teoricamente morto, mas,
ao contrário, produzirá um novo impulso no pensamento filosófico
e, inclusive, teológico.
Mas, para entendermos esse processo de construção teórica de O
Capital convém partir das próprias origens culturais de Marx. Assim, é
interessante ver que quase todos os rabinos de Tréveris,
cidade natal de Marx, desde o século XVII até a emancipação
pertenceram às famílias de seus pais. Sua mãe, Henriette Marx
(1788-1863), era judia de origem holandesa, e teve entre seus
familiares importantes rabinos. No entanto, por motivos políticos,
já que o imperador prussiano desejava uma burocracia homogênea,
seu pai foi obrigado a se batizar, possivelmente entre 1816 e 1817,
antes do nascimento de Marx, e no dia 26 de agosto de 1824, com seis
anos, Marx também foi batizado.
Rompia-se,
dessa maneira, uma tradição centenária. Sua mãe, porém, nunca
se batizou, mantendo-se uma judia fiel. Marx, ao que tudo indica,
talvez devido a essa ruptura cultural e religiosa na família, não
aprendeu hebraico. Seus biógrafos chegam a esta constatação,
porque em seu exame de final de curso secundário não prestou, nem
recebeu nenhuma nota em hebraico, o que geralmente acontecia com os
meninos judeus, que aproveitavam o conhecimento do idioma em seu
currículo escolar. Apesar de não conhecer o hebraico, não há dúvida
que Marx, assim como o pai, era de origem pequeno-burguesa, formado
na tradição judaica, mas dentro da cultura iluminista da época
possuía também uma formação luterana com influência pietista.
Essa
questão do luteranismo pietista é muito importante para a
compreensão da obra de Marx. O protestantismo da região
renana, que influenciou Tréveris, cidade natal de Marx, teve uma forte presença
pietista. Ainda no segundo grau, Marx conheceu o pensamento pietista
através de professores, e mais tarde através dos ambientes
hegelianos de Berlim e da filosofia vigente na época. Schelling,
Hoelderlin e outros da mesma geração também foram marca
dos pelo pietismo. E nessa tradição situam-se o
idealismo alemão e o Iluminismo. O pietismo fundamentava-se
na prática do serviço cristão, de responsabilidade política e
econômica, e se alastrou na Alemanha a partir do governo calvinista
em Genebra.
Este
aspecto prático, socialmente ativo, arrancou a tradição reformada
da época de Marx da contemplação e lançou os pietistas à
mobilização social. O impacto da práxis pietista levou Hegel,
contra sua primitiva inspiração, a justificar a ética
capitalista, mas, por outro lado, levará Marx a partir da própria
práxis pietista a criticar a leitura feita por Hegel. É
interessante também ver que Marx criticará os puritanos ingleses,
pais do liberalismo, e o protestantismo holandês, mas não o
pietismo de Wuerttemberg, ao qual, acredita Dussel, ele estava
ligado. Dessa maneira, para
Dussel, se Marx não tivesse deixado a universidade, teria
sido
teólogo, já que se
preparou para ser professor adjunto de Bruno Bauer em Bonn.
Assim, a
teologia não estava fora do horizonte existencial de Marx.
As posições filosóficas,
antropológicas e históricas de Marx sempre estiveram
relacionadas aos problemas teológicos colocados na época, que se corporificavam na
ética do capitalismo. A partir de tal leitura, vemos que Marx
apresentou soluções para problemas sociais a partir de uma leitura teológica
pietista. Por isso, não é de admirar, diz Dussel, que se possa
descobrir posturas teológicas no pensa
mento de Marx. E para Dussel, uma dessas questões é a
doutrina do Anti-Cristo, presente na práxis do pietismo alemão, e que Marx utilizou para se opor em
primeiro lugar ao Estado luterano e, posteriormente, para lançar
sua crítica contra o capital.
O
capital, a besta do Apocalipse
Assim,
Marx trabalhou com duas premissas, a primeira delas diz: “se
um cristão é capitalista”; a segunda premissa é:
“se o capital é a besta do Apocalipse, o demônio visível”.
[vide: Apocalipse 13.17: “Ninguém
podia comprar ou vender, a não ser que tivesse o sinal da Besta ou
o número de seu nome” e Apocalipse 17.13: “Esses
dez estão de acordo entre si e entregaram à Besta o poder e a
autoridade que possuem”].
Na leitura desses textos de Marx, é importante não esquecer que na
tradição do Israel bíblico, Deus é transcendente, donde uma
divindade visível é satânica, idolátrica, não pode ser Deus. Daí
que a conclusão do confronto das duas premissas é: “esse
cristão se encontra em contradição prática”.
O
cristianismo da primeira premissa é o cristianismo existente, cotidiano, enfim, o cristianismo
protestante, luterano, puritano da Europa na época de Marx. O
capitalismo é igualmente o
realmente existente, compreendido cotidianamente por todos. A segunda premissa apresenta o capital como Moloch, fetiche, o demônio visível, como desenvolvimento
da doutrina do Anti-Cristo pietista.
O
cristão se encontraria numa contradição clara, porque o exercício cotidiano da práxis no sistema capitalista envolveria eticamente uma ação demoníaca.
E tal construção lógica é verdadeira, o cristão só tem quatro
maneiras de livrar-se dela: (1) afirmando seu cristianismo e renunciando ao capitalismo; (2) afirmando o capitalismo e renunciando ao cristianismo; (3) inventando uma religião fetichista, com o nome de cristã, modificada de tal maneira que não seja contraditória com o capital; e, por último, (4) interpretando de tal maneira o capital, a fim de que não apareça como contradição diante do cristianismo profético.
As possibilidades 1 e 2 não necessitam nenhuma crítica porque
solucionam a contradição objetivamente. Mas, com respeito à possibilidade 3, esta exige uma crítica
da religião fetichista, questão que Marx não desenvolveu
integralmente, mas sobre a qual deixou sugestões e que foi
entendida pela tradição marxista e não-marxista como crítica da
religião.
Essa
crítica da religião fetichista é perfeitamente aceitável para uma consciência
cristã autêntica. Justino mártir, no século II, argumentando
contra os grupos hegemônicos do império romano, afirmou: “nos
chamem (...) ateus. E quando se trata desses supostos deuses (romanos)
confessamos ser ateus”.
A compreensão de Marx não está distante daquela de Justino.
Com
respeito à possibilidade 4, Marx dedica a ela toda sua obra,
especialmente O
Capital, impossibilitando ao cristão
escapar da contradição, ao mostrar que o capital é mais valia
acumulada, e como mais valia é objetivação do trabalho não pago,
ou seja, não se pode esconder a visão crítica da não-eticidade
do capital. Mas, por outra parte, para desenvolver seu argumento,
Marx mostra também que o capital procura esconder essa não-eticidade
através da pretensão de criar o lucro a partir dele mesmo. Essa
pretensão é interpretada
por Marx como fetichista.
O
discurso metafórico de Marx
O
caráter fetichista do capital é a outra cara da interpretação econômica, política, ideológica, que oculta a essência não-ética do
capital: é a afirmação do capital como “Absoluto”. A crítica do caráter fetichista do capital é, em termos
epistemológicos, uma tarefa econômico-filosófica. E o argumento de Marx, como todo argumento, parte da premissa menor “e se o
capital é anti-Cristo, o demônio visível”. Esse enunciado
pode soar como se Dussel quisesse torcer o discurso de Marx para
apresentá-lo como teólogo, mas, ao contrário, nos alerta para o
fato de que essa
contradição do cristão com o caráter fetichista do
capital não foi ainda analisada, em termos filosófico e econômico, pela teologia cristã.
Mas,
Marx, sem dúvida, desenvolve, de maneira metafórica, o tema nos
capítulos quatro e cinco de O
Capital, ao utilizar expressões como fetiche, demônio e besta
do Apocalipse, Moloch,
Mamom filosófico-econômico
e Baal.
Para Dussel essas metáforas produzem como resultado um discurso
paralelo dentro do discurso econômico-filosófico central de Marx. E ele chama tal discurso paralelo de teologia metafórica de Marx.
A
metáfora e o símbolo não produzem um novo conhecimento
filosófico-econômico, mas abrem um horizonte teológico.
Caso fossem metáforas soltas, caóticas, puramente fragmentárias,
se poderia falar, no máximo, que existem metáforas teológicas na
obra de Marx. Mas como as metáforas têm uma lógica, então se pode falar de uma
prototeologia ou de uma teologia implícita em Marx.
Na
verdade, Marx não teve a intenção de produzir uma teologia explícita
e, por isso, no sentido estrito do termo, não podemos dizer que
tenha sido um teólogo. Mas, segundo Dussel, abriu caminho para uma
teologia. Um exemplo é especialmente importante para balizar essa
apreciação: nos Grundrisse, falando do dinheiro, Marx diz
que “[O
dinheiro] de sua figura de
servo, que antes se apresentava como simples meio de circulação,
se torna de repente soberano e deus do mundo das mercadorias”.
Aqui Marx se está referindo ao texto do apóstolo Paulo, em
Filipenses 2.6-7, que diz: “Ele, apesar de sua figura
divina, não procurou ser igual a Deus, ao contrário,
alienou-se a si
mesmo e assumiu a
figura de servo”.
Sem
dúvida, Marx utiliza o Novo Testamento de
maneira sutil e consciente. Mostra o dinheiro como o inverso
do Cristo, como Anti-Cristo. Enquanto Cristo era “figura divina” que se alienou assumindo a “figura de servo”, o dinheiro, em movimento contrário, sendo “figura de
servo”, se transforma em “deus”, em fetiche. Cristo se
humilhou, o dinheiro se exalta, se diviniza. Trata-se de uma inversão. Essa maneira metafórica de usar temas bíblicos e teológicos, obriga o leitor de
Marx a uma leitura oblíqua, tanto filosófico-econômica como teológica.
Só uma leitura aberta, que procura descobrir a lógica do
discurso filosófico-econômico de Marx, pode traduzir as
significações do caráter fetichista do capital dentro de seu pensamento. Esse
é o caminho proposto por Dussel para a compreensão do discurso
metafórico, de sentido teológico implícito, negativo e fragmentário de Marx.
Dussel cita Heinz Monz [Karl Marx, Grundlagen der Entwicklung
zu Leben und Werk, Trier, 1973, pp. 215-222] e Arnold Künz-li
[Karl Marx, Eine Psychagraphie, Viena, 1966, p. 817].
Karl Marx, El Capital, México, Siglo XXI, t. I/1, 1979, p. 106.
Edição inglesa, London, t. I, 1977, p. 90: Marx-Engels Werke (MEW),
t. 23, p. 101. Engels, que em sua obra El libro del
Apocalipsis (1883) [MEW, 21, p. 11] falando do feticihsmo do
capital diz que “essa crise é o grande combate
final entre Deus e o Anti-Cristo, como o chamaram
outros”. (Texto incluído na obra de Hugo Assmann, Karl
Marx-Engels, Sobre la religión, Sígueme, Salamanca, 1974,
p. 326). Engels cita o mesmo texto de Marx em O Capital,
e comenta: “O cristianismo, como todo grande movimento
revolucionário, foi estabelecido pelas massas” (Ibid., p.
324; p. 10).
O Antigo Testamento no livro de Levítico 18.21 diz: “Não
oferecerás em sacrifício o seu filho a Moloque (...)”. E o
deus Moloque, a quem os amonitas queimavam seus filhos, é
citado em 2 Samuel 12.30; Jeremias 32.35; Sofonias 1.5; e no
Novo Testamento: em Lucas 20.2-5. E nos Manuscritos del 44 (OF,
I, p. 107; CW, III, p. 273; MEW, EB 1, p. 512) Marx diz: “Para
poder converter o amor em Moloque, no demônio corpóreo, o
senhor Edgar começa convertendo-o em deus. E uma vez convertido
em deus, quer dizer, em objeto teológico, cai naturalmente sob
a crítica da teologia, e, como é sabido, Deus e o diabo não
andam nunca um muito longe do outro”.
“Acaso quando dizeis que deve dar a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus, não considerais como Rei e Príncipe
deste mundo não só ao Mamom de ouro, mas também [...] à
livre razão?”. Junto a Moloque aparece agora o outro nome do
ídolo: Mamom. E Marx adota a posição dos profetas de Israel,
explicitamente, já que se compara como jornalista a eles,
apresentando-se como “traça para a Judéia e câncer para
Israel”, referência ao texto do profeta Oséias 6.12. [Gazeta
de Colônia, em OF, I, p. 233; CW, I, p. 147; MEW, 1, p. 42].