Alguma
coisa nova está acontecendo com as religiões
Estamos
acostumados a pensar em religião como algo perene, ligado às tradições
mais antigas e portadora de uma verdade ancestral que não pode ser
modificada ou colocada sob suspeita. Qualquer inovação e
surgimento de uma nova religião, principalmente se esta seguir padrões
muito diferentes daquilo que consideramos comum, levanta logo uma
suspeita de que se trata de algo falso. Pior ainda se essa religião
praticar rituais exóticos e converter a nossa juventude.
Rapidamente será acusada de enganar as pessoas e fazer lavagem
cerebral.
Ora,
mas o que realmente acontece com essas novas religiões? Serão elas
todas falsas ou, ainda, seitas perigosas? Será que estes são
sinais de um tempo em que a sociedade perdeu seus valores e se
encontra em meio a uma crescente fragmentação e dissolução dos
laços de solidariedade? Por outro lado, será que podemos enxergar
nessas novas religiões algo de bom e verdadeiro?
Alguma
coisa está acontecendo no campo religioso. Essa novidade não está
restrita apenas ao Brasil ou aos países da Europa Ocidental e da América
do Norte. Também em muitos países da Ásia, como Japão e Coréia,
do leste europeu ou, ainda mais recentemente, da África, a religião
passa por grandes transformações. Como entender esse fenômeno e,
até mais que isso, como nos posicionar frente a ele?
Compreender
os novos movimentos religiosos não é uma tarefa tão simples, a
começar pelo próprio conceito do que é ou não uma religião.
Muito do que acontece de novo no campo das crenças e das práticas
religiosas foge da nossa concepção usual de religião. Essa nossa
visão está muito ligada à idéia de igreja, principalmente a
cristã, haja vista a influência que o cristianismo exerceu, e
ainda exerce, na nossa sociedade. Como levar em consideração, num
estudo sobre religiões, determinadas técnicas de meditação que
poderiam simplesmente ser classificadas como da área das
psicologias? Porém, logo perceberemos que as fronteiras aqui não são
delimitadas satisfatoriamente e que a tal meditação pode fazer
parte de um conjunto de práticas que visa à elevação espiritual
do indivíduo. Desta maneira, já estaríamos novamente no campo das
crenças e, portanto, diante do nosso objeto de estudo. Muito do que
se fala acerca das novas religiões pode ser entendido como algo que
faz parte de um campo mais amplo, o das religiosidades. Também o
termo “novo”, que aparece no início da expressão, guarda
controvérsias. O que podemos ou não considerar por uma novidade não
é tão simples como parece à primeira vista. Se toda religião foi
nova um dia (e o cristianismo não foge à regra), quando é que
podemos considerar que deixou de sê-la? O que é realmente um novo
movimento religioso?
O
termo novos movimentos religiosos, muitas vezes simplificado no uso
das iniciais, NMR, mistura-se com outros, também utilizados pelos
estudiosos, como novas religiões, novas religiosidades e
espiritualidades, religiões alternativas e Nova Era. Além disso,
confunde-se com os conceitos de seita e culto. Trazendo alguns
complicadores de ordem técnica ou uma conotação que pode ser até
pejorativa, os termos seita e culto não têm sido utilizados com
freqüência, salvo pelos meios de comunicação ou por integrantes
de alguma igreja que procura desmerecer sua concorrente (seita é a
religião do outro!). Nesse sentido, precisaremos nos deter com um
pouco mais de atenção nos significados dessas terminologias.
O
que acontece no campo religioso hoje, longe de ser um movimento único,
organizado, com filosofia e propósitos definidos, tem muito mais a
ver com a idéia de mudança, algo em constante movimento. A religião
não fica mais somente na igreja e na comunidade original, mas se
desloca para outros lugares, assume novas feições e formas de vivências.
Cresce enormemente o número de religiões, que estão agora ao
alcance da escolha e livre opção do indivíduo e não mais como
uma herança recebida dos pais ou imposta pela sociedade. A religião
encontra-se “em tudo”, penetrando nas múltiplas dimensões da
vida do sujeito, do cuidado com a saúde à busca de novos laços
societários, ampliando as experiências singulares e realçando as
adesões provisórias. Essa religiosidade difusa indica um
afrouxamento das fronteiras rígidas de antes. Um indivíduo que
tenha optado por uma dessas novas religiosidades passa a dar menor
importância aos referentes ancorados na tradição familiar e herança
de sua cultura para se deslocar em busca de novos caminhos numa
“viagem” interior, onde a salvação encontra-se dentro de si
mesmo.
É
claro que as igrejas e religiões tradicionais não sumiram. Pelo
contrário, permanecem atuando fortemente na sociedade. A sociedade
brasileira continua majoritariamente cristã. Apesar da imensa
variedade de novas opções religiosas trazidas pelos novos
movimentos religiosos, a diversidade em termos de distribuição da
população pelas diferentes agências é pequena. As novas religiões
enriquecem a paisagem religiosa, com suas práticas exóticas e suas
roupagens coloridas, mas recebem um número relativamente pequeno de
adesões. Ou seja, é significativamente pequeno o número de
pessoas que seguem essas novas religiões. Por outro lado, é grande
a visibilidade delas na composição religiosa da nossa sociedade.
Os
novos movimentos religiosos causam intensa polêmica em várias
localidades. Alguns países europeus chegam a colocar como política
de Estado a ação contra as atividades de grupos religiosos,
ferindo, até, o pressuposto de liberdade religiosa. Uma grande
preocupação é emanada das famílias dos adeptos e convertidos,
que sentem que seus filhos foram vítimas de cooptação à força
por lideranças inescrupulosas. Inicialmente nos Estados Unidos e
depois em países da Europa Ocidental surgiram grupos anti-cultos
especializados em “libertar” os membros familiares que teriam
sofrido lavagem cerebral. Esses grupos desenvolveram, inclusive, técnicas
de desprogramação cerebral e contam com um forte apoio dos meios
de comunicação e da sociedade em geral. No Brasil, o quadro é
bastante diferente. Salvo pequenas atuações discriminatórias e até
ofensivas, gozamos de uma efetiva aceitação das novas religiões.
Poucas foram, inclusive, as ações de familiares contra grupos
religiosos que por ventura tivessem cometido algo contra seus
filhos.
É
preciso buscar subsídios que possam ajudar na compreensão das
mudanças em curso no campo religioso brasileiro e, inclusive, na
diminuição dos preconceitos e intolerâncias para com essas formas
religiosas alternativas. Não temos dúvidas de que o conhecimento
sobre o outro, entendido como todo aquele indivíduo ou grupo que
partilha de um pensamento diferente do nosso, permite não apenas um
convívio mais humano, fundamentado no diálogo, como também um
aprendizado sobre nós mesmos.
Discutir
as novas religiões exige uma incursão sobre os conceitos de seita
e de igreja. Apesar de bastante explorado no campo da sociologia da
religião, o termo seita é muitas vezes utilizado, no senso comum,
com uma conotação pejorativa, como algo menor do que uma religião.
É preciso saber as distinções para não incorrermos no erro do
preconceito.
Faz-se
necessário, também, discutir o contexto sócio-cultural que tornou
possível essa efervescência de novas religiosidades. Novas crenças,
secularização e re-encantamento do mundo, enfim, o que mudou e
qual é o pano de fundo do pensamento desses setores sociais. Será
possível falar em uma nova consciência religiosa? Até que ponto
podemos afirmar que a sociedade passa por uma transformação nas
espiritualidades e em seu sistema de crenças?
É
importante, ainda, olhar para as novas religiões na sociedade
brasileira e procurar enxergar seus componentes entre nós. É comum
ouvirmos afirmações de que o Brasil é um país bastante rico em
termos religiosos, pois a variedade de opções é enorme. É
preciso levar em conta que há duas tendências sempre presentes
entre essas novas religiões. Nesse sentido, podemos compreendê-las
dentro de um constante jogo entre o fundamentalismo e o relativismo.
Costuma-se associar novas religiões àquilo que se denomina de Nova
Era. Porém, apesar desta ser incluída dentre os novos movimentos
religiosos, está muitas vezes longe daquilo que chamamos de religião.
É tão grande a visibilidade social da Nova Era que muitos
acreditam ser sinônimo de novos movimentos religiosos,
esquecendo-se de vários grupos mais fechados que em nada se
assemelham às suas características. A Nova Era ganha visibilidade
na nossa sociedade, principalmente pelo alcance midiático e seu
apelo comercial. No entanto, seu relativismo, por vezes exagerado,
muitas vezes contrasta com alguns grupos religiosos mais sectários
de bases fundamentalistas.
As
novas religiões no Brasil não podem ser entendidas apenas quanto
à novidade teológica, nem quanto ao tempo de existência, mas sim
a partir de uma análise da novidade que representam em termos de
vivências e práticas. Assim, movimentos nem sempre considerados
novos podem ser analisados em conjunto a outros mais recentes,
vistos que ambos participam dos novos contornos religiosos da
sociedade brasileira. No jogo das convivências entre as novas
religiões, nem todas agem com o mesmo grau de tolerância e
abertura frente ao mundo, nem mesmo em relação à pregação de
uma verdade e dogmas bem estabelecidos. Assim, podemos perceber tendências
relativistas ou fundamentalistas entre elas, auxiliando-nos na
compreensão da dinâmica do jogo das novas religiões.