por SILAS GUERRIERO

Professor associado do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestre e doutor em antropologia, atua na área de pesquisa da antropologia das religiões, especialmente novos movimentos religiosos e religião na modernidade. É autor de Novos Movimentos Religiosos no Brasil (editora Paulinas, 2006), A magia existe? (editora Paulus, 2003), organizador dos livros Antropos e Psique - o outro e sua subjetividade (editora Olho D´água, 2000) e O estudo das religiões: desafios contemporâneos (editora Paulinas, 2003).

 

 

Alguma coisa nova está acontecendo com as religiões[1]

 

Estamos acostumados a pensar em religião como algo perene, ligado às tradições mais antigas e portadora de uma verdade ancestral que não pode ser modificada ou colocada sob suspeita. Qualquer inovação e surgimento de uma nova religião, principalmente se esta seguir padrões muito diferentes daquilo que consideramos comum, levanta logo uma suspeita de que se trata de algo falso. Pior ainda se essa religião praticar rituais exóticos e converter a nossa juventude. Rapidamente será acusada de enganar as pessoas e fazer lavagem cerebral.

Ora, mas o que realmente acontece com essas novas religiões? Serão elas todas falsas ou, ainda, seitas perigosas? Será que estes são sinais de um tempo em que a sociedade perdeu seus valores e se encontra em meio a uma crescente fragmentação e dissolução dos laços de solidariedade? Por outro lado, será que podemos enxergar nessas novas religiões algo de bom e verdadeiro?

Alguma coisa está acontecendo no campo religioso. Essa novidade não está restrita apenas ao Brasil ou aos países da Europa Ocidental e da América do Norte. Também em muitos países da Ásia, como Japão e Coréia, do leste europeu ou, ainda mais recentemente, da África, a religião passa por grandes transformações. Como entender esse fenômeno e, até mais que isso, como nos posicionar frente a ele?

Compreender os novos movimentos religiosos não é uma tarefa tão simples, a começar pelo próprio conceito do que é ou não uma religião. Muito do que acontece de novo no campo das crenças e das práticas religiosas foge da nossa concepção usual de religião. Essa nossa visão está muito ligada à idéia de igreja, principalmente a cristã, haja vista a influência que o cristianismo exerceu, e ainda exerce, na nossa sociedade. Como levar em consideração, num estudo sobre religiões, determinadas técnicas de meditação que poderiam simplesmente ser classificadas como da área das psicologias? Porém, logo perceberemos que as fronteiras aqui não são delimitadas satisfatoriamente e que a tal meditação pode fazer parte de um conjunto de práticas que visa à elevação espiritual do indivíduo. Desta maneira, já estaríamos novamente no campo das crenças e, portanto, diante do nosso objeto de estudo. Muito do que se fala acerca das novas religiões pode ser entendido como algo que faz parte de um campo mais amplo, o das religiosidades. Também o termo “novo”, que aparece no início da expressão, guarda controvérsias. O que podemos ou não considerar por uma novidade não é tão simples como parece à primeira vista. Se toda religião foi nova um dia (e o cristianismo não foge à regra), quando é que podemos considerar que deixou de sê-la? O que é realmente um novo movimento religioso?

O termo novos movimentos religiosos, muitas vezes simplificado no uso das iniciais, NMR, mistura-se com outros, também utilizados pelos estudiosos, como novas religiões, novas religiosidades e espiritualidades, religiões alternativas e Nova Era. Além disso, confunde-se com os conceitos de seita e culto. Trazendo alguns complicadores de ordem técnica ou uma conotação que pode ser até pejorativa, os termos seita e culto não têm sido utilizados com freqüência, salvo pelos meios de comunicação ou por integrantes de alguma igreja que procura desmerecer sua concorrente (seita é a religião do outro!). Nesse sentido, precisaremos nos deter com um pouco mais de atenção nos significados dessas terminologias.

O que acontece no campo religioso hoje, longe de ser um movimento único, organizado, com filosofia e propósitos definidos, tem muito mais a ver com a idéia de mudança, algo em constante movimento. A religião não fica mais somente na igreja e na comunidade original, mas se desloca para outros lugares, assume novas feições e formas de vivências. Cresce enormemente o número de religiões, que estão agora ao alcance da escolha e livre opção do indivíduo e não mais como uma herança recebida dos pais ou imposta pela sociedade. A religião encontra-se “em tudo”, penetrando nas múltiplas dimensões da vida do sujeito, do cuidado com a saúde à busca de novos laços societários, ampliando as experiências singulares e realçando as adesões provisórias. Essa religiosidade difusa indica um afrouxamento das fronteiras rígidas de antes. Um indivíduo que tenha optado por uma dessas novas religiosidades passa a dar menor importância aos referentes ancorados na tradição familiar e herança de sua cultura para se deslocar em busca de novos caminhos numa “viagem” interior, onde a salvação encontra-se dentro de si mesmo.

É claro que as igrejas e religiões tradicionais não sumiram. Pelo contrário, permanecem atuando fortemente na sociedade. A sociedade brasileira continua majoritariamente cristã. Apesar da imensa variedade de novas opções religiosas trazidas pelos novos movimentos religiosos, a diversidade em termos de distribuição da população pelas diferentes agências é pequena. As novas religiões enriquecem a paisagem religiosa, com suas práticas exóticas e suas roupagens coloridas, mas recebem um número relativamente pequeno de adesões. Ou seja, é significativamente pequeno o número de pessoas que seguem essas novas religiões. Por outro lado, é grande a visibilidade delas na composição religiosa da nossa sociedade.

Os novos movimentos religiosos causam intensa polêmica em várias localidades. Alguns países europeus chegam a colocar como política de Estado a ação contra as atividades de grupos religiosos, ferindo, até, o pressuposto de liberdade religiosa. Uma grande preocupação é emanada das famílias dos adeptos e convertidos, que sentem que seus filhos foram vítimas de cooptação à força por lideranças inescrupulosas. Inicialmente nos Estados Unidos e depois em países da Europa Ocidental surgiram grupos anti-cultos especializados em “libertar” os membros familiares que teriam sofrido lavagem cerebral. Esses grupos desenvolveram, inclusive, técnicas de desprogramação cerebral e contam com um forte apoio dos meios de comunicação e da sociedade em geral. No Brasil, o quadro é bastante diferente. Salvo pequenas atuações discriminatórias e até ofensivas, gozamos de uma efetiva aceitação das novas religiões. Poucas foram, inclusive, as ações de familiares contra grupos religiosos que por ventura tivessem cometido algo contra seus filhos.

É preciso buscar subsídios que possam ajudar na compreensão das mudanças em curso no campo religioso brasileiro e, inclusive, na diminuição dos preconceitos e intolerâncias para com essas formas religiosas alternativas. Não temos dúvidas de que o conhecimento sobre o outro, entendido como todo aquele indivíduo ou grupo que partilha de um pensamento diferente do nosso, permite não apenas um convívio mais humano, fundamentado no diálogo, como também um aprendizado sobre nós mesmos.

Discutir as novas religiões exige uma incursão sobre os conceitos de seita e de igreja. Apesar de bastante explorado no campo da sociologia da religião, o termo seita é muitas vezes utilizado, no senso comum, com uma conotação pejorativa, como algo menor do que uma religião. É preciso saber as distinções para não incorrermos no erro do preconceito.

Faz-se necessário, também, discutir o contexto sócio-cultural que tornou possível essa efervescência de novas religiosidades. Novas crenças, secularização e re-encantamento do mundo, enfim, o que mudou e qual é o pano de fundo do pensamento desses setores sociais. Será possível falar em uma nova consciência religiosa? Até que ponto podemos afirmar que a sociedade passa por uma transformação nas espiritualidades e em seu sistema de crenças?

É importante, ainda, olhar para as novas religiões na sociedade brasileira e procurar enxergar seus componentes entre nós. É comum ouvirmos afirmações de que o Brasil é um país bastante rico em termos religiosos, pois a variedade de opções é enorme. É preciso levar em conta que há duas tendências sempre presentes entre essas novas religiões. Nesse sentido, podemos compreendê-las dentro de um constante jogo entre o fundamentalismo e o relativismo. Costuma-se associar novas religiões àquilo que se denomina de Nova Era. Porém, apesar desta ser incluída dentre os novos movimentos religiosos, está muitas vezes longe daquilo que chamamos de religião. É tão grande a visibilidade social da Nova Era que muitos acreditam ser sinônimo de novos movimentos religiosos, esquecendo-se de vários grupos mais fechados que em nada se assemelham às suas características. A Nova Era ganha visibilidade na nossa sociedade, principalmente pelo alcance midiático e seu apelo comercial. No entanto, seu relativismo, por vezes exagerado, muitas vezes contrasta com alguns grupos religiosos mais sectários de bases fundamentalistas.

As novas religiões no Brasil não podem ser entendidas apenas quanto à novidade teológica, nem quanto ao tempo de existência, mas sim a partir de uma análise da novidade que representam em termos de vivências e práticas. Assim, movimentos nem sempre considerados novos podem ser analisados em conjunto a outros mais recentes, vistos que ambos participam dos novos contornos religiosos da sociedade brasileira. No jogo das convivências entre as novas religiões, nem todas agem com o mesmo grau de tolerância e abertura frente ao mundo, nem mesmo em relação à pregação de uma verdade e dogmas bem estabelecidos. Assim, podemos perceber tendências relativistas ou fundamentalistas entre elas, auxiliando-nos na compreensão da dinâmica do jogo das novas religiões.

 

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[1] Este artigo é parte do livro Novos Movimentos Religiosos no Brasil, que está sendo publicado pela editora Paulinas.

 

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