Invasões
sacras
Há
116 anos vivemos sob o sistema republicano de governo. Às vezes
esquecemos, mas isso significa uma forma de governo que não
deveria confundir os interesses públicos, comuns, com os privados.
Em tempos de “mensalões” e banalização do caixa dois, a República
está em recesso.
O
juiz Roberto Arriada Lorea, de Porto Alegre, olhou seu ambiente de
trabalho e estranhou. O crucifixo colocado na parede violava um
princípio constitucional consagrado desde 1891: o da separação da
Igreja Católica do Estado. O mesmo símbolo está exposto em
repartições públicas e no plenário do Superior Tribunal Federal.
A primazia de uma religião, disse Lorea (Folha de S. Paulo, 24/9/2005), fere “o direito à inviolabilidade
de crença religiosa assegurado a toda a população”. Caso típico
de apropriação indevida do espaço público por interesses
particulares.
É
essencial observar que a cruz cristã não tem igual significado
para todos. Sem falar nos ateus, indiferentes às imagens sacras,
judeus, muçulmanos, indígenas e não-cristãos em geral têm
recordações dolorosas de atrocidades cometidas em nome da Igreja
Católica. As fogueiras da Idade Média, as torturas da Inquisição,
as Cruzadas e as conversões forçadas nas conquistas coloniais são
apenas alguns exemplos do que se perpetrou à sombra da cruz. O que
pensará um cientista olhando para o símbolo do martírio de Cristo
e lembrando a censura imposta a Galileu Galilei? Que constrangimento
terá um filósofo, frente à mesma imagem, recordando a tortura e
morte de Giordano Bruno?
O
Estado brasileiro é laico, espelho do artigo 19, inciso I, da
Constituição. Como somos o país do jeitinho, a prática nem
sempre confirma a teoria. Temos pencas de feriados dedicados a
santos católicos. Nas notas de real, lê-se “Deus seja louvado”
(!). Diz a primeira frase da Constituição de 1988: “Nós,
representantes do povo brasileiro (...), promulgamos, sob
a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República
Federativa do Brasil”. Confundindo razões religiosas pessoais com
o interesse do Estado, o presidente Lula alegou “identificação
com os valores éticos do Evangelho” para não rediscutir a
legislação brasileira sobre o aborto, editada em 1940. Disse que não
tomará “nenhuma iniciativa que contradiga os princípios cristãos”.
Eleva, assim, um credo religioso à categoria de instrumento de
decisão de governo. Confunde, também, a posição oficial da
Igreja Católica com a dos praticantes desta religião, entre os
quais a questão está longe de ser consensual.
A
religião é uma criação humana. Suas raízes mais profundas
repousam, grosso modo, na angústia e no sofrimento de se saber
finita a vida, na dificuldade de dar sentido a ela quando o final da
estrada é a morte inexorável. Os mitos de seres
imortais/imateriais e as promessas de um mundo paralelo além da
morte povoam o imaginário de muitas culturas que cresceram
influenciadas por valores religiosos. Mais do que isso:
transformaram-se numa referência identitária. É uma herança
cultural forte, que cobra pedágio mesmo daqueles que não são
praticantes. Um grupo de jovens judeus não-religiosos de classe média
costuma freqüentar uma sinagoga ortodoxa no bairro carioca do
Leblon. Têm hábitos “modernos” mas sentem-se atraídos por um
“judaísmo autêntico”, que atribuem aos ortodoxos. Não se
constrangem com a presença de rabinos que separam homens de
mulheres nos cultos e interpretam de forma rígida os textos
religiosos. Aceitam o paradoxo em nome de uma força maior: a pressão
cultural de construir uma identidade com componentes religiosos.
Em
alguns países de maioria cristã há uma ofensiva de idéias
religiosas. Os alvos mais visíveis são as escolas públicas, a ciência
e a política. No Brasil, país com a maior população católica do
mundo, os Estados do Rio de Janeiro e Bahia incluíram o ensino
confessional (aulas específicas para alunos de cada crença) nos
currículos dos colégios públicos. O fato é curioso – e
preocupante −, pois estes são os dois estados que, de acordo
com a Fundação Getúlio Vargas e o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, têm o maior número de habitantes que se
declaram sem religião. No norte fluminense, as aulas dadas aos
alunos evangélicos substituíram o evolucionismo pelo criacionismo,
movimento classificado como “volta das trevas” pelo neurologista
Alan Leshner, editor da prestigiada revista Science.
Em
relação à ciência, a artilharia se volta contra o velho Darwin.
A teoria revolucionária que ele desenvolveu, segundo a qual a vida
humana é fruto de uma evolução tensa e lenta e que passou pelos
primatas, está sendo questionada por grupos religiosos, que sugerem
a narrativa bíblica como modelo científico de explicação da
origem da vida (criacionismo). Interpretam ao pé da letra as citações
do livro do Gênesis,
quando estas são uma questão de fé e não de fatos comprovados.
Alguns adornam suas posições com um bom truque publicitário: o
Design Inteligente. Alegam ser obrigatório pensar numa inteligência
superior para explicar a complexidade da vida. Elevar esta especulação
à categoria de teoria científica, quando ela não é passível de
validação empírica, é uma tentativa de dar verossimilhança e
lastro acadêmico aos mitos fundadores das religiões baseadas na Bíblia.
Conforme bem observou o físico Marcelo Gleiser, “invocar Deus
para preencher lacunas em nosso conhecimento não avança o saber”
(Folha de S. Paulo,
23.1.2005).
Nos
Estados Unidos, o assunto está crepitando. País onde religião e
política se confundem com freqüência, as teses criacionistas e o
Design Inteligente fazem a festa. Lóbis cristãos conservadores estão
conseguindo mudar o currículo das aulas de ciência em escolas públicas,
substituindo ou dividindo espaço com a teoria darwinista. Pensilvânia,
Kansas, Minnesota, Ohio e Novo México já aprovaram esta novidade.
Há mais quase 20 Estados analisando a proposta, que tem o apoio
ostensivo do presidente George W. Bush.
O
território político sempre foi disputado por instituições/indivíduos
religiosos. Para ficar num único e esclarecedor exemplo, citado por
Frei Beto (Cristianismo e
Marxismo, editora
Vozes, 1986), vejamos o que disse Napoleão I: “Quanto a mim, não
vejo na religião o mistério da encarnação, mas o mistério da
ordem social: ela remete ao céu uma idéia de igualdade que impede
que o rico seja massacrado pelo pobre (...). A sociedade não pode
existir sem desigualdades de fortunas e a desigualdade de fortunas não
pode subsistir sem a religião. Quando um homem morre de fome ao
lado de outro que esbanja, é impossível a ele entender essa
diferença se não há uma autoridade que lhe diga: ‘Deus quer
assim, é preciso que haja pobres e ricos no mundo; mas depois e
durante a eternidade haverá partilha’.”
É
claro que as idéias do imperador francês devem ser matizadas pela
História. Se muitos, como ele, manipularam a fé para se
beneficiarem política e materialmente, outros a complementaram com
elementos não-religiosos e se envolveram em processos de transformação
social. Do padre Camilo Torres, guerrilheiro colombiano nos anos
1960, ao clero sandinista, passando pelos adeptos da Teologia da
Libertação (duramente combatidos pelo papa João Paulo 2˚),
um quadro complexo se forma, intraduzível pela fórmula do “ópio
do povo”.
Usar
as mitologias religiosas como instrumento de interpretação política
produz equívocos. Fico em dois exemplos. Quando a recente desocupação
da faixa de Gaza estava prestes a se iniciar, a direita israelense,
e dentro dela expressivos segmentos religiosos, reuniu cerca de 100
mil pessoas em Jerusalém. Em meio a discursos xenofóbicos, rabinos
alegavam que ceder terras prometidas aos judeus por Deus era um
sacrilégio. Para eles, a História não existe como processo. Outro
exemplo nos remete a Tishá Beav.
Os ortodoxos costumam atribuir a destruição dos Templos à
“desunião dos judeus”, como se toda a realidade se restringisse
a estes. Com uma pitada de bom senso, se poderia questionar a
possibilidade de “judeus unidos” derrotarem os Impérios Babilônio
e Romano. Este tipo de descolamento da realidade é comum entre
muitos religiosos.
No
Brasil, há uma disputa entre grupos cristãos para ver quem melhor
representa a mensagem de seu profeta. Daí derivam conseqüências
políticas. Os católicos, 95% dos brasileiros em 1950, caíram para
74% em 2000. Em contrapartida, as igrejas evangélicas aumentaram
sua participação de cerca de 3% para 16% no mesmo período.
Pesquisa da FGV aponta para o crescimento da influência evangélica
nos grupos mais desprotegidos da população. A interpretação
destes dados não é trivial, mas vale a pena conhecer o que diz o
frade dominicano Carlos Josaphat (Folha
de S. Paulo, 23.3.2005). Segundo ele, grupos religiosos “se
aproveitam da necessidade e do sufoco do povo e inventam processos
de terapia que competiriam à psicologia ou à medicina, dando uma
falsa confiança de que a religião vai resolver os problemas de saúde,
emprego ou os que são puramente técnicos”.
O
deputado Wanderval Santos (PL-SP) afirmou que seu mandato pertence
à Igreja Universal do Reino de Deus. Lealdade programática
engolida por compromisso eclesial. No Rio, o casal Garotinho combina
políticas assistencialistas com molho religioso de fundo evangélico
para garantir espaço político. É o populismo manjado, que mantém
as massas na dependência do Estado e preserva intocados os privilégios
das classes dominantes. Alimentando a máquina, dois programas
radiofônicos diários, retransmitidos por 400 emissoras. Neles,
Anthony Garotinho liquidifica noções de auto-ajuda e conselhos
religiosos, ingredientes complementares de sua pregação política.
Que
ninguém duvide: mais porosidade na fronteira entre público e
privado significa menos democracia.