por AMIR ASIFUDDIN

Amir Asifuddin é estudante de terceiro ano na Universidade de Califórnia Davis, onde ele se formará em Microbiologia e Sociologia. Depois da universidade, ele vai estudar Medicina Legal ou Saúde Pública. Sua família é de Hyderabad, India, e ele nasceu em Houston, Texas. 

 

 

Uma perspectiva de um muçulmano sobre as charges dinamarquesas

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

A liberdade de imprensa e de opinião é um aspecto de qualquer democracia, seja ela os Estados Unidos ou uma nação européia. Mas parece que algumas pessoas não perceberam que com estas liberdades vêm também uma séria responsabilidade.

O que aconteceria se as pessoas da People Magazine nomeasse Denzel Washington o “N----“ do ano? Ou que a Fox decidisse exibir uma foto de um judeu com chifres do diabo na sua cabeça crucificando Jesus? E que tal uma foto de uma suástica bem grande na capa da revista Time com um coração em volta dela, ou uma charge de um homossexual transando com o diabo? Algumas destas imagens provocariam escândalo no mundo? Se as pessoas reclamassem sobre estas imagens, as outras nações imprimiriam e mostrariam estas imagens “em benefício” da liberdade de imprensa e de opinião? Todos nós temos liberdade de opinião, mas a nossa democracia nos ensina que a nossa liberdade acaba onde a de outros começa.

Isto é o que está acontecendo aos muçulmanos neste momento. Uma revista dinamarquesa pediu a 40 artistas para enviarem desenhos do Profeta Maomé (pbuh).[1] As 12 charges extremamente ofensivas foram publicadas há alguns meses e inicialmente não receberam muita publicidade. Elas foram então deliberadamente re-publicadas na Noruega, “coincidentemente” no dia de Eid, quando os muçulmanos comemoram o teste de sacrifício do Profeta Abraão. Somente depois desta segunda tentativa o mundo muçulmano reagiu. Diferentemente de outras religiões, o islamismo proíbe qualquer representação gráfica dos profetas. É um completo desrespeito aos muçulmanos não somente imprimir estas imagens, mas para outros jornais europeus reimprimi-las porque são “notícia.” Esta ação, em si mesma, desrespeita meu povo, ao invés de salvar qualquer democracia.

Em segundo lugar, a correlação entre democracia e a impressão de uma imagem ofensiva é imbecil, comparada a outros assuntos que nos confrontam atualmente. Onde estão os documentos nos jornais que provam que a nossa administração sabia dos eventos de 11 de setembro antes que eles ocorressem?  São eventos como estes que estão escondidos de nós que essencialmente se opõem ao verdadeiro significado da liberdade de impressa. A ironia é a resposta negativa aos muçulmanos da Dinamarca e outros países do mundo. Os muçulmanos estão corretamente usando a sua liberdade de expressão e de opinião ao exibir seu ressentimento contra a publicação destas charges. Parece, então, que os jornais estão lutando somente pela sua própria liberdade.

Naturalmente eu não aprovo o excesso de zelo dos muçulmanos do terceiro mundo. Nosso Profeta (pbuh) não aprovaria tal atitude: “Você não comete o mal contra aqueles que fazem mal a você, mas você lida com eles com perdão e bondade.” Mas podemos entender como, no meio da crescente tensão entra as duas sociedades, um evento como este causaria tal caos. Novos fatos estão vindo à tona diariamente, e as tensões continuarão a subir.

Sem o conhecimento do público, um jornal dinamarquês, Politiken, imprimiu um artigo no dia 4 de fevereiro sobre este assunto. Nele, o  jornal diz que o jornal dinamarquês que imprimiu as charges tinha recebido uma caricatura de Jesus ressuscitado. Dizendo que esta imagem provocaria muitos protestos, [a direção do jornal] a considerou muito ofensiva, e a charge jamais foi publicada. É impossível não ver como medidas diferentes estão sendo tomadas sobre nós na sociedade hoje.

Depois deste momento, provavelmente vários de vocês acham que este é um problema que deveria ser resolvido pelos muçulmanos. Eu não estou de acordo. Este é seu problema tanto quando nosso. Esta injustiça, se for ignorada, apenas abrirá as portas para que outro homem seja perseguido. Por favor faça sua parte e levante sua voz de protesto escrevendo aos jornais que re-publicaram estas imagens ofensivas.  

 

Este texto foi publicado em: The California Aggie Online, 2/16/06

www.californiaaggie.com/news/2006/02/16/Opinion/

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[1]  “pbuh” é uma abreviação de “Peace Be Upon Him”—“Que a Paz Esteja com Ele.” Esta expressão é usada quando o nome de um profeta é mencionado. Este é o significado da expressão em árabe, “Alaihis Salam,” que é usada pelos muçulmanos que falam inglês. No entanto, alguns apontam que esta expressão não dá o significado completo de “Salla Allahu ‘Alaihi Wa Sallam.”

 

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