Uma
perspectiva de um muçulmano sobre as charges dinamarquesas
[Tradução:
Eva Paulino Bueno]
A
liberdade de imprensa e de opinião é um aspecto de qualquer
democracia, seja ela os Estados Unidos ou uma nação européia. Mas
parece que algumas pessoas não perceberam que com estas liberdades
vêm também uma séria responsabilidade.
O
que aconteceria se as pessoas da People
Magazine nomeasse Denzel Washington o “N----“ do ano? Ou que
a Fox decidisse exibir uma foto de um judeu com chifres do diabo na
sua cabeça crucificando Jesus? E que tal uma foto de uma suástica
bem grande na capa da revista Time
com um coração em volta dela, ou uma charge de um homossexual
transando com o diabo? Algumas destas imagens provocariam escândalo
no mundo? Se as pessoas reclamassem sobre estas imagens, as outras
nações imprimiriam e mostrariam estas imagens “em benefício”
da liberdade de imprensa e de opinião? Todos nós temos liberdade
de opinião, mas a nossa democracia nos ensina que a nossa liberdade
acaba onde a de outros começa.
Isto
é o que está acontecendo aos muçulmanos neste momento. Uma
revista dinamarquesa pediu a 40 artistas para enviarem desenhos do
Profeta Maomé (pbuh).
As 12 charges extremamente ofensivas foram publicadas há alguns
meses e inicialmente não receberam muita publicidade. Elas foram
então deliberadamente re-publicadas na Noruega,
“coincidentemente” no dia de Eid, quando os muçulmanos
comemoram o teste de sacrifício do Profeta Abraão. Somente depois
desta segunda tentativa o mundo muçulmano reagiu. Diferentemente de
outras religiões, o islamismo proíbe qualquer representação gráfica
dos profetas. É um completo desrespeito aos muçulmanos não
somente imprimir estas imagens, mas para outros jornais europeus
reimprimi-las porque são “notícia.” Esta ação, em si mesma,
desrespeita meu povo, ao invés de salvar qualquer democracia.
Em
segundo lugar, a correlação entre democracia e a impressão de uma
imagem ofensiva é imbecil, comparada a outros assuntos que nos
confrontam atualmente. Onde estão os documentos nos jornais que
provam que a nossa administração sabia dos eventos de 11 de
setembro antes que eles ocorressem?
São eventos como estes que estão escondidos de nós que
essencialmente se opõem ao verdadeiro significado da liberdade de
impressa. A ironia é a resposta negativa aos muçulmanos da
Dinamarca e outros países do mundo. Os muçulmanos estão
corretamente usando a sua liberdade de expressão e de opinião ao
exibir seu ressentimento contra a publicação destas charges.
Parece, então, que os jornais estão lutando somente pela sua própria
liberdade.
Naturalmente
eu não aprovo o excesso de zelo dos muçulmanos do terceiro mundo.
Nosso Profeta (pbuh) não aprovaria tal atitude: “Você não
comete o mal contra aqueles que fazem mal a você, mas você lida
com eles com perdão e bondade.” Mas podemos entender como, no
meio da crescente tensão entra as duas sociedades, um evento como
este causaria tal caos. Novos fatos estão vindo à tona
diariamente, e as tensões continuarão a subir.
Sem
o conhecimento do público, um jornal dinamarquês, Politiken,
imprimiu um artigo no dia 4 de fevereiro sobre este assunto. Nele, o
jornal diz que o jornal dinamarquês que imprimiu as charges
tinha recebido uma caricatura de Jesus ressuscitado. Dizendo que
esta imagem provocaria muitos protestos, [a direção do jornal] a
considerou muito ofensiva, e a charge jamais foi publicada. É
impossível não ver como medidas diferentes estão sendo tomadas
sobre nós na sociedade hoje.
Depois
deste momento, provavelmente vários de vocês acham que este é um
problema que deveria ser resolvido pelos muçulmanos. Eu não estou
de acordo. Este é seu problema tanto quando nosso. Esta injustiça,
se for ignorada, apenas abrirá as portas para que outro homem seja
perseguido. Por favor faça sua parte e levante sua voz de protesto
escrevendo aos jornais que re-publicaram estas imagens ofensivas.
Este
texto foi publicado em:
The
California Aggie Online, 2/16/06
www.californiaaggie.com/news/2006/02/16/Opinion/