Religião
e Cultura Popular:
o
caso dos Atletas de Cristo
Introdução
Nos
últimos anos alguns atletas profissionais de alto rendimento em esportes
diversos passaram a ser conhecidos, no Brasil, mais por suas convicções
religiosas do que pelo desempenho em seus esportes. Reunidos em
torno de um mesmo universo simbólico, a religião, formam o grupo
que se autodenomina “Atletas de Cristo” (ADC), predominantemente
provenientes do futebol. Trabalhamos neste artigo, com a hipótese
de que esses atletas encontram na versão norte-americana da religião
cristã um locus capaz de superar as incertezas de sua profissão, seja pela
constante possibilidade de contusões ou mesmo pela incerteza do
sucesso de suas equipes. Desta maneira, acabam por adotar uma
explicação “religiosa” da prática popular do esporte,
sacralizando o espaço e o tempo de suas atividades de maneira a
considerá-lo como campo de proselitismo. O objetivo deste trabalho
é relacionar a religião e a cultura por meio da apresentação da
origem deste movimento religioso no campo esportivo, a prática
discursiva do grupo expressa nos seus meios de comunicação e a sua
compreensão do “atleta não-de-Cristo”, seja ele católico, espírita,
filiado a religiões afro-brasileiras ou simplesmente um “não-cristão”.
1.
Atletas
de Cristo – origem
A
origem dos ADC
remonta a 1978, com um então atleta do Clube Atlético Mineiro, João
Leite. Depois de sua experiência de conversão surgiu a preocupação
de propagação de sua fé entre os seus companheiros de profissão.
Uniu-se com um ex-jogador de basquete amador, Abrahão Soares, que
na época dirigia a Mocidade para Cristo (MPC), com o intuito de
“começar um trabalho de testemunho e de evangelização no meio
esportivo, alcançando vidas para Cristo”. O grande público começou
a perceber a sua presença quando exemplares da Bíblia eram
distribuídos aos adversários, geralmente no início das partidas.
Em
1981, com a criação de um grupo de apoio formado com gente
suficiente para suportar o nascimento de uma instituição é que o
nome "Atletas de Cristo" passa a denominá-los. Constam
como fundadores de ADC no Brasil, João Leite da Silva Neto, seu
primeiro presidente; Baltazar Maria de Moraes Jr., José Baltazar de
Oliveira, Hélio Delvo Vilela, Hildo Zuge, Mirian Gomes Soares, Rita
Maria Campos Leite Rocha e Abrahão Soares da Silva, George Foster,
José Francisco Veloso, Ivênio dos Santos, Manfred Grellert e.
Dervy Gomes de Souza.
Em
janeiro de 1983 foram criados os dois primeiros Grupos Locais
de ADC: um em Curitiba, sob a liderança de Hildo Zuge e um em
Salvador, tendo como líder Mário Lima. Em 1984 surgiu o Grupo do
Rio de Janeiro, sob a liderança do Pr. Ezequiel Batista da Luz (Zick).
Em 1985 surgiu o Grupo de São Paulo, com o trabalho do Johnny
Monteiro. Depois vieram os grupos em Uberlândia, Joinville, Bauru e
Recife. Atualmente há mais de cento e vinte Grupos Locais
espalhados pelo Brasil.
A
partir de março de 1986, o Diretor Executivo de ADC passou a ser
Alex Dias Ribeiro (ex-piloto de Fórmula 1), o qual passou a ser um
tipo de ideólogo de ADC. O jornal de ADC é um periódico mensal,
com tiragem de cerca de 35.000 exemplares. Os ADC reúnem-se com
freqüência em torno de seu Congresso Anual, sempre no mês de
dezembro. Os produtos da grife Atletas de Cristo, que inicialmente
se resumiam a adesivos, atualmente contam com camisetas, jaquetas,
bonés, e várias outras peças que divulgam sua imagem e ideal. A
organização está ligada aos trabalhos da ISC – International
Sports Coalition, entidade fundada em 1982 e que congrega os ministérios
esportivos que funcionam ao redor do mundo, priorizando megaeventos,
como Olimpíadas e Copa do Mundo. Hoje ADC conta com mais de seis
mil atletas brasileiros, atuando no Brasil e em vários de países,
como Argentina, EUA, Portugal, Espanha, França, Itália, Turquia,
Japão etc.
Institucionalmente,
os ADC se definem como um ministério interdenominacional evangélico,
aceitando como legítimas todas as igrejas evangélicas. Isto
significa que ADC não impõe e nem tolhe a participação de seus
filiados em qualquer denominação, deixando a cargo de cada atleta
a escolha da igreja que desejar. Em razão disso, o movimento não
se posiciona formalmente em relação às diferenças doutrinárias
e aos pontos polêmicos existentes no campo evangélico.
2.
Atletas de Cristo – discurso
O
ADC exemplar é aquele que, além de ter as convicções religiosas
que o grupo professa, entende a si mesmo como “embaixador de
Cristo”, ou seja, adota o discurso proselitista do grupo. A
maneira de expressar este discurso está ligada à contextualização
da linguagem religiosa à linguagem esportiva. Isto se deve ao fato
de ser o campo de interação do esporte o locus
por excelência da atuação dos ADC. Assim, as adaptações
discursivas estão presentes em todas as abordagens conversionistas.
Expressões como “time mais que vencedor”, “entrosamento com o
Técnico” e ”supercampeão”, por exemplo, servem para falar da
igreja, do relacionamento do homem com Deus e de Jesus Cristo
respectivamente.
A
forma de introduzir os atletas que demonstrem interesse neste
universo religioso, considerado como solução para os adeptos em
potencial, é o testemunho de atletas já envolvidos com o grupo de
ADC. Invariavelmente, esses testemunhos narram o antes e o depois da experiência
religiosa do atleta. O “antes” é apresentado como um tempo de
agonia, de inquietude, de vazio existencial; o “depois” como a
superação daquele estado. Encontramos um exemplo disso no Jornal
Atletas de Cristo, nº 52 (p.2):
“Você
está cansado de lidar com um técnico que só é desonesto com você
e quando você menos espera, dá-lhe uma rasteira? Deixe Deus ser o seu técnico. Ele só vai tratar-lhe com sinceridade e
fará tudo para o seu bem. Você está cansado de tanta conversa
para assinar um contrato, e só por seis meses? Assine
um contrato com Jesus, sem muito blá-blá-blá e por toda a
eternidade. Você está cansado porque só consegue, no máximo,
ficar no banco de reservas? Saiba que no
nosso time todos são titulares absolutos, pois cada um tem uma
função específica para ganhar almas. (...) Você está cansado
porque ninguém mais lhe dá o seu devido valor? No esquema tático
de Deus você tem uma função especial: dar testemunho e falar de
Cristo para os seus colegas de profissão. Você está cansado de
jogar num time que não ganha dos adversários? Venha
jogar no time de Cristo que vence todas, inclusive a morte”
(grifos nossos).
O
discurso destaca, como se pode perceber na citação, as vantagens
trazidas pela experiência religiosa de conversão: o “depois”
é um tempo de vitórias e realizações. Entretanto, é um tempo em
que o ADC deve assumir a responsabilidade de ser um “atleta
propagador de sua fé”, garantindo a continuidade do discurso
conversionista.
A
enumeração das vantagens é omitida quando o discurso tem como
interlocutores os atletas que insistem em protelar a experiência
religiosa com o intuito de “aproveitar a vida”. Aos que já estão
conscientes do “plano de Deus para suas vidas”, ou seja, a sua
salvação, o discurso assume um caráter de advertência, sendo
destacadas as desvantagens desta atitude, uma vez que “o juiz
(Deus) não deixa passar dos noventa minutos de jogo” (duração
da vida do ouvinte). Aqui aparecem as referências ao inferno,
destinado aos que rejeitam a experiência religiosa de conversão
“antes do apito final”, o que resultaria na “eternidade sem
Deus”.
Há
ainda o discurso que pretende invalidar as crenças e práticas
religiosas alheias àquelas adotadas pelo grupo. Porém, como
analisaremos a seguir a relação dos ADC com os atletas “não-de-Cristo”,
este discurso ficará claro na medida em que desenvolvermos o texto.
3.
Atletas de Cristo – relações
com os atletas “não-de-Cristo”
Para
entendermos a compreensão que os ADC possuem dos atletas “não-religiosos”,
incluindo nesta categoria todos os que não fazem parte do “ministério
Atletas de Cristo”, precisamos retomar a idéia que o grupo possui
de si mesmo, ou seja, sua autocompreensão como “embaixadores de
Cristo”, com atletas propagadores de sua fé. É a partir desta
compreensão que os ADC entendem os outros atletas, o que pressupõe
duas classes diferentes de pessoas: a classe das pessoas que tiveram
um “encontro com Jesus” – os ADC e outros agrupamentos evangélicos
aceitos pelo grupo – e a classe das pessoas “apartadas de
Deus”, alvo preferencial das mensagens proselitistas do grupo. De
fato, neste ponto os ADC repetem uma fórmula bastante comum no
universo evangélico brasileiro, qual seja a de reconhecer
determinados grupos com pertencentes ao legítimo “corpo de
Cristo” e excluir outros.
Antes,
porém, de apresentarmos a compreensão de ADC sobre outros grupos
religiosos, convém destacar algumas percepções que o grupo tem do
campo religioso mais amplo, aquele em que os “outros” estão
inseridos e que configura grande parte do campo do esporte em geral
e do futebol em particular. O campo de interação do futebol sempre
esteve envolvido por uma atmosfera de magia e religiosidade. Pode-se
perceber este fato no senso comum do próprio campo, em expressões
típicas como “se macumba ganhasse jogo o campeonato baiano
terminava empatado!”, bem como em análises mais acadêmicas, como
a de Helal (1990, 33s). Isto se deve ao ambiente de extrema
competitividade do futebol, além das paixões exacerbadas que
mobiliza entre os torcedores e do desejo de reconhecimento dos
jogadores. A busca das vitórias, do sucesso e do dinheiro, da
satisfação dos torcedores e da notoriedade e fama pelos jogadores,
formam o ambiente propício para o apelo aos meios sobrenaturais,
mais do que aos meios naturais, como recurso à consecução desses
objetivos.
O
tipo de auxílio sobrenatural que se busca no campo de interação
do futebol é, pode-se dizer, o mais eclético possível, envolvendo
magia, superstição e religião: há rezas para os diversos santos
e santas católicas, trabalhos às diversas entidades do espiritismo
e religiões afro-brasileiras, utilização de talismãs e objetos
considerados sagrados para “dar sorte”, repetição de algum
item do vestuário – às vezes é um par de meias, uma sunga ou
mesmo uma peça de determinada cor –, orações em conjunto (todos
os atletas em uníssono), e mesmo rituais religiosos para que o
adversário seja prejudicado, como costurar um objeto relativo ao
outro clube na boca de um sapo. Tivemos oportunidade de presenciar,
em todos os vestiários de estádios a que tivemos acesso, a presença,
em um altar próprio, em um canto reservado, de imagens de santos.
Essa
mescla de objetos religiosos de diversas matrizes é desaprovada
abertamente pelos ADC, sendo considerada inaceitável e, em alguns
casos, apontada como utilização de “forças malignas” para
garantir bons resultados. O Jornal de ADC nº 75, na página 4, traz
uma entrevista com César Sampaio, membro do grupo, que ilustra essa
reprovação:
“Conheci
um jogador que tinha no armário dele no vestiário uma Bíblia, um
terço, uma estátua de santo, uma garrafa de pinga e uma de uísque,
além de um pouquinho de sal grosso. Eu perguntei pra ele: ‘Qual
é seu objetivo com isso?’ Ele respondeu: ‘Existe Deus e o
Diabo, não existe? Então, tenho que tá de bem com os dois’
Agora, você vê a falta de inteligência e sabedoria espiritual das
pessoas que faz com que queiram se cercar de todos os lados e
maneiras. Toda essa magia faz parte do nosso dia-a-dia, mas a gente
tem feito cair por terra porque independentemente de onde ela venha,
e da maneira que seja feita, o nosso Deus é vitorioso e superior a
qualquer armação contra os eleitos”.
Fica
clara a noção de que todo e qualquer tipo de atividade religiosa,
mágica ou supersticiosa que não coadune com os princípios evangélicos
adotados pelo grupo é reprovável e até demoníaco. Imagens e
rezas, despachos, passes com médiuns, mandingas e amuletos são
igualmente reprováveis e inúteis, além de demonstrarem “falta
de sabedoria espiritual”, o que denota uma compreensão de que
este tipo de ritual religioso não expressa o mesmo nível de
comprometimento religioso de um ADC. Jungblut (1994:92) afirma, de
maneira apropriada, que “a idéia de um sincretismo religioso caótico
e com fins puramente utilitários parece ser a melhor definição
para a percepção que eles têm dessa religiosidade”.
Passamos
a discutir a maneira como o grupo considera os sistemas religiosos
concorrentes. Estamos nos referindo aos católicos, aos espíritas,
aos adeptos das religiões afro-brasileiras e, posteriormente, aos
“sem-religião”. Começaremos com os católicos.
De
início, pode-se perceber que a Igreja Católica como instituição
é freqüentemente alvo de críticas, por promover o que os ADC
consideram uma versão distorcida do cristianismo. As razões desta
desqualificação estão relacionadas ao reduzido conhecimento que
os católicos demonstram da Bíblia, aos ritos religiosos
repetitivos e sem bases bíblicas sólidas e, sobretudo, à exaltação
de Maria e dos santos. Para os ADC, a experiência religiosa do católico
convertendo-se em evangélico seria o abandono de um “cristianismo
tido como profanado” (Fernandes, 1982:111). A responsável por
este “desvio” do reto caminho é a Igreja Católica como
instituição.
Bastante
diferente é a compreensão do católico como pessoa, ou seja, o que
se pensa do indivíduo desvinculado da instituição. Por ser o católico
o alvo preferencial das investidas conversionistas dos ADC, a tolerância
para com ele e suas práticas é bem maior, em função da
necessidade de comunicação. Tivemos a oportunidade de escutar dos
líderes de ADC algumas expressões como: “não se pode entrar de
sola nos católicos”, “os católicos são as primeiras ovelhas
perdidas que temos que trazer de novo para o rebanho”. Um outro líder
me disse: “a gente tem que ir devagar com eles (os católicos),
tem que mostrar o erro, mas também tem que demonstrar o amor de
Deus por eles”. Mostrar o erro significa, sobretudo, colocar em
evidência a rejeição das mediações entre a divindade e o ser
humano presentes na religiosidade católica. Uma entrevista com um
dos líderes de ADC ilustra bem esta rejeição:
“Não
dá pra aceitar que um padre ocupe o lugar que a Bíblia diz que é
do Senhor Jesus. Jesus é o nosso sumo sacerdote, e não o padre e
nem ninguém mais. (...) [O mesmo vale para as imagens?] É claro!
Se um homem não pode substituir Jesus como sumo sacerdote, imagine
uma imagem de escultura! Além disso, a Bíblia proíbe as imagens e
diz que isso tudo é idolatria, né” (Jorginho).
Portanto,
nem mediações humanas e nem sobre-humanas são aceitas. Em nossas
entrevistas ficou patente que o leque de restrições dos ADC aos
indivíduos católicos, com quem precisam se comunicar para trazê-los
“para o rebanho verdadeiro”, centraliza-se nas mediações e
que, por isso, os católicos não estão longe de “terem um
encontro com Jesus”, bastando que a mediação seja transferida
para Jesus e todas as outras sejam abandonadas.
No
que se refere aos espíritas e aos adeptos das religiões
afro-brasileiras, os ADC não foram capazes de distinguir as
peculiaridades de cada grupo religioso. De fato, as referências a
estes grupos são, além de genéricas, negativas. Todos os
envolvidos neste tipo de religiosidade, do espírita ao umbandista,
passando pelo espírita kardecista, pelo adepto do candomblé, da
quimbanda, batuque, vodu, etc., são identificados como estando
subordinados ao domínio “do inimigo”, de Satanás. Predomina a
rejeição às mediações que, no caso desses grupos religiosos,
traz um elemento que encontra forte resistência entre os ADC: as
mediações “espirituais”, de entidades ou espíritos de mortos.
Assim, os ADC identificam orixás com pretos-velhos, espíritos de
familiares mortos com exus, etc., e todas estas mediações com demônios.
Trata-se de crenças e práticas relacionadas com o mundo satânico
e, por isso, ilegítimas e inaceitáveis para os ADC. Consultas aos
mortos ou entidades espirituais são sistematicamente criticadas,
sobretudo nas entrevistas com líderes de grupos locais dos ADC,
como sendo manifestações do diabo “para enganar as pessoas e
distanciá-las da verdade do Evangelho”.
Por
causa destas características atribuídas aos espíritas e adeptos
de religiões afro-brasileiras, os ADC procuram se manter distantes
desse grupo, utilizando a prática de orações para “rejeitar”
as ações daqueles “espíritos malignos”,
prática que também tivemos oportunidade de presenciar em reuniões
de grupos locais e mesmo nos Congressos Anuais.
Muito
próxima da avaliação deste grupo que acabamos de citar está a
daqueles que, segundo os ADC, “bebem de muitas fontes”, ou seja,
os que professam um tipo sincrético de religiosidade, que pode ser
composta pela busca de serviços religiosos específicos, a ponto de
misturar catolicismo com cultos afro-brasileiros e mesmo o
pentecostalismo. Este tipo de prática religiosa, comum entre as
classes populares no Brasil, também é rejeitado pelos ADC por
ferir um dos princípios básicos de sua afirmação de fé: “a
intercessão de Jesus Cristo, como único mediador entre Deus e os
homens”, o que equivale a dizer que a busca de “caminhos
alternativos” ou complementares para a salvação não só é
desaprovada por Deus como levam a outro destino, a perdição
eterna.
A
compreensão dos ADC sobre os “não-cristãos”, os sem religião
ou simplesmente os que duvidam da existência de Deus é diferente
daquela dos grupos anteriores. Alex Dias Ribeiro, principal ideólogo
dos ADC, definiu alguns dos “sem religião” da seguinte forma:
“Ateu – é o cara que não acredita em Deus. Agnóstico – é o
cara que admite a existência de Deus, mas acha impossível encontrá-lo.
Sob o ponto de vista de Deus os dois vão parar no mesmo lugar”
(Jornal Atletas de Cristo, nº 42:5), ou seja, no inferno. Para os
“sem-religião”, nomeados também como ateus, agnósticos,
materialistas, incrédulos de coração duro, descrentes, etc., os
ADC, sobretudo os seus líderes, aplicam com freqüência o texto bíblico
de 1ª Coríntios 3, 19: “(...) a sabedoria deste mundo é loucura
diante de Deus, pois está escrito: Ele apanha os sábios na própria
astúcia deles”. Assim, entendem que os sem-religião estão
impossibilitados de aceitar a verdade do Evangelho por se fiarem na
sabedoria humana. Convém destacar que não se trata de uma rejeição
da capacidade humana de pensar ou de se desenvolver: a sabedoria
humana é vista como um dom de Deus, mas que deve ser usada em
conformidade com a vontade de Deus, uma vez que, como diz Rubem
Alves (1979:120), “a revelação já
tem o conhecimento que a ciência ainda
procura” (grifos do autor). Em outras palavras, a sabedoria
humana, que conduz ao desenvolvimento da ciência, é boa, mas não
é nada sem a sabedoria de Deus, única capaz de “salvar as almas
do fogo do inferno”.
Portanto,
na relação com os atletas “não-de-Cristo”, os ADC utilizam
diferentes argumentos de seu arsenal religioso, sempre recorrendo
seletivamente aos textos bíblicos, conforme o grupo com que se
relacionam. O que se mantém invariável, independentemente do tipo
de religiosidade ou “não-religiosidade”, é a interpretação
de que todos estão excluídos do “corpo de Cristo” por não
compartilharem da aceitação e prática dos princípios cristãos
que os ADC defendem. Isto revela um sistema de referências
excludente à semelhança de grande parte do Protestantismo e do
Pentecostalismo brasileiros, em que “o outro é o demônio”.