por REINALDO OLECIO AGUIAR

Doutor em Ciências Sociais e Religião pela Universidade Metodista de São Paulo; membro do GEP (Modelos terapêuticos, políticas de saúde, práticas corporais e a investigação antropológica), grupo de pesquisa da UFSCar

 

 

Religião e Cultura Popular: 

o caso dos Atletas de Cristo

 

Introdução

Nos últimos anos alguns atletas profissionais de alto rendimento em esportes diversos passaram a ser conhecidos, no Brasil, mais por suas convicções religiosas do que pelo desempenho em seus esportes. Reunidos em torno de um mesmo universo simbólico, a religião, formam o grupo que se autodenomina “Atletas de Cristo” (ADC), predominantemente provenientes do futebol. Trabalhamos neste artigo, com a hipótese de que esses atletas encontram na versão norte-americana da religião cristã um locus capaz de superar as incertezas de sua profissão, seja pela constante possibilidade de contusões ou mesmo pela incerteza do sucesso de suas equipes. Desta maneira, acabam por adotar uma explicação “religiosa” da prática popular do esporte, sacralizando o espaço e o tempo de suas atividades de maneira a considerá-lo como campo de proselitismo. O objetivo deste trabalho é relacionar a religião e a cultura por meio da apresentação da origem deste movimento religioso no campo esportivo, a prática discursiva do grupo expressa nos seus meios de comunicação e a sua compreensão do “atleta não-de-Cristo”, seja ele católico, espírita, filiado a religiões afro-brasileiras ou simplesmente um “não-cristão”.

1. Atletas de Cristo – origem

A origem dos ADC[1] remonta a 1978, com um então atleta do Clube Atlético Mineiro, João Leite. Depois de sua experiência de conversão surgiu a preocupação de propagação de sua fé entre os seus companheiros de profissão[2]. Uniu-se com um ex-jogador de basquete amador, Abrahão Soares, que na época dirigia a Mocidade para Cristo (MPC), com o intuito de “começar um trabalho de testemunho e de evangelização no meio esportivo, alcançando vidas para Cristo”. O grande público começou a perceber a sua presença quando exemplares da Bíblia eram distribuídos aos adversários, geralmente no início das partidas.

Em 1981, com a criação de um grupo de apoio formado com gente suficiente para suportar o nascimento de uma instituição é que o nome "Atletas de Cristo" passa a denominá-los. Constam como fundadores de ADC no Brasil, João Leite da Silva Neto, seu primeiro presidente; Baltazar Maria de Moraes Jr., José Baltazar de Oliveira, Hélio Delvo Vilela, Hildo Zuge, Mirian Gomes Soares, Rita Maria Campos Leite Rocha e Abrahão Soares da Silva, George Foster, José Francisco Veloso, Ivênio dos Santos, Manfred Grellert e. Dervy Gomes de Souza.

Em janeiro de 1983 foram criados os dois primeiros Grupos Locais[3] de ADC: um em Curitiba, sob a liderança de Hildo Zuge e um em Salvador, tendo como líder Mário Lima. Em 1984 surgiu o Grupo do Rio de Janeiro, sob a liderança do Pr. Ezequiel Batista da Luz (Zick). Em 1985 surgiu o Grupo de São Paulo, com o trabalho do Johnny Monteiro. Depois vieram os grupos em Uberlândia, Joinville, Bauru e Recife. Atualmente há mais de cento e vinte Grupos Locais espalhados pelo Brasil.

A partir de março de 1986, o Diretor Executivo de ADC passou a ser Alex Dias Ribeiro (ex-piloto de Fórmula 1), o qual passou a ser um tipo de ideólogo de ADC. O jornal de ADC é um periódico mensal, com tiragem de cerca de 35.000 exemplares. Os ADC reúnem-se com freqüência em torno de seu Congresso Anual, sempre no mês de dezembro. Os produtos da grife Atletas de Cristo, que inicialmente se resumiam a adesivos, atualmente contam com camisetas, jaquetas, bonés, e várias outras peças que divulgam sua imagem e ideal. A organização está ligada aos trabalhos da ISC – International Sports Coalition, entidade fundada em 1982 e que congrega os ministérios esportivos que funcionam ao redor do mundo, priorizando megaeventos, como Olimpíadas e Copa do Mundo. Hoje ADC conta com mais de seis mil atletas brasileiros, atuando no Brasil e em vários de países, como Argentina, EUA, Portugal, Espanha, França, Itália, Turquia, Japão etc.

Institucionalmente, os ADC se definem como um ministério interdenominacional evangélico, aceitando como legítimas todas as igrejas evangélicas. Isto significa que ADC não impõe e nem tolhe a participação de seus filiados em qualquer denominação, deixando a cargo de cada atleta a escolha da igreja que desejar. Em razão disso, o movimento não se posiciona formalmente em relação às diferenças doutrinárias e aos pontos polêmicos existentes no campo evangélico.

2. Atletas de Cristo – discurso

O ADC exemplar é aquele que, além de ter as convicções religiosas que o grupo professa, entende a si mesmo como “embaixador de Cristo”, ou seja, adota o discurso proselitista do grupo. A maneira de expressar este discurso está ligada à contextualização da linguagem religiosa à linguagem esportiva. Isto se deve ao fato de ser o campo de interação do esporte o locus por excelência da atuação dos ADC. Assim, as adaptações discursivas estão presentes em todas as abordagens conversionistas. Expressões como “time mais que vencedor”, “entrosamento com o Técnico” e ”supercampeão”, por exemplo, servem para falar da igreja, do relacionamento do homem com Deus e de Jesus Cristo respectivamente.

A forma de introduzir os atletas que demonstrem interesse neste universo religioso, considerado como solução para os adeptos em potencial, é o testemunho de atletas já envolvidos com o grupo de ADC. Invariavelmente, esses testemunhos narram o antes e o depois da experiência religiosa do atleta. O “antes” é apresentado como um tempo de agonia, de inquietude, de vazio existencial; o “depois” como a superação daquele estado. Encontramos um exemplo disso no Jornal Atletas de Cristo, nº 52 (p.2):

“Você está cansado de lidar com um técnico que só é desonesto com você e quando você menos espera, dá-lhe uma rasteira? Deixe Deus ser o seu técnico. Ele só vai tratar-lhe com sinceridade e fará tudo para o seu bem. Você está cansado de tanta conversa para assinar um contrato, e só por seis meses? Assine um contrato com Jesus, sem muito blá-blá-blá e por toda a eternidade. Você está cansado porque só consegue, no máximo, ficar no banco de reservas? Saiba que no nosso time todos são titulares absolutos, pois cada um tem uma função específica para ganhar almas. (...) Você está cansado porque ninguém mais lhe dá o seu devido valor? No esquema tático de Deus você tem uma função especial: dar testemunho e falar de Cristo para os seus colegas de profissão. Você está cansado de jogar num time que não ganha dos adversários? Venha jogar no time de Cristo que vence todas, inclusive a morte” (grifos nossos).

O discurso destaca, como se pode perceber na citação, as vantagens trazidas pela experiência religiosa de conversão: o “depois” é um tempo de vitórias e realizações. Entretanto, é um tempo em que o ADC deve assumir a responsabilidade de ser um “atleta propagador de sua fé”, garantindo a continuidade do discurso conversionista.

A enumeração das vantagens é omitida quando o discurso tem como interlocutores os atletas que insistem em protelar a experiência religiosa com o intuito de “aproveitar a vida”. Aos que já estão conscientes do “plano de Deus para suas vidas”, ou seja, a sua salvação, o discurso assume um caráter de advertência, sendo destacadas as desvantagens desta atitude, uma vez que “o juiz (Deus) não deixa passar dos noventa minutos de jogo” (duração da vida do ouvinte). Aqui aparecem as referências ao inferno, destinado aos que rejeitam a experiência religiosa de conversão “antes do apito final”, o que resultaria na “eternidade sem Deus”.

Há ainda o discurso que pretende invalidar as crenças e práticas religiosas alheias àquelas adotadas pelo grupo. Porém, como analisaremos a seguir a relação dos ADC com os atletas “não-de-Cristo”, este discurso ficará claro na medida em que desenvolvermos o texto.

3. Atletas de Cristo – relações com os atletas “não-de-Cristo”

Para entendermos a compreensão que os ADC possuem dos atletas “não-religiosos”, incluindo nesta categoria todos os que não fazem parte do “ministério Atletas de Cristo”, precisamos retomar a idéia que o grupo possui de si mesmo, ou seja, sua autocompreensão como “embaixadores de Cristo”, com atletas propagadores de sua fé. É a partir desta compreensão que os ADC entendem os outros atletas, o que pressupõe duas classes diferentes de pessoas: a classe das pessoas que tiveram um “encontro com Jesus” – os ADC e outros agrupamentos evangélicos aceitos pelo grupo – e a classe das pessoas “apartadas de Deus”, alvo preferencial das mensagens proselitistas do grupo. De fato, neste ponto os ADC repetem uma fórmula bastante comum no universo evangélico brasileiro, qual seja a de reconhecer determinados grupos com pertencentes ao legítimo “corpo de Cristo” e excluir outros.

Antes, porém, de apresentarmos a compreensão de ADC sobre outros grupos religiosos, convém destacar algumas percepções que o grupo tem do campo religioso mais amplo, aquele em que os “outros” estão inseridos e que configura grande parte do campo do esporte em geral e do futebol em particular. O campo de interação do futebol sempre esteve envolvido por uma atmosfera de magia e religiosidade. Pode-se perceber este fato no senso comum do próprio campo, em expressões típicas como “se macumba ganhasse jogo o campeonato baiano terminava empatado!”, bem como em análises mais acadêmicas, como a de Helal (1990, 33s). Isto se deve ao ambiente de extrema competitividade do futebol, além das paixões exacerbadas que mobiliza entre os torcedores e do desejo de reconhecimento dos jogadores. A busca das vitórias, do sucesso e do dinheiro, da satisfação dos torcedores e da notoriedade e fama pelos jogadores, formam o ambiente propício para o apelo aos meios sobrenaturais, mais do que aos meios naturais, como recurso à consecução desses objetivos.

O tipo de auxílio sobrenatural que se busca no campo de interação do futebol é, pode-se dizer, o mais eclético possível, envolvendo magia, superstição e religião: há rezas para os diversos santos e santas católicas, trabalhos às diversas entidades do espiritismo e religiões afro-brasileiras, utilização de talismãs e objetos considerados sagrados para “dar sorte”, repetição de algum item do vestuário – às vezes é um par de meias, uma sunga ou mesmo uma peça de determinada cor –, orações em conjunto (todos os atletas em uníssono), e mesmo rituais religiosos para que o adversário seja prejudicado, como costurar um objeto relativo ao outro clube na boca de um sapo. Tivemos oportunidade de presenciar, em todos os vestiários de estádios a que tivemos acesso, a presença, em um altar próprio, em um canto reservado, de imagens de santos[4].

Essa mescla de objetos religiosos de diversas matrizes é desaprovada abertamente pelos ADC, sendo considerada inaceitável e, em alguns casos, apontada como utilização de “forças malignas” para garantir bons resultados. O Jornal de ADC nº 75, na página 4, traz uma entrevista com César Sampaio, membro do grupo, que ilustra essa reprovação:

“Conheci um jogador que tinha no armário dele no vestiário uma Bíblia, um terço, uma estátua de santo, uma garrafa de pinga e uma de uísque, além de um pouquinho de sal grosso. Eu perguntei pra ele: ‘Qual é seu objetivo com isso?’ Ele respondeu: ‘Existe Deus e o Diabo, não existe? Então, tenho que tá de bem com os dois’ Agora, você vê a falta de inteligência e sabedoria espiritual das pessoas que faz com que queiram se cercar de todos os lados e maneiras. Toda essa magia faz parte do nosso dia-a-dia, mas a gente tem feito cair por terra porque independentemente de onde ela venha, e da maneira que seja feita, o nosso Deus é vitorioso e superior a qualquer armação contra os eleitos”.

Fica clara a noção de que todo e qualquer tipo de atividade religiosa, mágica ou supersticiosa que não coadune com os princípios evangélicos adotados pelo grupo é reprovável e até demoníaco. Imagens e rezas, despachos, passes com médiuns, mandingas e amuletos são igualmente reprováveis e inúteis, além de demonstrarem “falta de sabedoria espiritual”, o que denota uma compreensão de que este tipo de ritual religioso não expressa o mesmo nível de comprometimento religioso de um ADC. Jungblut (1994:92) afirma, de maneira apropriada, que “a idéia de um sincretismo religioso caótico e com fins puramente utilitários parece ser a melhor definição para a percepção que eles têm dessa religiosidade”.

Passamos a discutir a maneira como o grupo considera os sistemas religiosos concorrentes. Estamos nos referindo aos católicos, aos espíritas, aos adeptos das religiões afro-brasileiras e, posteriormente, aos “sem-religião”. Começaremos com os católicos.

De início, pode-se perceber que a Igreja Católica como instituição é freqüentemente alvo de críticas, por promover o que os ADC consideram uma versão distorcida do cristianismo. As razões desta desqualificação estão relacionadas ao reduzido conhecimento que os católicos demonstram da Bíblia, aos ritos religiosos repetitivos e sem bases bíblicas sólidas e, sobretudo, à exaltação de Maria e dos santos. Para os ADC, a experiência religiosa do católico convertendo-se em evangélico seria o abandono de um “cristianismo tido como profanado” (Fernandes, 1982:111). A responsável por este “desvio” do reto caminho é a Igreja Católica como instituição.

Bastante diferente é a compreensão do católico como pessoa, ou seja, o que se pensa do indivíduo desvinculado da instituição. Por ser o católico o alvo preferencial das investidas conversionistas dos ADC, a tolerância para com ele e suas práticas é bem maior, em função da necessidade de comunicação. Tivemos a oportunidade de escutar dos líderes de ADC algumas expressões como: “não se pode entrar de sola nos católicos”, “os católicos são as primeiras ovelhas perdidas que temos que trazer de novo para o rebanho”. Um outro líder me disse: “a gente tem que ir devagar com eles (os católicos), tem que mostrar o erro, mas também tem que demonstrar o amor de Deus por eles”. Mostrar o erro significa, sobretudo, colocar em evidência a rejeição das mediações entre a divindade e o ser humano presentes na religiosidade católica. Uma entrevista com um dos líderes de ADC ilustra bem esta rejeição:

“Não dá pra aceitar que um padre ocupe o lugar que a Bíblia diz que é do Senhor Jesus. Jesus é o nosso sumo sacerdote, e não o padre e nem ninguém mais. (...) [O mesmo vale para as imagens?] É claro! Se um homem não pode substituir Jesus como sumo sacerdote, imagine uma imagem de escultura! Além disso, a Bíblia proíbe as imagens e diz que isso tudo é idolatria, né” (Jorginho).

Portanto, nem mediações humanas e nem sobre-humanas são aceitas. Em nossas entrevistas ficou patente que o leque de restrições dos ADC aos indivíduos católicos, com quem precisam se comunicar para trazê-los “para o rebanho verdadeiro”, centraliza-se nas mediações e que, por isso, os católicos não estão longe de “terem um encontro com Jesus”, bastando que a mediação seja transferida para Jesus e todas as outras sejam abandonadas.

No que se refere aos espíritas e aos adeptos das religiões afro-brasileiras, os ADC não foram capazes de distinguir as peculiaridades de cada grupo religioso. De fato, as referências a estes grupos são, além de genéricas, negativas. Todos os envolvidos neste tipo de religiosidade, do espírita ao umbandista, passando pelo espírita kardecista, pelo adepto do candomblé, da quimbanda, batuque, vodu, etc., são identificados como estando subordinados ao domínio “do inimigo”, de Satanás. Predomina a rejeição às mediações que, no caso desses grupos religiosos, traz um elemento que encontra forte resistência entre os ADC: as mediações “espirituais”, de entidades ou espíritos de mortos. Assim, os ADC identificam orixás com pretos-velhos, espíritos de familiares mortos com exus, etc., e todas estas mediações com demônios. Trata-se de crenças e práticas relacionadas com o mundo satânico e, por isso, ilegítimas e inaceitáveis para os ADC. Consultas aos mortos ou entidades espirituais são sistematicamente criticadas, sobretudo nas entrevistas com líderes de grupos locais dos ADC, como sendo manifestações do diabo “para enganar as pessoas e distanciá-las da verdade do Evangelho”.

Por causa destas características atribuídas aos espíritas e adeptos de religiões afro-brasileiras, os ADC procuram se manter distantes desse grupo, utilizando a prática de orações para “rejeitar” as ações daqueles “espíritos malignos”[5], prática que também tivemos oportunidade de presenciar em reuniões de grupos locais e mesmo nos Congressos Anuais.

Muito próxima da avaliação deste grupo que acabamos de citar está a daqueles que, segundo os ADC, “bebem de muitas fontes”, ou seja, os que professam um tipo sincrético de religiosidade, que pode ser composta pela busca de serviços religiosos específicos, a ponto de misturar catolicismo com cultos afro-brasileiros e mesmo o pentecostalismo. Este tipo de prática religiosa, comum entre as classes populares no Brasil, também é rejeitado pelos ADC por ferir um dos princípios básicos de sua afirmação de fé: “a intercessão de Jesus Cristo, como único mediador entre Deus e os homens”, o que equivale a dizer que a busca de “caminhos alternativos” ou complementares para a salvação não só é desaprovada por Deus como levam a outro destino, a perdição eterna.

A compreensão dos ADC sobre os “não-cristãos”, os sem religião ou simplesmente os que duvidam da existência de Deus é diferente daquela dos grupos anteriores. Alex Dias Ribeiro, principal ideólogo dos ADC, definiu alguns dos “sem religião” da seguinte forma: “Ateu – é o cara que não acredita em Deus. Agnóstico – é o cara que admite a existência de Deus, mas acha impossível encontrá-lo. Sob o ponto de vista de Deus os dois vão parar no mesmo lugar” (Jornal Atletas de Cristo, nº 42:5), ou seja, no inferno. Para os “sem-religião”, nomeados também como ateus, agnósticos, materialistas, incrédulos de coração duro, descrentes, etc., os ADC, sobretudo os seus líderes, aplicam com freqüência o texto bíblico de 1ª Coríntios 3, 19: “(...) a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, pois está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles”. Assim, entendem que os sem-religião estão impossibilitados de aceitar a verdade do Evangelho por se fiarem na sabedoria humana. Convém destacar que não se trata de uma rejeição da capacidade humana de pensar ou de se desenvolver: a sabedoria humana é vista como um dom de Deus, mas que deve ser usada em conformidade com a vontade de Deus, uma vez que, como diz Rubem Alves (1979:120), “a revelação tem o conhecimento que a ciência ainda procura” (grifos do autor). Em outras palavras, a sabedoria humana, que conduz ao desenvolvimento da ciência, é boa, mas não é nada sem a sabedoria de Deus, única capaz de “salvar as almas do fogo do inferno”.

Portanto, na relação com os atletas “não-de-Cristo”, os ADC utilizam diferentes argumentos de seu arsenal religioso, sempre recorrendo seletivamente aos textos bíblicos, conforme o grupo com que se relacionam. O que se mantém invariável, independentemente do tipo de religiosidade ou “não-religiosidade”, é a interpretação de que todos estão excluídos do “corpo de Cristo” por não compartilharem da aceitação e prática dos princípios cristãos que os ADC defendem. Isto revela um sistema de referências excludente à semelhança de grande parte do Protestantismo e do Pentecostalismo brasileiros, em que “o outro é o demônio”.

 

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[1] As informações aqui contidas baseiam-se na página oficial de ADC na Internet, rede mundial de computadores, e em Ribeiro (1994).

[2] João Leite é apresentado como pertencente à Igreja Batista Central de Belo Horizonte, in: Ribeiro (1994:20).

[3] Grupos locais funcionam quase sempre entre os jogadores de uma mesma agremiação, reunindo os adeptos e convidando os companheiros “não-de-Cristo” para as reuniões.

[4] Um fato interessante a se notar é a falta de critério na escolha dos santos: no estádio do Morumbi e do Canindé, respectivamente pertencentes ao São Paulo Futebol Clube e à Associação Portuguesa de Desportos, encontramos o São Jorge, santo padroeiro de um time rival, o Sport Club Corinthians Paulista. Em uma das fases de derrotas seguidas da Portuguesa, houve quem atribuísse o fato à presença do santo protetor do rival no vestiário do clube. Até onde pudemos constatar, a estátua do santo continua habitando ambos os vestiários daquele estádio.

[5] É sintomático que haja este tipo de rejeição dos espíritos malignos entre os ADC. Parece-nos que a composição do grupo de ADC, majoritariamente pentecostal, embora a liderança esteja ligada em grande parte às igrejas protestantes tradicionais, favorece este tipo de “leitura” das religiões afro-brasileiras e do espiritismo. Jungblut (1994:103 nota 3) tem razão ao apontar esta forma mais atenuada de “guerra santa” do pentecostalismo para com os cultos afro-brasileiros, como fizeram Mariza Soares (1990) e Luiz Soares (1993).

 

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Bibliografia

ALVES, Rubem A. Protestantismo e Repressão. São Paulo, Ed. Ática, 1979.

ATLETAS DE CRISTO. Jornal Atletas de Cristo. números 42,52 e 75.

FERNANDES, Rubem C. Os Cavaleiros do Bom Jesus: uma introdução às religiões populares. São Paulo, Brasiliense, 1982.

HELAL, Ronaldo. O que é Sociologia do Esporte. São Paulo, Brasiliense, 1990 (coleção primeiros passos).

JUNGBLUT, Aírton Luiz. Entre o Evangelho e o Futebol: um estudo sobre a identidade religiosa de um grupo de atletas de Cristo em Porto Alegre. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1994.

RIBEIRO, Alex Dias. Atletas de Cristo. São Paulo, Mundo Cristão, 1994.

_____________. Jornal Atletas de Cristo. nº 42, São Paulo.

_____________. Jornal Atletas de Cristo. nº 75, São Paulo.

SOARES, Luiz E. “A Guerra dos pentecostais contra o afro-brasileiro: dimensões democráticas do conflito religioso no Brasil”. In: Comunicações do ISER nº 44. Rio de Janeiro, ISER, 1993, p. 43-50.

SOARES, Mariza C. “Guerra santa no país do sincretismo”. In: Sinais dos Tempos: diversidade religiosa no Brasil / Cadernos do ISER nº 23. Rio de Janeiro, ISER, 1990, p.75-104.

 

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