por JULIANO LUIS BORGES

Mestrando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina – UEL.

 

 

Raça e evolução social em 

“Os Sertões” de Euclides da Cunha

 

A busca por uma direção segura para o progresso, que englobe, num mesmo projeto, toda a nação brasileira – nos aspectos políticos, econômicos e sociais – é tema de grande importância no cenário atual. As reflexões sobre esse processo adentram intensamente os debates nos centros acadêmicos e nas instituições governamentais, porém a preocupação com o desenvolvimento do país não é privilégio de nossos tempos. 

O importante trabalho de Euclides da Cunha, referência no pensamento social brasileiro, demonstra a preocupação de intelectuais, no princípio do século XX, em questionar os rumos que o país tomava e, fundamentalmente, encontrar alternativas para um projeto de desenvolvimento nacional através de concepções teóricas e pragmáticas. Dentre os trabalhos desse período destaca-se aqui, essencialmente, “Os Sertões”. Essa obra possui um valor inestimável na história da teoria social no Brasil, apresentando uma análise da realidade nacional articulada com fundamentos da mudança social. As reflexões presentes superam o caráter historiográfico referente ao movimento de Canudos, ampliando o campo analítico para as possibilidades de mudança através de um processo de evolução social. A fundamentação desse processo está calcada no evolucionismo de Herbert Spencer.

"(...) Spencer foi um filósofo bastante conhecido em seu tempo e as idéias evolutivas eram parte integrante de suas obras filosóficas, como, por exemplo, a Synthetic Philosophy, onde popularizou a palavra ‘evolução’" (MARTINS, 2004: 282).  

Os princípios teóricos de Spencer foram assimilados pela intelectualidade que buscava os vários caminhos para a mudança social no Brasil, adequando o discurso à crença no progresso da ciência e da indústria. O processo de mudança deveria acabar com os elementos fundamentais de uma sociedade predominantemente tradicional.

"O pensamento de Herbert Spencer servia admiravelmente para isso, pois eles o entendiam afirmando que o progresso é inevitável, que os levaria a um futuro industrial e que a ciência provara a veracidade de ambas as afirmativas" (GRAHAM, 1973: 241).

Euclides da Cunha assimilou os ensinamentos de Spencer remetendo-os à realidade brasileira, emergindo uma análise evolucionista com algumas peculiaridades. Estas peculiaridades são norteadoras dos elementos de divergência e convergência com o arcabouço teórico spenceriano que impulsionava sua lógica analítica. No interior da obra “Os sertões” destacam-se vários momentos de diálogo com a teoria evolucionista.

Assim como Spencer, Euclides da Cunha concebia a história de maneira linear, ou seja, uma progressão sem rupturas e com continuidade. A tese spenceriana de que todas as sociedades partem de um mesmo ponto é refutada por Euclides da Cunha que adere à concepção poligenista, isto é, a origem diferenciada de cada sociedade, o que garante, fundamentalmente, a especificidade de cada formação social.

"A inspiração nas formulações de Spencer sobre a evolução orgânica baseada na passagem de formas de vida simples (primitiva, comunitária) para de formas de vida crescentemente complexas (organizações em instituições como o Estado e indústrias) levava-o a demarcar as dificuldades de progresso da sociedade brasileira em razão do cruzamento de raças, do mestiçamento, da inferioridade, da colonização, do isolamento, da cisão entre o litoral e o sertão, das dificuldades políticas e econômicas e da precariedade da ciência" (REZENDE, 2001: 207).   

Essa evolução, segundo Spencer, seria a passagem da homogeneidade para a heterogeneidade através da complexidade (simples-instáveis para os complexos-estáveis) e que o organismo social mais complexo deveria dominar o menos complexo. Euclides da Cunha relutava em aceitar essa tese que pressupunha a dominação sobre os organismos sociais menos evoluídos.

"O grande problema era, então, a ausência de um projeto de civilização que levasse em conta o jagunço destemido, o tabaréu ingênuo, o caipira simplório, o sertanejo das caatingas nordestinas e do chão úmido da Amazônia. Os setores preponderantes pretendiam impor formas de mudanças sociais que desconsideravam as especificidades brasileiras. Segundo ele, uma sociedade que pretendia imitar as instituições e os modos de ser e de agir europeus não criaria jamais um autêntico projeto civilizador" (REZENDE, 2001: 203).

Nessa perspectiva, Euclides da Cunha construiu uma argumentação que negava esse processo de domínio do “mais forte” sobre o mais “fraco”, o que no período de transição do século XIX para o XX remetia à superioridade da Europa e a legitimação do imperialismo internacional. Contra uma possível colonização, apontava elementos da realidade nacional que pudessem delinear um caminho para o progresso por vias “tupiniquins”. Afirmava que o progresso só era possível através de um projeto civilizatório que englobasse toda a nação.

"O país somente poderia civilizar-se, para Euclides da Cunha, através de um projeto de integração nacional em que estivessem incluídos todos os brasileiros. A evolução significava a criação de condições econômicas, políticas e sociais para o rompimento da exclusão da maioria da população" (REZENDE, 2001: 213).

Como era recorrente nos meios intelectuais no início do século XX, a preocupação com o mestiçamento na sociedade brasileira permeava a reflexão de Euclides da Cunha. Para ele, a evolução social estava articulada com a questão racial.

Como pensar o progresso da nação no tocante à influência das diferentes raças componentes do “tipo social brasileiro”? Como, no meio desse entrelaçamento de raças, buscar o cerne da evolução social no Brasil? O autor de “Os sertões” apresentava a resposta. 

"Não temos unidade de raça. Não a teremos talvez nunca.

Predestinamos-nos à formação de uma raça histórica em um futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma. Invertemos sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa evolução biológica reclama a garantia de evolução social.

Estamos condenados à civilização.

Ou progredimos, ou desaparecemos" (CUNHA, 1968: 54).

A unidade de raça era um devir relacionado diretamente com a autonomia da vida nacional ou à evolução nos moldes peculiares à nação. Esta, por sua vez, necessitava de um “tipo social” que encarnasse a resistência às influências externas. A partir da teoria de Spencer, Euclides da Cunha faz uma análise dos “tipos sociais” sertanejos em relação aos litorâneos, de acordo com os legados individuais, ou seja, partindo do pressuposto de que não existe o homem em geral (tese positivista) e sim, o homem circunstancial. Segundo ele, através das partes seria possível entender o todo.

"É difícil traçar no fenômeno a linha divisória entre as tendências pessoais e as tendências coletivas: a vida resumida de um homem é um capítulo instantâneo da vida de sua sociedade (...). Acompanhar a primeira é seguir paralelamente e com mais rapidez a segunda: acompanhá-las juntas é observar a mais completa mutualidade de influxos" (CUNHA, 1968: 112).

Essa afirmativa remete a preocupação constante em demonstrar a diversidade étnica do país, a qual todo processo de mudança rumo ao progresso deveria estar assentado.

"O estudo de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos procurou revelar o significado do embate entre duas civilizações bárbaras, ambas brasileiras, através, principalmente, da obra de Spencer" (REZENDE, 2001: 206).

Em “Os Sertões”, o Brasil é dividido em duas partes, litoral e sertão, que pertencem a um conjunto de relações que torna bastante visível a formação de duas civilizações distintas. Os indivíduos pertencentes a essas civilizações possuíam características peculiares, moldadas pela interação de elementos físicos (clima, relevo, vegetação, etc.) e elementos sociais (miséria, educação, conflito, etc.). Esse princípio norteia sua análise, que busca no sertanejo (jagunço) os caracteres que, segundo sua ótica, consolidariam a resistência à “dominação civilizatória exterior” e seriam a engrenagem da evolução social no país.

Euclides da Cunha não via de bom grado o mestiçamento em geral, o que ele frisava sobre essa questão era a resistência contida no mestiço (branco com o indígena) específico dos sertões.

"Esse mestiço era, então, completamente diferente do mestiço do litoral. A sua segregação social e espacial, o meio físico e o clima teriam contribuído para que se formasse no país um tipo diverso capaz de ações de resistência como as que ocorreram no movimento de Canudos" (REZENDE, 2001: 212).  

O mulato litorâneo e outras variantes eram consideradas, nesse prisma, como um retrocesso.

"A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sôbre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O indo-europeu, o negro e o brasílio-guarani ou o tapuia, exprimem estádios evolutivos que se fronteiam, e o cruzamento, sôbre obliterar as qualidades preeminentes do primeiro, é um estimulante à revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o mestiço – traço de união entre raças, breve existência individual em que se comprimem esforços seculares – é, quase sempre, um desequilibrado" (CUNHA, 1968: 82).

Há, em seu pensamento, uma tensão com essa problemática, em um momento desqualifica e, posteriormente relativiza. Porém, o que buscava com essas considerações era um tipo específico de homem nesse emaranhado de mestiços, aquele resistente proveniente da aridez dos sertões, das dificuldades cotidianas e que, não estaria degenerado pelos vícios da vida civilizada.

"Ao invés da inversão extravagante que se observa nas cidades do litoral, onde funções altamente complexas se impõem a órgãos mal constituídos, comprimindo-os e atrofiando-os antes do pleno desenvolvimento – nos sertões a integridade orgânica do mestiço desponta inteiriça e robusta, imune de estranhas mesclas, destinos, porque é a sólida base física do desenvolvimento moral ulterior" (CUNHA, 1968: 85).

Para Euclides da Cunha, a “raça forte” dos sertões iria se sobrepor à “raça fraca” do litoral impulsionando o progresso para uma civilização compatível com os elementos nacionais, essencialmente, sua diversidade. Dessa forma, demonstrava em sua análise uma preocupação constante com os rumos do país e as possibilidades de um projeto nacional que levasse o Brasil à evolução social.

 

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Referências bibliográficas

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1968.

GRAHAM, Richard. Grã-Bretanha e o início da modernização no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1973.

MARTINS, Lílian Al-Chueyr Pereira. Herbert Spencer e o neolamarckismo: um estudo de caso. In: MARTINS, R. A.; MARTINS, L. A. C. P.; SILVA, C. C.; FERREIRA, J. M. H. (eds). Filosofia e história da ciência no Cone Sul: 3º Encontro. Campinas, AFHIC, 2004.

REZENDE, Maria José de. Os Sertões e os (des)caminhos da mudança social no Brasil. São Paulo: Tempo Social (Revista de Sociologia da USP), 13(2), Pp. 201-226.

 

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