A CIA e
a técnica do golpe de Estado
“Il
problema della conquista e della difesa dello Stato moderno non è
un problema politico, ma tecnico”
– Curzio Malaparte, nos anos 30, observou quando escreveu, seu
famoso livro Técnica del colpo di Stato. A
conquista e a defesa do Estado moderno não deixara de ser,
naturalmente, um problema político. Mas o mérito de Curzio
Malaparte foi ressaltar a questão da técnica do golpe, que se
modificara e se tornara ainda mais complexa, no curso dos séculos,
acompanhando transformação da natureza do Estado.
Essa técnica desenvolveu-se enormemente e ganhou maior dimensão,
entretanto, durante a Guerra Fria, empregada pelo Estados Unidos,
como instrumento de política exterior e ingerência nos assuntos
internos de outros países, desde a criação da Central
Intelligence Agency (CIA), em 1947. “We
must learn to subvert, sabotage and destroy our enemies by more
clear, more sophiticated and more effective method than those
against us”
– recomendou um documento secreto, anexado ao Doolitle Report
para a Hoover Commission, em 1950.
A
CIA, sucessora do Ofice of Strategic Services (OSS), dedicou-se não
apenas à coleta de dados, mas a vários tipos de operações de
guerra psicológica e paramilitares, conhecidas como PP ou KUKAGE,
que jamais deveriam ser a ela atribuídas ou ao governo dos
Estados Unidos e sim a outras pessoas ou organizações.
O ex-agente da CIA, Philip Agee reconheceu, em seu livro Inside
the Company: Cia Diary, que essas operações são arriscadas
porque quase sempre significam intervenção, pois visam a
influenciar, por meios encobertos, os assuntos internos de outro
país, com o qual os Estados Unidos mantém relações diplomáticas
normais, e a técnica consiste essencialmente na “penetration”,
buscando aliados desejosos de colaborar com a CIA. Daí que a
regra mais importante na sua execução é a possibilidade de “plausible
denial”, i.e., negar convincentemente a responsabilidade e a
cumplicidade dos Estados Unidos com o golpe de Estado, ou outra
operação, uma vez que, se fosse descoberto seu patrocínio, as
conseqüências no campo diplomático seriam graves.
As
operações de guerra psicológica implicam propaganda e divulgação,
ou seja, campanha através da media, junto às diversas organizações
estudantis, sindicatos, outros grupos profissionais e culturais,
bem como junto aos partidos políticos, sem que a procedência das
informações possa ser atribuída ao governo americano. Ela é
efetivada, muitas vezes, por agentes da CIA, estacionados na
Embaixada Americana como diplomatas, ou homens de negócios,
estudantes ou aposentados, enquanto as operações paramilitares
consistem na infiltração em áreas proibidas, sabotagem, guerra
econômica, apoio aéreo e marítimo, financiamentos de candidatos
nas eleições, suborno, assassinatos (executive actions)
pela Division D, dentro do projeto conhecido como ZR/RIFLE,
treinamento e manutenção de pequenos exércitos (covert
actions) etc.
Essas operações tipificam a técnica do golpe de Estado, que a
CIA desenvolveu e aplicou no Brasil e em diversos países da América
Latina, nos anos 60 e 70 do século XX, radicalizando,
artificialmente, as lutas sociais, até ao ponto de provocar o
desequilíbrio político e desestabilizar governos (spoling
actions), que não se submetiam às diretrizes estratégicas
dos Estados Unidos. “In
some cases, a timely bombing by a station agent, followed
by mass demonstrations and finally by intervention by military in
the name of the restoration of order and national unity – revelou
Philp Agee, acrescentando que as operações políticas da CIA
foram responsáveis por coups, que obedeceram ao mesmo padrão
no Irã, em 1953, e no Sudão, em 1958.
Os
agentes da CIA e seus mercenários nativos, encarregados de
promover “hidden World War Three”,
executaram no Brasil, desde 1961, as mais variadas modalidades de
operações políticas (PP), covert action e spoiling
action, engravescendo a crise interna e induzindo,
artificialmente, o conflito político à radicalização, muito além
dos próprios impulsos intrínsecos das lutas sociais, das quais a
comunidade empresarial norte-americana participava como
significativo segmento de suas classes dominantes. A técnica
consistiu em induzir a radicalização das lutas de classes,
mediante a guerra psicológica de atos de provocação, de modo a
socavar a base de sustentação social do governo e só lhe
restasse a apoio da extrema esquerda. A conseqüência era a sua
desestabilização. Como Philip Agee descreveu, essa técnica pode
implicar a colocação de uma bomba relógio acertada pelo agente
da base, seguindo-se uma demonstração de massa (e.g. Marcha da
Família com Deus pela Propriedade) e, finalmente, a intervenção
dos militares em nome da restauração da ordem e da unidade
nacional.
Mutação
da estratégia de segurança continental
Apesar
dos fatores domésticos, que os possibilitaram, os golpes de
Estado nos países da América Latina, após a revolução cubana,
constituíram batalhas da “hidden World War Three”.
Eles resultaram da mutação da estratégia de segurança
continental, promovida pelo Pentágono, redefinindo as ameaças,
com prioridade para o inimigo interno, e difundindo, através da
Junta Interamericana de Defesa, particularmente, as doutrinas de
contra-insurreição e da ação cívica. Quase todos os golpes de
Estado na América Latina, durante os anos 60 e 70, configuraram,
assim, um fenômeno de política internacional continental, mais
do que de política nacional, interna, da Argentina, Peru,
Guatemala ou Brasil. Evidenciou-o o fato de que a intervenção
das Forças Armadas no processo político visou, sobretudo, a
alterar diretrizes de política exterior e ditar decisões diplomáticas,
conforme os objetivos estratégicos dos Estados Unidos, e
ocorreram, geralmente, contra os governos que se recusavam a
romper relações com Cuba.
Embora,
nos anos 60, as corporações multinacionais, em busca de fatores
mais baratos de produção, não pudessem tolerar nos new
industrializing countries nenhum governo de corte
social-democrático, que, sob influência dos sindicatos,
favorecesse a valorização da força de trabalho, e o presidente
John F. Kennedy (1961-1963) condenasse, formalmente, os golpes de
Estado e privilegiasse a democracia representativa como forma de
evitar revoluções e combater o comunismo, os Estados Unidos
trataram de enfraquecer e derrubar o governo do presidente João
Goulart, não apenas por causa de algumas nacionalizações, mas,
sobretudo, com o objetivo de modificar a política externa do
Brasil, que defendia
os princípios de autodeterminação dos povos e se opunha à
intervenção armada em Cuba.
O
que mais afetava, então os interesses de segurança dos Estados
Unidos, no hemisfério, não era exatamente a luta armada pró-comunista,
como as guerrilhas na Venezuela e na Colômbia, mas sim, o
desenvolvimento da própria democracia naqueles países, onde o
recrudescimento das tenções econômicas e dos conflitos sociais
aguçava a consciência nacionalista e os sentimentos
anti-norte-americanos passavam a condicionar o comportamento de
seus respectivos governos. Em tais circunstâncias, conquanto
Kennedy adotasse, como um dos pressupostos da Aliança para o
Progresso, o princípio de não reconhecer governos que não
obedecessem às normas do regime democrático-representativo, sua
administração foi a que mais incentivou as Forças Armadas,
percebidas como a organização social mais estável e
modernizadora, a participarem da política interna de seus
respectivos países, através de “ações cívicas” e de
contra-insurreição. Daí o surto militarista, com a propagação
dos golpes de Estado, que tinham como principal fonte de inspiração
a Junta Internacional de Defesa. Não sem motivo o embaixador
Ilmar Pena Marinho, chefe da Delegação de Brasil na OEA,
manifestou sua preocupação com a possibilidade de que o Colégio
Interamericano de Defesa, criado por pressão dos Estados Unidos e
ao que Goulart se opôs, viesse a transformar-se em uma
“academia de golpes de Estados”,
onde os estagiários e instrutores norte-americanos, a influenciar
seus colegas latino-americanos, expressavam abertamente opiniões
sobre a necessidade de criar-se um sistema permanente de ação
coletiva, capaz de intervir onde quer que não se pudesse
enfrentar, com recursos internos do próprio país, a ameaça
comunista.
A
política exterior do presidente João Goulart, ao defender a
soberania e a autodeterminação de Cuba, obstaculizava os
objetivos de Kennedy, que em 11 de dezembro de 1962 reuniu o Comitê
Executivo do Conselho de Segurança Nacional para examinar a
“ameaça comunista” no Brasil e a crise do seu balanço de
pagamentos. Ao que tudo indica, naquela oportunidade, decidiu-se
que os Estados Unidos suspenderiam totalmente qualquer
financiamento ao Governo Goulart, nada fazendo, como prorrogação
de vencimentos, para aliviar as dificuldades de suas contas
externas, e só destinando recursos aos Estados, depois
denominados “ilhas de sanidade administrativa”, cujos
governadores eram militantes anticomunistas. No dia seguinte, ao
falar a imprensa, Kennedy referiu-se duramente à situação do
Brasil, declarando que uma inflação de 5% ao mês anulava a
ajuda norte-americana e aumentava a instabilidade política.
Segundo ele, uma inflação no ritmo de 50% ao ano não tinha
precedentes e os Estados Unidos nada podiam fazer para beneficiar
o povo brasileiro, enquanto a situação monetária e fiscal
dentro do país fosse tão instável. Assim, publicamente,
proclamou que o Brasil estava em bancarrota. E ao
receber em audiência, no dia 13, o senador Juscelino Kubitschek,
ex-presidente do Brasil, e Alberto Lleras Camargo, ex-presidente
da Colômbia, prognosticou que, não importando o que os EUA
fizessem, a situação do Brasil devia deteriorar-se.
A
operação para eventualmente intervir no Brasil começou, por
volta de 1961. O Departamento de Estado, naquele ano, começara a
solicitar ao Itamaraty vistos para cidadãos americanos, que
entravam no Brasil sob os mais diferentes disfarces (religiosos,
jornalistas, comerciantes, Peace Corps etc.), dirigindo-se a
maioria para as regiões do Nordeste. Em meados de 1962, da
tribuna da Câmara Federal, o deputado José Joffily, do partido
Social-Democrático (PSD),
denunciou a “penetration” e, no princípio de 1963, o
jornalista José Frejat, através de O
Semanário, revelou que mais
de
5.000 militares norte-americanos, “fantasiados
de civis”, desenvolviam,
no Nordeste, intenso trabalho de espionagem e desagregação do
Brasil, para dividir o território nacional. Se a guerra civil
eclodisse, segundo ele, a esquadra do Caribe estaria pronta para
apoiar as atividades dos supostos civis
americanos, com armas e tropas. Comprovadamente, até 1963, o
Itamaraty concedera mais de 4.000 vistos e recebera solicitação
para mais 3.000, cujo atendimento os militares nacionalistas
brasileiros obstaram. Esse volumoso número de requerimentos.
causara tanta estranheza que levou o Itamaraty, certa vez, a
interpelar o embaixador Gordon. A resposta foi evasiva. Ele
declarou que apenas 2.000 americanos utilizaram efetivamente os
vistos, sendo que os demais ficariam como reservas. Não era
verdade. Mentiu. Cerca de 4.968 norte-americanos, conforme as
estatísticas oficiais de desembarque, chegaram ao Brasil, apenas
em 1962, batendo todos os recordes de imigração originária dos
EUA e superando quase todos os números registrados durante os
anos da Segunda Guerra Mundial, quando eles instalaram,
oficialmente, bases militares em diversos estados do Nordeste.
Aquele número baixou, em 1963, para 2.463, talvez em virtude de
restrições do Itamaraty, mas, ainda assim, continuou acima da média
de entradas de norte-americanos em todos os anos anteriores e
posteriores.
Esses
americanos integravam as Special Forces, conhecidas como Green
Berets, criadas para travar guerras de baixa-intensidade (low-intensity
wars) e treinar as forças nos diversos países, onde houvesse
essa perspectiva de conflito armado. E desde meados de 1963, pelo
menos, a CIA e o Pentágono começaram a elaborar vários planos
de contingência, denominados Brother Sam, a fim de
intervir militarmente no Brasil, diante da eventualidade de que João
Goulart, como conseqüência da pressão econômica dos Estados
Unidos, reagisse e envergasse para a esquerda, não propriamente
comunista e sim sob a forma do autoritarismo ultranacionalista,
algo no modelo de Getúlio Vargas ou Juan D. Perón, conforme a
avaliação da CIA. E até o seu assassinato (executive action)
foi planejado. Em 10 de outubro de 1963, à mesma época em que o
Grupo Especial do Conselho de Segurança Nacional dos Estados
Unidos autorizara novas operações de sabotagem em Cuba, os
soldados do 1º Batalhão da Polícia do Exército brasileiro, sob
o comando do Major Ary Abrahão Ellis, vasculharam um sítio em
Jacarepaguá (Rio de Janeiro), perto de uma propriedade de
Goulart, e descobriram 10 metralhadoras Thompson, calibre 45, 20
carregadores, 72 caixas de cartuchos Remington Kleanbore 45, 10
granadas Federal Blast Dispersion Tear Gas (CN) e um rádio
transmissor motorola, marcado com o símbolo do programa Ponto IV
(mãos apertadas), da embaixada dos Estados Unidos(32). O ministro
da Justiça, Abelardo Jurema, declarou que as metralhadoras
Thompson entraram clandestinamente no Brasil, pois nenhuma daquele
tipo existia nas suas organizações de polícia nem no seu Exército,
cujos oficiais desconheciam todos aqueles modelos de armamentos, tão
modernos que eram. E as investigações evidenciaram a existência
de uma trama para a eliminação de Goulart e de seus filhos, bem
como de muitos políticos e generais favoráveis ao governo. Não
há dúvida de que a CIA estava por trás do complot.
O
golpe de Estado, que derrubou em 1964 o presidente João Goulart,
tipificou o conjunto das operações que a CIA desenvolveu e
aprimorou, e com tais procedimentos ela conseguiu desestabilizar o
governo e permitir a sublevação dos militares, a pretexto de
restaurar a ordem e evitar o comunismo.
A oposição tinha, decerto, uma dinâmica interna própria,
determinada pelas contradições econômicas
e sociais, que se aguçaram no Brasil. Mas teriam os militares
brasileiros, que conspiravam contra Goulart, desfechado o golpe de
estado, para derrubar um governo legalmente constituído, se não
soubessem que contariam com o respaldo dos
EUA? Teriam ousado empreender essa aventura, que poderia deflagrar
uma guerra civil, se não estivessem seguros de que receberiam
assistência militar Washington, sob a forma de gasolina, armas,
munições e até mesmo assessores, se necessário fosse?
Seguramente, não. A assertiva do embaixador Lincoln Gordon,
segundo a qual derrubada de Goulart
foi realizada pelos militares brasileiros sem “assistance or
advice” dos EUA não corresponde à realidade. Não é
consistente com os fatos. O embaixador Lincoln Gordo, como sempre,
mentiu.
O
embaixador Lincoln Gordon e o golpe de 1964
Uma
série de documentos desclassificados em 2004, por solicitação
do National Security Archives, da George Washington University,
com base no Freedom of Information Act (FOIA), evidenciaram
a técnica que os Estados Unidos empregaram no Brasil, a fim de
criar as condições políticas para a efetivação do golpe
militar em 1964. O
general Humberto Castelo Branco, chefe do Estado Maior das Forças
Armadas, era quem comandava, clandestinamente, a conspiração e,
em telegrama ao Departamento de Estados e às mais altas
autoridades em Washington, inclusive o John McCone, diretor da
CIA, o embaixador Lincoln Gordon, em 27 de março, revelou que ele
preferia atuar “only in case of obvious inconstitutional
provocation” e que por isso estava “preparing for a
possible move sparked by a communist-led genera.l strike, another
sergeants rebellion, a plebiscite call opposed
by Congress, or even a major governamental countermove
against the democratic military or civilian leadership.”
O
embaixador Lincoln Gordon pressionou Washington para que se
envolvesse diretamente no golpe contra o governo de Goulart,
respaldando o general Castelo Branco. “If
our influence is to be brought to bear help avert a major disaster
here - which might make Brazil the China of the 1960s – this is
where both I and al my senior advisors believe our support should
be placed” – escreveu em
telegrama ao Departamentode Estado, Casa Branca e CIA,
datado de 27 de março de 1964.
A
fim de assegurar o sucesso do golpe, no mesmo telegrama, Lincoln
Gordon recomendou que medidas fossem tomadas
para que “clandestine delivery of arms of non-US
origin” para que colocá-las à disposição dos que
apoiavam Castello
Branco em Sao Paulo" e
preparar “without delay against the contingency of needed
overt intervention at a second stage.” Os telegramas
desclassificados confirmam que a CIA empreendera “covert
measures”, que incluíam
“covert
support for pro-democracy street rallies (next big one being April
2 here in Rio, and others being programmed), discrete passage of
word the U.S. Government deeply concerned at events, and
encouragement [of] democratic and anti-communist sentiment in
Congress, armed forces, friendly labour and student groups, church,
and business.”
Esse
telegrama evidencia, incontestavelmente, que as Marchas Família
com Deus pela Propriedade (a primeira em 19 de março, em São
Paulo) foram organizadas pela CIA e que o governo dos Estados
Unidos tinha um plano para “the contingency of needed overt
intervention at the second stage (...)”.
Lincoln
Gordon ainda reclamou o envio imediato de uma força naval para
manobras no Atlântico Sul e estacionar em frente ao porto de
Santos. E, em outro telegrama datado de 29 de março, insistiu
junto ao Departamento de Estado e a outras autoridades, entre as
quais John McCone, diretor da CIA, para que fosse enviada
secretamente uma variedade de armas, de modo que elas estivessem
“pre-positioned prior any outbreak of violence” e
pudessem ser usadas “used by paramilitary units working with
Democratic Military groups”. Também recomendou que
Washington fizesse uma declaração pública
para assegurar ao “large numbers of democrats in
Brazil that we are not indifferent to the danger of a Communist
revolution here” e sugeriu que, de modo a ocultar o papel
dos Estados Unidos, as
armas deviam ser despachadas via “unmarked submarine to be
off-loaded at night in isolated shore spots in state of Sao Paulo
south of Santos.”
Já então Goulart recebera a informação de que por volta da
meia-noite do dia 16 de julho de 1963, um submarino
norte-americano, com o prefixo WZY-0983 e sob o comando de um
sobrinho do general Mac Clark, provavelmente chamado Roy,
desembarcou, ao largo de Pernambuco, munições de guerra, entre
as quais 750 bazucas, revólveres, espingardas e granadas, com o
auxilio de alguns generais brasileiros reformados.
Estas armas se espalharam pela Paraíba, Alagoas, Rio Grande do
Norte e outros estados, sendo muitas de origem tcheca, dentro de
um plano de provocação, que visava a justificar, de acordo com o
Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (tiar),
a intervenção dos EUA no Brasi1.
Vários depósitos com armamentos chegaram a ser descobertos pela
Polícia do Exército, que em 10 de outubro vasculharam uma chácara
em Jacarepaguá (Rio de Janeiro), perto de uma propriedade de
Goulart, o Sítio do Capim Melado, e encontraram 10 metralhadoras Thompson,
calibre 45, 20 carregadores, 72 caixas de 50 cartuchos Remington
Kleanbore 45, 10 granadas Federal Blast Dispersion Tear Gas (cn)
e um rádio transmissor-receptor portátil
Motorola, marcada com o símbolo do Ponto IV (mãos
apertadas), da Embaixada dos EUA.
O
sítio pertencia a um amigo de Carlos Lacerda, governador do
Estado da Guanabara (então a cidade do Rio de Janeiro), e as
armas eram tão modernas que os oficiais do Exército brasileiro
estranharam, porquanto ainda não as conheciam. Segundo o ministro
da Justiça, Abelardo Jurema, as metralhadoras Thompson entraram
clandestinamente no Brasil. Não existia nenhuma daquele tipo nas
organizações de polícia do país, nem sequer do Exército, e as
investigações evidenciaram que se tramava o assassinato de
Goulart e de seus filhos, bem como o de muitos políticos e
generais favoráveis ao governo.
O Inquérito Policial-Militar comprovou a “intenção
criminosa” de
vários colaboradores do governador Carlos Lacerda Lacerda, que,
sem dúvida alguma, não estava alheio à iniciativa, segundo o sfici,
que, em informe a Goulart, incriminou também os deputados
estaduais da udn
Sandra Cavalcanti e Nina Ribeiro.
Todas
as alternativas foram excogitadas pela CIA e pelo embaixador
Lincoln Gordon, que, quatro dias antes do golpe, informou a
Washington que “we may be requesting modest supplementary
funds for other covert action programs in the near future”,
e demandou o envio de petróleo e lubrificantes para facilitar as
operações logísticas dos conspiradores e o deslocamento de uma
força naval visando a intimidar as forças que apoiavam Goulart.
Em 30 de março, a estação da CIA no Brasil transmitiu a
Washington que, segundo as fontes em Belo Horizonte, que “a
revolution by anti-Goulart forces will definitely get under way
this week, probably in the next few days,” e marcharia para
o Rio de Janeiro.
No mesmo dia 30, no momento em que Goulart discursava para os
sargentos no Automóvel Club, o secretário de Estado, Dean Rusk,
leu para o embaixador Lincoln Gordon, por telefone, o texto do
telegrama n° 1296, informando-o
de que, como os navios, carregados de armas e munições, não
podiam alcançar o Sul do Brasil antes de dez dias, os EUA
poderiam enviá-las por via aérea, se fosse assegurado um campo
intermediário em Recife ou em qualquer outra parte do Nordeste,
capaz de operar com grandes transportes a jato, e manifestou o
receio de que Goulart, o deputado Ranieri Mazzilli, os líderes do
Congresso e os chefes militares alcançassem naquelas poucas horas
uma acomodação, fato que seria “deeply
embarrassing” para governo norte-americano e “would
leave us branded with an akward attempt at intervention”.
No mesmo telegrama, Dean Rusk forneceu o script
da encenação, de forma a disfarçar o golpe de estado e a
intervenção dos EUA, ao recomendar que:
“It
is highly desirable, therefore, that if action is taken by the
armed forces such action be preceded or accompanied by a clear
demonstration of unconstitutional actions on the part of Goulart
or his colleagues or that legitimacy be confirmed by acts of the
Congress (if it is free to act) or by expressions of the key
governors or by some other means which gives substantial claim to
legitimacy”.
Havia,
decerto, vários grupos que conspiravam. O motim dos marinheiros,
em 26 de março, constituiu a provocação que o general Castelo
Branco esperava e, sem dúvida alguma, fora encorajada pela CIA, a
fim de induzir a maioria dos militares a aceitar a ruptura da
legalidade, em face da quebra da disciplina e da hierarquia nas
Forças Armadas. O golpe estava previsto depois da Marcha da Família
com Deus pela Propriedade, a ser realizada no Rio de Janeiro, em 2
de abril. Mas o general Olímpio Mourão Filho, comandante da IV
Região Militar, com sede em Juiz de Fora (Minas Gerais),
precipitou os acontecimentos. De
qualquer forma era necessário que o golpe de Estado tivesse uma
aparência de legitimidade, conforme Dean Rusk enfatizara, de modo
que os EUA pudessem fornecer a ajuda militar aos sediciosos.
E de seu rancho no Texas,
no dia 31 de março, o
presidente Lyndon B. Johnson, falando por telefone com o
sub-secretário de Estado e o secretário-assistente Thomas Mann,
deu a luz verdade para que os Estados Unidos ativamente
respaldassem o golpe contra o governo de Goulart. “I
think we ought to take every step that we can, be prepared to do
everything that we need to do” – Johnson ordenou e, em
aparente referência a Goulart, acrescentou: “we just can’t
take this one.”
Quando
Goulart saiu de Brasília, tentando organizar a resistência a
partir do Rio Grande do Sul, o senador Auro Moura Andrade cumpriu
literal e fielmente o roteiro prescrito. Declarou a vacância da
presidência da República, mesmo sabendo que ele, Goulart, não
renunciara e continuava no Brasil, e empossou no cargo o deputado
Ranieri Mazzilli, que como presidente do Congresso estava
imediatamente na linha de sucessão. Ai, se resistência houvesse
e a guerra civil irrompesse, ele poderia requerer a assistência
dos EUA, com base no Acordo Militar, renovado através das notas
reversais de 28 de janeiro de 1964. Mas não foi necessário.
Resistência não houve. E
o embaixador Lincoln Gordon pôde declarar que estava “muito
feliz” com a vitória da sublevação de Minas Gerais, “porque
evitou uma coisa muito desagradável, que seria a necessidade da
intervenção militar americana no Brasil”.
E
continuou a insistir na “plausible
denial”, i.e., em negar convincentemente a responsabilidade
e a cumplicidade dos EUA com o golpe de estado, norma esta pela
qual os governos norte-americanos pautaram muitas vezes suas políticas
de intervenção em outros países.
Com
a vitória do golpe de Estado, Thomas Mann, na sexta-feira, 3 de
abril, telefonou a Johnson e manteve seguinte conversação:
“Thomas
Mann: I
hope you’re as happy about Brazil as I am.
Lyndon
B. Johnson: I am
Thomas
Mann: I think that’s the most thing that’s happened in the
hemisphere in three years.
Lyndon
B. Johnson: I hope they give us some credit, instead of hell”.
Conclusão
O
golpe de Estado, que derrubou o governo constitucional do
presidente João Goulart, triunfou em 1° de abril 1964 e, em
homenagem ao Dia da Mentira, logo se denominou Revolução
Redentora, antecipando a data para 31 de março, ao mesmo tempo em
que, a pretexto de defender a democracia, destruía a democracia e
implantava uma ditadura militar. E,
com toda a razão, ao escrever sobre o golpe de Estado na França,
em 1848, o 18 Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx comentou,
ironicamente,
que
“a
sociedade é freqüentemente salva todas as vezes que o círculo
dos seus dominadores se restringe e um interesse mais exclusivo se
sobrepõe. Qualquer reivindicação, ainda que da mais elementar
reforma financeira burguesa, do liberalismo mais vulgar, do mais
formal republicanismo, da mais trivial democracia, é ao mesmo
tempo castigada como ‘atentado contra a sociedade’ e
estigmatizada como ‘socialismo’. Por fim, os pontífices da
‘religião e da ordem’ são eles mesmo expelidos a pontapés
de suas cadeiras de Pythia,
arrancados da cama no meio da noite e da névoa, colocados em
camburões, lançados no cárcere ou enviados para o exílio, seu
templo arrasado, sua boca lacrada, suas plumas partidas, sua lei
rasgada, em nome da religião, da propriedade, da família, da
ordem”.
Esse
trecho de Marx sobre a França de 1848 parece descrever,
exatamente, o que ocorreu no Brasil, durante e logo após o golpe
de Estado de 1964. Contudo, embora se recomende, aos governantes,
estadistas, povos preferivelmente o ensinamento através da experiência
da história, como Hegel ressaltou, o que a experiência e a história
ensinam é que os povos e governos nunca aprenderam qualquer coisa
da história nem se comportam de acordo com suas lições.
A CIA, nove anos depois da queda de Goulart, aplicou no Chile a
mesma técnica para derrubar em 1973 o governo constitucional do
presidente Salvador Allende, mas fracassou quando, em março de
2002, articulou outro golpe para derrubar o presidente Hugo Chávez,
na Venezuela.