A
mulher na história da filosofia:
uma
análise na perspectiva da corporeidade
O
reconhecimento social das mulheres como “seres pensantes” foi e
continua sendo um desafio para o equilíbrio nas relações de gênero.
Nos currículos escolares e universitários podemos perceber que
pouco consta sobre as mulheres que se destacaram enquanto filósofas.
Na maioria das vezes, falta uma referência acerca do conhecimento
da vida e obras de pensadoras. Neste sentido, podemos constatar uma
reduzida valorização das mulheres na vida acadêmica e sua
participação na história da construção do conhecimento. Neste
contexto, pretendemos realizar uma retomada da presença das
mulheres na história da filosofia, com ênfase ao desprezo do corpo
e à marginalidade da mulher.
1.
A presença da mulher na história da filosofia
Ao
realizar um resgate sobre a presença das mulheres na história da
filosofia, percebe-se que a figura do feminino “é discutida por
meio de um sujeito que não é o que a representa, mas sim outro
sujeito: o sujeito masculino. Mesmo assim, este discurso é sempre
evitado no campo filosófico” (TIBURI
et al., 2002: 69).
A
mitologia grega destaca fortemente a presença de mulheres através
da figura das deusas Artemis, Atena, Afrodite, Deméter, Hera, Perséfone,
Pandora e Gaia. Embora a inteligência e o pensamento sejam
representados pela deusa Minerva (versão latina da deusa Atena), é
interessante destacar, que esta nasce não do corpo de sua mãe, mas
da cabeça de seu pai, Zeus. Isto demonstra, desde o princípio, a
desvalorização da mulher.
Sendo
assim, na história da filosofia, que mulheres alcançaram ao longo
da história o reconhecimento oficial de filósofas? Kant, em uma de
suas passagens afirma que: “uma mulher que tem a cabeça cheia de
grego, como Mme. Dacier, ou que, tal como a marquesa de Châteler,
disputa sabiamente sobre temas de mecânica, só lhes falta a barba
para expressar melhor a profundidade do espírito que ambicionam” (Idem:
148). Isto significa que o fato das mulheres se destacarem na história
por sua capacidade intelectual, não
era um fator suficiente para serem reconhecidas. Para isto teriam
que ser “homens”.
A
forma como os filósofos, em geral, tematizam a mulher ao longo dos
séculos, demonstra um claro desprezo ao ser feminino.
Aproveitando-nos de uma passagem de Pitágoras, o mesmo afirma que
“existe um princípio bom que gerou a ordem, a luz e o homem; há
um princípio mau que gerou o caos, as trevas e a mulher” (Idem:
148).
Entretanto,
apesar da discriminação das mulheres no campo filosófico, é possível
perceber que, ao longo da história da filosofia, várias mulheres
se destacaram como seres humanos que buscaram saber e conhecimento.
No século XX há um destaque especial a algumas filósofas
importantes. Dentre elas, encontram-se Hannah Arendt, Simone Weil,
Edith Stein, Mari Zambrano e Rosa Luxemburgo. Estas mulheres,
contrariando a ordem patriarcal de seu tempo, foram filósofas
importantes e, sem dúvida, contribuíram decisivamente para a
construção do conhecimento.
2.
O desprezo do corpo e marginalidade da mulher na história da
filosofia
Embora
a mulher tenha sido desprezada na história da filosofia, o tema
“mulher” foi abordado por muitos pensadores. Textos de
importantes filósofos como Platão, Aristóteles e Kant, retratam a
diferenciação entre os sexos. No entanto, estudos sobre as
mulheres aparecem em obras menos conhecidas, as quais tratam de
temas relacionados a moral, o que, certamente contribuiu para que a
questão da discriminação da mulher passasse despercebida. Além
disso, quando o tema referente às mulheres aparece em textos filosóficos,
este é cercado de muitos preconceitos, tentando demonstrar uma
suposta inferioridade natural da mulher. No entanto, é preciso ter
presente que as abordagens sobre a mulher encontram-se numa história
da filosofia que foi escrita por homens.
A
relação entre mulher e homem está, geralmente, fundamentada na
relação corpo e alma. Neste contexto, surge a discussão sobre a
corporeidade. A alma não apenas se distingue do corpo, como também
está ligada tradicionalmente à racionalidade, ao universal, ao
masculino. O corpo físico encontra-se associado à sensibilidade,
ao particular, ou seja, ao feminino. De um lado encontram-se os
homens, com a linguagem filosófica e o conhecimento. De outro lado
estão as mulheres com a linguagem da poesia e da música. No que
diz respeito à mulher instruída, Kant ironiza: “ela se serve de
seus livros da mesma forma como se serve de seu relógio: ela o usa
para que se veja que tem um, pouco se importando que, em geral, ele
esteja parado ou que não marque a hora certa” (Idem:
53).
Ao
longo da história, o pensar foi considerado um privilégio dos
homens. Houve, contudo, uma participação lenta das mulheres na
vida acadêmica. Um dos poucos registros históricos acerca do tema
foi a existência de um centro de formação intelectual para
mulheres, escola esta fundada por Safo, poetisa de Lesbos nascida em
625 a C. (Idem: 16). No
Renascimento “percebe-se um aumento significativo das
instituições escolares. Mas às mulheres mais uma vez só é
concedido um saber incompleto e sob uma forte vigilância” (Idem:
17), realizado, especialmente através de instituições religiosas.
Em Rousseau, o quinto capítulo do Emílio é marcado pela construção de um conhecimento que esvazia
a possibilidade da mulher pensar. Segundo ele, “elas devem
aprender muitas coisas, mas apenas aquelas que lhes convém saber”
(ROUSSEAU citado em STRÖHER et al., 2004: 228).
O
pensamento vigente é de que à mulher é permitido uma mente e um
corpo, mas não os dois simultaneamente. Assim, a mulher jamais
poderia produzir a razão, pois já possui a beleza. Essa dicotomia
entre alma e corpo também aparece no pensamento de Platão. No diálogo
O Banquete, o mesmo mostra
que o amor sensível deve estar subordinado ao amor intelectual, ou
seja, “na juventude, predomina a admiração pela beleza física;
mas o verdadeiro discípulo de Eros amadurece com o tempo e descobre
que a beleza da alma deve ser considerada mais preciosa do que a do
corpo” (ARANHA/ MARTINS, 1986: 342).
Além
disto, Descartes, no Cogito,
defende a idéia de uma essência primeira que antecede o corpo, ou
seja, o pensamento. O ato de pensar segundo Descartes é a própria
existência corporal, de modo que o corpo vem a ser uma extensão do
pensamento. De um lado, a essência pensante (res cogitans – espírito) e, do outro, a substância extensa (res
extensa – corpo).
Na
discussão sobre corporeidade, há uma associação do fraco com o
feminino e do forte com o masculino. Aristóteles já afirmava que o
corpo feminino está dotado de um cérebro menor. Pode-se dizer,
portanto, que existe uma redução da mulher ao seu corpo, sendo-lhe
impedido desenvolver sua capacidade racional e intelectual. O corpo
é visto como algo historicamente negado. “A concepção do corpo
como cadáver ou sepultura da alma ou psyché, que advém do
orfismo-pitagorismo, migra para a filosofia de Platão, constitui a
filosofia aristotélica e assume seu tom mais enfático no
pensamento medieval” (TIBURI
et al., 2002: 35).
Diante
disto, pode-se afirmar que a visão negativa do “ser feminino”
baseia-se no
entendimento, segundo o qual, as “deficiências”, “limitações”
e a própria inferioridade da mulher decorrem de sua própria
natureza, ou seja, a condição inferior da mulher é vista como
algo natural e, portanto, imutável. Esta visão do “feminino”
esteve presente na história da filosofia e continua sendo um
desafio para as mulheres filósofas. Enquanto ser humano, a mulher
é dotada de razão, mas o uso pleno e adequado ainda está
reservado, majoritariamente, ao ser masculino.