O
retorno do Terminator
Durante
os dias 13 a 17 de março de 2006 será realizada em Curitiba a
Terceira Reunião das Partes (MOP 3) do Protocolo de Cartagena sobre
Biossegurança e, de 20 a 31 do mesmo mês, a Oitava Conferência
das Partes (COP 8) da Convenção de Diversidade Biológica da ONU.
Uma das discussões polêmicas, certamente, envolverá a moratória
sobre as tecnologias de restrição de uso genético (GURT –
Genetic Use Restriction Tecnology), mundialmente conhecidas como “Terminator”.
As articulações políticas favoráveis e contrárias foram
intensificadas em 2005, quando os governos do Canadá, da Austrália
e da Nova Zelândia se manifestaram abertamente pelo fim da moratória
proposta em nível internacional desde 2000. Quais são os
interesses que estão em jogo e quais seriam as conseqüências de
uma liberação do uso desta tecnologia?
A
introdução do gen Terminator nas espécies transgênicas, que, ao
esterilizar as sementes, impede a sua reprodução por parte dos
agricultores, é o ápice da dependência tecnológica desejada
pelas multinacionais que dominam a produção de sementes e agrotóxicos.
Produzida a partir da transferência de parte do DNA da Saponaria
officinalis (uma espécie de planta silvestre dos EUA) a
tecnologia esterilizante foi, originalmente, introduzida no algodão.
As sementes germinam, normalmente, na primeira geração, mas, na
fase do amadurecimento da planta, o gen “exterminador” se
manifesta, produzindo uma toxina que esteriliza as sementes,
impedindo a germinação da segunda geração, o que obriga os
agricultores a comprar a semente para a safra seguinte. Patenteada
desde 1998, a tecnologia ainda está em fase de experimentação e,
diante da forte rejeição por ocasião da notícia de sua existência
(tornada pública somente em função do processo de patenteamento),
a maioria dos países adotaram a moratória, apoiada em convenções
da ONU sobre a biodiversidade. Agora, como os transgênicos foram
liberados em muitos países (uma liberação questionável também
do ponto de vista jurídico e, muitas vezes, motivada por uma
“situação de fato”, criada em função do contrabando e da
contaminação), a ofensiva das multinacionais e seus aliados se
ampliou em nível internacional, assim como os movimentos de resistência,
coordenados por movimentos ambientalistas e de defesa dos direitos
dos consumidores.
Uma
das principais interessadas na liberação de uso do gen Terminator
é a Monsanto, sob a alegação de possibilitar a tão propalada
coexistência entre cultivos transgênicos e convencionais. O
discurso supostamente baseado em princípios ecológicos e sustentáveis,
no entanto, está em contradição com a história da empresa.
Novamente, a Monsanto criou uma estratégia para aumentar seus
dividendos com a venda de produtos questionáveis do ponto de vista
ambiental e de saúde pública. Desta vez, trata-se do herbicida
Roundup (glifosato), responsável por cerca de 2/3 do seu
faturamento mundial e que, em combinação com a soja transgênica
Roundup Ready, apresenta um mercado altamente promissor.
Originariamente, a Monsanto
enriqueceu fornecendo matérias primas ao exército dos Estados
Unidos: nas guerras mundiais o fornecimento de ácido nítrico e
tolueno permitiu um aumento exponencial dos lucros da empresa,
investidos na compra de várias indústrias químicas pelo mundo
afora; mais tarde, a Monsanto ficou famosa pelo fornecimento do
agente laranja (um herbicida criado à base de 2,4-D e 2,4,5-T,
usado, inicialmente, para destruir florestas na Guerra do Vietnã,
cujas conseqüências à saúde a ao meio ambiente ainda podem ser
detectadas); e, atualmente, a versão mais potente do glifosato, o
Roundup Ultra, vem sendo usado massivamente na Colômbia,
pretensamente para destruir plantações de coca (Erythroxylum coca). Segundo a versão difundida pela Monsanto e
reproduzida mundialmente por cientistas por ela financiados, tanto o
agente laranja como o glifosato foram, por muito tempo, considerados
inofensivos ao meio ambiente e à saúde humana. Outra tentativa da
Monsanto em confundir a opinião pública está relacionada à produção
do hormônio de crescimento bovino, cuja patente é monopólio da
multinacional e cujo efeito foi considerado inócuo a animais e
seres humanos em estudos desenvolvidos pela própria empresa, mesmo
após inúmeras pesquisas científicas terem provado o contrário.
É esta empresa multinacional, com esta história, que depois de ter
sido beneficiada com a contaminação de lavouras de soja transgênica
contrabandeadas da Argentina (e que aumentaram a venda do seu
principal herbicida) atualmente se apresenta preocupada com o meio
ambiente e a saúde humana, para propor a liberação do gen
Terminator.
A
pergunta decisiva, entretanto, é a seguinte: as tecnologias de
restrição de uso genético são realmente necessárias? A mesma
pergunta precisa ser respondida com relação à soja transgênica:
ela é, de fato, necessária? Os que defendem que sim, afirmam os
seguintes argumentos: 1) o aumento da produtividade; 2) a solução
de problemas técnicos na produção (doenças, pragas, inços,
interferências climáticas etc.) e a conseqüente redução de
custos de produção; 3) uma melhoria na qualidade dos alimentos
para os consumidores; 4) e, não por último, o combate à fome no
mundo. Diante desses argumentos, podemos continuar perguntando: nós
precisamos de maior produtividade na agricultura ou os mercados
mundiais de alimentos já estão confrontados com uma situação de
superprodução? Há algum problema técnico que não possa ser
resolvido com as demais tecnologias disponíveis? As variedades
transgênicas disponíveis possuem alguma qualidade adicional
superior para os consumidores? Há algum movimento dos consumidores
reivindicando esses alimentos? Os transgênicos podem contribuir no
combate à fome ou contribuem para uma maior concentração da terra
e das riquezas e, portanto, para gerar mais pobreza e mais fome?
As
pesquisas científicas independentes (que não são desenvolvidas
por cientistas e institutos patrocinados pela Monsanto) realizadas
nos países que cultivam a soja transgênica são unânimes em seus
resultados: 1) as variedades transgênicas existentes no mercado não
são mais produtivas em comparação às convencionais (ao contrário,
produzem menos por hectare); 2) os problemas técnicos existentes
podem ser resolvidos sem a transgenia e o uso desta última tem
contribuído para aumentar problemas técnicos nos países que a
adotam há mais tempo, com o prejuízo do aumento nos custos de
produção e de conseqüências ambientais negativas a longo prazo;
3) não há nenhuma qualidade alimentar superior nos produtos transgênicos
disponíveis e a maioria dos consumidores os rejeita; 4) a fome
tende a aumentar e não diminuir com o uso da transgenia,
especialmente por gerar um maior endividamento, empobrecimento e êxodo
rural de pequenos agricultores (a maioria dos atingidos pela fome no
mundo são pequenos agricultores e sem-terra). Esses resultados
demonstram, claramente, que, com exceção das multinacionais e dos
grandes proprietários rurais (inicialmente entusiasmados com a
possibilidade de cultivar grandes áreas com monoculturas e com
menor intensidade de trabalho), para a maioria da população o
cultivo dos organismos transgênicos atualmente disponíveis é
desvantajoso, especialmente a longo prazo, quando o monopólio sobre
a alimentação tende a aumentar.
E
é isso que está em jogo: a partir do controle sobre a semente (a gênese
do alimento) multinacionais originalmente centradas na indústria química,
como a Monsanto, a Syngenta e a Dupont (somente para citar as
maiores empresas que possuem a patente da tecnologia Terminator) terão
em seu poder o controle sobre o que e onde os alimentos serão
produzidos, os insumos necessários e seus preços. A dependência
tecnológica se aprofunda com a degradação ambiental e a conseqüente
necessidade de mais insumos: um ciclo vicioso que demanda o uso de
novas técnicas patenteadas pelas mesmas multinacionais que há décadas
vêm enriquecendo com a difusão de tecnologias agrícolas, cuja
eficácia é questionável do ponto de vista científico e cujos
riscos de utilização superam os benefícios, presentes apenas nas
promessas eufóricas de suas campanhas de marketing e constatáveis
somente por ocasião do período de sua introdução.
Os
argumentos apresentados em favor da liberação do uso do gen
Terminator são, particularmente, curiosos: 1) a possibilidade de
evitar a contaminação (que, no caso da soja já ocorreu e, com o
milho e algodão está em curso, sem que houvesse uma preocupação
das multinacionais em evitá-la) e permitir a coexistência entre
cultivos transgênicos, convencionais e orgânicos; 2) a
possibilidade de evitar o cruzamento entre espécies no meio
ambiente e o surgimento de “super-inços” (a crescente resistência
de inços ao glifosato vem ocorrendo em países, onde os transgênicos
foram liberados há mais tempo, constituindo um problema real,
aprofundado, entretanto, pela liberação irresponsável dos
cultivos transgênicos sem o prévio Estudo de Impacto Ambiental,
previsto nas legislações dos países, com base no princípio da
precaução).
Além
do interesse em controlar definitivamente a agricultura,
aproveitando a “onda” da legalização em curso, o fundamental
na liberação do gen Terminator no Brasil (apresentado como solução
a problemas técnicos causados, no entanto, pela liberação das
variedades transgênicas), continua sendo de ordem econômica: como
a maioria dos agricultores no Brasil que cultivam a soja transgênica
continua utilizando sementes contrabandeadas e reproduzidas por eles
mesmos e as variedades transgênicas, apesar de insuficientes para o
plantio em todo o território nacional, estão sobrando no mercado
(porque a Monsanto demorou para definir os royalties sobre as
sementes, as espécies existentes não estão adaptadas às diferenças
climáticas de todo o país, o valor embutido na semente legal é
maior do que o pagamento de royalties sobre a produção e a liberação
do uso de sementes próprias com financiamento dos bancos, que
reduziu as vendas de sementes certificadas), a Monsanto só tem a
ganhar com o uso do gen Terminator e o fim da possibilidade de
reprodução de sementes por parte dos próprios agricultores. Ou
seja, se antes o contrabando e o uso ilegal da semente interessava
com vistas à contaminação, agora ele passa a ser combatido
tecnicamente, sob o argumento de “evitar a contaminação”.
Também
para o caso da Argentina, onde os agricultores ainda não pagam
royalties e continuam reproduzindo suas sementes (a disputa jurídica
continua, com a tentativa da Monsanto em cobrar os royalties através
das exportações de soja, em território europeu), a “nova
tecnologia” pode ser uma solução para a Monsanto. É essa a
necessidade real que está por detrás da discussão jurídica,
atualmente vinculada a grandes cultivos comerciais como a soja, o
milho e o algodão, assim como a tentativa de isentar produtores de
sua responsabilidade em caso de contaminação. Se agora, quando a
liberação irresponsável dos organismos transgênicos já ocorreu
no meio ambiente, o risco de contaminação (anunciado publicamente
por inúmeros cientistas críticos e independentes)
surpreendentemente passa a ser aceito como problema pelos próprios
defensores dos transgênicos, sua recente preocupação ambiental é,
no mínimo, questionável, especialmente porque suas propostas
continuam movidas por promessas, sem comprobabilidade real,
portanto. E é isso que se percebe há bastante tempo no debate
acerca dos transgênicos: promessas eufóricas de cientistas (sem
evidência em experiências de campo) fundamentam argumentos que
passam a ser criados como justificativa para legitimar a aprovação
indiscriminada de qualquer cultivo transgênico e passam a ser
anunciadas como necessidades, sem que se tenha conhecimento disponível
para avaliar cada caso. O caso dos remédios a partir de organismos
transgênicos (uma antiga promessa dos defensores da transgenia)
continua servindo para confundir o debate, pois sua produção
ocorre prioritariamente em laboratório, em ambiente fechado, com
menor probabilidade de contaminação.
É
com base na confusão entre promessa e realidade que parlamentares e
governos de alguns países estão fundamentando a liberação das
tecnologias de restrição de uso genético. No mesmo contexto está
a idéia de que o uso dessas tecnologias venha a contribuir com a
biossegurança no Brasil, o que não possui nenhuma evidência de
caráter científico, mas serve para justificar a pressa na liberação
indiscriminada, aproveitando a vigência da nova Lei de Biossegurança.
A inconstitucionalidade
desta lei recente deveria constituir o foco da atenção de
parlamentares supostamente preocupados com sua incompatibilidade jurídica,
agora que aparentam admitir o alerta já dado há muito tempo por
cientistas independentes de que a coexistência entre organismos
transgênicos e não transgênicos não é possível fora do laboratório,
onde essas tecnologias de risco deveriam continuar antes de se ter
uma avaliação objetiva e responsável acerca de seus efeitos à saúde
e ao meio ambiente.