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Por
PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

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Um balanço
preliminar do Governo Lula:
a grande
mudança medida pelos números
Qualquer
avaliação isenta de um governo específico, ainda que tentativa,
deve partir de dados objetivos e concretos sobre o desempenho
administrativo desse governo num determinado período de tempo,
normalmente o seu mandato constitucional. O governo do presidente
Lula, por exemplo, deveria apenas ser avaliado a partir da herança
recebida, em 1º de janeiro de 2003, de seu antecessor e com base no
legado que pretende deixar, em 31 de dezembro de 2006, a seu
sucessor, ainda que este possa ser ele mesmo, eventualmente
reeleito, tal como facultado pela Constituição. A prudência
recomendaria, portanto, que uma avaliação honesta e completa de
seu desempenho no cargo seja feita apenas dentro de aproximadamente
doze meses, em fevereiro ou março de 2007, quando todos os dados de
2006 estiverem disponíveis.
Considerando-se,
porém, que o governo atual iniciou seu mandato prometendo grandes
mudanças no cenário brasileiro – conforme o discurso inaugural
do presidente Luis Inácio Lula da Silva, em 1º de janeiro de 2003
– e que este ano promete ser ocupado, mais cedo do que o previsto,
pela campanha presidencial para o mandato de 2007-2010 – além do
fato de que, não só o período eleitoral, mas todo o ano de 2006
pode ser marcado por comparações entre esta administração e a
anterior –, talvez seja justificado um balanço preliminar deste
governo. O intuito é tanto mais legítimo quando se observa que
diversas peças de propaganda do atual governo têm como objetivo,
justamente, a comparação não apenas com o mandato imediatamente
anterior, mas com os oito anos da gestão FHC. A finalidade é
geralmente triunfalista, pretendendo demonstrar como este governo
realizou muito mais do que o precedente, nos mais diversos campos da
economia e das políticas setoriais, em especial nas de cunho
social.
Tem
em vista esses dados da realidade presente, pode ser apropriado
tentar uma avaliação preliminar dos resultados alcançados pelo
atual governo, mesmo de modo não explicitamente comparatista.
Tentarei fazê-lo de modo objetivo, alinhando os pontos positivos e
os eventuais pontos negativos nos diversos aspectos da vida nacional
e internacional, ou melhor, nos cenários doméstico e externo que
interagem com a economia e os demais setores da conjuntura
brasileira. Para fazê-lo, nada melhor do que começar com alguns números
objetivos, como estes que são abaixo apresentados.
|
Indicadores
selecionados da economia brasileira, 2002-2007
|
|
|
2002
|
2003
|
2004
|
2005
|
2006
1
|
2007
2
|
|
Dados
básicos da economia
|
|
PIB
nominal (US$ bilhões)
|
460
|
507
|
603
|
794
|
925
|
932
|
|
Crescimento
real do PIB %
|
1,9
|
0,5
|
4,9
|
2,3
|
3,0
|
3,0
|
|
Cresc.
PIB agropecuário %
|
5,5
|
4,5
|
5,3
|
0,8
|
4,5
|
3,0
|
|
Cresc.
PIB industrial %
|
2,6
|
0,1
|
6,2
|
2,5
|
4,5
|
3,0
|
|
Cresc.
PIB serviços %
|
1,6
|
0,6
|
3,3
|
2,0
|
2,2
|
2,7
|
|
Inflação
IPCA-IBGE
|
12,5
|
9,3
|
7,6
|
5,7
|
4,2
|
4,2
|
|
Inflação
IGP-DI FGV
|
26,4
|
7,7
|
12,1
|
1,5
|
4,8
|
4,8
|
|
Juros
básicos em dezembro
|
25,0
|
16,5
|
17,8
|
18,0
|
14,5
|
13,0
|
|
Juros
básicos – média anual
|
19,2
|
23,3
|
16,4
|
19,1
|
15,4
|
13,7
|
|
Desemprego
(% da PEA)
|
11,7
|
12,3
|
11,5
|
9,8
|
9,3
|
8,9
|
|
Preço
cesta básica (%) 3
|
31,7
|
3,0
|
1,3
|
-2,4
|
--
|
--
|
|
Receitas
de impostos (bi. R$)
|
243,0
|
273,4
|
322,6
|
364,1
|
--
|
--
|
|
Despesas
governo (bi. R$)
|
232,2
|
257,1
|
302,7
|
351,9
|
--
|
--
|
|
Déficit
Previdência (%PIB)
|
1,26
|
1,70
|
1,81
|
1,93
|
--
|
--
|
|
Dívida
pública (bilhões R$)
|
623,2
|
731,4
|
810,3
|
979,7
|
--
|
--
|
|
Dívida
pública 4
(% PIB)
|
55,5
|
57,2
|
51,7
|
51,4
|
50,0
|
48,6
|
|
Juros
sobre dívida púb. (bi R$)
|
148,9
|
165,4
|
137,0
|
157,1
|
--
|
--
|
|
Pagamento
Juros (% PIB)
|
8,47
|
9,33
|
7,26
|
8,13
|
--
|
--
|
|
Superávit
primário (% PIB)
|
3,89
|
4,25
|
4,59
|
4,84
|
4,40
|
4,40
|
|
Déficit
nominal (% PIB)
|
4,58
|
5,08
|
2,67
|
3,29
|
--
|
--
|
|
Investimentos
públicos (% PIB)
|
0,91
|
0,34
|
0,51
|
0,53
|
--
|
--
|
|
Setor
externo
|
|
Taxa
de câmbio dezembro
|
3,53
|
2,89
|
2,65
|
2,20
|
2,30
|
2,50
|
|
Taxa
de câmbio média no ano
|
2,93
|
3,07
|
2,93
|
2,43
|
2,25
|
2,40
|
|
Exportações
bens (US$ bilhões)
|
60,4
|
73,1
|
96,5
|
118,3
|
124
|
126,5
|
|
Importações
bens (US$ bilhões)
|
47,2
|
48,3
|
62,8
|
73,5
|
85
|
95,5
|
|
Saldo
balança comercial
|
13,2
|
24,8
|
33,7
|
44,7
|
39
|
31
|
|
Transações
correntes (% PIB)
|
-1,7
|
0.8
|
1,9
|
1,8
|
1,6
|
0,2
|
|
Investim.
Direto Estr. (US$ bi)
|
16,6
|
10,1
|
18,2
|
15,2
|
15,5
|
15,9
|
|
Dívida
externa (% do PIB)
|
45,9
|
42,4
|
33,3
|
22,8
|
17,9
|
16,1
|
|
Dív.
Externa/Export. bens (%)
|
349
|
294,1
|
208,7
|
153,7
|
133,8
|
118,7
|
|
Reservas
int. brutas (US$ bilh.)
|
37,8
|
49,3
|
52,9
|
68,7
|
81,7
|
87,1
|
|
Reservas
int. líquidas (US$ bilh)
|
16,3
|
20,5
|
27,5
|
54,9
|
74,4
|
86,4
|
|
Fontes:
IBGE, Banco Central, IPEA; estimativas e previsões de
consultorias diversas.
Notas:
1 = alguns dados de 2006 ainda são estimativas; 2 = previsões
; 3 = variação do preço da cesta básica em relação ao
ano anterior; 4 = dívida líquida do setor público;.
|
Bem
sei que para efeitos de comparação com o governo anterior, ainda
que este não seja meu objetivo imediato, o ano de 2002 não é a
melhor opção para tal, uma vez que os principais indicadores
macroeconômicos e setoriais, sobretudo os da frente externa, vieram
contaminados pela natural exacerbação do período eleitoral, tanto
mais importante, em 2002, que a mensagem política veiculada pelo PT
era a de uma “ruptura” com todos os postulados que tinham guiado
o governo anterior, supostamente “neoliberal” em economia e,
como tal, complacente com o “capital financeiro internacional”.
Não surpreendeu, assim, que os principais indicadores externos
tenham conhecido uma deterioração sensível ao longo daquele ano,
sobretudo aqueles relativos ao câmbio e ao chamado “risco
Brasil” – diferencial de juros em relação às melhores taxas
dos mercados externos –, que ascendeu a níveis jamais vistos em
períodos anteriores (próximos de 24 pontos, em outubro de 2002,
para menos de 10% desse valor atualmente).
O
que em todo caso se depreende do quadro de dados oficiais (e algumas
estimativas) são três realidades nítidas: (a) a primeira é que a
economia brasileira vem conhecendo taxas de crescimento bastante
modestas nos últimos anos, inferiores às médias históricas
conhecidas em fases precedentes; (b) a segunda, mais preocupante, é
uma contínua deterioração da situação fiscal, ainda que o superávit
primário tenha podido conter os níveis dos déficits nominais; (c)
a terceira, bem mais feliz, é que a situação das contas externas
conheceu uma melhoria sensível ao longo dos últimos três anos, a
ponto de se poder dizer que o Brasil rompeu, finalmente, com a sua
famosa “vulnerabilidade externa”.
Nenhuma
dessas situações pode ser imputada exclusivamente ao governo
atual, ainda que ele tenha atuado decisivamente no terceiro fator
– ainda assim beneficiado por políticas que tinham sido
implementadas alguns anos antes – e tenha sido excessivamente
leniente com o aumento contínuo dos gastos públicos, responsável
pela deterioração da situação fiscal. Quanto ao baixo
crescimento da economia, ele reproduz o padrão dos últimos 10 anos
(2,5% ao ano), quando o Brasil enfrentou vários desequilíbrios
externos, viu o recrudescimento inflacionário no plano interno e não
vem sabendo enfrentar, desde a aprovação da Constituição de
1988, a pressão fiscal que redunda do aumento progressivo dos
gastos públicos, seguida da expansão da carga tributária, que
reduz, justamente, o volume de investimentos necessários à
sustentação de uma taxa mais elevada de crescimento. Em todo caso,
os resultados obtidos nos três primeiros anos do Governo Lula
reproduzem exatamente a taxa média de crescimento registrado no
primeiro mandato de quatro anos (1995-1998) de FHC, ou seja, uma
taxa média de 2,6% ao ano.
No
plano da política econômica, justamente, o governo Lula conseguiu
manter um padrão de comportamento cauteloso, que seguiu,
basicamente, o estilo e o conteúdo herdados do governo anterior,
feitos de busca de estabilidade no plano monetário – com concessão
de autonomia de fato à autoridade monetária –, manutenção da
responsabilidade fiscal, preservação das políticas de metas de
inflação e de superávit primário, adesão plena ao regime de
flutuação cambial e um bom diálogo com entidades financeiras
internacionais, multilaterais ou privadas. Esse aspecto merece ser
enfatizado, ainda que seja o que mais críticas despertou na base de
apoio do partido no governo por, justamente, discrepar das propostas
de política econômica por ela preconizadas.
Os
bons resultados obtidos na frente externa e na condução da política
macroeconômica não permitem, contudo, ignorar o problema das
contas públicas, assim como as dificuldades ainda manifestas para o
crescimento da economia como um todo, tendo em vista o péssimo
ambiente de negócios prevalecente no Brasil. A despeito do caráter
errático de alguns indicadores compilados, um dado é eloqüente na
tabela apresentada acima: o contínuo aumento do déficit da previdência.
Em 1995, as despesas totais da previdência no Brasil representavam
5% do PIB; em 2005, o governo deve gastar
7,5% do PIB com os benefícios do INSS, com previsão de maiores
aumentos nos anos à frente. A reforma efetuada em 2003, e
implementada canhestramente depois de manobras congressuais, apenas
reduziu o ritmo do aumento do déficit previdenciário, o que é
extremamente preocupante do ponto de vista das gerações futuras. O
governo, aparentemente, desistiu de aprofundar a reforma do sistema,
o que se revela absolutamente necessário para evitar o colapso de
seu funcionamento ou simplesmente para impedir que o aumento de
gastos incida sobre os níveis já elevados de déficits setoriais
com o conseqüente aumento da dívida pública.
No
plano mais geral das contas públicas, as despesas do governo vêm
crescendo de modo contínuo: entre 1999 e 2005, desconsiderando-se o
pagamento de juros, as despesas do governo cresceram a uma média de
18,3% ao ano, saltando de 15,85% do PIB para mais de 18% em 2005.
Nos dez anos que vão de 1995 a 2005, as despesas do governo federal
cresceram 77% acima da inflação: em média, houve uma expansão
real anual de 5,8%, bem maior do que o crescimento do PIB, que foi
de 2,5%. Nos três anos do governo Lula, a média de aumento de
gastos públicos correntes foi de 6,23% acima da inflação. A
despeito de tentativas generosas de aumento real do salário mínimo,
não se pode esquecer que esse tipo de medida, ademais de possuir um
viés regressivo – ao beneficiar antes os mais velhos do que os
jovens – também provoca novas despesas, gerando, portanto,
aumento do déficit público.
Ao
mesmo tempo em que as despesas correntes cresceram, os investimentos
produtivos diminuíram significativamente, sobretudo aqueles a cargo
do setor público (basicamente em infra-estrutura, saúde e educação).
Os investimentos públicos nos dez anos que vão de 1995 a
2005 caíram de 0,6 para 0,5% do PIB, depois de ter alcançado, 0,9,
1,2 e 0,8% do PIB em 2000-2002. Existem indicadores de que eles
podem estar diminuindo ainda mais na presente fase. Esse dado é
extremamente preocupante, na medida em que a falta de investimentos
públicos nessas áreas impacta negativamente as possibilidades de
crescimento nos anos à frente.
Como
poderíamos resumir, agora do ponto de vista qualitativo, o
desempenho do governo Lula, enfatizando pontos positivos e
negativos? Tentarei fazê-lo com a ajuda do quadro abaixo.
|
Balanço de um Governo: avaliação
qualitativa de três anos de administração Lula
|
|
Pontos positivos
|
Pontos Negativos
|
|
Estabilidade
macroeconômica;
|
Crescimento
lento e instável;
|
|
Moderado
aumento do custo de vida, com tendências declinantes graças
ao regime de metas de inflação;
|
Setores
ainda oligopolizados e tarifas públicas pressionam o preços
e aumentam as despesas dos consumidores;
|
|
Contas
fiscais ajustadas ou quase; tentativa (frustrada) da área
econômica de fixar um superávit primário mais elevado;
|
Diferentes
focos de pressão por novos gastos, sobretudo previdenciários
e salários do funcionalismo;
|
|
Dinamismo
exportador, saldos comerciais crescentes, a despeito da não
concretização de acordos comerciais relevantes;
|
Câmbio
excessivamente valorizado, baixo comprometimento com novos
acordos de liberalização;
|
|
Retomada
de investimentos produtivos em algumas áreas da economia;
|
Baixa
poupança e manutenção de níveis irrisórios de
investimento público;
|
|
Atração
de investimento estrangeiro em alguns setores selecionados;
|
Obstáculos
significativos à instalação de novos negócios; ambiente
burocratizado;
|
|
Tentativas
iniciais de reforma sindical e trabalhista, não levadas
adiante em virtude da própria base sindical do governo;
|
Diminuição
moderada do desemprego, aumento da informalidade e da
precariedade laboral;
|
|
Manutenção
das regras do jogo no ambiente empresarial e financeiro;
|
Temores
remanescentes inviabilizaram maiores níveis de investimento
privado;
|
|
Modernização
produtiva de algumas grandes empresas e internacionalização
de grandes e médias empresas brasileiras;
|
Burocracia
e regulacionismo excessivos para a criação e o fechamento de
empresas; ambiente negativo para os negócios;
|
|
Aumento
do gasto social, sobretudo no Bolsa Família, a partir da
unificação dos programas anteriores;
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Esquemas
assistencialistas não incidem sobre a capacitação de mão-de-obra
e não aferem condicionalidades (saúde e escola);
|
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Esforço
sincero para elevação do salário mínimo, mesmo ao custo da
previdência;
|
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