A
30 anos do golpe militar na Argentina
DO
SANGUE DERRAMADO PELOS HERÓIS
À
CARNE DESTROÇADA DAS VÍTIMAS
Operações
sobre a memória:
narrativas
sobre a violência de Estado
Eu
quero conservar para o futuro o que chamo de ‘Predicadores do
Arrependimento ’.
Do
Contra-almirante Emilio Massera, membro da primeira Junta de
Comandantes em Chefe das Forças Armadas do ‘Processo de
Reorganização Nacional’ ,
para o “Tigre” Acosta, um dos responsáveis pelo campo de
detenção e tortura que funcionava na ESMA .
A
palavra ‘operação’ remete-nos ao jargão militar. ‘Operações
sobre a memória’, traz à lembrança dos leitores os
procedimentos do ‘duplipensar’ desenvolvidos pelo ‘Grande
Irmão’ de 1984 (ORWELL,
1984). Isto é, pode predispor para a leitura de mais uma teoria
conspirativa. As conspirações, claro, existem, mas o seu sucesso
depende menos da sua eficiência operativa do que de condições
externas a ela. Como imaginar que os militares argentinos, ainda
que outrora donos da vida e da morte dos cidadãos, hoje reduzidos
à condição de mendicantes de orçamento, arquitetaram um plano
capaz de controlar a memória das gerações vindouras? A frase da
epígrafe não passa de um delírio, uma alucinação, pronunciada
na vertigem que a soberania sobre os corpos provocara na mente de
Massera. Porém, a voz do genocida reverbera no presente como um
eco assustador. Mais assustador, justamente, por fantasmagórico,
por descarnado, por falto de poder real na atualidade. E não
podemos deixar de sentir um estremecimento ao reconhecer o mandato
do assassino nas narrativas hegemônicas do presente.
A
‘guerra suja’ contra a ‘subversão’
As
condições que permitiram a afirmação dessas narrativas dos
‘Predicadores do Arrependimento’ são as mesmas que levaram ao
golpe militar de 1976. No balanço dos últimos 30 anos, podemos
dizer que os grupos de interesses que alentaram o golpe
conseguiram, pela repressão e o extermínio, vencer as resistências
que lhes impediam impor seu projeto. Na Argentina, sem aquele
banho de sangue, sem desarticular as organizações populares, não
poderiam ter criado as condições adequadas à implantação das
políticas neoliberais. No jargão dos genocidas, sem ‘operação
cirúrgica’, sem ‘extirpar a doença’ (PIGLIA, 1999), seria
impossível levar adiante as mudanças econômicas e sociais que
foram implementadas desde a gestão de Martínez de Hoz, ministro
de economia da ditadura, até hoje. Mudanças que reduziram o
parque industrial, aumentaram exponencialmente a dependência
financeira da banca internacional, destruíram a legislação
trabalhista e previdenciária e reduziram os investimentos na área
social em meio a um aumento da vulnerabilidade social como conseqüência
da alta do desemprego. Esses interesses foram o subsolo profundo
em que a ditadura se enraizou. Não foi, porém, o governo militar
que conseguiu aplicar o grosso dessas mudanças: elas se impuseram
durante o governo de Carlos Saul Menem. Mas a violência da
repressão, que desarticulou o movimento social, foi a que
preparou o terreno para a implantação dessas medidas.
“O
sangue derramado/não será negociado”
Logo
após o golpe, as organizações populares constituíram sua
narrativa sobre a repressão como uma épica rica em heróis que
enfrentam aos traidores do povo. Essa narrativa tinha como
antecedente o relato da ‘Resistência Peronista’,
construído, entre outros textos, pelas sucessivas reescritas de Operación
Masacre, de Rodolfo Walsh (2000). Esta obra foi editada por
primeira vez em 1957, recolhendo testemunhos de sobreviventes de
fuzilamentos ilegais, mas, nas sucessivas reedições, tendeu para
o relato épico, acompanhando o crescimento do movimento que
passou da denúncia à ação política. A palavra de ordem era:
“O sangue derramado/ não será negociado”.
A
desagregação do movimento de massas durante a ditadura rompeu a
continuidade dessa narrativa. É impensável uma épica sem
“povo”. O herói épico, mesmo o herói coletivo, é aquele
que encarna os valores do seu povo. Quando ele enfrenta a violência
o faz em nome da comunidade à qual pertence, dos seus projetos.
Se os primeiros militantes que caíam golpeados pela repressão
encontravam nesse acontecimento um sentido dentro do grande relato
da luta pela emancipação, com a desagregação dos movimentos e
a derrota dos projetos emancipatórios perdeu-se também o sentido
para esses acontecimentos, que já não podiam ser colocados
dentro de um relato maior. A redução da organização popular e
a conseguinte derrota dos seus projetos reduziu também a
capacidade de produzir contra-relatos, retornado, assim, apenas à
produção de rumores de circulação oral na Argentina ou de denúncias
apoiadas em testemunhos individuais e relatos fragmentados no exílio.
A
‘teoria dos dois demônios’
Quando
o trabalho sujo já estava realizado e os militares voltaram para
os quartéis, foram os mesmos interesses que continuaram dominando
o cenário, ainda que utilizando outros gerentes. Se a ‘guerra
suja’ contra a ‘subversão’ foi a narrativa usada para
justificar a ruptura com a continuidade legal em 1976, o retorno
ao jogo eleitoral em 1984, exigia um novo relato hegemônico. O
Estado produziu, então, a ‘teoria dos dois demônios’. Essa
narrativa não negava completamente à da ‘guerra suja’,
segundo a qual as Forças Armadas se levantaram contra o ‘mal’
encarnado na ‘subversão’. A ‘teoria dos dois demônios’
caracterizava, porém, a ditadura como outro ‘mal’ de sentido
contrário ao da ‘subversão’.
Esse
novo relato também era difícil de sustentar, apesar do grande
debilitamento das organizações populares. Uma das mais
importantes operações sobre a memória para sustentar o novo
relato foi a convocação de uma ‘comissão de notáveis’ pelo
governo Alfonsín, primeiro presidente eleito depois da ditadura.
Essa comissão, a CONADEP,
tinha como tarefa a investigação da desaparição forçada
durante a ditadura. Abriu-se um período de denúncias de
familiares de vítimas e sobreviventes da repressão para a produção
de um documento que serviria depois como base para inculpar os
responsáveis. A investigação resultou na publicação de um
relatório: o Nunca Más
(CONADEP, 1984).
Nele,
a seleção e organização dos dados classifica as ocorrências
segundo o modus operandi
repressivo ou bem utiliza parâmetros como idade, sexo e profissão
das vítimas. Recorta os depoimentos escolhendo exemplos
ilustrativos entre os trechos que cobriam a classificação e se
limitavam à descrição das formas que havia adquirido a repressão.
A
redação final intenta articular os dados com o relato hegemônico
por meio de um prólogo, apresentando as vítimas como ‘perejiles’
atingidos no ‘fogo cruzado’ entre os “terroristas” de
esquerda e de direita. Se essa articulação é defeituosa ou não
de todo eficaz, deve-se à dificuldade de explicar aonde foram
parar os “terroristas de esquerda”. Foram também vítimas,
ainda que uma minoria perdida no meio do número estarrecedor de
desaparecidos? Não fica claro no relato. O que resulta
surpreendente no contexto do esforço quantificador, estatístico,
plasmado em tabelas e gráficos. Não há qualquer tentativa de
provar as afirmações do prólogo a propósito do grau de
compromisso político das vítimas.
O
Nunca Más circulou
apenas na sua versão final e a grande massa de testemunhos
permaneceu arquivada. O relatório foi publicado em fascículos,
entregados junto com o jornal Página/12
em 1984, quase simultaneamente com a sua edição na forma de
livro.
A
exposição da carne destroçada
Na
mesma época da publicação do relatório da CONADEP, houve uma
proliferação de reportagens televisivas paralelas à televisação
do julgamento dos membros das juntas militares. Essas reportagens
eram produzidas num registro sensacionalista, focalizando os
detalhes da humilhação, tortura e morte nos centros de detenção.
Longe de estimular a reflexão, davam alimento à curiosidade
morbosa.
Da
mesma maneira, a produção cinematográfica da época tendia a
esse tom
ou bem apontava para narrar o caráter secreto da repressão.
O efeito, nos dois casos, era de justificação da adoção de uma
atitude passiva perante a violência de Estado, por medo ou
simples desconhecimento. O terrorismo de Estado, porém, nunca
agiu em secreto. Alguns dos seus modus
operandi eram o aparecimento, em subúrbios populosos, de
caminhões frigoríficos com as portas escancaradas e corpos
humanos dependurados dos ganchos; ou a colocação de explosivos
embaixo de um monte de cadáveres durante a madrugada na via pública
(SIRKIS, 1982). A publicidade dos atos terroristas é uma condição
para a finalidade buscada pelo terror. O Estado terrorista não se
auto-incrimina, mas precisa agir (ilegalmente) à luz do dia.
Esse
conjunto de operações simultâneas não foi coordenado por um
‘centro conspirativo’, mas respondiam
a uma necessidade de reacomodamento narrativo que se impunha aos
diferentes setores de poder. O Estado, a igreja católica (que não
ficou alheia à cisão entre cúmplices e vítimas da repressão
que permeou a sociedade durante a ditadura), a imprensa escrita e
a televisão, que cobrou grande importância a partir dos anos da
ditadura na construção das narrativas hegemônicas (GRIMSON e
VARELA, 2002).
Os
novos testemunhos
As
organizações de familiares das vítimas e os sobreviventes
demoraram a contestar essas narrativas. Os sobreviventes,
militantes ou ex-militantes, porque debilitados pela derrota dos
seus projetos, pelas seqüelas da repressão sobre seus corpos e
suas mentes e pelas suspeitas que pairavam sobre eles, justamente,
por terem sobrevivido. Os familiares das vítimas, porque haviam
construído o seu relato público e suas denúncias legais durante
a
ditadura sobre a alusão de ‘inocência’ e falta de vínculos
com qualquer organização política dos seus parentes, para
contornar as leis repressivas e driblar a violência sobre os
seres queridos e sobre si mesmos.
A
primeira organização a contestar esse novo relato oficial foi a
das Madres de Plaza de Mayo,
no contexto das leis de ‘obediência devida’
e de ‘ponto final’.
Posteriormente, somou-se à voz das mães a da organização H.I.J.O.S.,
formada por filhos de desaparecidos no contexto do indulto aos
membros das juntas militares, únicos que estavam cumprindo pena
pela repressão, pelo governo do presidente Carlos Saul Menem, que
sucedeu a Raúl Alfonsín.
Algumas
editoras
começaram a publicar relatos testemunhais
e investigações
não apenas sobre o período de repressão, mas sobre os anos
precedentes, de militância, organização popular e luta política.
Surgiu também uma filmografia de testemunho tratando desses anos.
Se
o Nunca Más construiu
os sentidos do seu relato a partir de testemunhos limitados à
ocorrência de seqüestro, tortura, morte e desaparição; esse
conjunto de obras de caráter testemunhal (sejam elas baseadas em
testemunhos diretos ou indiretos – pela intermediação de um
jornalista ou investigador) visa a construção de uma nova visão
sobre desaparecidos e sobreviventes não apenas como objetos da
violência de Estado, mas como sujeitos produtores de projetos
emancipatórios e ação política. Apresentando-os desse jeito, a
violência sobre os seus corpos se inscreve na história como violência
preventiva exercida pelos setores que viam nesses projetos e nessa
ação uma ameaça aos seus interesses.
Um
dos efeitos da violência é a impossibilidade de viver a sua
experiência (BENJAMIN, 1975). Experiência não é apenas o fato
pelo que passamos, mas alguma coisa que nos acontece (LARROSA,
2001). A violência tende assim a nos reduzir a objetos, incapazes
de refletir sobre a nossa própria vida. O acontecimento traumático
é desbordante e contamina a capacidade de reflexão não apenas
sobre a violência que nos afetou, mas também sobre os
acontecimentos anteriores e posteriores ao fato traumático (SELIGMANN-SILVA,
2001). O esforço de testemunhar visa, mesmo quando não consegue,
comunicar a Outros os fatos vividos, no intuito de convocar nesses
Outros (ouvintes ou leitores solidários) o gesto que complete o
esforço do sujeito debilitado, reduzido. O testemunho, portanto,
só se completa se encontrar esses Outros ativos o suficiente para
ajudar a inserir o acontecimento traumático dentro de uma história.
A
desqualificação do testemunho
No
momento em que aparecem relatos testemunhais que tratam de colocar
a violência dentro de uma narrativa do conflito, surgem vozes
preocupadas em desautorizá-los como fonte da historiografia.
Refiro-me, especificamente, ao recente livro de Beatriz Sarlo: Tiempo
Pasado (2005). Nele, a autora reconhece o valor de verdade do
testemunho no que se refere estritamente à condição de vítima
da testemunha, e sobre todo pela ausência de fontes documentais
(destruídas ou ocultadas pelos repressores). O argumento em que
funda esse reconhecimento é o moral. Mas desqualifica o valor de
verdade do testemunho quando ele se refere a outros
acontecimentos. Neste caso, a autora argumenta longamente sobre o
efeito do presente sobre a re-construção da memória, num
investimento intelectual no qual Beatriz Sarlo discute com Walter
Benjamin, interlocutor presente, mesmo quando não citado, no
longo de todo o texto.
Foge
ao escopo deste artigo a discussão sobre o valor de verdade do
testemunho como fonte para a historiografia. A própria questão,
assim colocada, já supõe de antemão um estatuto que coloca a
historiografia num lugar hierarquicamente precedente ao
testemunho, ainda que se trate de narrativas de natureza bastante
diferente e cuja comparação exige um grande esforço teórico.
Em troca, interessa a este trabalho pensar nas motivações que
estão por trás da valorização do testemunho num contexto e a
sua desqualificação em outro pela mesma autora. Beatriz Sarlo
faz pesar, no conflito das narrativas sobre o país, toda a sua
autoridade acadêmica e intelectual.
Considerando a seqüência de produção da autora, podemos
reconhecer uma continuidade entre La Pasión
y Excepción (2003)
e Tiempo Pasado. Ambos
apontam para a desqualificação da militância dos anos ’70 e
essa posição da autora é anterior ao encadeamento argumentativo
contra os procedimentos testemunhais sobre esses anos.
Escolhe,
para exemplificar, duas obras escritas por sobreviventes vítimas
do terrorismo de Estado que construíram os seus relatos usando
procedimentos consagrados pela academia: um estudo sobre o rumor
carcerário (ÍPOLA, 2005) e outro sobre a sistemática do
tratamento dos seqüestrados na ESMA (CALVEIRO, 1998). Autores
desconfiados do próprio testemunho, Beatriz Sarlo os apresenta
como exemplos modelares, a
priori mais valiosos do que outros relatos.
Aceita-se
o testemunho na medida em que ele é relato fragmentário. Porém,
o que está em jogo nessa desqualifição do testemunho é a
participação da autora no conflito por narrar o país. Numa ação
que pretende evitar que esses testemunhos de militantes e
ex-militantes que vêm proliferando confluam na retomada de uma épica
que estabeleça uma continuidade programática entre as lutas do
passado e as atuais.
A
luta política é também uma batalha por impor uma narrativa
sobre o passado, sobre o presente e também sobre o tempo por vir,
uma vez que é uma batalha para impor projetos (todo projeto é
uma “narrativa” sobre o tempo que virá). Essa luta está
sendo travada agora mesmo, no presente.
“[...]
se o inimigo
vencer, nem mesmo os mortos estarão a salvo dele. E esse
inimigo ainda não parou de vencer.”
(BENJAMIN, 1991: p.156)
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