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Por
ALEXANDER MARTINS VIANNA
Doutorando em História
Social do PPGHIS-UFRJ.
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O
Historiador frente ao choque de Estruturalismos
Em
1993, estando no Brasil, em palestra no CPDOC da Fundação Getúlio
Vargas, Roger Chartier fizera um balanço bem menos céptico a
respeito da “tournant
critique” no campo disciplinar e de pesquisa em História. Ele
lembrou que, se a História Social na França representou uma
ruptura com a forma da “velha história política”, depois foi a
própria vez de a História Social sentir a sua crise epistemológica.
Ao final, quando observa experiências como aquela da “micro-história”,
ele chega a uma conclusão semelhante à minha percepção do fenômeno:
trata-se de uma nova forma de História Social. Antes de se entender
esta nova forma, seria interessante perceber o que de novidade a
História Social representou epistemologicamente em relação à
“velha história política”. O modelo geral de fazer historiográfico
que predominou entre os historiadores entre as décadas de 1950 e
1960 tinha duas grandes exigências:
(1)
Implicitamente ou não, aplicava-se o paradigma estruturalista em
sociedades antigas ou contemporâneas, o que significava identificar
as estruturas e as relações que – independentemente das percepções
e das intenções dos indivíduos – comandavam os mecanismos econômicos,
organizavam as relações sociais, engendravam as formas do
discurso. No final das contas, isso implicava numa radical separação
entre “o objeto do conhecimento histórico” e a “consciência
subjetiva do indivíduo”.
(2)
Submeter a história aos procedimentos da quantificação e
serialização de dados, de modo que, através de procedimentos
estatísticos, se pudesse formular as relações estruturais, que
seriam o objeto, por excelência, da história. Com tais
procedimentos, a disciplina afastava-se de uma simples cartografia
das particularidades ou de um simples inventário de casos ou fatos
singulares. (CHARTIER, 1994: 101)
Deste
modo, a história seguia aquilo que foi a ambição da sociologia,
principalmente em sua versão durkheimiana: identificar estruturas e
regularidades, formular relações gerais. Ao se pretender identificar
sistemas de relações que organizariam o mundo social, caiu-se numa
ingênua idéia de “realidade” quando se considerou tais relações
tão “reais” quanto os dados materiais, físicos, corporais
percebidos na experiência sensível. Tal ingenuidade fazia esquecer
de um dado fundamental lembrado por Marc Bloch e Lucien Fébvre na década
de 1930, quando trouxeram para a história o debate sobre a
relatividade na física, qual seja: aquilo que chamamos de
“fato” é algo feito no próprio momento em que, conscientemente
ou não, levantamos questões ou hipóteses interpretativas sobre a
matéria do mundo.
Reconhecer
isso não significa cair num céptico anti-realismo, numa espécie
de “vale tudo” epistemológico, mas tão somente reconhecer que
nossa relação com o mundo não é imediata, que há sempre uma forma
no conhecer que medeia nossa relação com o mundo e que, portanto,
há uma espécie de “abismo no conhecer” que nos livra de
qualquer pretensão metafísica de fixar um horizonte último para o
ato de saber e agir no mundo. No fundo, o grande não-dito de muitas
posturas cépticas contemporâneas (acadêmicas ou políticas) é
uma pretensão frustrada de se colocar “de um único lance à
testa da origem das coisas”. De modo alternativo, penso que a
incerteza deveria conduzir a um desejo de agir, sem se pretender que
se possa ter uma “verdadeira experiência” possuída “até o
fundo da matéria do mundo”. Assim, poder-se-ia chegar a um relativismo
diatópico nas ciências sociais, em vez da indiferença, da
insulação discursiva ou da tendência de transformar a linguagem
num novo ente metafísico. (VIANNA,
2004)
Sobre
este último ponto, o caso dos EUA é emblemático: seguindo a
ortodoxia saussureana, a “linguistic
turn” tomou a linguagem como um sistema fechado de signos,
cujas relações produziriam por si mesmas os significados.
Oportunamente, John Toews criticou esta posição radical em que a
linguagem é concebida como um sistema autocontido de signos, cujos
significados seriam determinados por suas relações uns com os
outros, mais do que com a relação com algum objeto extralingüístico.
Segundo Toews, tal perspectiva acaba por conceber o sentido como uma
criação impessoal, operando à revelia da vontade dos usuários da
linguagem, transformando-os, deste modo, em meros canais expressivos
exemplificadores das regras e procedimentos das linguagens. (TOEWS,
1987) Por este viés, a construção de sentido é separada de
qualquer intenção ou controle subjetivos, sendo atribuído à
linguagem um funcionamento automático e impessoal. No final das
contas, substitui-se o estruturalismo das “formas sociais” pelo
estruturalismo das “formas lingüísticas” nesse processo de crítica
à idéia de realidade como algo externo ao discurso.
É
irônico observar que, com esta forma mais radical de estruturalismo
lingüístico criticada por Toews, houve uma radical inversão da
forma sociológica de estruturalismo: nesta última, a linguagem era
tratada como um mero canal expressivo das regras e relações
sociais, enquanto naquela as relações sociais ou as experiências
sociais foram reduzidas a meros canais expressivos das regras da
linguagem. Enfim, os extremos se tocaram, pois esvaziaram o papel
das escolhas, das variações, do que foge ao roteiro; transformaram
as “estruturas” (sociais ou lingüísticas) em entes
independentes das percepções e intenções dos indivíduos. Ora,
se seguirmos o plano de crítica de Toews, poderemos notar que a
experiência social apenas imperfeitamente pode ser reduzida a
formas lingüísticas, do mesmo modo que não há como identificar
uma “substância fundadora” para o fato de que a linguagem é um
fenômeno intrinsecamente associado à experiência social.
(CASSIRER, 1994: 118-179)
No
entanto, acredito que a chave para se escapar dessa aparente
“sinuca epistemológica” esteja no próprio sentimento
de incompletude (o desejo
insaciável de uma substância ausente) que caracteriza a condição
humana. Tal sentimento, cheio de pretensões metafísicas de
completude, é a prova evidente de que há algo (res)
que resiste às “reduções” da linguagem, que tal “coisa”
existe no e para
além do pensamento (intellectus),
sem que isso signifique cair num realismo ingênuo ou na crença
numa espécie de “ente sobredeterminante” que esvazie o papel
das escolhas, variações e improvisações humanas. Para tanto,
devemos considerar: (1) que o agir e o explicar implicam em
reconhecer que o pensamento confere forma
à experiência; (2) que o mundo das experiências humanas é res et intellectus; (3)
que, não sendo possível conceber o humano fora do mundo social, o intellectus
é formador e formado da matéria do mundo; (4) que, diferentemente
do ceticismo cartesiano ou do paradigma liberal de interioridade, não
há “dentro” e “fora”, “casca” e “cerne”, para o
humano. (VIANNA, 2005) Aliás, como lembrava Italo Calvino
(1923-1985), é justamente o fato de termos consciência de nossa
incompletude que nos leva a um impulso criativo, ao desejo
auto-edificador de ser num
mundo:
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“Voi
potete obiettare che preferite i libri che convogliano una
vera esperienza, posseduta fino in fondo. Ebbene, anch’io.
Ma nella mia esperienza la spinta a scrivere è sempre
legata alla macanza di qualcosa che si vorrebbe conoscere e
possedere, qualcosa che ci sfugge. E siccome conosco bene
questo tipo di spinta, mi sembra di poterla riconoscere
anche nei grandi scrittori le cui voce sembrano giuncerci
dalla cima di un’esperienza assoluta. Quello che essi ci trasmettono è il senso dell’approccio all’esperienza,
più che il senso dell’esperienza raggiunta; il loro
segreto è il saper conservare intatta la forza del
desiderio...” (CALVINO, Italo. Sotto il Sole
Giaguaro. Milano: Mondadori, 1995. p.vii)
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“Vocês
podem objetar dizendo que preferem os livros que se centram
numa verdadeira experiência, possuída completamente. Bem,
eu também. No entanto, em minha experiência, o impulso de
escrever está sempre relacionado à falta de alguma coisa
que se gostaria de conhecer e possuir, alguma coisa que nos
escapa. E como conheço bem este tipo de impulso, parece-me
possível reconhecê-lo mesmo nos grandes escritores, cujas
vozes parecem chegar até nós como se fossem a culminância
de uma experiência absoluta. Aquilo que eles nos transmitem
é o significado da aproximação à experiência, mais do
que o significado da experiência obtida. O segredo deles é
saber conservar intacta a força do desejo...”
(CALVINO, Italo. Sotto il Sole Giaguaro. Milano:
Mondadori, 1995. p.vii)
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Todas
essas ilações foram levantadas para se demonstrar que os efeitos
da “linguistic turn” nas ciências sociais não são absolutamente
originais. Para os historiadores, a consciência de que seu trabalho
analítico reduz imperfeitamente a discurso
a experiência histórica apenas torna mais complexo o seu fazer,
uma vez que o obriga a ser auto-reflexivo durante a sua pesquisa, a
saber que ele cria seu objeto no ato que considera que o experimenta
e, fundamentalmente, que isso não o leva a negar qualquer princípio
de realidade – a menos que transformemos a própria linguagem numa
espécie de cogito
cartesiano, imaginando-a como uma estrutura radicalmente autônoma
em relação à matéria do mundo. Nesse sentido, desde o advento da
teoria da relatividade, a noção de objetividade no fazer científico
se transformou: se há um mundo-limite para a consciência do
sujeito, não se pode mais ignorar que nos debruçamos sobre ele de
uma determinada forma, e
que tal forma se
transforma justamente porque é incompleta ou imperfeita, porque há
sempre um abismo para o pensamento no mundo das experiências.
Chartier
se inclui na tendência dos historiadores que, tal como Toews,
consideram ilegítima a redução das práticas constitutivas do
mundo social aos princípios que comandam os discursos.
Nesse sentido, se se deve reconhecer que as realidades passadas são
predominantemente acessíveis a nós através de textos que as
moldaram às percepções que delas se tinham, isso não
significaria postular a identidade de duas lógicas, quais sejam: a
lógica letrada, logocêntrica e hermenêutica que governa a produção
dos discursos; a lógica prática que regula as condutas e ações.
Isso porque:
“...toda
história deve levar em conta a irredutibilidade da experiência ao
discurso, prevenindo-se contra o emprego descontrolado da categoria
‘texto’, com muita
freqüência indevidamente aplicada a práticas (ordinárias e
ritualizadas) cujas táticas e procedimentos não são em nada
semelhantes às estratégias discursivas. Manter a distinção entre
umas e outras é o único meio de evitar ‘dar
ao princípio da prática dos agentes a teoria que se deve construir
para explicar sua razão’, segundo a fórmula de Pierre
Bourdieu. Por outro lado, deve-se constatar que toda construção de
interesse pelos discursos é ela própria socialmente determinada,
[pois é] limitada pelos recursos desiguais (de linguagem,
conceitos, materiais etc) de que dispõem aqueles que a produzem.
Essa construção discursiva remete, portanto, necessariamente às
posições e às propriedades sociais objetivas (exteriores ao
discurso) que caracterizam os diferentes grupos, comunidades ou
classes que constituem o mundo social...”. (CHARTIER, 1994:
105-106)
Desde
a virada para a década de 1980, muitos historiadores mostraram-se
sensíveis à crítica ao estruturalismo desenvolvida pelas novas
abordagens antropológicas e sociológicas da década de 1970. Um de
seus efeitos foi justamente restaurar o papel dos indivíduos na
construção dos laços sociais, em vez de tratá-los como meros
objetos que sofrem a ação das todo-poderosas estruturas sociais.
Considerando isso, Chartier identifica alguns deslocamentos
fundamentais de abordagem no campo do historiador: (1) das
estruturas para as redes; (2) dos sistemas de posições para as
situações vividas; (3) das normas coletivas para as estratégias
singulares. A “micro-história” seria, nesse sentido, a tradução
mais viva dessa transformação de abordagem, que passou a dialogar
mais com modelos interacionistas ou etno-metodológicos, de modo a
construir, a partir de uma situação particular, a maneira como as
pessoas produzem o mundo social. Daí a ênfase na análise de suas
formas de alianças e confrontos, através das dependências que as
ligam ou dos conflitos que as opõem. Portanto, os objetos da história
não seriam mais as estruturas e os mecanismos que regulam – fora
de qualquer controle subjetivo – as relações sociais, mas sim as
racionalidades e as estratégias acionadas pelas comunidades,
parentelas, famílias, indivíduos. (CHARTIER, 1994: 102)
Assim,
em vez de se tratar os “sistemas sociais” como “entes
externos” a constrangerem a ação dos indivíduos, o olhar do
historiador se volta para as aplicações inventivas das regras,
considerando os recursos próprios de cada ator social: seu poder
social, seu poder econômico, seu acesso à informação. Em certo
sentido, é correto afirmar que esta nova forma de História Social
está atenta às performances,
trazendo-se para a análise social uma metáfora cara ao mundo
teatral. Isso é bastante evidente, por exemplo, na compreensão de
Giovanni Levi (1992) de que nenhum sistema normativo é
suficientemente estruturado para eliminar toda possibilidade de
escolha consciente dos indivíduos. Por isso, aos seus olhos, a
biografia constitui um lugar ideal para se verificar o caráter
intersticial da liberdade de que as pessoas dispõem em meio aos
sistemas normativos, devendo-se, portanto, entender que os sistemas
de posições grupais não anulavam a capacidade criativa (ou de improvisação)
de pessoas ou famílias. (LEVI, 2000) Isso explica um interesse não
no que é necessariamente regular ou recorrente – i.e., previsível
segundo as normas/valores existentes e passível de serialização
estatística –, mas sim nas “variações antropológicas”, a
partir dos métodos indutivos de análise social de Fredrik Barth.
A
partir de seus artigos e leituras reunidos em “Process
and Form in Social Life”, Barth pretendia extrair alguns
posicionamentos analíticos e entendimentos mais gerais que pudessem
contribuir com novos desafios para o aperfeiçoamento de seu campo
de pesquisa, ou seja, a Antropologia Social, querendo escapar da órbita
conceptual funcionalista e estruturalista então hegemônica. Por
isso, falava em 1979 da importância de construir inferências analíticas
próximas aos fragmentos de dados da vida das pessoas, evitando-se
fazer com que a necessária redução da experiência social aos
conceitos analíticos do antropólogo tivesse o efeito tão somente
de confirmar um quadro geral de teorias sociais previamente dado.
Assim, indutivamente, pretendia fazer com que a pesquisa de campo
servisse como uma possibilidade real de (re)construção permanente
de categorias analíticas que efetivamente se aproximassem da
realidade observada. Por isso mesmo, Fredrik Barth jamais se
preocupou em chegar a uma teoria completa e unificada de cultura
e/ou sociedade, mas sim oferecer uma metodologia de pesquisa eficaz
em explorar os efeitos sociais agregados das estratégias
individuais de escolha dos atores sociais. Para tanto, o antropólogo
não deveria ter vergonha de buscar vocabulários analíticos de
outras disciplinas e remoldá-los consoantes às suas específicas
necessidades de pesquisa. (BARTH, 1981: 1-4)
Desde
a década de 1950, quando iniciou seus trabalhos, Barth sentia um
incômodo com aquilo que pensava ser uma antropologia muito afastada
dos aspectos fundamentais da vida das pessoas, percebendo então a
necessidade de reconhecer o lugar do indivíduo e da descontinuidade
entre os diversos interesses e os vários níveis de coletividade.
Assim, nos anos subseqüentes, centrou seus trabalhos no
desenvolvimento de uma perspectiva analítica focada no ator subjetivo e suas escolhas. Isso significava cultivar uma
atenção especial a respeito das considerações de valor e
utilidade manifestas no comportamento individual das pessoas. No
entanto, isso deveria ser desenvolvido fora de qualquer pressuposto
estruturalista-funcionalista, pois a ação social não seria apenas
“causada”, mas também “intencionada”, já que é o tipo de
relação que os atores sociais mantêm entre si em determinada
circunstância que faz as coisas acontecerem, num misto de
pragmatismo e conformidade a determinados valores. Daí a atenção
de Barth em relação àquilo que demonstrava variação
comportamental, não sendo pensada tal variação como “desvio”
(como seria para o “sistema social” parsoniano); da mesma forma
que reconhecia que a maioria dos fenômenos sociais pelos quais se
interessava tinha relação com o tipo de atuação em que os indivíduos
demonstravam consciência de propósito. (BARTH, 2000: 141-165)
Como
conseqüência lógica disso, seguindo método indutivo, Barth
desenvolveu particular interesse em entender os fatores que
interferiam nas variações comportamentais e nas escolhas
conformadas por propósitos conscientes, assim como entender aqueles
fatores que impulsionavam ou constrangiam os atores sociais e, deste
modo, conformavam
seu comportamento e suas vidas em determinada circunstância. Para
entender a variação de escolhas e performances,
foram importantes no desenvolvimento do corpo teórico-analítico de
Barth os estudos sobre as várias formas de configurar pertencimento (ou definir valor/utilidade para o mesmo), que para o
autor se manifesta de modo particularmente eloqüente nos casos de
fronteiras étnicas. São estes estudos que consolidaram o seu corpo
teórico-metodológico em exato contraponto às seduções dedutivas
dos trabalhos estruturalistas.
A
atenção de Barth centrada nas considerações
de valor e utilidade manifestas no comportamento dos indivíduos
apontava para a necessidade de se perceber a sua posição
ou status
na rede social em que está
momentaneamente inserido.
Em larga medida, o método indutivo de análise desenvolvido por
Barth permite justamente perceber em que medida um indivíduo faz
escolhas estratégicas, a partir dos recursos (materiais e
imateriais) que dispõe, para ratificar ou elevar a sua posição
pessoal e/ou de seu grupo de pertencimento numa circunstância específica
que venha testar a validade de manter ou não determinado
comportamento. Assim, Barth foi constituindo um vocabulário analítico
próprio que pudesse dar conta das circunstâncias e conseqüências
dos diferentes aspectos da intencionalidade, interesse e
racionalidade dos indivíduos, percebendo estes como unidades
posicionais flexíveis numa determinada rede ou organização social,
o que é bastante distinto do tipo de análise estruturalista que
pensa que a ‘estrutura’ determina o comportamento ou o
acontecimento. O tipo de análise social desenvolvido por Barth
pressupõe uma margem maior de descontinuidade entre performance
(em que se associam recursos, status,
escolhas estratégicas e interesses numa rede social) e aquilo que
era concebido como ‘estrutura social’.
Ora,
isso significa que, se há precondições para valores, conhecimento
e codificações, a própria ação
social, na circunstância em que se dá (portanto, como performance), pode alterar tais precondições. Nesse sentido,
podemos perceber que Barth desenvolve uma compreensão dialética da
relação entre regra, valores, conhecimento e atos humanos
particulares, deixando claro que a realidade social não está
pronta, sendo um fazer-se permanente em cada ato social. Daí, como ele próprio
afirma, a maioria de suas perspectivas analíticas até finais da década
de 1970 estava especialmente focada nas “estratégias de
instrumentalidade” dos atores e no “agregado social de conseqüências”
de tais estratégias. A percepção das descontinuidades entre a ação
social de indivíduos (ou grupos) e os seus efeitos agregados, que
conformam uma determinada organização social ou forma
social, é o ‘rés-do-chão’ epistemológico que fizera os
“micro-historiadores” italianos, ao longo das décadas de 1980 e
1990, criar uma nova modalidade de História Social.
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