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Por PEDRO PAULO A. FUNARI
Professor
Titular do Departamento de História, IFCH/Unicamp,
Coordenador-Associado do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/Unicamp). |
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Os
compromissos sociais da universidade
Quais
seriam os compromissos sociais da Universidade? Isto depende da
sociedade em que ela atua. Em que sociedade se insere a Universidade
brasileira? Uma sociedade dominada, secularmente, pelo compadrio,
pela servidão e pela opressão social. Por quatro séculos,
convivemos com a escravização da maioria dos habitantes, enquanto
uma elite aristocrática formava uma crosta social muito bem tecida,
de cunho patriarcal. Nos últimos 120 anos, a modernização econômica
vertiginosa deu-se neste contexto, perpetuando tanto o
patriarcalismo aristocrático, agora encorpado pelos detentores do
capital industrial e financeiro, como a exploração das imensas
maiorias, libertadas da escravidão jurídica para a miséria
absoluta ou relativa de massa. Mais da metade da população
brasileira está fora do mercado de consumo que transcenda o minimum
minimorum da subsistência.
Quais,
então, os compromissos sociais da Universidade? A ciência moderna
surge como contestação, como busca de verdades que transcendessem
os ditames impostos pelos dogmas. Ciência é contestação,
pensamento crítico, reflexão. Em qualquer área de conhecimento, a
dedicação à ciência é, por si só, revolucionária, uma força
social em ebulição. Como?
Ora,
a universidade não se pode isolar da sociedade e, em nosso meio,
ela reflete as suas aporias e contradições. Em uma sociedade pouco
atenta ao mérito e à liberdade de pensamento e de ação, a
universidade não poderia deixar de refletir, em maior ou menor
grau, essas características. A luta pelos critérios de mérito intra
muros reflete uma batalha mais ampla, a contestação de
“coronéis” e latifundiários não se restringe àqueles do
distante sertão, mas àqueles que assim se comportam em nossa
universidade. Essa luta interna não se trava senão com o
conhecimento, para que os professores sejam docentes daquilo que
pesquisam, que suas pesquisas sejam publicadas, que os alunos sejam
avaliados por sua produção intelectual. Este o primeiro e grande
compromisso social daqueles que atuam na Universidade, de tal forma
que seu micro-cosmo reflita a luta pela justiça social almejada
para a sociedade como um todo. Em seguida, decorrem os muitos outros
compromissos sociais. A pesquisa deve servir para libertar, não
sujeitar, produzir cidadãos críticos, não técnicos a serviço da
exclusão social. O aumento da riqueza social depende dos universitários,
assim como a luta contra a exploração e pela emancipação das
maiorias excluídas. Neste sentido, são muitas as desigualdades e
iniqüidades que se encontram no horizonte dos compromissos da
Universidade.
Há
alguns anos, tem havido uma postura, no interior da própria
Universidade e nos órgãos oficiais, por parte de alguns, de
defender, no contexto acima desenhado, a vocação elitista da
Universidade. Haveria dois Brasis, o Brasil um de uns vinte e poucos
milhões de pessoas, com alta renda, ávidas por tecnologia de ponta
e dispostas a pagar por isso. Caberia à Universidade formar bons médicos,
dentistas, arquitetos e engenheiros, para deleite dessa elite. O
Brasil dois, fora do mercado, prescindiria disso tudo. Aceitar tal lógica
é condenar-nos à extinção como nação e inviabilizar, a médio
prazo, a própria universidade brasileira. O compromisso social
implica em lutar pela diminuição das desigualdades, pela extensão
do acesso ao ensino, em todos os níveis, pelas melhores condições
de ensino na própria Universidade. Os universitários, alunos e
professores, podemos agir, quotidianamente, para transformar a
sociedade, seja de forma participativa, atuando junto à comunidade,
seja pela crítica aos mecanismos sociais que permitem a perpetuação
dessas desigualdades. O grande compromisso social, em última instância,
consiste em incorporar os excluídos ou discriminados, majoritários
ou minoritários, pobres, negros, mestiços, indígenas, em uma
palavra, comprometermo-nos com a justiça.
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