por FRANCISCO SILVA CAVALCANTE JÚNIOR

Psicólogo, Mestre em Educação Especial e Ph.D. em Leitura e Escrita pela University of New Hampshire (EUA). Professor titular dos cursos de graduação e mestrado em Psicologia da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Coordenador da Rede Lusófona de Estudos da Felicidade (RELUS) e, em parceria com a Profa. Dra. Virginia Moreira, do Laboratório de Psico(pato)logia Crítica-Cultural.

 

 

É possível ser feliz na Universidade?

 

“A arte mais importante do mestre é a de fazer brotar a alegria no estudo e no conhecimento.” [Albert Einstein]

 

Fui instigado para a redação deste artigo, ao compartilhar das ponderações de Raymundo de Lima [1] e Antonio Ozaí da Silva [2], publicadas em edições anteriores desta revista. Tenho acompanhando, não sem espanto, um processo de normose que, há alguns anos, vêm abrigando-se na universidade brasileira; uma forma de patologia que se pretende, forçosamente, habitual (WEIL; LELOUP; CREMA, 2003). E, justamente, por não me ver como um sapo escaldado, daqueles que são colocados na panela com água fria, e não se apercebendo do fogo aceso, acabam por serem cozidos em calor manso, prefiro, antes, ser o outro que, jogado na água quente, atenta-se, age, e ainda avisa: amigos sapos, essa panela está em brasa! E com essa motivação, tal é o meu singelo alerta, que partilho entre os colegas docentes e eventuais interessados na universidade brasileira: cuidado, ela está entrando em ebulição!

Conseqüentemente, meus parágrafos são de esperança, e valem-se para ratificar um sentimento, evidente no coração de muitos (LIMA, 2002; SILVA, 2006), de que o prenúncio na finitude do sapo é passível de reversão, se compreendermos que a autonomia da Universidade brasileira é um valor imperativo de ser mantido. Virtude esta que nos faz agentes e autores da nossa própria história (CAVALCANTE JR., 2003) e cuja expressão brota do “eu” mais verdadeiro, sendo, portanto, manifestações autênticas. Uma pedagogia da autonomia, lembrou-nos Paulo Freire (1996:107), “tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade.” E falar, aqui, de autonomia e liberdade, implica, também, considerarmos os ritmos próprios de cada ser humano, seus conceitos  de tempo na ancestralidade indígena (DIAS; GAMBINI, 1999) e tudo mais que, da cultura brasileira, está sendo burocraticamente desrespeitado. Estamos, afinal, seguindo um modelo que nunca foi brasileiro. Somos nós e os nossos valores intrínsecos, que estão sendo desidratados no caldeirão pós-moderno orientado por valores extrínsecos e materialistas.

Sou testemunha de publicações que nos alertam para a perversidade que forja uma nova ideologia universitária no Brasil, como aponta-nos, por exemplo, a excelente coletânea organizada pelos professores Lucídio Bianchetti  e Ana Maria Netto Machado (BIANCHETTI; MACHADO, 2002). Eu mesmo já abordei esta temática em trabalho anterior (CAVALCANTE JR., 2005), e, mais recentemente, Silva (2006) instiga-nos a novas reflexões. Contudo, caso o simples cogitare não se traduza em uma práxis de transformação da realidade, como bem ensinou-nos Paulo Freire (1987), será uma mera espera vã, uma expectativa que nos torna mais um sapo escaldado. É preciso, portanto, ressaltar, com o devido requinte, a pergunta do professor Silva (idem):

  • Por que, em geral, aceitamos os ditames das “autoridades científicas” e administrativas-burocráticas e, quase sempre, nos adaptamos e as aplaudimos sem questionar?

Considero que é chegado o momento de criarmos um fórum nacional para a reflexão-ação acerca dessa normose academicista brasileira, ou, quem sabe, ao tomarmos consciência, no futuro, de que a água esteve fervendo, terá sido um movimento estéril. Resta-nos, assim, à categoria dos docentes brasileiros, permitirmo-nos esperançar. E, aqui, incluo-me.

Esperançar a felicidade

Em uma entrevista, recentemente concedida[3], a repórter indagava-me se não seria a “felicidade” uma nova forma de utopia, a quem respondi dizendo que felicidade tem sido um tema antiqüíssimo, que nos remete a 800 anos A.C., quando o poeta grego Hesíodo cunhou o vocábulo eudaimôn, compreendido como o bom espírito (“eu”, bom, “daimon”, espírito), e, séculos mais tarde, Aristóteles difundiu-o, chegando ao Ocidente na tradução de “felicidade” – nas melhores traduções, “florescimento humano”. Portanto, essa “felicidade” vem sendo buscada, literalmente, há milhares de anos, e parece-me que quanto mais se busca, menos a encontra, porquanto não esteja fora do ser humano, ainda que, repetidas vezes, é no espaço externo que a temos procurado.

Orientado por uma perspectiva da Psicologia Humanista, venho coordenando, há quase um ano, a Rede Lusófona de Estudos da Felicidade - RELUS, compreendendo a felicidade como um sentimento experienciado pelo ser humano quando se permite viver a sua vida plenamente, realizando as perfeições com que foi dotado. Diante dessas breves linhas que faço surgir na tela do meu computador, compartilho mais uma pergunta com meus colegas docentes brasileiros:

  • Como viver uma vida plena na Universidade?

Se tomarmos a vida plena como sinônimo de “vida boa” na definição do psicólogo Carl Rogers (1999), criador da Abordagem Centrada na Pessoa, compreenderemos, por este conceito, um processo de liberdade psicológica dirigida em quaisquer das direções, implicando em uma abertura crescente à experiência e uma redução contínua das atitudes defensivas, para que possamos viver plenamente cada momento de nossas vidas, como sendo um novo a cada instante.

Tornamo-nos, dessa forma, um participante e agente do processo de experienciação da vida, fazendo uso da experiência como um guia competente e digno de confiança que nos conduzirá a uma experiência de plenitude humana. Finalmente, por plenitude, Rogers compreende uma pessoa que funciona em seu modo mais pleno, experimentando todos os seus sentimentos, e sem medo de nenhum deles, mergulhando completamente no processo de tornar-se quem ele ou ela, realmente é, e constituindo-se uma pessoa total – corpo, mente, sentimentos, espírito e poderes psíquicos integrados. Alguém, enfim, que consegue mergulhar em cheio na corrente da vida.

Esta nova pessoa, segundo Rogers (1983) tem sido encontrada entre os executivos que desistiram da competição em terno e gravata, da sedução dos altos salários e das opções da Bolsa para viver uma vida mais simples; homens e mulheres jovens de jeans que estão desafiando a maior parte dos valores da cultura atual e vivendo de novas maneiras; padres, freiras e pastores que deixaram de lado os dogmas de suas instituições para viver de uma maneira que faça mais sentido; mulheres que estão lutando contra as limitações que a sociedade impõe à sua individualidade e superando-as; os negros, as minorias latinas e os membros de outras minorias que estão se libertando de séculos de passividade e caminhando em direção a uma vida assertiva, positiva; aqueles que passaram por grupos de encontro e que estão encontrando lugar para o sentimento e para o pensamento em suas vidas; e os evasores escolares criativos, que estão tentando objetivos mais elaborados que sua escolaridade estéril permite.

Diante deste modo, acima descrito, de reconhecer-se homem, conforme uma perspectiva rogeriana, ainda ressoa em meus ouvidos a afirmação feita por um colega do professor Lima (2002), que “certa vez, numa reunião entre professores”, quando começava uma sentença afirmando um cândido “eu sinto”, foi interrompido “por um colega canônico para [me] sinalizar que ali não era lugar para ´sentir´, mas somente para ´pensar´, ´raciocinar´.” Esse tipo de interpretação, não tão raras no contexto acadêmico, leva-me a pensar que a vida boa, na Universidade, neste modelo que vimos construindo, não é possível de ser vivida, restando-nos algumas opções: (1) viver o saudosismo dos tempos de outrora , quando o professor universitário, no seu cotidiano, incluía momentos de ociosidade para dialogar com os seus alunos; tempo para expandir o seu conhecimento através da pesquisa em prol da humanidade; tempo para viajar e ler os seus trabalhos perante grupos de estudiosos; tempo para praticar a sua sabedoria transformando-se em uma autoridade respeitada por alunos e colegas; e tempo para valorizar o que ensinava, transmitindo segurança em suas crenças, enfim, viver plenamente a vocação de um mestre; ou, (2), sucumbir às normas e exigências perversas que reduzem as habilidades e oportunidades da carreira de pesquisador a um mero produtor, em larga escala, de artigos em periódicos devidamente rotulados nos atributos do sistema Qualis; quem sabe, ainda, (3), ousar agir para transformar, caminhando rumo à construção de uma nova pessoa, um novo mundo de docência universitária.

Rumo a um novo mundo – nova pessoa na Universidade

Espero, com este texto-sentido, um texto que foi por mim sentido e que carrega, em si, um sentido maior, contribuir para a construção de uma comunidade de docentes brasileiros engajados na reflexão-ação de uma práxis hábil na promoção de uma vida feliz para os docentes e discentes na universidade brasileira. Que possamos, juntos, compartilhar do sonho de Snyders (1995:10) de que a “Universidade seja vivida ao mesmo tempo como formação profissional e como alegria presente.”

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[1] Ver: “Que fazer com a universidade pathos-lógica”. Revista Espaço Acadêmico 14, julho de 2002.

[2] Ver: “A sua revista tem Qualis?”. Revista Espaço Acadêmico 56, janeiro de 2006.

[3] Ver; “Para ser feliz o homem precisa viver sem máscaras”. Diário do Nordeste, 8 de janeiro de 2006. Disponível em: www.cavalcantejunior.com.br/relus

 

Referências bibliográficas

BIANCHETTI, L.; MACHADO, A. (Orgs.). A bússola do escrever: desafios e estratégias na orientação de teses e dissertações. Florianópolis/São Paulo: Editora da UFSC/Cortez Editora, 2002.

CAVALCANTE JR., F. Por uma escola do sujeito: o método (con)texto de letramentos múltiplos. 2. ed. revista e ampliada. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2003.

________. Uma esquisitice santa: seguindo o caminho do coração. In: F. CAVALCANTE JR. (Org.), LER... Caminhos de trans-form-ação. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2005.

DIAS,L.; GAMBINI, R. Outros 500: uma conversa sobre a alma brasileira. São Paulo: SENAC-SP, 1999.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

________. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

LIMA, R. Que fazer com a universidade pathos-lógica. Revista Espaço Acadêmico 14, julho de 2002.

ROGERS, C. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.

________. Tornar-se pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

SILVA, A. A sua revista tem Qualis?”. Revista Espaço Acadêmico 56, janeiro de 2006.

SNYDERS, G. Feliz na Universidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

WEIL, P.; LELOUP, J-Y.; CREMA, R. Normose: a patologia da normalidade. Campinas, SP: Verus, 2003.

 

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