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por
ADELMIR FIABANI
Adelmir
Fiabani, 41, rio-grandense, é professor, mestre e doutorando em
História. |
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A
Linguagem escravizada: língua, história, poder e luta de classes
Florence
Carboni e Mário Maestri publicaram, em 2003, a primeira edição do
livro A Linguagem escravizada:
língua, história, poder e luta de classes. [São Paulo: Expressão
Popular, 2003.] Eram 92 páginas que mostravam como a língua nunca
é neutra, mas sempre forjada no contexto do mundo social, embalada
por relações de poder, das quais constitui representação e
simbolização, ainda que o falante só possua frágil consciência
da origem social e ideológica da linguagem que utiliza.
Mário
Maestri, doutor em história pela UCL, na Bélgica, é conhecido no
meio acadêmico mundial por seus trabalhos sobre a história social
do Brasil. Integrante da corrente que definiu o passado escravista
brasileiro como expressão de luta de classes, associou-se à lingüista
italiana Florence Carboni, também doutora nessa disciplina por
aquela instituição, especialista na questão da linguagem, para
publicar um trabalho germinal no sentido recém apontado.
Em
menos de dois anos e meio, esgotaram-se os três mil exemplares da
primeira edição. Fato inusitado apenas para quem não leu o
trabalho de Carboni e Maestri. A
Linguagem escravizada constituiu uma ferramenta indispensável
aos pesquisadores, não apenas das ciências sociais. Nesses
sentido, muitas vezes, as orientações propostas pelos autores
quase servem como um manual para quem não quiser pecar gravemente
ao escrever e falar, deixando que outros falem por sua boca, que
outros escrevam por suas mãos.
Em
novembro de 2005, veio a segunda edição. Revista e ampliada, com
agora 147 páginas, a obra mantém na sua essência as características
que consagraram a primeira edição. “A língua é palco
privilegiado da luta de classes, expressão e registro dos valores e
sentimentos contraditórios de exploradores e explorados”.
Também
em 2005, ficaram expostas as feridas do mundo globalizado, nos
atentados do metrô da Inglaterra, nos protestos das periferias de
grandes cidades francesas, na crescente derrota estadunidense no
Iraque, na construção do muro de Israel, nas jornadas da
Venezuela, que registraram as duras e não raro contraditórias
formas de expressão da oposição ao imperialismo. Imperialismo
este, como assinalado em A linguagem escravizada, construído
igualmente através da imposição da língua e das formações
discursivas próprias de setores sociais dominantes.
A
língua do imperialismo, o inglês, vem sendo imposta como língua
universal. Tende a tornar-se obrigatória como segunda língua nas
escolas públicas em quase todo o mundo. Nada de anormal para
Carboni e Maestri, pois, “as nações imperialistas lutam para impor suas línguas,
e, por meio delas, seus valores às nações dominadas, assim como
as classes dominantes esforçam-se para que os dominados submetam-se
plenamente a uma ditadura lingüística, que facilita e consolida a
ditadura social e econômica”.
Esse
mecanismo já se verificara em outras conjunturas históricas. No
Brasil, a dominação através da língua remonta ao século 18,
quando, para manter o domínio ideológico, cultural e religioso,
“entronizou-se o português como língua colonial e reprimiram-se
os falares extra-europeus e crioulos e suas influências na língua
dos colonialistas”. As palavras oriundas das comunidades indígenas,
africanas e caboclas passaram a ser vistas como estranhas,
atrasadas, brutas, ultrapassadas.
Os
autores mostram igualmente que praticar o padrão considerado culto
da língua pode também assumir o sentido de não pertencer e
separar-se das classes subalternizadas. “Membros emergentes das
classes desfavorecidas sempre puderam se incorporar às chamadas
elites, desde que renegassem suas raízes sociais, ideológicas e
lingüísticas”.
Ao
contrário, quando indivíduos “praticando o padrão lingüístico
popular projetam-se socialmente, sem terem o tempo ou a capacidade
de se adaptar à forma culta, o uso público de variantes
consideradas populares é execrado como erros e barbarismos lingüísticos,
por meio de sisudas correções eruditas ou de maldosas ironias, a
fim de que o padrão popular não seja prestigiado por esses
locutores excelentes”. O presidente Lula é um exemplo disso.
Carboni
e Maestri analisam também as categorias usadas pela historiografia
contemporânea e as ciências sociais em geral, mostrando que,
muitas vezes, cientistas sociais bem intencionados utilizam termos
com vínculos ideológicos-culturais próprios às classes
dominantes do passado justamente para elaborar análises críticas
destinadas a desvelar conflitos sociais desse passado. Os autores
mostram, por exemplo, que substituir a categoria "escravo"
por "trabalhador escravizado" impede que seja negada ao
cativo sua condição de trabalhador e a violência que ele sofreu
ao ser escravizado.
Outra
questão levantada pelos autores refere-se ao papel da escola.
Tradicionalmente, os estabelecimentos de ensino elegem apenas a
variedade lingüística comum às classes dominantes como língua
objeto de estudo e instrumento de comunicação. Os alunos que
apresentam dificuldade para se desvincular das variantes lingüísticas
próprias do seu meio são discriminados. “A repressão lingüística
é igualmente caminho para a repressão social e cidadã. Ela
contribui para a reprodução das desigualdades sociais”.
A
Linguagem escravizada questiona o mito da fala ‘boa’,
‘culta’. Não raras vezes, os eleitores indicam seus
representantes porque ‘fala bonito’. Ingenuamente, desconhecem o
poder da língua, do discurso, da incorporação de expressões.
Carboni e Maestri contribuem especialmente para com o meio acadêmico.
A obra consagrada na primeira edição tende a repetir o sucesso. |
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