O
declínio da classe média
A
tão aclamada globalização da economia, transformada em bandeira
de governos neoliberais e mesmo, de trabalhistas, seja na Grã-Bretanha
ou no Brasil, arrasou a classe trabalhadora, profundamente
atingida pela reengenharia, a flexibilização das relações de
trabalho e a terceirização.
A
mobilidade do capital e sua capacidade de transferir ativos e
instalações de um país para outro, aproveitando-se de níveis
salariais diferentes e de subsídios, incentivos e isenções
fiscais dos governos locais e nacionais conseguiu reduzir
dramaticamente a renda média dos operários da indústria,
premidos também pelo desemprego estrutural e tecnológico.
Não
foi somente o operariado que sofreu os impactos negativos da
reestruturação da economia e da nova divisão internacional do
trabalho. Uma grande parcela da classe média, escolarizada e
qualificada, acabou sendo gradualmente proletarizada e socialmente
degradada.
O
capital monetário foge para os mercados especulativos porque os
investimentos em novas fábricas se tornaram menos rentáveis.
Enquanto uma parte crescente da sociedade fica fora da produção
e empobrece, do outro lado se realiza uma acumulação e transferência
de capital para as “bolhas financeiras”.
O
colapso da nova economia e o estouro das bolhas financeiras
tiveram impactos profundos na queda da classe média,
particularmente entre funcionários públicos e empregados de
empresas privadas.
A
expansão da economia capitalista na 1ª e 2ª metades do século
XX parecia criar um mercado de trabalho ilimitado nos setores de
produção e de serviços para a nova classe média. Sem possuir
meios de produção próprios, como os artesãos e pequenos
comerciantes, os membros da nova classe média ocuparam as funções
de supervisores, gerentes e técnicos, contando com o seu
“capital humano”, ou seja, sua qualificação profissional
adquirida em instituições de ensino médio e superior.
As
recorrentes crises econômicas do sistema capitalista e o
progressivo desmantelamento do Estado de bem-estar social
atingiram amplos segmentos da nova e da antiga classe média, vítimas
do desemprego tecnológico e das pressões crescentes para
“enxugar” as empresas, privadas e públicas, através da
reengenharia e da terceirização.
A
onda de desemprego atinge também os centros do capitalismo avançado,
seus técnicos, professores, advogados, médicos, jornalistas e
funcionários, bem como uma parte do pequeno empresariado, artesãos
e comerciantes.
Com
a crise econômica, estes são obrigados a recorrer à poupança
privada e, freqüentemente, a abandonar seu patrimônio imobiliário,
em busca de aluguéis mais baixos, em cortiços e bairros de
pobreza.
A
perda de status social leva à radicalização política da classe
média, reforçando as correntes conservadoras, racistas e
chauvinistas, a exemplo de que ocorreu recentemente na França e
em outros países europeus. Antes da II Guerra Mundial, seus
elementos desclassificados e empobrecidos aderiram às tropas de
choque dos regimes totalitários, nazista e fascista.
Entretanto,
a classe média em declínio não quer ser associada com as
camadas sociais mais baixas, geralmente imigrantes de regiões
mais pobres que despertam preconceitos e práticas discriminatórias.
No
século XX, as sociedades em processo de industrialização eram
divididas entre capitalistas e trabalhadores, assegurando certa
estabilidade política ao sistema.
Com
a expansão do capital oligopolizado e a tendência crescente à
sua concentração, diminuiu o número de capitalistas pequenos
proprietários, que cederam o lugar aos conglomerados e às
sociedades anônimas, burocraticamente administradas, por gerentes
(os managers) considerados uma nova classe social, na década
de 1950.
A
antiga classe de “pequeno burgueses” – artesãos,
comerciantes, profissionais liberais e funcionários públicos –
perdeu seus meios de produção e veio engrossar as fileiras dos
partidos radicais, de esquerda ou de direita, minando o precário
equilíbrio dos regimes democráticos.
O
debate no começo do século XX, entre Karl Kautsky e Eduard
Bernstein, teóricos da social-democracia na Alemanha, sobre a
classe média emergente de trabalhadores e funcionários em decorrência
de tecnificação da produção, apontou para as novas categorias
sociais, conforme descritas também nas obras de C.Wright Mills em
A Nova Classe Média (White Collar) e James Burnham, em A Revolução
dos Gerentes.
A
miséria social econômica transformou-se em grave crise também
nos países desenvolvidos, inclusive na União Européia levando a
manifestações agudas racistas e nacionalistas.
Os
membros da classe média qualificada em declínio não querem se
aliar às camadas mais baixas e se refugiam no conservadorismo e
chauvinismo com nostalgia do antigo nacionalismo, contra a
ideologia dominante da globalização, enquanto o discurso sobre
“empreendedorismo” procura manter viva a ideologia do sistema
capitalista e encobrir o fracasso de suas práticas.
No
início do século XX, a classe média aumentou em números
absolutos, em função das novas formas de organização,
tecnificação e administração da produção. No período pós-guerra
(1950), os “milagres” econômicos na Alemanha, Itália e
outros países abriram novas oportunidades de trabalho nos setores
de lazer, turismo e serviços em geral, para mão-de-obra mais
escolarizada e graduada no ensino superior.
A
proletarização das camadas mais qualificadas coincide com a
introdução de inovações técnicas na produção industrial e
com a perda dos meios de produção pela pequena burguesia,
detentora do chamado “capital humano”.
As
discussões no meio da social-democracia alemã sobre os destinos
da classe média já ocorreram no início do século passado entre
K. Kautsky e E. Bernstein . Enquanto o primeiro apontava para a
tendência à proletarização da classe média, Bernstein
apostava na estabilização do sistema capitalista, sua capacidade
de realizar reformas sociais e de absorver novos contingentes de mão-de-obra.
O
enfraquecimento do Estado, em conseqüência da crise econômica
na década de 1980, revelou a falta de recursos orçamentários
decorrente do encolhimento da produção e da redução de serviços
sociais considerados “supérfluos”. O Estado “enxuto” dispõe
de menos verbas para a educação, saúde e cultura, assinalando o
desaparecimento do Estado de bem-estar social. Com isso, surge o
desemprego de acadêmicos e técnicos qualificados, na onda de
privatizações e da terceirização que tendem a desvalorizar o
“capital humano” e transformar seus portadores, segundo Robert
Kurz, em “diaristas intelectuais”.
As
incertezas que pairam sobre o futuro da economia e da sociedade
brasileira se tornaram patentes quando o governo alardeou, em
2004, uma taxa de crescimento da economia de 4,5% e prometeu mais
de 5% para 2005. A queda da taxa em 1,2% no terceiro trimestre
augura problemas em 2006, já que o ritmo atual de expansão da
economia é insuficiente para absorver os jovens que pretendem
ingressar no mercado de trabalho.
Além
do desempenho pífio da economia nos últimos vinte anos,
verifica-se uma tendência perversa de transferência de renda da
produção e do consumo para os setores mais rentáveis, ou seja,
a especulação do capital financeiro nacional e internacional
contemplado com taxas de juros elevadas.
O
número de famílias com renda média de mais de R$ 1000/mês tem
declinado constantemente, enquanto aumenta o número de milionários.
Em conseqüência, assiste-se à erosão da classe média e sua
proletarização.
Segundo
estudo de um economista da UNICAMP (Folha de S. Paulo,
14/nov./2004), nos últimos anos a classe média brasileira teria
perdido 1/3
de sua renda e, 2 ½ milhões de pessoas perderam a condição de
classe média (renda mensal superior a R$ 1000). Com isso,
perderam também a possibilidade de enviar seus filhos para
escolas particulares, e deixaram de freqüentar cinemas, teatros e
clubes. Estima-se que nos últimos 5 anos, mais de 4 milhões de
pessoas tenham abandonado planos privados de saúde.
A
escolarização, conquistada a duras penas e com muita luta, da
qual se esperava um retorno sobre o investimento, está sendo
desvalorizada pelos baixos salários ou o desemprego. Esse
processo não deve ser debitado somente ao governo Lula. Já no
segundo período de governo FHC, a deterioração das condições
de vida da classe média avançou rapidamente, o que motivou seu
apoio ao PT, nas eleições de 2002, quando os efeitos de
“estabilização” do Plano Real foram agravados pela política
cambial e a conseqüente desvalorização da moeda nacional.
A
tendência à proletarização da classe média é um fenômeno
universal e ocorre nos EUA, na UE e , com mais intensidade, nos países
“emergentes”, como o Brasil.
A
queda prolongada do nível de emprego e de renda atinge não
apenas a massa dos pobres que sobrevivem à custa de políticas
compensatórias, mas também as camadas da população que já
haviam alcançado padrões sócio-econômicos mais favoráveis.
A
cada período de estagnação ou retração do PIB, uma parcela da
classe média é reduzida à condição de proletários, com
impactos devastadores em sua auto-estima.
Em
2002, aproximadamente 57 milhões de brasileiros pertenciam à
classe média, com renda mensal acima de R$ 1000. Em 2003, eram
54,4 milhões e, em 2004, ficaram reduzidos a 53 milhões.
Enquanto
a economia mundial cresce a 4% ao ano e os países
“emergentes” (China, Índia) com mais de 9% em média, nos últimos
10-15 anos, o Brasil, no entanto, continua a padecer com taxas de
crescimento de 2,5% anuais, em que pese o “boom” das exportações
agropecuárias.
Uma
nova crise da economia mundial afetará inevitavelmente as exportações
brasileiras – único setor que apresenta desempenho favorável,
embora com custos ambientais crescentes.
Enquanto
antes o desemprego atingia sobretudo as categorias de
trabalhadores menos qualificados, com escolaridade incompleta e
ocupados em tarefas manuais, hoje, o desemprego atinge cada vez
mais as camadas “qualificadas” de técnicos, professores,
profissionais liberais, funcionários públicos e parte do pequeno
empresariado.
A
concentração da produção e dos serviços em grandes unidades
torna impossível conhecer o funcionamento de todos os setores da
empresa, enquanto a reengenharia e a racionalização diminuem as
possibilidades de promoções. Nessas condições, a expansão da
rede educacional leva a maior desemprego e não ascensão social;
mesmo de trabalhadores e funcionários mais qualificados.
Incapaz
de resistir às pressões da economia globalizada, à eliminação
das barreiras alfandegárias e à busca desenfreada de maior
produtividade apesar dos enormes custos sociais, a classe média,
individualista e sem tradição de organização e lutas
sindicalista, acaba empurrada para a arena política, em busca de
soluções para seus problemas existenciais. Almeja o retorno à
estabilidade e segurança econômicas, mas deve enfrentar as
incertezas do mercado de trabalho no qual a instrução escolar não
garante mais a ascensão social. Acrescenta-se a insegurança física
nas grandes cidades e entende-se a nostalgia do passado, da ordem
e da estabilidade.
Frustrados
com as notícias sobre a corrupção em diferentes níveis e
setores de governo, os membros da classe média tornam-se
descrentes e desencantados com o regime democrático parlamentar,
tornando-se presa fácil de demagogos populistas ou de “homens
fortes”, pretensos salvadores da pátria.