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por FLÁVIO SPOSTO POMPÊO
Bacharel
em Ciência Política pela Universidade de Brasília e servidor público
federal |
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Governo
Lula, o novo partido e as saídas pela esquerda para a crise de 2005
Introdução
O
ano de 2002 apresentou um cenário inédito e extremamente
significativo para a esquerda brasileira e mundial. O sindicalista e
operário metalúrgico do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva, foi
eleito presidente da República, tendo mais de 52 milhões de votos
no segundo turno. Seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT),
representava a esquerda histórica, construída a partir da luta
contra a ditadura e tendo como pilares os setores progressistas da
igreja, o novo sindicalismo e setores tanto democráticos como
revolucionários que lutaram contra o regime militar.
A
vitoriosa frente popular incluía ainda o Partido Comunista do
Brasil (PC do B) e o histórico mas atualmente minúsculo Partido
Comunista Brasileiro (PCB), além de ter recebido apoio do Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), da Central Única dos
Trabalhadores (CUT), da União Nacional do Estudantes (UNE) e de
milhares de ONGs, associações e movimentos sociais significativos.
No segundo turno, diversos outros partidos de centro-esquerda e de
esquerda defenderam o voto crítico em Lula, tais quais o Partido
Democrático Trabalhista (PDT), o Partido Socialista Brasileiro
(PSB), o Partido Popular Socialista (PPS) e até mesmo o Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).
Ao
mesmo tempo, Lula assumia uma postura de crescente abandono das posições
históricas do PT. Simbólico neste processo foi a publicação da “Carta ao
povo brasileiro”[i],
em julho de 2002. A carta fala na aliança com “parcelas
significativas do empresariado”, ao mesmo tempo em que assume
diversos compromissos com o “povo” brasileiro, entre eles a
continuidade das obrigações financeiras e a busca de equilíbrio
fiscal, desoneração do capital, combate à inflação, aumento das
exportações, crescimento sustentável etc. Ao mesmo tempo em que
fala em “valorizar a agricultura familiar”, a carta propõe o
mesmo para o agro-negócio e para os latifúndios exportadores. A
carta pode ser sintetizada pela expressão que passou a ser
utilizada, a política de conciliação de classes, expressa na
proposta de aliança “com todos os segmentos da sociedade
[sic]”. O avalista político desta conciliação de classes foi o
Partido Liberal (PL), que integrou a chapa da frente popular, na
qual ocupou a vaga da vice-presidência na figura do mega-empresário
mineiro José Alencar.
Governo
em disputa e o novo partido
A
posse de Lula, no início de 2003, foi acompanhada de uma festa
popular sem precedentes na história republicana. Mais de 100 mil
pessoas estiveram na cerimônia, em frente ao palácio do Planalto.
Porém, as contradições logo começam a ficar expressas. A composição
ministerial é emblemática da situação. Alguns exemplos: na
Agricultura, Roberto Rodrigues, ligado ao agro-negócio; no
Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, da corrente Democracia
Socialista; no Ministério da Economia, Antônio Palocci, petista
que adota uma política econômica mais ortodoxa que a de seus
antecessores tucanos; na presidência do Banco Central, Henrique
Meirelles, tucano e ex-diretor do Bank Boston.
Os
setores da esquerda socialista atrelados ao governo logo embarcaram
na tese do governo em disputa. O argumento era simples: integravam o
governo tanto grupos de esquerda como grupos de direita. Aqueles que
pressionassem com mais força conseguiriam tencionar a seu favor a
orientação das ações governamentais. A disputa “pela
esquerda” seria feita a partir de grupos como CUT, UNE, MST e
pelos setores da esquerda do PT (como a Articulação de Esquerda e
a Democracia Socialista). Com relação aos grupos ligados ao
governo, progressivamente afastam-se da base partidos de
centro-esquerda, como o PDT e o PPS, ao mesmo tempo que a direita
tradicional, personificada por partidos como PP e PTB, vai sendo
incorporada, assumindo uma quantidade crescente de ministérios.
Na
esfera institucional, ainda dentro do partido do governo,
polarizou-se um setor que logo recebeu a alcunha de “radical”. A
situação ganhou novos contornos com a reforma da previdência
apresentada pelo governo. Para estes setores, a reforma era
privatista e representaria tudo que o PT sempre combateu. Por
votarem contrariamente à reforma, foram expulsos do partido os
deputados Luciana Genro e Babá e a senadora Heloísa Helena. João
Fontes foi expulso por ter exibido um vídeo em que Lula bradava
contra quem ameaçasse fazer a reforma da previdência.
Posteriormente, Fontes ingressou no PDT.
Ainda
em 2003, mesmo antes da expulsão dos “radicais”, o PSTU começa
a se movimentar para a construção de um novo partido. Na revista Marxismo
Vivo número 7, a Direção Nacional do partido conclama "Nós,
do PSTU, fazemos um chamado a toda esquerda petista: -Façam como
Luciana Genro, Babá, João Fontes e Heloísa Helena: votem contra a
‘reforma’. Rompam com o PT, e venham junto conosco construir um
novo partido de esquerda, democrático em seu funcionamento
interno[...]. Um partido voltado para a ação direta , para as
lutas dos trabalhadores e não somente para eleições”. O texto
continua: “vamos discutir neste movimento pelo tempo que for
necessário (provavelmente alguns anos)[sic]"[ii].
Em novembro de 2003, no Fórum Social Brasileiro, ocorre plenária
em que se delibera pela formação de um movimento por um novo
partido socialista dos trabalhadores. No fim do ano, logo após as
expulsões dentro do PT, a Direção Nacional do PSTU publica uma
carta aberta, reafirmando o chamado e os princípios já expostos,
desta vez afirmando, porém, que "o país não necessita de um
novo PT, um pouco mais à esquerda"[iii].
Em fevereiro de 2004, é publicada a edição número 0 da revista Novo
Partido em debate, publicada pelo MNPS (Movimento por um Novo
Partido Socialista). Tanto a revista como o movimento são
hegemonizados pelo PSTU.
Os
setores saídos do PT, porém, não ingressaram no movimento, que
logo se desarticulou e deixou de existir. Em 19 de janeiro de 2004,
reuniram-se “convidados, representantes de correntes políticas,
personalidades, lideranças dos movimentos sociais, intelectuais e
os parlamentares [...] expulsos do PT [...]”[iv].
Na reunião, aprovou-se um documento intitulado Esquerda Socialista
e Democrática – Movimento por um Novo Partido (ESD). Além da
Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST) e do Movimento Esquerda
Socialista (MES), o documento foi assinado por representantes do
Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), do Socialismo e
Liberdade (agrupamento significativo saído do PSTU em 2003) e de
grupos menores, como o Socialismo Revolucionário (SR). Foi
escolhida uma comissão, que alguns dias depois propôs um
cronograma para as plenárias estaduais. O primeiro Encontro
Nacional do novo partido ocorreu nos dias 5 e 6 de junho de 2004.
Participaram mais de 750 pessoas, representantes de 22 estados. Por
votação em plenário, decidiu-se pelo nome Partido Socialismo e
Liberdade (P-SOL). O encontro decidiu ainda a Executiva Nacional, o
Diretório Nacional, o programa e o estatuto, todos provisórios[v].
Segundo o site oficial do partido, o encontro contou com a participação
do “melhor da intelectualidade brasileira de esquerda”,
destacando as participações de Francisco de Oliveira, Carlos
Nelson Coutinho, Leandro Konder, Ricardo Antunes e Paulo Arantes. O
texto diz ainda que o primeiro encontro deliberou que a tarefa
central dos militantes naquele momento seria “encaminhar as lutas
sociais nos estados, como a resistência popular por suas reivindicações,
contra a reforma sindical e trabalhista, contra a reforma universitária,
em defesa da reforma agrária, dos sem-teto, em apoio às lutas de
todas as categorias”. De maneira paralela, a militância deveria
“começar a estruturar nos estados os organismos partidários e
iniciar a coleta de 438 mil assinaturas para garantir o registro
definitivo do nosso partido”[vi].
A
crise de 2005 e as saídas propostas
O
cenário político brasileiro apresentou, no ano de 2005, uma crise
política sem precedentes e de enormes dimensões. Os setores da
centro-esquerda atrelados ao governo, como UNE, o MST,
CUT e dezenas de outros movimentos sociais e populares
embarcaram na tese do golpe das elites e dos meios de comunicação
contra o governo dos trabalhadores. Em junho de 2005, retomando a
carta homônima de Lula em 2002, tais setores publicaram uma nova
Carta ao Povo Brasileiro. O texto define a política econômica como
“neoliberal”, mas a culpa é atribuída às “alianças
conservadoras”. Ressalta, porém, os aspectos positivos do
governo: "um discurso da prioridade social e uma política
externa soberana e de aliança com as nações em desenvolvimento. A
eleição do Lula reacendeu as esperanças na América Latina, e
influiu de forma positiva em alguns conflitos políticos na região".
Portanto, a carta se coloca contrária a “qualquer tentativa de
desestabilização do governo legitimamente eleito, patrocinada
pelos setores conservadores e antidemocráticos”[vii].
No
PT e nos principais setores da esquerda atrelados ao governo
federal, repetiram-se de todas as maneiras as teses de golpe das
elites e governo em disputa. Mesmo na corrente petista ultra-radical
O Trabalho, a idéia era pressionar o governo pela esquerda. A
corrente se define como “Oposição de esquerda ao governo
Lula”. Junto com diversos setores, mesmo alguns à direita do
partido, este grupo defende o relançamento do Manifesto de fundação
do PT. A corrente, porém, ajuda a impulsionar um movimento chamado
Movimento PT Sem Patrões. A pouco mais de um ano do fim do governo
Lula, o movimento defende, entre outras coisas, a “demissão dos
ministros capitalistas do governo do PT” e o “não pagamento da
dívida”[viii].
Estes setores, porém, não consideram sair do PT.
Esta
opção não foi unânime. Uma das tendências mais significativas
da chamada Esquerda do PT era a Ação Popular Socialista (APS). A
tendência, que tem dois deputados federais, quatro estaduais e
dezenas de vereadores, é a união da antiga Força Socialista com
diversos agrupamentos regionais. Nas eleições internas no PT,
apoiaram o candidato Plínio de Arruda Sampaio, com o mote “Para o
PT voltar a ser PT”. Uma semana antes do prazo final para desfiliação
dos que pretendem concorrer nas eleições de 2006, a APS realizou
encontro nacional extraordinário, no qual avaliou que “não há
mais como [tirar o governo Lula] da hegemonia neoliberal e colocá-lo
num rumo democrático e popular. Mas que isto: sua orientação
estrategicamente negativa para os trabalhadores, o povo e a nação
brasileira, não se limita à área macro-econômica. Está presente
também em quase todas as áreas [sic]”. O encontro sacramentou,
assim, a desfiliação do PT e a entrada no P-SOL, inicialmente com
o estatuto da Filiação Democrática[ix].
Nos
setores que já estavam em oposição ao governo Lula, não houve
consenso sobre as medidas a serem tomadas. Em resolução da
Executiva Nacional publicada em agosto, o P-SOL reafirma, como
alternativa ao atual Congresso Nacional, que não seria legítimo,
“a campanha ‘Fora todos os corruptos! Derrotar o plano
neoliberal de Lula/FMI!’”. Além disso, “decide convocar um
Plebiscito Nacional, no qual defenderemos a antecipação das eleições,
sob novas regras”[x].
Logo em seguida a posição do P-SOL se materializou na apresentação,
pelos deputados Babá, Luciana Genro e João Alfredo[xi],
do Projeto de Emenda Constitucional 463, de 2005. A PEC defende o
mecanismo como novo instrumento de participação popular, podendo o
plebiscito ser convocado, a qualquer momento, para deliberar sobre
qualquer assunto, bastando, para tal, a subscrição da assinatura
de 1% da população nacional[xii].
A justificação da PEC fala ainda em “falência ética” dos
“Poderes executivo e legislativo”.
Outro
partido que seguiu a mesma linha é o PCB. Membro da Frente Popular
que levou Lula à vitória, o partido realizou, em março deste ano,
seu XIII Congresso. As resoluções aprovadas avaliam que “cabe ao
PCB ser um acerbo crítico do governo Lula e da social-democracia,
colocando-se no campo de alternativa de esquerda. Para tal é necessária
a constituição de um Bloco de Esquerda que transcenda a mera
disputa eleitoral”. Ainda, o partido “rompe com o governo Lula,
em função deste governo estar a serviço do grande capital, não
havendo, no que se refere aos interesses dos trabalhadores, a
possibilidade de disputa em seu interior”[xiii].
Conforme informa o site do partido, defendem, assim como o P-SOL, o
plebiscito revogatório, já “que Governo e Congresso não têm
legitimidade para fazer ‘acordões’ e tirar do forno qualquer
‘pizza’”[xiv].
Em
contraposição ao P-SOL, o PSTU defende uma palavra de ordem mais
radicalizada: “Fora todos! Pela construção de uma greve
geral”. Segundo a nova cartilha do partido, publicada
recentemente, “a proposta do P-SOL para a grande crise política
atual é a antecipação das eleições. Caso fosse aplicada sua
proposta, a oposição burguesa ou mesmo o PT ganhariam essas eleições
antecipadas e um “novo” governo, agora legitimado pelo voto,
manteria a mesma política econômica e a mesma corrupção”[xv].
A proposta do Fora Todos é sempre colocada de maneira oposta ao
Plebiscito Revogatório: em reportagem da Edição 229 do Opinião
Socialista, jornal do partido, a questão é colocada nos
seguintes termos: a saída do “novo partido” é por dentro do
regime burguês, enquanto a proposta do PSTU é por fora[xvi].
As
diferentes avaliações sobre o governo Lula se concretizaram nas
marchas em Brasília. A marcha do dia 16 de Agosto de 2005 foi
convocada pelo PC do B, PT, CUT, CMS e por diversos outros setores
governistas, enquanto, no dia 17, realizou-se a marcha
oposicionista, convocada majoritariamente pelo PSTU, Conlutas, P-SOL
e outros grupos menores[xvii].
A disputa simbólica entre os tamanhos das respectivas marchas se
revelou na esquizofrenia numérica de cada grupo. O coronel Serra,
da Polícia Militar do DF, responsável pela segurança em ambas as
marchas, estimou em 6 mil o número de participantes da passeata
governista[xviii],
enquanto os oposicionistas teriam levado 12 mil pessoas às ruas. A
UNE, porém, estima que a primeira marcha contou com 30 mil pessoas;
a CUT afirma que foram 40 mil, e que a segunda marcha teria tido
menos de 10 mil pessoas[xix].
Já o jornal do PSTU afirma que, em seu ato, 30 mil pessoas tomaram
as ruas, duas ou três vezes mais do que o ato governista[xx].
Já
o Partido da Causa Operária (PCO) aproveitou a situação da crise
de 2005 para tentar disputar espaço com os outros partidos da
esquerda socialista. De acordo com o texto de convocação do II
Seminário Nacional de organização do partido, é preciso combater
“o centrismo, que se expressa em correntes como o PSTU, P-SOL,
esquerda o PT e grupos menores, [e que] se apresenta na forma de um
palavreado aparentemente revolucionário, radical, mas que, na prática,
serve aos interesses da direita [sic]”. Na avaliação do partido,
a crise do PT está levando ao "iminente ascenso do movimento
operário", sendo que setores da direita, nesta conjuntura, irão
tentar se refugiar no “centrismo”[xxi].
Nem
com setores extremamente minoritários da esquerda socialista houve
convergência. A Liga Bolchevique Internacionalista (LBI), no
editorial de seu jornal Luta Operária (Edição 111, de
agosto de 2005), afirma que o PT, desde o seu início na década de
80, sempre governou para o capital, financiado por um movimento
corrupto. Por outro lado, a recente vitória de Lula teria
aprofundado o giro do partido à direita e a consolidação de seu
caráter neoliberal. Ainda segundo o mesmo editorial, os grupos que
hoje integram o P-SOL "são caudatários da democracia burguesa
e suas instituições fraudulentas, como o próprio Congresso
Nacional e suas CPI’s. Portanto, [o partido] é absolutamente
incapaz de apontar em uma direção revolucionária, de ruptura com
o regime vigente, tende a tornar-se um receptáculo dos ratos que
começam a abandonar o barco afundado do PT". Já o PSTU
"correndo pela ‘esquerda da esquerda’, [...] radicalizou o
discurso contra o governo Lula, mas mantém-se como refém da
governabilidade burguesa". Uma das principais críticas da LBI
ao PSTU é o fato de este partido ter assinado, em julho de 2005, a
"carta do Rio de Janeiro", junto com os partidos
"burgueses" PDT e PPS. Por sua vez, a LBI estaria
convocando o “verdadeiro” Fora todos e a verdadeira Greve geral[xxii].
Já
a Liga Estratégia Revolucionária (LER-QI) defende, como eixo de
mobilizações, a chamada de uma “Assembléia Nacional
Constituinte Livre e Soberana, imposta pela mobilização das
massas”[xxiii]
e controlada pelos trabalhadores, estudantes e excluídos. Por sua
vez, na edição número 18, de agosto de 2005, do jornal Palavra
Operária, a LER-QI caracteriza a posição do PSTU como
“ziguezague” centrista, materializada na “capitulação ao
frente-populismo”. Assim, mesmo quando o PSTU adota consignas
aparentemente radicais, como o Fora Todos, “na verdade está feita
sob medida para realizar uma frente com todos os que se colocam como
‘oposição de esquerda’ ao governo, incluindo aí, precisamente
partidos burgueses como PPS e PDT”. Ainda no mesmo artigo, o P-SOL
é caracterizado como “eleitoralista e programaticamente
centro-esquerdista PSOL”[xxiv].
Assim,
o ano de 2005 apresenta férteis possibilidades para demonstrar as
limitações das atuais análises que a esquerda socialista faz de
suas próprias possibilidades, da conjuntura e das saídas possíveis
para se alcançar a via revolucionária. As teses do golpismo das
elites e do denuncismo, adotadas pelos setores da esquerda atrelados
ao governo, foram desmoralizadas e desmentidas por uma seqüência
incrível de fatos: dólares na cueca, extratos incriminadores,
enriquecimento ilícito de dirigentes petistas etc. A tese da
tentativa de desestabilização do governo, adotada pelos mesmos
setores, foi desmentida pelos próprios setores da direita política,
que buscaram a todo custo preservar a política econômica e
pouparam seu piloto, o ministro Antônio Palocci.
Por
sua vez, a solução proposta pelo P-SOL e encampada pelo PCB,
materializada em uma PEC, continua tramitando na Câmara Federal. A
proposta passa necessariamente pela institucionalidade burguesa e
precisa ser aprovada por um de seus instrumentos, o Congresso
Nacional, que é considerado ilegítimo pelo próprio partido
proponente. Já as posições defendidas por PSTU, PCO e por outros
grupos menores não ganharam dimensões maiores que os limites de
suas próprias organizações. Estes grupos, extremamente minoritários,
têm uma avaliação que disputam um mesmo espaço comum e que, para
alcançar seu verdadeiro caráter revolucionário, devem
constantemente gastar tempo, energia e recursos denunciando o
suposto caráter negativo e contra-revolucionário dos outros grupos
rivais. Com esta auto-proclamação, estes grupos muitas vezes
esterilizam o debate e praticamente inviabilizam as necessárias ações
conjuntas da cada vez mais fragilizada e fragmentada esquerda
socialista.
___________
[xi] Este último, recém-ingresso
no P-SOL, era, na época, da corrente Democracia Socialista, do
PT.
[xvii] A organização oficial
da marcha do dia 17 incluía o PDT, o PPS e outros partidos,
que, na prática, não tiveram expressão social.
[xviii] A informação foi dada
pelo próprio Coronel Serra, por telefone, ao autor deste
artigo, nas datas dos respectivos atos.
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