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por
FÁBIO W. A. PINHEIRO Mestrando
em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. |
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A
participação dos africanos novos no tráfico para Minas Gerais
(1809-1830): amostras de uma pesquisa
O
objetivo deste artigo é demonstrar sumariamente a preeminência
mineira no tráfico Atlântico de escravos em relação as
principais Capitanias/Províncias do centro-sul entre os anos de
1809 e 1830. Os dados a seguir são frutos de uma pesquisa em
desenvolvimento, cujo objetivo é mapear o fluxo de cativos para
Minas Gerais no período mencionado. Entretanto, ressalvo que as
evidências parciais fazem parte de resultados mais abrangentes
obtidos até o momento, mas, seus percalços metodológicos não se
demonstraram perniciosos em relação aos outros proventos, o que me
permite desenvolver algumas reflexões neste escrito.
O
corpus documental que
estou lançado mão para o desenvolvimento dos objetivos citados são
os códices 390, 421, 424 e 425, referentes aos passaportes e
despachos de escravos para as regiões do interior e do litoral
brasileiro, emitidos pela Intendência de Polícia da Corte do Rio
de Janeiro na primeira metade do século XIX. Esta documentação
está sob a guarda do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e
recentemente foi digitalizada pelo Laboratório de Pesquisa em História
Social (LIPIHS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
financiado e sugerido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(IPEA).
Antes
de analisar os dados é imprescindível que se faça uma breve
explicação de algumas informações encontradas nessas fontes e de
seus principais problemas, que foram discutidos de forma mais
aprofundada por João Fragoso e Roberto Ferreira, os protagonistas
responsáveis pela digitalização dos referidos códices. (FRAGOSO
e FERREIRA: 2000).
Dentre
as várias informações que podem ser observadas nesta documentação
nos chama a atenção os distintos tipos de escravos que podem ser
identificados, para o presente trabalho nos interessam à discriminação
de três, que são: os novos,
que conforme Fragoso e Ferreira, trata-se dos que não possuíam
nome cristão; os ladinos, estes
possuíam nome cristão, porém, poderiam ter sido batizados na África
ou no Brasil; e os “escravos
que trouxe”, assim denominado na fonte, são os cativos que
acompanhavam as tropas provenientes das áreas do Sudeste e Sul do
Brasil (FRAGOSO e FERREIRA, 2000: 23).
Destes,
os novos, consoante os
autores, são os que proporcionam maior margem de segurança no que
tange à representatividade dos códices frente às flutuações
anuais do tráfico Atlântico. No quadro um, podemos observar esta
representatividade dos escravos novos frente ao total geral dos códices
da Polícia da Corte e ao mercado Atlântico de escravos em três
períodos, 1809/14, 1815/23, 1824/30.
A utilização destes intervalos permitirá que se faça uma análise
mais pragmática da representatividade destas fontes diante da
estimativa do tráfico Atlântico.
Quadro
1: Remessas
anuais de escravos novos da Praça do Rio de Janeiro diante das
estimativas do tráfico atlântico de
escravos (1809-1830).
|
Período
|
Novos
(a)
|
Novos
% de (a)
|
Novos
% de (b)
|
Total
geral (a) dos Códices
|
Tráfico
Atlântico (b)
|
|
1809-1814
|
6622
|
42,7
|
9,7
|
15519
|
68271
|
|
1815-1823
|
33517
|
41,6
|
18,7
|
80487
|
179130
|
|
1824-1830
|
127400
|
93,8
|
53,5
|
135802
|
238340
|
Fonte:
Fragoso, João e FERREIRA, Roberto. Op. cit., p. 26.
Podemos
notar que existe uma variação de cerca de 9,7 % a 53% entre os
quatro intervalos, e conforme Fragoso e Ferreira esta desproporção
relevante pode ser explicada por diversas razões.
Primeiramente,
para o período de 1809 a 1814 é importante mencionar que não existem dados para o ano de 1812; para 1810 os registros são quase
inexistentes e nos anos de 1811 e 1814 a representatividade dos
escravos novos é pouco expressiva.
Consoante os autores estes parcos registros, quiçá, são
conseqüências da perda de livros, “o que certamente ocorreu para
o ano de 1812”, pois o ano de 1813, cuja representatividade é a
maior deste período, foi contemplado em dois volumes do códice
421.
Esta evidência de Fragoso e Ferreira é bastante plausível quando
retornamos aos volumes do códice 421 e reparamos que: 1) no ano de
1809 somente do final do mês de Agosto até Dezembro são
identificados registros de passaportes e despachos de escravos e no
ano de 1810, cujos os dados são os mais escassos, apenas o mês de
Janeiro é encontrado no volume do referido códice;
2) os anos de 1811 e 1814 os meses registrados são respectivamente
os de Março a Junho e de Outubro a Dezembro;
e 3) com o maior número de escravos novos registrados no período
em questão os registros do ano de 1813 abarcam os meses de Maio a
Novembro. Enfim, talvez isto ajude a entender a pouca expressão
desta fase em relação ao tráfico Atlântico, sendo o menos
seguro, consoante Fragoso e Ferreira, “para analisar a distribuição,
no Sudeste do Brasil, de cativos advindos da África” (FRAGOSO e
FERREIRA, 2000: 25).
O
intervalo de 1815-1823, ao contrário, é mais significativo em relação
ao período anterior com 41,6% de representatividade em relação ao
total geral dos códices e 18,7% no que tange o comércio Atlântico
de escravos, entretanto, se comparado à fase seguinte é ainda
pouco expressivo. Deve-se levar ainda em conta que o ano de 1823 não
possui registros de saída de escravos para Minas Gerais devido à
ausência de um livro do códice 425, onde estariam os dados deste
ano e que não teria sido encontrado até o momento, segundo Fragoso
e Ferreira.
Por
último, o período de 1824-1830 é o de maior expressão frente ao
total geral dos códices, 93% dos registros, e principalmente em
relação ao tráfico Atlântico que é de 53,5 % de
representatividade. A preeminência deste intervalo pode ser
justificada pela preocupação dos comerciantes da Praça do Rio de
Janeiro com o processo de extinção do tráfico na segunda metade
da década de vinte e concretizada em 1830. Assim, para Fragoso e
Ferreira esta questão talvez explique “os picos de 1826, 1828 e
1830, quando aquelas porcentagens chegaram, respectivamente, a 52%,
57% e 88,9%.” (FRAGOSO e FERREIRA, 2000: 26) Adiciona-se ainda ao
fato de que a existência do códice 424 da Polícia da Corte, que
é específico para o despacho de escravos entre os anos de 1826 e
1833, corrobora para esta alta representatividade do período, o que
nos daria uma outra evidência no qual este “órgão” do Estado
teria se especializado em emitir documentos específicos para o
despacho de escravos frente a esta conjuntura política conturbada.
Assim,
visto os problemas metodológicos proporcionados pelos códices da
Polícia da Corte devo salientar que mesmo com a grande oscilação
de sua representatividade frente ao tráfico Atlântico, onde o período
de 1809-1814 seria o menos seguro devido à escassez de registros, não
se deve subestimar seu potencial, pois os mesmos são dignos de
outras análises, como poderá ser presenciado a seguir (Gráfico
um), onde irei comparar a freqüência dos escravos novos e ladinos
no tráfico para Minas Gerais com as principais Capitanias/Províncias
do centro-sul que são Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do
Sul.

Dessa
forma, podemos observar no gráfico um as flutuações de escravos
novos despachados da Praça do Rio de Janeiro entre as províncias
do Sul e Sudeste nos anos de 1809 a 1830, contudo se faz necessário
explicar para o leitor algumas medidas que foram tomadas para o
desenvolvimento do gráfico acima. Para o Rio Grande do Sul não há
dados para os anos de 1813, 1814 e 1825, assim, para este último
ano foi feito uma média entre o ano de 1824 e 1826 para que o gráfico
possibilite demonstrar a tendência dos despachos de escravos novos
para o território sulista, o que não foi possível para os anos de
1813 e 1814, pelo fato óbvio de se tratar de dois anos consecutivos
e também, pouco iria influenciar na tendência do movimento do gráfico
visto a baixa participação dos cativos novos no tráfico desta
região até 1821, que poderá ser compreendida de forma elucidada
mais adiante. Para Minas Gerais, como já foi dito anteriormente, não
há registros para o ano de 1823, dessa forma, foi utilizada a mesma
metodologia empregada no ano de 1825 para o Rio Grande do Sul.
A
partir dessas ponderações é possível perceber que Minas Gerais
teria sido a Capitania/Província com o maior envolvimento no
despacho de escravos novos frente às demais regiões entre os anos
de 1809 e 1830, onde ao final do período os referidos mancípios
perpassavam os 97,8% do tráfico em direção ao território
mineiro. Por conseguinte, viriam as Províncias de São Paulo com
94,7 %, Rio de Janeiro, 90,9 % e por último o Rio Grande do Sul
cujos cativos novos chegariam 72,2% do tráfico destinado ao seu
território.
No gráfico acima é possível perceber também que os cativos novos
variavam entre 56,8 e 99,2 dos despachos de escravos para Minas
Gerais. Um dos prováveis motivos para essa diferença significativa
pode estar na questão da menor oferta de escravos recém-chegados
da África entre os anos de 1819 e 1821. Para ser mais específico,
neste último ano as Capitanias do Rio de Janeiro e Minas Gerais
tiveram uma queda conjunta na proporção de escravos novos chegando
respectivamente a 65,6 e 56,8 dos despachos para os dois territórios,
e São Paulo se manteria constante desde 1820 com 80 % de escravos
novos nas remessas, sendo que, acabava de se recuperar de uma forte
queda presenciada em 1819, perpassando os 41,8 %. Analisando os
dados estimativos de escravos africanos desembarcados no porto do
Rio de Janeiro percebemos que entre os anos de 1819 e 1821 há uma
queda de escravos recém-chegados da África comparados aos anos de
1818 e 1822, portanto, isto nos indicaria que este período foi
marcado por uma menor oferta de escravos novos no Valongo, e deste
modo, as capitanias teriam recorrido de forma mais freqüente ao
mercado interno neste triênio, o que poderá ser confirmado a
seguir (FLORENTINO, 1997: 51).

Antes,
porém, devemos destacar, por último, que o período de 1826/1830
ilustrado no gráfico um converge com o que já foi explanado
anteriormente neste artigo, ou seja, a alta representatividade das
fontes neste intervalo gera informações mais concretas em relação
aos cativos novos despachados da praça mercantil carioca,
demonstrando, dessa maneira, o forte envolvimento no comércio de
africanos novos das preeminentes Capitanias/Províncias em questão,
principalmente Minas Gerais,
confirmando, então, a idéia de Manolo Florentino sobre o
desembarque desenfreado de escravos novos no porto do Rio de Janeiro
durante o processo de extinção do tráfico Atlântico na segunda
metade da década de 1820.
Observando
o gráfico dois podemos confirmar algumas ponderações feitas no gráfico
anterior: 1) A altíssima proporção de escravos ladinos no tráfico
para o Rio Grande do Sul entre os anos de 1815 e 1821 – chegando
aos 100% nos anos de 1815,1819 e 1820 – o que nos faz compreender,
de certa forma, seu envolvimento quase inexistente com o mercado de
escravos novos e sua grande ligação com o comércio interno de
cativos, que por sinal, é o território, dos destacados aqui, que
mais se envolveu neste tipo de atividade ao longo do período de
1809 a 1830 e 2) O gráfico confirma também a participação mais
freqüente dos escravos ladinos nos despachos com destino as
Capitanias de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo no triênio
de 1819 a 1821, frente à diminuição no desembarque de escravos
novos na praça mercantil carioca.
Portanto,
gostaria de finalizar que os resultados provisórios demonstram a
forte ligação entre a economia mineira e o tráfico Atlântico de
escravos nos anos de 1809 a 1830, sendo a região do centro-sul com
maior envolvimento neste mercado. Por sua vez, tais proventos
mostram também que esta economia estava longe de estar em declínio,
contrapondo, por um lado, teorias clássicas de pensadores como Caio
Prado Júnior e por outro lado, ratificando teorias mais recentes,
especialmente formuladas por Roberto Borges Martins, um dos
primeiros a defender a não decadência econômica das Minas.
FLORENTINO,
Manolo. Em costas negras:
uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de
Janeiro: séculos XVIII e XIX. São Paulo: Companhia das Letras,
1997.
FRAGOSO,
João e FERREIRA, Roberto Guedes. Alegrias e Artimanhas de uma fonte
seriada, despacho de escravos e passaportes da Intendência de
Policia da Corte, 1819-1833. Seminário de História Quantitativa,
UFOP, 2000.
MARTINS,
Roberto Borges. Minas e o tráfico de escravos no século XIX,
outra vez. In: SZMRECSÁNYI, Tamás; e LAPA, José Roberto do
Amaral. História econômica da independência ao império. São
Paulo: ed. HUCITEC, 1996.
PRADO,
Caio Jr. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo:
Brasiliense, 2000. |
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